Notas iniciais
Vidas Universitárias são assim, complexas e ocupam demasiado tempo

Capitulo 16

Arthur acordou quase de madrugada após um sonho confuso que foi esquecido quase instantaneamente. Alfred estava enroscado às suas costas, com o nariz enfiado no seu cabelo e os braços quentes a rodearem o seu corpo de uma forma possessiva.

Ele sempre tivera tendências de polvo, mesmo quando eram crianças e passavam as noites juntos a jogar ou simplesmente a falar. De alguma forma Arthur acordava a ser abraçado pelo amigo, mesmo que tivesse adormecido no outro lado da cama.

Agora não era diferente, mas Alfred era muito maior e mais forte do que tinha sido quando pré-adolescente e, apesar de estar muito quentinho e confortável, Arthur tinha também uma enorme vontade de esvaziar a bexiga.

Foi preciso muito esforço para conseguir desvencelhar-se dos membros longos de Alfred, mas lá conseguiu levantar-se, praguejando quando o seu corpo nu saiu do calor da cama e correu para a casa de banho. Tomou um duche rápido e esvaziou a bexiga ao mesmo tempo. Tinha trazido a sua marca de champô favorita porque o de Alfred deixava o seu cabelo demasiado áspero. Não era a única coisa que invadira a casa de banho. No armário por de baixo do lavatório, ao lado das giletes e lâminas de Alfred, Arthur acompanhou-as com os seus próprios pertences de barbear. Depositara também uma escova de dentes extra no copinho dos Avengers que se encontrava numa pequena prateleira ao lado do espelho.

Refletiu sobre todas as coisas que deixava subtilmente na casa de Alfred e lembrou-se da chave que o amigo lhe havia entregue na noite interior. Ele não sabia o que pensar sobre isso. Recusava-se a considerar algo mais intenso do que um simples gesto amigável para tornar o arranjo de ambos mais fácil.

Divagar a sua mente para coisas mais profundas era perigoso.

Quando terminou o duche e abriu a cortina, praguejou de forma tão ruim que faria a sua mãe escandalizada ao lembrar-se que não tinha roupa lavada consigo e agarrou a toalha que se encontrava pendurada no toalheiro. Limpou-se à pressa e saiu da casa de banho, enrolado na toalha e foi de bico dos pés até ao quarto de Alfred. Começou a mexer no armário e busca de algo aceitável para vestir, quando ouviu um grunhido atrás de si.

Olhou por cima do ombro e viu Alfred levantar a cabeça da almofada para o fitar com os olhos semicerrados. O cabelo dele estava espetado em todas as direções e a expressão ensonada estampada no seu rosto não era particularmente atraente.

Arthur não conteve o sorriso.

_ Está um belo dia, não está?

Alfred olhou para a janela e constatou com desgosto que o céu ainda não se tinha livrado totalmente da escuridão da noite. Depois virou-se para o relógio e, com um som primitivo, enrolou-se todo num casulo dentro dos cobertores até só um bocadinho de tufo dourado ficar visível.

Arthur suspirou e começou a vasculhar o armário de Alfred. Encontrou uma t-shirt sem problemas, mas não teve sucesso com a roupa interior.

_ Onde é que metes os teus boxers? — Inquiriu num resmungo.

_ Na gaveta da esquerda.

E lá estavam eles, todos embrulhadinhos em fila, confinados dentro da gaveta. Arthur escolheu uns azuis enfiou-os de imediato. Ia começar vestir a t-shirt quando braços rodearam a sua cintura e ele viu-se ser puxado para a cama. O som que lançou não foi digno de ser mencionado num futuro próximo. De repente estava rodeado por cobertores e um corpo quente estava premido contra o dele.

_ Alfred! — Bufou, irritado, e tentou libertou-se.

_ É demasiado cedo para já estares de pé.

_ Eu tenho que trabalhar, ao contrario de ti, seu inútil.

_ Tu não entras antes das nove. — Alfred enfiou o nariz na junção entre o seu ombro e pescoço e Arthur estremeceu. — Cheiras bem.

_ Isso geralmente acontece ás pessoas que se lavam. — Resmungou o inglês. Desistiu de tentar conquistar a sua liberdade e rendeu-se á prisão nos braços do amigo. Vingou-se ao premir os seus pés frios às pernas nuas de Alfred.

