Sure, Why Not?
15 Capitulo 15
Notas iniciais
_ Oh, ele é adorável. — Fez Arthur enquanto se debruçava sobre a forminha minúscula de Dorofey, que entreabriu os seus olhinhos para o mirar com indiferença — Quem é que é um bom menino? Vais conquistar os corações de todas as raparigas, não é? Até aposto que vais encantar alguns rapazes. Já me encantaste, o meu coração é teu.
Katyusha sorriu carinhosamente enquanto Alfred e Matthew sentiam-se desconfortáveis pelo pouco usual comportamento doce e amigável do inglês. Arthur encontrava-se debruçado pelo berço impessoal que se situava ao lado da cama de Katyusha. Os dedos longos do arquiteto dançavam à frente do bebé como se este tivesse neurónios desenvolvidos o suficiente para realmente perceber o que se passava à sua volta.
_ Estás bem? — Perguntou Alfred à sua cunhada para se distrair dos sons ridículos que Arthur fazia em direção do recém nascido — Ainda te doí muita coisa?
_ Ainda estou um pouco dorida mas pelo menos, como não produzi leite, posso tomar comprimidos para as dores. — Retorquiu Katyusha com um sorriso cansado. Matthew entrelaçou os dedos com os dela e ambos trocaram um olhar intenso e intimo, repleto de amor e ternura, o que fez, não pela primeira vez, Alfred sentir-se um intruso.
Ergueu a cabeça para ver se Arthur sentia-se da mesma forma, mas este estava demasiado ocupado a fazer gestos ridículos para o bebé desinteressado. Suspirou e ajeitou o ramo de flores que trouxera à sua cunhada como uma espécie de recompensa pelo admirável feito de carregar um bebé no ventre durante nove meses e depois passar umas horas de agonia enquanto este saía-lhe pela vagina.
Dorofey começou a fazer uns pequenos sons descontentados e Arthur, com um cuidado e experiencia que deixou todos os outros de boca aberta, levou-o para ao pé da sua mãe. Katyusha aceitou o seu filho com um sorriso orgulhoso nos lábios e, sem qualquer pudor quanto aos outros homens presentes no quarto, baixou a larga camisa de hospital, colocou um seio cá para fora e deu de mamar à sua criança.
Desconfortável, Alfred gesticulou a Arthur discretamente para que ambos saíssem por um pouco. O inglês anuiu, acariciou a nunca frágil do bebé mais uma vez e seguiu Alfred pela porta, mas não antes de entregar uma valente palmada fraternal ao ombro de Matthew.
Mal Arthur fechou a porta atrás de si, lançou um guincho excitado que assustou Alfred de morte. Ficaram a olhar um para o outro enquanto o rubor de Arthur desaparecia e o coração de Alfred voltava a bater a um ritmo normal.
_ Se dizes a alguém que fiz aquilo, eu mato-te. – Ameaçou Arthur, espetando um dedo no peito do amigo.
Alfred sorriu com mesquinhez.
_ Não queres que eu divulgue ao mundo que Arthur Kirkland guincha como uma menina quando vê bebés? Oh, eu acho que os teus irmãos iriam adorar este pedaço de informação.
Tal comentário mereceu-lhe um murro no estômago.
De alguma forma, Alfred conseguiu guiar Arthur até à casa de banho masculina mais próxima e enfiou-os aos dois no cubículo mais afastado da porta. Esborrachou Arthur contra a parede e, como um homem esfomeado, cobriu a boca do outro com a sua. Ouviu o seu amigo lançar um grunhido esquisito e dedos fininhos embrenharam-se no seu cabelo.
_ Que raio é que se passa contigo? – Perguntou Arthur num suspiro confuso enquanto Alfred depositava pequenos beijos no canto da sua boca e as suas mãos aprofundavam-se na exploração do corpo do outro.
_ Apenas estou feliz por te ver.
_ Na maternidade? Digo-te já que isso é perturbador.
_ Apenas… apenas quero algo familiar, ok?
