Sure, Why Not?
14 Capitulo 14
Notas iniciais
Apesar de todo o seu bravado, Arthur não sabia bem o que dizer. Na verdade não tivera nada em particular na sua mente a não ser raiva quando saíra da cozinha e percorrera o restaurante num marchar decidido. Houve um silencio constrangido que era interrompido pelos murmúrios e risos da clientela mais afastada e o som molhado e irritante do sugar constante que Francis fazia ao beber o seu cocktail gigante.
Agora estava ali, sentado, a tentar ao máximo parecer ameaçador enquanto tentava também lembrar-se de algo para comentar. Francis não parecia particularmente incomodado pela falta de troca de palavras e limitava-se a beber, verificar se as suas unhas estavam tão imaculadas como à trinta segundos atrás e a olhar para Arthur.
De algures ao pé do balcão, veio um sussurro das vozes de Alfred e Elizaveta, que conversavam um com o outro através da porta da cozinha. Um frio de arrepiar acentuou-se no seu estômago e Arthur engoliu em seco.
_ O que viste na cozinha...!
_ Não pode ser divulgado. — Interrompeu Francis secamente, após retirar os lábios da palhinha comprida que saia do longo copo de vidro — Eu cheguei a essa conclusão quando rompeste pelo restaurante fora como se fosses uma fúria da natureza.
Arthur sentiu um rubor de frustração cobrir-lhe o rosto e uma vaga irritação face ao tom de voz do outro remoeu-lhe o espirito.
_ Não podes dizer mesmo a ninguém. Não a amigos, ou família, ou uma fornicação ocasional para livrar o stress! Népias! Entendido?
Francis ergueu uma das suas sobrancelhas elegantes. uma leve mancha roxa era vagamente visível no seu nariz sob uma enorme camada de maquilhagem e Arthur sentiu-se orgulhoso apesar de todo aquele ressentimento que o consumia por dentro.
_ Estás muito nervoso para alguém que já saiu do armário há praticamente dez anos. Acho que toda a gente aqui já sabe que és do clube do arco-íris. — Comentou o chef naquele seu tom superior que punha os cabelos de Arthur em pé com irritação.
_ Não é por mim que eu estou nervoso, seu jumento inútil. — Rosnou Arthur — Estou-me a cagar para a opinião dos outros sobre mim. Isto é pelo Alfred.
_ Pelo Alfred?
_ Sim. Pelo conhecimento de todos, Alfred F. Jones apenas dorme com mulheres e os rumores de ele ter comido o Ivan Bragisky provavelmente não passam de fantasia.
Pela expressão que tomou o rosto perfeito de Francis, ele não tinha conhecimento de tais rumores, e mostrou-se perfeitamente escandalizado, como se dormir com Ivan Braginsky fosse alguma crime da natureza. Tal facto era discutível, como era evidente, mas Arthur nunca achara Francis Bonnefoy particularmente homofóbico, nem mesmo quando andavam no liceu. Francis nunca utilizara qualquer palavreado ofensivo quanto à sua sexualidade nem alguma vez o mocou por isso.
_ O Ivan Braginsky? — Fez Francis com um tom de desprazer na sua voz — Aquele moço muito alto com ar de psicopata? O Alfred dormiu com ele?
_ Se dormiu ou não, não é da tua conta. Ou da minha, para dizer a verdade. O que Alfred fez com quem quer que seja só lhes diz respeito a eles. O mesmo acontece com o que ele faz comigo; Só é da nossa conta. E tu não tens nada que meter o bedelho ou andar por aí nas fofocas com o mundo.
_ Eu não iria dizer nada a ninguém, Kirkland. Acho errado divulgar a sexualidade de alguém antes dessa pessoa estar preparada. — Francis encostou-se para trás e ergueu as sobrancelhas- achas mesmo que eu iria prejudicar a vida do meu próprio primo?
_ Podias querer prejudicar a minha.
_ Eu já não sou assim. Eu estou... profundamente arrependido pelas minhas ações durante a adolescência. Já não tenho qualquer problema com a tua pessoa... acho que nunca soube qual era a razão pelos meus atos. Acho que simplesmente era um adolescente zangado e frustrado com a vida e tu eras o alvo mais facil.
_ Obrigadinha. — Disse Arthur com desdém e cruzou os braços.