_ Hei! — Queixou-se o americano, e os braços que rodeavam Arthur apertaram-no com mais força.

_ Não sejas bebé e deixa-me sair!

_ Não.

Arthur grunhiu, exasperado, e lançou um olhar irritado em direção ao armário, já que não se conseguia virar para o dirigir a Alfred. Continuou amuado e rabugento em silencio até sentir os lábios de Alfred acariciarem o seu ombro com delicadeza. Tentou continuar carrancudo perante tais gestos de ternura, mas era difícil impedir o calor de inundar o seu peito.

Esperou que Alfred aprofundasse os toques, que os tornasse mais eróticos, mais sensuais, mas o americano limitou-se a depositar beijos castos na sua pele e a afagar a sua barriga com leveza e, por alguma razão estúpida, isso pareceu-lhe mais intimo do que qualquer fornicação alguma vez cometida.

Porque acartar com a ternura de Alfred era demasiado complexo para si de momento, Arthur, com o coração a bater fortemente graças a sentimentos confusos, conseguiu desenvencilhar-se dos braços do amigo e, depois de depositar um beijo sonoro no queixo do amigo, desceu pelo corpo do amigo com o intuito de abocanhar o seu membro.

_ Oi! — Fez Alfred, inclinando as ancas para fora do seu alcance — Avisa antes de fazeres isso!

_ Porque é que não podes ser um homem normal e agradecer aos céus aquando alguém quer meter a boca no teu pénis?

Pelo som que Alfred lançou, Arthur percebeu que ele estava embaraçado. Com um sorriso mesquinho que não foi visto graças à escuridão e aos cobertores que o cobriam, Arthur rodeou a sua mão sobre o membro flácido de Alfred, que começou a mostrar interesse sob as suas atenções.

_ Não é que eu não goste. — Murmurou Alfred algures lá em cima — Mas apanhas-me de surpresa e eu não sei o que fazer.

_ Não faças nada. — Respondeu Arthur assim que sentiu o falo erguer-se sob os seus dedos — Podes simplesmente ficar aí deitado e aproveitar.

E depois ficou demasiado ocupado para dizer mais alguma coisa.

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Alfred estava de castigo, segundo a senhora dona Helen Kirkland, e sentara-se a um canto do bar, amuado com uma cerveja na mão, enquanto observava as pessoas a conviverem alegremente no restaurante.

Tinha sido expulso cruelmente da cozinha, que lhe pertencia, quando se infiltrara para tentar ajudar. Levara com o olhar ameaçador da matriarca da família Kirkland e viu-se ser empurrado por mãos femininas e firmes.

Elizaveta também recusou o seu auxilio.

E agora estava ali, sentado num banco, meio deprimido enquanto toda a gente parecia estar a passar um bom bocado. O seu irmão, cunhada e sobrinho estavam de momento rodeados pela família de Katyusha e, como Alfred não queria lidar com os olhares penetrantes e sorrisos perturbadores que os pais e irmãos da sua cunhada lançavam-lhe sempre que ele se aproximava.

Elizaveta estava demasiado ocupada a servir bebidas e a limpar mesas para lhe dar atenção e Arthur tinha desaparecido por entre a multidão à meia-hora e ainda não voltara. Por isso, aparte de umas quantas palmadas afetivas no seu ombro providas dos cidadãos mais velhos, Alfred foi deixado em paz e na sua solidão.

Traçou linhas contra o vidro condessado da caneca de cerveja e suspirou. Pela primeira vez em meses podia conviver numa festa em vez de estar fechado na cozinha a trabalhar que nem um cão e não sabia o que fazer. Quando era mais novo, fazia piadas com os irmãos Kirkland e perdia competições de consumo de álcool contra Ivan Braginsky. Mas agora não estava com disposições para piadas e também não lhe apetecia beber até cair, pois isso geralmente envolvia vómitos e acordar no dia seguinte ao lado de uma sanita com um pénis robusto desenhado na sua cara.