A vida estava completamente diferente. Matthew tinha um filho, uma criança sólida que precisaria de atenção, amor e cuidado. A rotina de ambos no trabalho iria mudar e Alfred já enfrentara mudanças suficientes nos últimos meses por um ano ou dois. O facto de se ter apaixonado pelo seu melhor amigo também não ajudava o seu pânico momentâneo.
Ele só precisava de algo familiar, algo que não fosse diferente e o corpo de Arthur, que apenas viera a conhecer semanas antes, parecia-lhe tão constante como a presença do inglês. Talvez fosse um bocado injusto da sua parte utilizar Arthur de forma a esquecer os seus receios pelo futuro, mas como metade dos seus problemas de momento envolviam o inglês, Alfred achava que estava bem justificado.
Com alguma ginástica, Arthur acabou com as pernas em volta da cintura de Alfred e com as mãos hábeis do cozinheiro estendidas sobre o seu traseiro. Com as bocas coladas e as ancas a moverem-se umas contra as outras, ambos esqueceram-se momentaneamente de onde estavam e o porquê. Só quando Alfred baixou a cabeça para depositar beijos e mordidelas no pescoço de Arthur, é que este se lembrou que se encontravam numa casa de banho publico, enfiados num cubículo apertado e com um cheiro suspeito.
_ H-hei! – Fez ele entre gemidos, pois Alfred tinha encontrado um ponto sensível e estava-se a aproveitar disso – Alfred! Para! – Como o outro não o fez, Arthur foi obrigado a puxar-lhe o cabelo com relativa gentileza. Forçou Alfred a enfrentá-lo e lançou-lhe um olhar ameaçador – Se eu digo para parares, tu paras.
_ Está bem, está bem, desculpa. – Murmurou Alfred. Encararam-se durante algum tempo, o suficiente para Arthur sentir desconfortável por ter que o fitar nos olhos, até que Alfred sorriu e, com uma caricia nas bochechas coradas do amigo, disse – És tão bonito.
_ Estás bêbedo? – Soltou ele estupidamente, baixando as pernas e erguendo-se.
Alfred revirou os olhos, depositou um último beijo nos lábios de Arthur e, com alguma relutância, afastou-se. Sentia-se melancólico e tal facto frustrava-o, pois havia um novo membro na família e ele deveria estar extasiado com tal facto. Infelizmente, toda a alegria que supostamente deveria estar a sentir tinha decidido não aparecer para a festa e tudo o que restava dentro de si era frustração e um conjunto de sentimentos complexos e confusos.
Arthur lançou-lhe um olhar preocupado e levou uma das suas mãos á cara, acariciando-lhe a face com gentileza.
_ Estás bem? Pareces-me um bocado abatido.
_ Eu estou bem.
_ Alfred, o teu sobrinho nasceu e em vez de estares a olhar para ele que nem um abutre, começaste a molestar-me numa casa de banho publica. — Disse Arthur secamente — Não estás nada bem. Porque é que tens um ar tão triste? — Um olhar desconfiado substituiu a preocupação — Há alguma coisa que não me estás a contar?
_ Não. — Era mentira. Havia tanta coisa que Alfred não lhe contara, ou contaria — Acho que estou um bocado cansado.
_ Aw, pobre bebé. — Fez Arthur num tom falsamente compreensivo — Queres que te leve para a caminha e te prepare um chocolate quente?
_ Arthur, eu nem morto consumiria o que quer que seja que preparasses.
_... Bitch.
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Passaram mais algum tempo com Matthew, Katyusha e Dorofey até Arthur ter que se ir embora por causa da casa de Ludwig e Feliciano. Alfred, que o trouxera à maternidade, deu-lhe boleia até à oficina dos Kirkland. Fizeram a viagem em silêncio, salve às batidas e autotune da maratona de Kesha que se fazia na estação de rádio.
A mão de Arthur foi parar perto do joelho de Alfred num gesto de conforto, mas nenhum deles fez qualquer tipo de comentário.