_ Eu sei que não é desculpa pelo meu comportamento, não te estou a pedir perdão nem espero que me perdoes.
_ Ainda bem, serias muito tapadinho se achasses que isto seria uma sessão de lágrimas, abraços e histórias do passado e que de repente eramos todos B.F.F ou coisa semelhante. — Arthur cruzou os braços e inclinou-se para trás. Um grupo de clientes pagou a conta e saiu do estabelecimento. Elizaveta recolheu o dinheiro, colocou-o num bolsinho existente no seu avental florido e começou a limpar a mesa agora livre com um pano que trazia sempre consigo.
_ Eu não quero ser teu... B.F.F, ou lá o que é. Esse lugar, pelo que sei, é do Alfred. — Sorriu, então, meio matreiro e Arthur teve que cerrar os punhos com força para não lhe espetar um murro na cara — Ainda que ache que agora ele é mais que isso.
_ Ele não é mais que nada. Ele continua apenas a ser o meu melhor amigo. A única diferença é que agora ele enfia o pénis dele pelo meu rabo a cima com frequência.
_ Ugh, sempre tão delicado com as palavras. Sabes, era essa tua falta de filtro que mais me irritava no liceu. — Informou Francis secamente.
_ Se te irritar agora, estás tramado. Eu já não tenho medo de ti.
_ Tinhas medo de mim? — Perguntou o outro, claramente admirado.
Arthur sentiu as faces aquecerem com embaraço e grunhiu com leveza. Tivera medo na altura, é claro que tivera. Não há ninguém que sofra algum tipo de abuso que não tema tal tratamento cruel. Mas não o mostrara no passado. Sempre enfrentara Francis com o narizinho erguido orgulhosamente, determinado a ultrapassar aquela altura da sua vida sem o auxilio dos seus irmãos ou mesmo do Alfred.
E conseguira, mais ou menos. Há medida que o tempo foi passando, os ataques de Francis foram diminuindo e diminuindo, até este se mover para a França.
Só então é que Arthur voltou a respirar calmamente.
_ É claro que não. — Respondeu Arthur num tom superior, pois preferia atirar-se para o meio de uma debandada de gnus do que admitir verbalmente que alguma vez tivera medo de Francis Bonnefoy — Quem é que teria medo de ti? Pareces uma galinha a tentar imitar um pavão.
_ Perdão? — Fez Francis num tom falsamente ofendido — Nas minhas veias só corre sangue de pavão puro.
Arthur sorriu antes de se lembrar que odiava a criatura á sua frente e a expressão momentânea de divertimento foi trocada pelo seu habitual sobrolho sisudo e mal humorado.
Houve um silencio pesado e constrangedor. Arthur encostou-se mais à cadeira, como se estivesse a tentar afastar-se o máximo possível do chef sem ser muito obvio. Francis pigarreou e brincou com os polegares, como se estivesse a pensar em algo para dizer.
Ergueram as cabeças ao mesmo tempo quando ouviram o bater repetitivo dos saltos de Elizaveta embaterem sobre o soalho brilhante. A bonita empregada colocou uma mãozinha delicada no ombro de Arthur, lançou um olhar frio a Francis e sorriu com profissionalismo.
_ Querem alguma coisa?
_ Ainda estou bem servido, muito obrigada. — Retorquiu Francis enquanto gesticulava em direção ao seu copo meio cheio.
Elizaveta anuiu e virou-se para Arthur. Passou-lhe os dedos reconfortantes pelo cabelo.
_ E tu, desaparecido? Queres alguma coisa?
_ Eu não desapareci.
_ Tens andado só com o Alfred e não me dás atenção nenhuma! Para gay, sabes bem causar ciúmes a uma rapariga.
Arthur encolheu-se com um grunhido e desviou o olhar do rosto curioso de Francis, que observava a interação de ambos com alguma diversão.
_ Só te vejo com o Alfred, ou aquele casal de estrangeiros. Desde o jantar que me andas a evitar.
_ Eu não te ando a evitar, apenas ainda não encontrei tempo para te dar a atenção que mereces.
_ O Arthur e o Alfred têm-se ocupado um ao outro, restringindo assim tempo que passam com outras pessoas. — Comentou Francis todo elegante, com um sorriso misterioso no rosto.