A vida ainda lhe parecia confusa. A presença de Dorofey fascinava-o e enchia-o de amor e carinho, mas também lhe trazia uma incerteza e insegurança quanto ao seu próprio futuro. Antes de Arthur, Alfred sempre imaginara que nos seus trinta e qualquer coisa iria encontrar uma bela moça e ambos casariam e teriam um miúdo ou dois. Agora, não tinha tanta certeza.

Era claro que nada naquela relação indicava que ambos ficariam juntos romanticamente. O mais certo era Alfred acabar com o coração partido e obrigar-se a por a faceta de melhor amigo enquanto Arthur arranjava um homem com quem queria partilhar a sua vida. Mas, se Alfred jogasse corretamente as suas cartas, até poderia acabar bem.

Ele nunca fora particularmente bom a cortejar pessoas, principalmente pessoas essas que nem sequer sabiam que estavam a ser cortejadas. Entre todas as relações com as suas antigas namoradas, estas sempre lhe indicaram que estavam interessadas em algo mais que sexo, e assim era mais fácil. Arthur, por sua vez, não mostrava grandes indícios de que queria que a relação de ambos fosse mais do que amigos com benefícios.

_ Serias menos insuportável se não estivesses aqui todo murcho como se a tua avó não tivesse acabado morrer. — Disse Elizaveta, que aparecera do meio da multidão barulhenta. Posou um tabuleiro repleto de copos vazios em cima do balcão — Porque é que não estás a socializar, como uma pessoa normal?

_ Não tenho vontade.

_ Tu!? — Ela colocou uma mão na cintura e ergueu a sobrancelha — Alfred F. Jones? O homem mais tagarela que eu conheço não quer ir socializar? Estás doente?

_ Não, não estou doente. — Resmungou Alfred — Apenas não me apetece.

_ Até o Arthur está mais social que tu. Bem, foi um bocado culpa minha. — E de repente Elizaveta mostrou-se misteriosamente tímida — Eu trouxe o Kiku comigo, para que ele conhecesse o pessoal, e ele trouxe o Yao.

Ao ouvir o nome estrangeiro, Alfred ergueu a cabeça e passou os olhos pela multidão numa busca desesperada pelo seu melhor amigo. Encontrou-o praticamente no outro lado do restaurante, todo rígido encostado à parede, envergando uma vaga expressão desconfortável por ter o asiático de lustrosos cabelos negros demasiado dentro do seu espaço pessoal.

Alfred precisou de meter o regalo da garrava na boca para se distrair do ciúme ardente que corroía as suas entranhas. Cruzou o olhar com Elizaveta e encolheu-se ao ver a sua expressão conhecedora.

_ É bom que não vires uma bola de violência outra vez! — Exclamou ela sem grande paciência — Não quero outra situação dessas. — Semicerrou os olhos na sua direção — Não estragues isto para ele.

_ Desculpa?

_ O Yao é um homem bonito, bem sucedido e cavalheiresco. Parece-me um bom partido para o Arthur e eu não quero que tu estragues isto para ele. O Arthur merece um homem assim.

_ Se o Arthur o quisesse assim tanto, já o tinha na cama há muito tempo. — Cortou Alfred, projetando menos raiva na voz do que sentia — Pelos olhinhos encantados do teu querido Yao, não iria demorar muito.

_ Se não andasses tu na cama dele, então Yao não teria problemas. — Disse Elizaveta num tom altivo e Alfred sentiu-se como se ela estivesse a desaprovar de alguma coisa.

_ Não estou a ver como é que uma coisa impede a outra.

_ Não? Como é que queres que o Arthur dê a devida atenção ao Yao, se tu não o largas?

_ Pela tua conversa, assumo que o Arthur já te contou o que se passa entre nós. Agora, eu não sei o que é que ele te disse em concreto, mas posso já de informar de que foi ele que se propôs a mim, foi ele que me abordou sobre o assunto. E fê-lo antes de conhecer o senhor Cabelos Lustrosos. — Retorquiu Alfred com superioridade. Ele adorava Elizaveta, mas não gostava nada do tom com que ela o dirigia de momento, como se o que ele e Arthur partilhassem não passasse de momentos de fornicação reles entre desconhecidos bêbedos por detrás de um bar imundo. — Por isso, acho que sou prioritário ao que quer que estejas a imaginar entre aqueles os dois.