Estava a chover, por isso a viagem demorou mais tempo do que o habitual. O céu cinzento e a água constante nada faziam para melhorar o humor de Alfred. Ao chegarem à frente do enorme portão verde-escuro, o espírito do americano estava tão em baixo que só lhe apetecia bater repetidamente com a cabeça no volante.
Estacionou atrás da carrinha prática de Scott e suspirou pesadamente. Lançou um olhar a Arthur, que não mostrava qualquer interesse em se remover do carro.
A música de festa de Kesha tinha sido substituída por uma coisa romântica qualquer do Bruno Mars, e Alfred foi obrigado a desligar o rádio, pois letras lamechas eram algo que ele não precisava naquele momento de descobertas emocionais.
Arthur observava-o, sobrancelhas grossas franzidas com preocupação.
_ Não vais sair? – Perguntou Alfred.
_ Vou esperar que a chuva acalme um bocado, não me apetece ficar encharcado. – Retorquiu o arquitecto num tom calmo – Alfred, tens a certeza que estás bem?
_ Estou óptimo.
_ Hum-hum. – Arthur semicerrou os olhos – Diz-me a verdade.
Alfred lançou-lhe um olhar irritado. O que raio é que iria dizer-lhe? Oh, hei Arthur, acho que estou ligeiramente apaixonado por ti, não há problema pois não? Ná, não tens que fazer nada quanto a isso, vamos continuar a nossa vida enquanto este facto come-me por dentro e eu acho que estou a entrar numa mini-depressão.
Yeah. Isso iria resultar.
Por isso, em vez de respondeu, puxou Arthur para si e beijou-o. Não foi nenhum sacrifício, pois ele estava ali todo bonito e cheiroso e Alfred era um homem demasiado fraco para resistir a tal tentação. Arthur lançou um pequeno som indignado contra os lábios do amigo, mas retribuiu o beijo, ainda que um pouco hesitante.
_ Alfred… — Suspirou ele das poucas vezes em que os seus lábios não estavam ocupados.
_ Shhh. Vem cá.
Conseguiu, no espaço apertado do carro, trazer Arthur para o seu colo e tal feito era admirável. Com as bocas fundidas, roçaram-se um ao outro como um par de adolescentes excitados.
Aquilo Alfred sabia fazer. Com intimidade física ele conseguia lidar. Emoções e sentimentos eram algo que ele não queria encarar, não naquele momento. O que era estranho, porque antes de Arthur, ele nunca tivera problemas em atirar-se de cabeça para um relação, antes de Arthur, ele nunca se conteve de dizer que tinha uma paixoneta, antes de Arthur, ele nunca tivera medo dos seus próprios sentimentos.
Mas isso era tudo antes de Arthur.
Agora a situação era completamente diferente e o problema é que ele não sabia explicar porquê. Era porque Arthur era o seu melhor amigo? O companheiro que sempre o apoiou durante maior parte da sua vida? Era porque ambos eram homens e o seu subconsciente receava as reacções da sociedade?
Ele não sabia bem o que estava a sentir. Apaixonara-se mesmo por Arthur ou era tudo um reflexo perante as palavras de Matthew? A parte mais lógica do seu cérebro dizia-lhe que tudo não passava de um mal-entendido entre a sua atração sexual e o carinho fraternal que sentira todos aqueles anos pelo melhor amigo, mas outra, aquela que falava mais alto, gritava-lhe que aquilo, se não fosse amor, estava lá perto.
A chuva não dava sinais de querer abrandar e os vidros do seu carro embaciaram-se com a humidade. Com um grunhido, Arthur entrelaçou as mãos no cabelo louro de Alfred e puxou-o mais contra si, aprofundado o beijo com uma perícia de tirar o fôlego.
Talvez fosse errado da sua parte ter um monólogo interior enquanto tinha o Arthur Kirkland no seu colo, corado e adorável, a beijá-lo como se a sua vida dependesse disso, mas, por muito que tentasse, não conseguia desligar-se dos seus problemas e simplesmente aproveitar o momento. Arthur merecia toda a sua atenção e ele não estava a conseguir viver a tal expectativa.