Elizaveta pestanejou enquanto Arthur se forçava a não se atirar para o outro lado da mesa no fim de esganar o sacana que lá se encontrava. As faces pálidas do inglês foram consumidas pelo vermelho e um borbulho de nervosismo cresceu nas suas entranhas.
_ Eles realmente têm passado muito tempo juntos. — Concordou Elizaveta com um pequeno aceno de cabeça — Isso é bom, suponho, depois daquela luta horrenda e embaraçosa. — Deu uma palmada violenta no ombro de Arthur, que soltou um esganiçado "Au!" e massajou a parte atingida — O Kiku disse-me que o Yao lhe disse que ainda não lhe tinhas telefonado! Já se passaram semanas, Arthur, semanas! Um homem não espera tanto tempo!
_ Podemos não falar disso aqui? — Implorou o arquiteto — Estou a falar de assuntos sérios com este pedaço de escória da humanidade e, sem ofensa, esta conversa não está a ser produtiva.
Com um som ressentido, Elizaveta ergueu o narizinho e olhou-o com desdém.
_ Está bem. Mas nem penses que te safas assim tão facilmente. Se tiver que lutar contra o Alfred pela tua atenção, então o farei. Ambos sabemos quem iria sair vitorioso.
Saiu, então, caminhando com confiança pelo restaurante até chegar ao balcão. Arthur pediu uma cerveja enquanto ela se afastava, mas tudo o que recebeu em troca foi um gesto ofensivo com um erguer de um dedo elegante.
Com um rolar de olhos, Arthur voltou-se novamente para Francis e franziu o sobrolho ao ver a expressão divertida do outro.
_ O que é?
_ Nada. — Respondeu o chef com suavidade — Qual dos asiáticos bem parecidos que estavam naquela sexta lá no restaurante era esse "Yao".
_ O de cabelo comprido.
_ Hummm. Vais ligar-lhe?
_ Não, porque raio é que haveria de fazer isso?
_ Bem, um homem bonito pareceu estar interessado em ti o suficiente para se queixar semanas depois de te conhecer que ainda não lhe ligaste. Parece-me um bom partido.
_ Parece-me um pouco obcecado. — Retorquiu Arthur sem paciência — E eu não tenho tempo para ele. Ando a dormir com o Alfred, não me vou embrulhar com outro homem qualquer.
_ Pensava que era tudo só entre amigos.
_ E é. Mas se eu ando a dormir com alguém, não vou comer outra pessoa.
_ E o Alfred pensa a mesma coisa?
_ É bom que pense, ou parto-lhe o focinho.
_ Não é injusto da tua parte, já que não conversaram sobre esse aspeto da vossa relação? Se isto é uma coisa entre amigos, como já referiste, não estou a ver porque não podem dormir com outras pessoas ao mesmo tempo.
_ Ok, primeiro, eu não vou discutir a minha vida sexual contigo. És literalmente a última pessoa com quem quero ter este tipo de conversa. Preferia discutir a primeira vez que me meti de joelhos para chupar alguém com a minha avó do que falar sobre a relação aberta ou fechada que tenho com o Alfred contigo.- Disse Arthur com uma mão erguida para cortar as palavras do outro. Alguém gritou lá no fundo, vitorioso por uma razão qualquer — E segundo; Estou-me a cagar para a tua opinião. A minha vida é a minha vida e eu faço o que quiser. Terceiro; se o Alfred dormir com outra pessoa enquanto temos este arranjo, será extremamente hipócrita da parte dele e eu serei obrigado a acabar com tudo. Depois de lhe partir os dentes, claro.
_ Claro. — Concordou Francis secamente.
Elizaveta voltou, mas desta vez trazia uma caneca de cerveja na mão. Colocou-a em frente de Arthur com uma força desnecessária e algumas gotas salpicaram a mesa. O som agudo e elegante de um violino chegou aos ouvidos de ambos e viraram as cabeças em direção de Francis, que retirou um Smart-Phone do bolso do seu casaco Armani e ergueu-se, atendendo a chamada e falando num rápido francês.
_ Então? — Sussurrou Elizaveta — Porque é que ainda não telefonaste ao Yao?
Arthur gritou na sua mente e cerrou o maxilar com força.
_ Ugh, eu disse que agora não! — Exclamou entre dentes.