Elizaveta bufou e passou para o outro lado do balcão. Agarrou em garrafas de cerveja por abrir, depositou-as com alguma violência em cima do tabuleiro, sempre a lançar olharzinhos frios a Alfred, que retribuiu sem fraquejar.

_Está bem, faz o que quiseres. — Disse ela finalmente — Eu não sei o que é que vocês os dois esperam que aconteça vindo daí. — Juntou duas latas de refrigerante às garrafas de cerveja — Pode correr tudo muito bem, ou pode ser uma tragédia, e depois eu é que tenho que resolver os vossos problemas.

_ Se correr bem, dou-te um beijo.

_ Isso seria contra produtivo, não achas? — Disse ela com um sorriso brincalhão, agora visivelmente mais relaxada. Pegou no tabuleiro e preparou-se para se infiltrar na multidão novamente — Eu sei que tu o conheces melhor do que eu, mas eu tenho a certeza que o Arthur partilha certas coisas comigo que nunca partilhou contigo. — Ela inclinou-se um pouco, tendo o cuidado de equilibrar o tabuleiro para este não se virar, e sussurrou secretamente — Ele nunca admitiu a mais ninguém, mas uma vez, quando eu o meti bêbedo, o Arthur disse-me que uma das suas maiores fantasias era fazer amor à chuva.

Alfred franziu as sobrancelhas.

_ Mas ainda apanhamos uma pneumonia!

Ela revirou os olhos.

_ Era só uma sugestão. E não te remoas com ciúmes. Eu estava só a meter-me contigo. Sei muito bem que o Arthur não está minimamente interessado no Yao, e também sei que não tem nada haver contigo. — Deu-lhe uma palmada afetiva no rosto com a mão — Agora relaxa, e vê se socializas. Vai correr tudo bem, vais ver.

E Elizaveta desapareceu entre o mar de pessoas, deixando-o sozinho com a sua cerveja.

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Já passava da meia-noite e, apesar de estar menos densa, a multidão de amigos e família ainda estava forte. Alfred teve pena que os seus pais não estivessem presentes. Tinham ambos, um ano antes, partido para a aventura na Austrália após o casamento de Matthew. Nenhum deles esperava que Katyusha engravidasse tão cedo, e ainda não tinham conseguido arranjar tempo para parar a viajem e voltar à América.

Alfred continuava no mesmo sitio, sentado no seu banco solitário, exceto que agora tinha três garrafas de cerveja vazias à sua frente e uma coca cola na mão para ver se não ficava muito embriagado.

Ainda tinha que conduzir para casa.

Francis aparecera, durante um bocado, e fizera-lhe companhia até ter ficado de olho numa jovem esbelta de pele escura que lhe estava a fazer olhinhos no outro lado da sala. Depois de muito flirt telepático, lá Alfred se fartou e mandou-o foder-se e Francis foi todo contente ter com a sua conquista da noite.

Os olhares que Alfred lançara em direção de Arthur tinham sido apenas para confirmar que este estava bem. Pelo menos, era isso que Alfred gostava de dizer a si mesmo. O arquiteto inglês ainda estava a falar com Yao, mas agora mostrava-se muito mais relaxado visto que Kiku juntara-se à conversa e o homem chinês já não se encontrava perturbadoramente próximo por razões obvias.

Tal facto também acalmou Alfred.

Ele nem sabia porque é que se sentia tão ciumento. Talvez fosse por causa da incerteza daquela relação, a falta de nome; Eles não eram namorados, ou parceiros. Arthur, tecnicamente, não lhe era nada a não ser um bom amigo e podia, em teoria, enrolar-se com outro tipo qualquer se bem lhe intendesse, pois não tinha as correntes de uma relação amorosa para o prender à monogamia.

Mas esse era o problema central, não era? O de não estarem numa relação. Aquilo tudo, supostamente, não passava de uns momentos de prazer, sem qualquer aspeto romântico envolvido.

Alguém posou com um estrondo uma caneca enorme meio cheia ao seu lado e Alfred, calculando que fosse Francis, virou-se para resmungar, apenas para encarar o olhar penetrante e algo perturbador de Ivan Braginsky.