Arthur separou os lábios de ambos com um som molhado e olhou-o com firmeza.
_ Nem penses em tentar distrair-me. O que é que se passa contigo?
_ Arthur, deixa estar.
_ Não.
_ Arthur!
_ Não! Alfred, o teu sobrinho nasceu há dois dias. O teu sobrinho! Filho do teu irmão. Devias estar felicíssimo! Eu estava nas nuvens quando a Emma nasceu, credo, acho que ainda estou! Mas no entanto… — Arthur acariciou-lhe o rosto com a palma da mão, um gesto pouco característico nele que começava a ficar mais frequente – No entanto andas aí deprimido como se o teu cachorro tivesse sido atropelado por uma debandada de hipopótamos.
Alfred recompensou-o pela consideração com um beijo e um leve apalpão na nádega esquerda e Arthur grunhiu contra a sua boca, com uma expressão de aviso no rosto.
_ Arthur, eu não quero falar sobre isso. – Disse Alfred e céus, nunca ouvira a sua voz sair tão cansada em toda a sua vida.
_ Mas se não falares comigo, com quem é que vais falar?
Oh, pobre Arthur, tão confuso, tão preocupado, quando ele era um dos alvos principais dos correntes problemas de Alfred. Deveria estar-se a sentir frustrado pela falta de cooperação do americano, a julgar pelo franzir de sobrancelhas e os lábios comprimidos numa linha fina.
_ Arthur, são coisas que eu tenho que resolver sozinho.
_ Mas eu quero ajudar.
_ Eu sei que sim, mas não há nada que possas fazer.
_ Foi… — Arthur hesitou e de repente pareceu-lhe muito… frágil, receoso – Foi algo que eu fiz? Ou disse?
_ Não! – Exclamou Alfred muito alto e muito depressa e Arthur inclinou-se para trás com o susto – Não. – Repetiu, mais calmo – Ah culpa não é tua. Não fizeste nada de mal. Eu só… eu apenas ando com umas crises existenciais, está bem? Não… não penses que foste tu. Tu és perfeito.
E era. Perfeitamente imperfeito. Dos pés à cabeça. Alfred nunca achara estranho o facto de praticamente venerar tudo o que tinha a ver com o inglês, mas agora na sua epifania sentimental constatava que tais emoções não eram vulgares numa amizade normal. Que Deus fosse louvado, ele estava mesmo apanhadinho, não estava?
_ Bem, eu não diria que sou perfeito. Talvez “magnifico” seria uma descrição mas apropriada. – Disse Arthur, adoptando novamente o seu tom de troça e Alfred não conteve o sorriso. – Está bem, então, se não queres contar, não contes. Sê assim.
_ Ah, não amues.
_ Eu não estou a amuar. Tens cá uma lata, andas todo o dia com umas trombas de cair ao chão e agora acusas-me de estar a amuar.
_ Ficas tão fofo quando começas a exaltar-te.
_E tu vais ficar adorável quando eu te partir os dentes.
_ Sempre tão amigável. – Alfred puxou-o para mais uma sessão de beijos, agora um pouco mais animado com a troca de palavras. Arthur aconchegou as ancas e mexeu as pernas para ficar mais confortável no colo do outro e os beijos tornaram-se mas profundos. Os vidros embaciaram-se de tal maneira que era difícil visionar o que se passava no lado de fora.
Alfred não sabia quanto tempo ficaram ali, a roçarem-se um ao outro com as bocas coladas. Pelo menos conseguira relaxar, deixando-se embalar pelo constante som da chuva, os movimentos suaves dos lábios de Arthur e as massagens que os dedos deste faziam ao passar pelo seu couro cabeludo.
Foram cruelmente interrompidos pelo telemóvel de Arthur, e este grunhiu contra Alfred e agarrou o objecto bruscamente, olhando-o como se este fosse a coisa mais abominável do universo.
_ O que é? – Resmungou ele após atender e Alfred não conteve o sorriso perante a sua resmunguice.