_ Vá lá, o imbecil pomposo está ocupado! — Ela agarrou numa cadeira próxima e sentou-se. Colocou uma madeixa castanha atrás da orelha e acenou-lhe com a cabeça de forma encorajadora — Agora, desembucha.
_ Não devias estar a trabalhar?
Ela semicerrou os olhos e Arthur suspirou, exasperado. Mandou um gole de cerveja para dar coragem.
_ Eu nunca estive muito interessado nele, está bem? — Admitiu um bocado a medo, com receio que Elizaveta ficasse ofendida por ele não ter apreciado o arranjinho que ela lhe fornecera.
_ Não? Porquê?
_ Temos mesmo que falar disto agora?
_ Temos, ou vais desaparecer outra vez!
_ Olha... — Pediu ele num tom calmo — Eu andava... emocionalmente, digamos, perturbado nessa altura e simplesmente não senti qualquer ligação ao homem. Ele pareceu-me ser extremamente simpático e admito que era bastante atraente, mas eu não estava, ou estou, interessado.
_ Eu não acredito nisto! — Fez Elizaveta num tom incrédulo — O primeiro homem em dois anos que mostra interesse em ti e tu nem sequer lhe dás uma hipótese?
_ Eu não sabia que era regra dormir com um homem só porque este está interessado em mim. Não és tu que passas a vida no Tumblr a ralhar com o mundo sobre como as mulheres não devem nada aos homens só porque estes lhes deram um buquê de flores e umas quantas palavras bonitas?
_ Ok, ok, desculpa, tens razão. Mas... é um bocado frustrante. Ele pareceu-me super simpático e parecia mesmo que queria saltar-te para cima, da boa maneira. Acho que estou tão farta de te ver sozinho, que fico chateada por não gostares dos arranjinhos que eu faço. — Começara a chover mais uma vez, pelo som repetitivo que vinha da porta da entrada, e Francis continuava a tagarelar em estrangeiro num canto afastado — O que ainda não percebi é o porquê da tua briga com o Alfred naquele dia. Ninguém me diz nada!
Arthur hesitou. Elizaveta era sua amiga e talvez a pessoa a quem ele mais contava a sua vida pessoal. Antes daquilo tudo, ele nunca tivera problemas em descrever-lhe, pormenor a pormenor, cada encontro tórrido com um moço qualquer e retribuía ao ouvir os casos dela. Mas agora Alfred estava envolvido e falar com Elizaveta sobre a sua vida sexual implicava falar também da vida sexual do seu amigo, e tal coisa parecia-lhe ser uma enorme invasão de privacidade.
_ Eu e o Alfred... tínhamos tido uma breve discussão meio pesada uns dias antes e naquela noite, quando nos encontramos na casa de banho, ele disse umas coisas parvas e eu dei-lhe um murro. A partir daí tudo foi pró caralho.
_ Mas tu e o Alfred nunca discutem sobre nada.
_ Estamos a discutir a toda a hora!
_ Mas não sobre coisas sérias o suficiente para andarem à pancada. O que é que ele fez para terem andado assim tão mal?
_ Não foi ele que começou! — Corrigiu Arthur apressadamente — Fui eu. Eu fiz algo parvo e merda aconteceu. Mas agora está tudo bem! Ótimo, até! — Ela abriu a boca para fazer mais perguntas, mas Arthur logo a impediu, agarrando-a pela mão com gentileza — Um dia conto-te tudo, está bem? Só... só não hoje.
_ Está bem, está bem, eu não te chateio mais hoje. — Disse ela num tom calmo — Mas tens que me contar eventualmente. Não me podes deixar às escuras para sempre.
Ela deu-lhe um murro desnecessário no ombro e voltou para ao pé do balcão, onde novos clientes esperavam por ser atendidos. Arthur suspirou, agora vagamente irritado pela curiosidade e insistência de Elizaveta. Ele compreendia que ela poderia sentir-se excluída pelo seu silencio, mas haviam coisas que aconteciam entre ele e Alfred que deveriam só ficar entre os dois.
Teria que falar com Alfred primeiro. Perguntar-lhe se ele se importava que Elizaveta soubesse daquele caso erótico. Arthur não diria nada a ninguém se Alfred não quisesse.
Francis voltou, sentando-se com um suspiro pesado.