_ Engraçado encontrar-te por aqui. — Disse o russo docemente. Era uma doçura que lançava arrepios pela espinha, e não dos agradáveis — Seria de calcular que o bom e velho Alfred f. Jones estaria na multidão a lançar piadas e a rir-se aos altos berros.

_ Hoje não estou com paciência.

_ Hmm. Deveria ficar ofendido? Afinal, isto é uma festa a celebrar o nascimento do meu sobrinho. A tua falta de entusiasmo mostra algum desrespeito.

_ O sobrinho também é meu, seu gorila comunista. — Pela visão periférica viu Ivan revirar os olhos perante o insulto — E eu estou feliz pelo pequenote. Não é por causa dele que eu estou... bem... que eu estou neste estado.

_ Hmm-hmm. — Ivan ocupou-se do banco ao seu lado e Alfred não teve energia para se sentir ameaçado pela sua presença — Problemas amorosos, não é?

Alfred olhou-o com os olhos arregalados.

_ Como é que...?! — Rapidamente cortou as suas próprias palavras e emendou-se — Não, não! Quais problemas amorosos!? Não tem havido senhoras na minha vida ultimamente! — Fez ele com um sorriso forçado.

Ivan lançou-lhe um olhar obvio. Ele não tinha mudado muito desde a ultima vez que o vira. Continuava alto, grande e intimidante, sempre com um cascol enrolado ao pescoço e um sorriso enigmático estampado nos lábios.

_ Eu nunca disse que estava a falar de senhoras. — O russo mandou um gole da sua cerveja e dirigiu o seu olhar para onde Arthur, Yao e Kiku se encontravam. — Nunca foste muito subtil, por muito que tentes. Tens andado a noite inteira a olhar para o Arthur Kirkland como se o sol lhe saísse pelo rabo e ao mesmo tempo parece que queres matar aquele cavalheiro que está constantemente a tentar entrelaçar os dedos com o teu querido "amigo".

Alfred semicerrou os olhos na sua direção.

_ Vês demasiado.

Ivan sorriu por detrás da sua caneca e ambos observaram Yao colocar a mão no braço de Arthur para o chamar a atenção durante a conversa.

_ Então? Há quanto tempo é que andas a cruzar a espada com o Kirkland? — Perguntou Ivan num tom descontraído

_ Não é da tua conta.

_ Vá lá, pelos velhos tempos! — Ivan deu-lhe uma palmada amigável no ombro e Alfred quase caiu da cedeira.

_ Mete-te na tua vida.

_ Partes-me o coração. — Soltou Ivan num suspiro aborrecido e acabou com o resto da sua cerveja. Levou a caneca ao balcão num gesto definitivo e lançou um olhar exigente a Alfred.

Este, com alguma relutância, engoliu tudo o que estava na sua garrafa de uma vez só, ia morrendo durante o processo e tentou continuar pávido e sereno enquanto tentava não sufocar, não fosse a sua virilidade ficar machucada. Bateu com a garrafa vazia ao lado da caneca de Ivan, que o analisava atentamente, divertido.

­_ Começamos a foder por volta de Outubro. — Disse Alfred solenemente, constando-se ao balcão.

_ Quem começou?

_ Ele. Virou-se do nada e disse que devíamos ter sexo. Não aceitei logo, como é evidente. Mas, de alguma forma, uma coisa levou há outra e quando dou por mim estou a acordar todos os dias com ele nos meus braços e penso; Yeah, é isto que eu quero para o resto da minha vida.

_ Que romântico.

_ Cala o bico. — Cortou Alfred e suspirou — Infelizmente, ele acha que é só sexo.

_ Então diz-lhe que é mais que isso.

_ Eu não posso simplesmente dizer-lhe! É o Arthur! Se eu lhe digo que quero mais, ele pisga-se. — Bufou, exaltado — Por vezes acho que ele tem a capacidade emocional de um chávena de chá.

_ Hmmm. E o que é que estás a pensar fazer?

_ Vou dar-lhe pistas. Vou tentar cortejá-lo sutilmente. Pode ser que consiga entrar naquela cabeça dura e fazer com que ele me veja como algo mais que amigo.

_ Boa sorte nisso. Especialmente com a tua falta de subtileza. — Ivan sorriu com o olhar assassino que Alfred lhe lançou — Mas tenho a certeza que vai correr tudo bem. Vocês os dois sempre foram demasiado colados um ao outro para serem "só amigos".