_ Arthur, o carro do Alfred já está parado à nossa porta há meia hora e tu ainda não estás aqui. – Fez a voz de Brody, abafada e um bocado metálica.
_ Estou à espera que pare de chover.
Ouviram vozes e sons secos provindos do telemóvel e de repente era Scott quem falava.
_ Oh, pobre princesa Arthur, não pode apanhar um bocadinho de chuva no seu rabinho delicado! Sê um homem, deixa o teu namorado e vem trabalhar.
_ Ele não é meu namorado. – Bufou Arthur secamente – E deixa-me lembrar-te que tu é que guinchaste quem nem um bebé quando o William te atirou para o lago, quando éramos crianças.
_ Era inverno na Escócia! Estava a nevar! Eu quase entrei em hipotermia!
_ Pobre de ti.
_ Ninguém me aprecia nesta família!
Brody e Scott pareceram batalhar pelo telemóvel mas uma vez.
_ Arthur, vem trabalhar. – Disse Brody no seu tom calmo e autoritário – Os nossos clientes já aqui estão. E dá os nossos parabéns ao Alfred pelo nascimento do seu sobrinho. Iremos visitar o Matthew um futuro próximo.
Arthur suspirou e desligou a chamada.
_ Desculpa, eu gostaria muito de continuar a curtir contigo como se fossemos putos de quinze anos, mas tenho coisas importantes para fazer.
_ Não há problema.
_ Vais à festa na quarta, não vais?
Alfred pestanejou, confuso.
_ Festa? Que festa?
Arthur fez algum esforço para sair do seu colo sem bater com a nuca no teto do carro e, com alguma ginástica, acabou são e salvo no lado do passageiro.
_ A Elizaveta vai dar uma festa em honra do Dorofey na quarta-feira.
_ Mas ela já deu uma festa na noite em que ele nasceu, tu apareceste bêbedo lá em casa.
Com um gesto de indiferença, Arthur agarrou nas suas malas e mochilas.
_ Isso foi só entre nós, a minha mãe, a Eireen, a Lily e o Felicano. – Informou ele – Uma festa de raparigas, assim dizendo, comigo e o Feliciano a fazerem de penetras. De vez em quando até é bom estar só acompanhado com mulheres, elas conseguem ter as histórias mais interessantes e fazem bebidas deliciosas. Acho que nunca bebi tanta margarita em toda a minha vida. Então a Elizaveta decidiu dar uma festa para a comunidade na quarta-feira.
_ E ela não me disse nada, porquê? Eu sou o cozinheiro.
Arthur olhou-o como se ele fosse incrivelmente estúpido.
_ Não vais cozinhar na festa em honra do teu sobrinho, seu imbecil. És da família, vais festejar com toda a gente, como uma pessoa normal.
_ Mas… mas quem é que vai cozinhar? – Perguntou Alfred, cheio de conflitos dentro de si, pois nem toda a gente poderia ter o privilégio de utilizar a sua cozinha. Era praticamente um espaço sagrado.
_ A minha mãe e a Eireen disseram logo que cozinhavam, e o Feliciano também quer participar. Disse qualquer coisa sobre querer inserir-se na comunidade e ninguém foi capaz de lhe negar o que quer que seja.
_ Eu não tenho a certeza se quero que eles utilizem a minha cozinha.
_ Alfred, não sejas um cabrão.
_ A cozinha é minha. É o meu templo!
_ Bem, a partir de hoje, eu sou o teu templo.
_Mas eu não posso cortar-te aos pedaços e fazer salsichas contigo.
_ Pois, agradecia que não o fizesses. Anda cá. – Arthur puxou-o para um último beijo – Eu tenho que ir agora, mas por volta das nove apareço em tua casa. – Hesitou e mordeu o lábio – A não ser que prefiras ficar sozinho esta noite.
_ Não, não. Aparece lá. Eu faço-te jantar.
O sorriso que Arthur lhe lançou era brilhante e de derreter o coração.
_ Eu sabia que havia uma razão para eu gostar de ti.
_ Ah, sim, amas-me só por causa da minha comida.
_ Isso e da tua p…
_ Não, Arthur.