_ Perdão, eram assuntos importantes.
_ Não há problema.
_ Há um problema com a gestão de um dos meus restaurantes e terei que fazer uma conferencia via skype. — O chef suspirou e fez uma careta — Não é o meu meio de comunicação favorito, mas é relativamente útil.
Arthur anuiu, sem saber bem o que dizer. Socializar não era com ele e uma vez aquela fúria toda do inicio ter-se dissipado, já não tinha motivo de conversa. Gesticulou com os dedos sobre a mesa, causando uma leve e repetida melodia.
_ Poderemos repetir isto, um dia destes. — Sugeriu Francis com um sorriso convidativo.
_ Não me parece.
Francis revirou os olhos, tirou a carteira do bolso e depositou algum dinheiro na mesa.
_ Diz à rapariga que ela pode ficar com o troco. Sabes... — Começou, mas depois hesitou, como se não soubesse se as suas palavras seriam bem aceites ou não — Sempre achei que o nosso Alfred era um bocadinho demasiado pegado à tua pessoa para ser apenas considerado amizade, mas tu nunca lhe deste esse tipo de atenção. Pergunto-me o que é que mudou.
Arthur não respondeu e simplesmente acenou sem grande vontade quando o chef de despediu e saiu do restaurante. Ficou ali sentado, a beber a cerveja que Elizaveta lhe havia trazido.
Passado algum tempo, já a caneca ia a meio, levantou-se e voltou para a cozinha, pois estar ali estava a ser aborrecido.
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_ Posso dizer à Elizaveta que andamos às cambalhotas?
Alfred tirou os olhos da televisão e virou-os para Arthur, que estava todo estendido em cima do seu corpo. Estavam ambos, mais uma vez, na casa do americano, deitados no sofá enquanto viam um filme. Alfred assentara-se no sofá e enroscara Arthur por cima do seu peito para que pudesse passar uma mão pelos seus cabelos rebeldes.
_ Porquê?
_ Bem, ela é nossa amiga. E já me anda a chatear à algum tempo.
Com o sobrolho franzido, Alfred apertou os lábios. Na televisão, o clássico homem branco hétero salvava heroicamente o seu interesse amoroso após escapar uma série de inconveniências improváveis com uma taxa de sobrevivência baixa.
_ O que acontece entre nós deveria ficar entre nós.
_ E ficaria entre nós. E a Elizaveta.... e o Sapo.
_ Qual sapo?
Arthur suspirou e depositou novamente a cabeço no peito de Alfred. Viu o ar marejado da protagonista feminina, que tinha sido completamente inútil no plot da história, e a sua mão procurou cegamente a taça de pipocas que eles tinham depositado no chão quando se estenderam pelo sofá a meio do filme.
_ Hmm, esquece. — Acabou ele por dizer contra a camisola do amigo.
_ Não, não! — Alfred começou a sentar-se e Arthur grunhiu com desprazer. Uma vez erguidos, o mais velho dos dois lançou um olhar de puro desprezo ao outro por este ter quebrado o seu estado relaxado.
Alfred acariciou-lhe a cara com as palmas da mão, antes de se conter e colocá-las nos seus ombros.
_ Olha... — Começou o americano num tom hesitante — Eu... — Articulou mais umas quantas coisas antes de cair num silencio frustrado.
_ Alfred, se não quiseres que eu conte, então eu não conto. — Assegurou-lhe Arthur com gentileza — Sair do armário não é um processo fácil e nunca deveria ser forçado.
Alfred pestanejou, algo confuso.
_ Sair do... eu não sou gay!
_ Também não és lá muito hétero!
Arthur observou-o a abrir a boca para contestar, mas depois a sua expressão ficou pensativa e Alfred soltou um leve grunhido primitivo antes de dizer:
_ Talvez nem seja hétero, mas também não sou gay. — Disse o cozinheiro num tom filosófico — Sou bi, no máximo. Tipo... és literalmente o único homem com quem alguma vez me apeteceu foder a sério.
_ Vou tomar isso como um elogio.
_ Para de me interromper, sua peste. Tipo... eu nem me importe que contes tudo à Elizaveta, mas francamente, eu já sei que ela iria massacrar-me de seguida porque te insultei e te tratei abaixo de cão, como se eu já não fizesse isso a mim mesmo o suficiente.