Por alguma razão as suas palavras puseram Alfred mais descansado e ele não conseguiu evitar o curvar de lábios.

_ Sabes, Ivan, tu até consegues ser um gajo fixe.

_ É bom saber.

_ Sabes como é que podias ficar melhor?

_ Se remover a concorrência por ti?

Alfred teve a decência de ostentar uma expressão culpada.

_ Dou-te cinquenta dólares. — Ofereceu de imediato.

_ Podes guardar o teu dinheiro. — Retorquiu Ivan com um gesto negativo — Somos família, afinal de contas.

_ Não me lembres. Fazes-me esse favor ou não?

O russo olhou para Yao e franziu o nariz, contemplativo.

_ Ele não faz bem o meu género. Nem parece ter conseguir satisfazer as minhas necessidades. Mas eu vou fazer o meu melhor. Pelos velhos tempos. — Acrescentou quando viu que Alfred estava a levar uma mão ao bolso do casaco para retirar a sua carteira.

Alfred observou com um misto de espanto e cautela Ivan marchar pelo restaurante. O mar de pessoas afastava-se dele com um respeito de se louvar, olhos receosos ao ver aquela montanha de homem avançar de forma tão decisiva.

No seu canto, Alfred viu o momento exato em que Arthur reparou na aproximação de Ivan. As suas costas endireitaram-se muito e o seu rosto tomou uma expressão desconfiada. Kiku, ao notar no comportamento do inglês, também se virara para descobrir a causa de tal transtorno.

Yao, por sua vez, só reparara em Ivan quando este estava praticamente em cima dele.

Alfred nunca soube o que Ivan lhes dissera. E, mais tarde, por muito que pedisse a Arthur, este recusava-se sempre a divulgar o que quer que seja.

Tudo o que ele viu foi Yao ficar muito vermelho e escandalizado, deve ter soltado um som indignado qualquer e deu uma valente chapada na cara do Russo. Kiku levou a mão à boca com o choque pela situação e Arthur a esgueirou-se pelos fundos a tremer de riso.

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Eram quatro da manhã quando Elizaveta fechou as portas do restaurante. Um último grupo de jovens cambaleava lá fora, a cantarolar muito alto enquanto esperavam por uma boleia previamente pedida. Felizmente não estava a chover, ou eles passariam um mau bocado.

Alfred começou a limpar as mesas com um pano humido, e desta vez Elizaveta não o impediu de auxiliar.

_ Foi uma bela festa. – Comentou ela num tom exausto, mas satisfeito – E ainda ficou mais animada quando o teu irmão e a Kat se foram embora com o bebé.

_ Quem é que se quer embebedar até cair com uma criança presente?

_ Hmm, verdade. – Elizaveta pegou num enorme saco de plástico preto e começou a deitar os guardanapos sujos lá para dentro – Mas não estava há espera que isto durasse até às quatro da manhã.

Ouviram movimentos vindos da cozinha e ergueram o olhar para ver Arthur entrar com um balde e uma esfregona.

_ Olá, Casanova. – Cumprimentou Elizaveta com um sorriso mesquinho. Arthur franziu o sobrolho com desdém – Como foi a tua noite?

_ Aborrecida e desconfortável. – Disse ele ao começa a lavar o chão – E a tua?

_ Atarefada. Mas tive gorjetas generosas. – Elizaveta tirou uns copos do caminho para que Alfred pudesse passar um pano húmido pela superfície da mesa – Então conta lá as tuas aventuras de hoje!

_ Quais aventuras? – Perguntou Arthur confuso – Fiquei horas a ouvir o quão maravilhosa a empresa do Yao é e a tentar ignorar todos os inuendos que ele deves em quando fazia. – Arthur começou a lavar o chão com mais vigor — Será que eu tenho que lhe dizer na cara que não estou interessado para que ele receba a mensagem? Estava a ver que ele não me largava, mas depois o Ivan Braginsky apareceu e destabilizou aquilo tudo e eu consegui esconder-me na dispensa durante algum tempo. Quando voltei, o Yao já se tinha ido embora e o Ivan estava a conversar com o Kiku.