O inglês riu-se mesquinhamente e grunhiu com horror quando olhou para a chuva intensa que escorria pela janela.
_ Bem… — Fez enquanto se preparava para abrir a porta – Aqui vai nada.
Alfred sorriu ao ouvir o rugido horrorizado que Arthur fez quando saiu do carro e fechou a porta com brusquidão. Observou-o a correr desajeitadamente até ao portão da oficina e só quando ele desapareceu é que Alfred ligou o carro e retirou-se.
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Com o nascimento de Dorofey, Matthew achou que o restaurante deveria ficar fechado durante uns dias. Alfred não se importava de ter uns dias de descanso, mas quando chegou a casa depois de ter levado Arthur para o trabalho realizou-se que não tinha nada para fazer.
Ocupou-se a limpar para tentar libertar a mente de todos os seus problemas. Começou pela cozinha, o seu santuário pessoal. Ele mantinha essa divisão limpa por questões de higiene, por isso não havia muito trabalho. Varreu o chão e passou um pano húmido pelo mármore do balcão. Decidiu, também, organizar as suas especiarias por ordem alfabética, e os cereais por cores até formarem uma linha arco-íris.
Limpou a casa de cima a baixo, desde a sala até ao seu quarto, chegando até a retirar os produtos mais fortes de limpeza do canto mais escondido da sua dispensa no intuito de fazer uma lavagem a fundo à casa de banho. Quando caiu em cima da sua cama acabadinha de fazer, exausto, toda a propriedade estava limpa e cheirosa.
E ainda eram cinco da tarde.
Suspirou, cansado. Arthur só estaria disponível dali a algumas horas, o que queria dizer que Alfred ficaria sozinho até então. Supunha que podia voltar à maternidade, mas os Matthew e Katyusha mereciam um tempinho sozinhos com o filho recém nascido. Também não lhe apetecia ouvir as proezas e aventuras culinárias de Francis e não tinha a certeza se Elizaveta sabia ou não da nova relação física que ele partilhava com Arthur, por isso não queria arriscar.
Por falar em Arthur, ao limpar a casa Alfred reparara que agora possuía imensos pertences do inglês. Descobrira uma série de camisolas e roupa interior que não lhe pertenciam no cesto de roupa suja, estava uma escova de dentes extra ao lado da sua, uma marca de cereais de pequeno almoço que ele nunca vira no seu armário antes e um montinho de romances homoeróticos ao pé do sofá que sem duvida alguma não fora ele que os comprara.
Não era de admirar que Arthur estivesse a invadir a sua casa aos poucos, visto que desde que eles começaram naquelas vidas, o inglês passava a maior parte das suas noites e manhãs embrulhado na sua cama.
Estranhamente, Alfred não tinha qualquer problema com a aparente invasão de Arthurs na sua vida. Até era... reconfortante, num modo estranho. Dava-lhe um estranha esperança confusa, como se fosse realmente possível sair algo mais profundo e complexo daquela relação que ambos possuíam.
Sentiu-se quase casado quando misturou a roupa interior suja de Arthur com a sua na máquina de lavar.
Não era um mau sentimento.
Com um valente encher de pulmões, Alfred vestiu algo mais apresentável que as suas calças de flanela e uma camisola anciã dos Metallica, que já tinha buracos em três partes, enfiou-se no seu casaco impermeável e saiu de casa, dirigindo-se de carro até à cidade.
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Eram nove e meia quando Arthur tocou à campainha e, com as mãos meio a tremer, Alfred abriu a porta, apenas para encarar um inglês encharcado e muito mal-humorado.
_ Eu odeio esta altura do ano.
Alfred simplesmente sorriu e obrigou o amigo a tomar um banho quente o mais rapidamente possível, ignorando com relutância o olhar sugestivo que Arthur lhe lançara quando começara a retirar as roupas molhadas.
Preparou um chá enquanto esperava por Arthur, já que sabia que este iria apreciar e foi buscar umas peúgas à sua gaveta porque também sabia que o inglês provavelmente iria andar por aí descalço e, como o inverno a aproximar-se, isso era um comportamento pouco aconselhável.