_ Tu não queres que eu conte à Elizaveta, não porque está a foder um homem e isso ainda está socialmente mal visto, mas porque tens medo dela? — Perguntou Arthur estupidamente, inclinando a cabeça para trás.
_ Eu acho que é uma razão legitima. — Resmungou Alfred — Também não contes à tua familia. O teu pai e o teu irmão são três vezes maiores que eu, e por muito heroico que eu seja, não conseguia com eles todos ao mesmo tempo.
_ Eu sou um menino crescido — Fez Arthur após um rolar de olhos. Colocou as mãos nos peitorais de Alfred e inclinou-o para trás, o que fez com que ele ficasse meio deitado, meio sentado no sofá. Instalou-se no seu colo, até porque, enquanto aquele caso durasse, tal local pertencia-lhe por direito, e rodeou o pescoço do amigo com os braços. — Eu não preciso deles para ameaçarem os meus possíveis pretendentes. Também digo-te já que não preciso de cortejos.
_ E eu aqui com ideias de te dar ramos de flores e chocolates todas as noites.
_ Meh, caga nas flores, mas o chocolate é sempre bem-vindo. — Arthur beijou-lhe o nariz com uma ternura repentina e pouco característica da sua pessoa e depois achou-se incrivelmente estupido, mas não disse nada a Alfred. Para se redimir de tal gesto tão lamechas, sorriu matreiramente e disse — Sabes o que também é sempre bem vindo?
_ Se disseres que é a minha pila, eu juro que nunca mais te faço um único muffin em toda a minha vida.
_ Uff, não é preciso tanta violência.
_ Todas as nossas conversas ultimamente acabam na minha pila.
_ É uma bela pila.
_ Eu não quero mais falar sobre isso.
_ Se te fizer sentir melhor podemos falar sobre uma parte do meu corpo que tu aprecias. Tu gostas do meu rabo, certo?
_ Arthur...
_ Achas que é um belo rabo?
_ Arthur, estou avisar-te!
_ O melhor rabo da humanidade e ACHK...!
E as palavras de Arthur foram tomadas pelo riso quando as mãos de Alfred encontraram a sua pele por debaixo da camisola e começaram a mover-se repetidamente. Ele contorceu-se e esperneou, mas por muito que tentasse não conseguia escapar ao aperto dos braços do Americano nem à sua tortura de cocegas.
Só teve misericórdia quando já era difícil respirar, acusou o amigo de usar truques sujos e infantis e de alguma forma acabou nu no chão da sala com as mãos de Alfred novamente no seu corpo, mas agora para fins mais apreciados.
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Se Arthur iria contar à Elizaveta, por muito assustadora que essa ação parecesse, então, logicamente, Alfred podia contar tudo ao seu querido e carinhoso irmão.
Após uma chamada às oito da manhã, logo no seu dia de folga, acordando-o de um sono relaxado onde Arthur, como se invadir a sua cama não fosse suficiente, fora o protagonista dos seus sonhos, Alfred encontrava-se na maternidade pela segunda vez naquele mês, mas, felizmente, era previsto que Katsyusha só entrasse em trabalho de parto dali a algumas horas.
Conversou com a cunhada, animando-a e tentando dar-lhe coragem para trazer o bebé ao mundo, enquanto Matthew saltitava num lado para o outro sempre a perguntar se estava tudo bem, tanto com a sua esposa, como com o seu filho.
Passado uma hora ou duas, Matthew começou a hiperventilar. Coisa que acontecia geralmente em momentos de grande stress, ou grande esforço físico. Não querendo que Katyusha ficasse perturbada numa altura tão delicada, Alfred arrastou o irmão para a sala de espera e foi então, enquanto Matthew inspirava e expirava para o meio das suas próprias pernas, que Alfred lhe disse sobre o seu relacionamento "amoroso" com Arthur.
_ Eu e o Arthur temos tido sexo com regularidade e é bom.
Matthew ergueu a sua cabecinha branca como o cal e fez uma expressão ofensivamente horrorizada.
_ O quê?!
_ Eu e o Arthur fornicamos.
_ O Arthur? Arthur Kirkland?