_ O Ivan Bragisky estragou a tua conversa! – Fez Elizaveta ao mesmo tempo que Alfred dizia: “Escondeste-te na minha dispensa? Isso é pouco higiénico!”.

_Ele salvou-me, isso é que foi. – Resmungou Arthur – Já estava a entrar em desespero. Eu nem sei o que é que ele queria, mas de repente apareceu feito montanha angelical e foi a minha salvação.

Alfred riu-se e Elizaveta soltou um som irritado e lançou-lhe um olhar acusador, calando-o de imediato. Merda, ela sabia.

_ Arthur, querido, quando tiveres tempo, vai deitar as cascas dos ovos fora. – Pediu Helen Kirkland, que saiu da cozinha com todo o seu esplendor maternal.

_ Mãe, porque é que não puseste as cascas com o resto do lixo? Agora tenho que ir à rua mais do que uma vez!

_ Não sejas dramático. Alfred! – Ela mostrou-se admirada por o ver – Ainda estás aqui? Lizzie, tínhamos um acordo de não o deixar trabalhar esta noite!

_ Tecnicamente é praticamente de manhã. – Murmurou Arthur por detrás do cabo da esfregona e começou a assobiar distraidamente quando a sua mãe lhe lançou um olhar de aviso.

_ Eu só estou à espera do Arthur. – Disse Alfred enquanto pegava numa garrafa vazia que tinha sido atirada ao chão. Helen colocou as mãos na cintura e mostrou uma expressão desaprovadora.

_ Para quê? São quase cinco da manhã!

_ A noite ainda é uma criança. – Respondeu Arthur alegremente e fez um pirueta divertida, como se a esfregona que tinha nas mãos fosse o seu par de dança e Alfred indagou-se se ele já não teria bebido mais do que devia – Mãe, para de te preocupar tanto. Já somos adultos, e amanhã estamos os dois de folga, não temos a “hora de deitar”.

_ Eu não me deixo de preocupar, seu pequeno idiota, faz parte do meu trabalho! E o que raio vão vocês os dois fazer ás cinco da manhã num Inverno tão frio como este?

_ Mãe, não sejas abelhuda.

Os olhos expressivos de Helen faiscaram e tanto Alfred como Elizaveta afastaram-se instintivamente quando ela atravessou a sala e torceu a orelha do filho.

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_ Lembras-te daquele jantar de casal que querias fazer com o Felicano e o Ludwig? — Perguntou Alfred enquanto enfiava a camisa de pijama pela cabeça.

Arthur já estava embrulhado na cama, apenas com a cabeça á vista e já mostrava dificuldade em manter os olhos abertos.

_ Sim... porquê?

_ Bem... estava aqui a pensar que... se quisesses mesmo, podíamos ir. — Alfred contemplou se deveria vestir umas calças ou não. Como, apesar de estar uma noite gelada, Arthur ia partilhar a cama com ele e, assim, fornecer calor extra, ele decidiu que ia dormir só com os boxers.

Enfiou-se debaixo dos cobertores e aproximou-se de Arthur, que se enroscou contra o seu peito quase de imediato. Ele meteu a cabeça debaixo do seu queixo e suspirou, satisfeito.

_ Parece-me bem. — Retorquiu Arthur contra a pele do pescoço de Alfred — Eu falo com eles mais tarde. Hmmm... que horas são?

_ São quase sete da manhã.

_ Eu não quero saber se tens alguma coisa planeada durante o dia, eu não vou sair desta cama antes das quatro.

Alfred sorriu e depositou um beijo nos cabelos dele e apertou-o mais contra si, tanto pelo calor, como para se assegurar que Arthur era real, e não uma fantasia esperançosa que a sua mente lhe estava a fornecer face ao desespero.

Arthur murmurou alguma coisa incompreensível e mergulhou na inconsciência. Alfred notou, ainda que as persianas estivessem fechadas, pequeníssimos raios do amanhecer penetrarem pelas finas fendas das placas de plástico.

Suspirou, exausto. Enroscou o rosto à almofada, afagou o cabelo de Arthur e deixou-se levar pela exaustão.

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Notas finais
Eu peço imensa desculpa pelo atraso, mas fiquem a saber que vos amo e a todos os reviews, acompanhamentos e favoritos. Kisses, Evil