Ele tinha preparado um guisado para o jantar e já tinha comido, mas não tinha a certeza se Arthur estava na disposição de comer algo tão pesado naquela altura e, tal como supôs, para além dos pezinhos descalços, Arthur dirigiu-se de imediato ao chá e aos muffins e ignorou por completo o guisado mal saíra do banho, todo corado e embrulhado no roupão demasiado grande de Alfred.
Enrolaram-se no sofá a ver televisão enquanto Arthur consumia o chá e morfava uns quantos muffins. O arquitecto bufou com impaciência quando Alfred lhe pegou nos pés e calçou-lhe as peúgas à força, mas um rubor de agrado era visível nas suas faces pálidas.
Ficaram em silencio durante um bocado, observando o detective na televisão desvendar mais um mistério enquanto colocava os seus óculos de sol em plena noite. Como Arthur estava sentado de lado, com as pernas estendidas e em cima do colo de Alfred, este decidiu massajar levemente os pés do inglês, tendo o cuidado de não lhe fazer cócegas. Reparou que Arthur estremeceu de prazer e soltou um pequeno som satisfeito, aconchegando-se mais ás almofadas que suportavam o seu peso.
_ Hei. — Chamou Alfred em algo que era pouco mais que um suspiro assim que Arthur terminou o seu chá e colocara a chávena com gentileza em cima da mesinha baixa de vidro que se encontrava em frente do sofá.
_Hum? _ Arthur parecia totalmente relaxado e um bocado sonolento.
_ Eu... bem, eu fui ao centro comercial aqui perto e comprei-te uma coisa.
_ Ai sim? — Fez o arquiteto, agora um pouco mais interessado.
Alfred retirou os pés de Arthur de cima do seu colo e foi até à cozinha, pegando num pequeno saco de plástico que deixara em cima do balcão quando regressara a casa pela segunda vez naquele dia. Retirou lá um pequeno e brilhante objecto e voltou para a sala, onde Arthur se encontrava, ainda no mesmo sitio e na mesma posição, com os olhinhos ensonados a brilharem com curiosidade.
Clareando a garganta com algum nervosismo, Alfred sentou-se, deixou que Arthur pusesse os pés novamente no seu colo e mostrou-lhe o que tinha na mão.
Arthur pestanejou.
_ Compraste-me uma chave? — Fez ele confuso — É suposto abrir alguma coisa, ou compraste-a só porque sim?
_ É uma cópia da minha chave de casa. — Respondeu Alfred com alguma impaciência, especialmente porque Arthur continuava a olhar para ele como se outra cabeça tivesse emergido do seu pescoço — Para abrires a porta de entrada? — Esclareceu como quem fala para um criança.
_ Estás a dar-me a chave da tua casa? Porquê?
_ Porque passas aqui a tua vida e estou farto de te ter que abrir a porta.
_ Mas eu gosto que me abras a porta. Pareces quase um cavalheiro.
_ Arthur... apenas... — Alfred agarrou na mão do amigo e entregou-lhe a chave — Apenas fica com ela, está bem?
Arthur estava ainda visivelmente confuso, mas encolheu os ombros e fechou o punho em volta do metal brilhante.
_ Agora posso assaltar-te quando me apetecer. — Disse o inglês com um sorriso vitorioso e Alfred não conteve o revirar de olhos.
_ Eu acho que vou reparar se as coisas começarem a desaparecer.
_ Eu sei ser discreto. — Arthur colocou a chave em cima da mesinha e lançou um olharzinho esperançoso a Alfred — É muito gay se eu te pedir para fazermos aquela coisa onde tu te deitas no sofá e eu enrosco-me ao teu peito e depois tu cobres-nos aos dois com uma manta e ficamos assim a ver um filme?
Alfred sorriu, atravessou o sofá e depositou-lhe um beijo nos lábios.
_ É claro que não, Arthie-kins. Isso é a coisa mais máscula que já ouvi hoje.
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