_ Não, o Arthur Maclee do talho, porque não há nada mais sensual do que um homem de sessenta e tal anos, gordo e tão peludo como um guaxinim. — Fez Alfred sarcasticamente. Pelo menos o irmão começava a ganhar alguma cor nas faces.
_ Deus do céu, Alfred! — Disse Matthew numa vozinha esganiçada — Porque raio é que me estás a dizer isto?
Alfred encolheu os ombros. Algures lá ao fundo uma mulher qualquer começou a gritar de pura agonia e várias enfermeiras correram na direção do barulho.
_ Não sei, eu queria contar-te e esta pareceu-me ser uma boa altura.
_ Uma boa altura...?! Alfred, o meu filho vai nascer não tarda nada!
_ E tu estavas a entrar em pânico. Como o bom irmão que eu sou, distraí-te com coisas da minha vida. — Colocou as mãos nos bolsos das calças e lançou um olhar irritado ao futuro pai.
Com um suspiro pesado, Matthew colocou a cabeça nas mãos. Alfred sentou-se ao seu lado, entregando-lhe a garrafinha de água que tinha comprado à pressa quando expulsara o irmão do quarto onde a sua cunhada se encontrara. Num gesto algo violento, Matthew agarrou na garrafa e bebeu todo o seu conteúdo numa só vez.
_ Tem calma. — Pediu Alfred com cautela, erguendo as mãos para o caso de Matthew se engasgar.
_ Não tenho nada calma! O meu filho vai nascer e tu andas a foder o Arthur Kirkland!
_ Adoro quando dizes asneiras, é um contraste tão lindo entre o teu ar adorável e a porcaria que sai da tua boca.
_ Está calado! — Ordenou Matthew e Alfred assim o fez — O que raio é que vais fazer quanta à tua situação?
_ Qual situação?
_ O Arthur! O que é que vais fazer quanto ao Arthur?
_ Uhh... nada? É só sexo, Matthie, não significa nada.
Matthew lançou-lhe um olhar enojado, como se achasse que ele era a coisa mais imbecil à face da terra. Alfred sentiu que um sermão vinha a caminho e encolheu-se instintivamente.
_ Não significa nada? Queres mesmo que eu acredite que tu, Alfred F. Jones, andas a dormir com o teu melhor amigo e nenhum sentimento está envolvido? Queres mesmo?
_ É claro que existem sentimentos envolvidos, só não românticos.
_ Não românticos!? Não românticos!? — Matthew levantou-se e começou a andar num lado para o outro feito barata tonta. Alfred manteve-se no lugar a olhar para ele com uma expressão aparvalhada no rosto — Pelos céus! Quando... — Matthew respirou fundo e passou as mãos pelo cabelo — Quando é que isto aconteceu?
_ Matthie, acho que estás demasiado dramático com este assunto.
_ Acabas de me dizer que andas a arruinar uma das melhores relações que tens na tua vida, acho que tenho todo o direito de ser dramático.
_ Como é que eu a estou a arruinar!? Eu acho que vai muito bem, muito obrigada! Na verdade, acho que nunca esteve melhor! Nada mudou, apenas temos sexo!
Algumas enfermeiras e umas quantas grávidas começaram a espreitar pelas portas ao longo do corredor à medida que o nível de voz dos gémeos ia aumentando.
_ Oh!- Fez Matthew, incrédulo — Nada mudou, não é? Achas mesmo que sexo numa relação como a vossa não vai mudar nada? Eu tenho amigos, Alfred, eu também tenho melhores amigos, e digo-te já que nunca olhei para eles como tu olhas para Arthur.
_ Eu não sei de que é que estás a falar.
_ Sabes sim, não te faças de estupido. Desde que somos pequenos que andas sempre atrás dele como um cão de guarda, sempre a pedir-lhe atenção. Até tiveste aqui mini depressão quando ele foi para a Universidade. Céus, tinhas birras quando ele se esquecia de te telefonar por causa dos estudos!
_ Ele é o meu melhor amigo!
_ Eu não disse que ele não o era, só estou a dizer que tu queres mais do que isso.
_ Para de falar como se soubesses o que vai dentro da minha cabeça!
_ Aparentemente sei mais o que se passa aí dentro do que tu!
_ Para com isso! Nada se está a passar, ok! — Implorou Alfred — Eu e Arthur estamos na mesma, apenas incluímos sexo no menu. Ninguém está apaixonado por ninguém, nem ninguém quer mais do que já tem ou tretas do género. Entendido?
Matthew limitou-se a olhar para ele com desaprovação. Alfred odiava quando ele lhe fazia isso, fixá-lo sob os seus olhos como se conseguisse ver exatamente o que ia na sua alma. E geralmente Matthew até adivinhava os seus problemas sem muita dificuldade, ainda que ultimamente tivessem estado um bocado afastados graças aos acontecimentos da vida.
Desviou o olhar do de Matthew, preferindo observar com atenção uma planta decorativa que estava a um canto.
_ Odeio quando te mentes a ti mesmo. — Atirou Matthew.
_ Deus do céu, para a próxima não te digo nada!
_ Alfred, eu preocupo-me contigo! Se isto correr mal, vais sofrer imenso e eu tenho medo de não poder dar-te a minha atenção agora com o nascimento do meu filho. — Matthew colocou a mão no ombro de Alfred — És o meu irmão e eu adoro-te, mas agora vejo-te aí a enganar-te a ti próprio e eu sinto que pela maneira que estás a falar que eventualmente vai correr mal e o teu coração vai ficar partido.
Alfred rolou os olhos, exasperado.
_ O meu coração não vai ficar partido e muito menos vai ser o Arthur a o partir. — A ideia até parecia ser meio cómica, pois na sua mente aparecia um Arthur pequenino a atirar um coração de porcelana para uma parede enquanto se ria maniacamente — Vai tudo correr bem, está bem? — Forçou um sorriso e rodeou os ombros do irmão — Isso são tudo as tuas hormonas de futuro pai, já vais ver que daqui a umas horas isso tudo passa.
Matthew viu bem pela sua mudança de assunto, mas não o pressionou. Uma vez mais calmo voltou para o lado de Katyusha, que ainda estava deitada numa cama num quarto da maternidade, a afagar a sua barriga dilatada com ternura. A mão larga de Matthew juntou-se à dela e ambos partilharam um olhar intenso que fez com que Alfred se sentisse como se tivesse desaparecido para ambos.
Mas era ridículo. Alfred não estava apaixonado por Arthur. Por vezes achava que havia essa possibilidade, mas depois descartava-a porque estávamos a falar de Arthur! O seu melhor amigo!
E mesmo que estivesse, de facto, apaixonado, o que não estava, que hipótese tinha ele? Até aquele dia Arthur nunca lhe mostrara qualquer interesse romântico. Por vezes fazia certos gestos mais... suaves, se considerássemos a personalidade dele, mas isso não queria dizer nada.
Ele não estava apaixonado por Arthur Kirkland. Fim de história. Ponto final. Fecham o livro e vão buscar outro. Era tudo Matthew e as suas hormonas de pai acompanhadas pelo se dramatismo natural. Estava-lhe a dar ideias ridículas.
Apaixonado por Arthur.
Que piada.
Mas essa noite, depois de horas de sofrimento pela parte de Katyusha e Matthew, mas principalmente Katyusha (Por muito que o seu irmão se tivesse queixado da mão, Alfred tinha a certeza que ter um bebé a rasgar as entranhas de alguém era bastante mais doloroso) e do pequeno Dorofey estar cá fora, a gritar para todo o mundo e de Alfred ter pago os cinquenta dólares ao irmão pela aposta feita um mês antes, o cozinheiro encontrava-se em sua casa, deitado na sua cama, com Arthur a dormir nos seus braços.
Não tinham feito nada de cariz sexual, já que Alfred estava cansado com o dia que tivera e Arthur estava um bocado bêbedo porque Elizaveta fizera uma espécie de festa privada no restaurante para celebrar o nascimento do bebé.
Com os olhos habituado à escuridão, Alfred conseguia decifrar as linhas do rosto adormecido de Arthur, que estava iluminado somente pela luz do luar que entrava pela janela. Sentimentos familiar encheu-lhe o peito, sentimentos esses que ele rejeitava sempre que decidiam aparecer, sentimentos esses que já existiam praticamente desde sempre, desde que ele se lembrava, sentimentos que o assustavam e que eram cada vez mais difíceis de ignorar.
Talvez Matthew tinha razão.
Talvez até estivesse apaixonado por Arthur.
Mas que merda é que ele iria fazer com isso?
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