Sure, Why Not?
13 Capitulo 13
Notas iniciais
Alfred acordou com a cama vazia e estranhou tal facto de imediato, já que, mesmo com o cérebro ainda meio desligado, lembrava-se com clareza que Arthur tinha adormecido aninhado nos seus braços na noite anterior após uma boa sessão de sexo.
Levantou-se com um grunhido, sentindo-se um bocado peganhento e pronto para um duche, vestiu os boxers sujos que Arthur descartara durante as suas actividades escaldantes e agarrou na sua camisola, pobrezinha, tão solitária no chão perto do armário.
Enfiou-a pela cabeça enquanto saia do quarto, pouco incomodado pela temperatura baixa dos azulejos do chão, ainda que os seus pés começassem gradualmente a arrefecer.
_ Arthur? — Chamou ao descer as escadas e ouviu barulhos vindos da cozinha.
Encontrou-o ao pé da mesa a colocar pão torrado em pratos, uma tarefa tão simples, mas o seu rosto estava marcado com determinação e algum orgulho. Alfred entrou na cozinha e lançou um pequeno som tosco para marcar a sua presença.
Arthur ergueu a cabeça e sorriu abertamente.
_ Torrei pão! — Soltou ele, felicíssimo — E não queimei nenhum!
Bem, aquilo era um feito extraordinário para Arthur, já que o seu talento para arranjar o que quer que seja na cozinha que envolvesse fogo era quase nulo. Como recompensa pelo seu triunfo contra as garras da torradeira, Alfred depositou pequenos beijos pelos seus lábios, nariz e, finalmente, testa.
_ Está bem, está bem, já percebi — Arthur enxotou-o com a mão e gesticulou em direcção de uma das cadeiras — Senta-te, fiz café. Não sei se ficou tão bem como o pão.
Não tinha ficado, era amargo e parecia ter saído dos mares profundos do Inferno, mas Alfred bebeu-o na mesma e orgulhou-se por ter conseguido manter uma expressão serena durante o processo.
Arthur sentou-se à sua frente, fez um leve esgar ao pousar o traseiro dorido em cima da cadeira (Culpa dele próprio, ele é que insistia que tivessem sexo penetrativo, Alfred geralmente ficava satisfeito com coisas mais suaves), pegou numa torrada e começou barrar manteiga.
_ Vais-me dizer porque é que estavas de tão bom humor ontem, ou continua segredo? — Perguntou Alfred após se obrigar a beber um pouco de café.
_ Eu não estava de bom humor.
_ Atacaste-me mal chegamos a casa ontem há noite.
_ Apetecia-me fazer sexo, não és tu que estás sempre a dizer que és "Super Sexy"?
_ Não és tu que estás sempre a fazer "ugh" quando eu digo isso?
_ Ugh.
Alfred não conseguiu impedir o sorriso e barrou um pedaço de pão com manteiga. Estava um dia nublado e húmido, mas não chovia, o que era um bónus. Mesmo assim, ao olhar para o termómetro digital que se encontrava na parede, poderia constatar que as temperaturas lá fora tinham descido.
_ Parece estar mais frio que ontem. — Comentou casualmente — Queres levar uma camisola minha?
_ Se não te importares.
_ É claro que não me importo. Vais ficar adorável.
Arthur lançou-lhe um olhar de aviso mas limitou-se a continuar a comer.
Alfred acabou a sua comida rapidamente, pois continuava a necessitar de um duche. Lavou o prato e subiu as escadas depois de depositar um pequeno beijo na nuca de Arthur, que o retribuiu com um grunhido.
Agarrou nas roupas que usaria durante o dia, enfiou-se na casa de banho e fechou a porta. Aliviou a bexiga, pois ainda não tinha feito uma visita á sanita naquele dia, ligou o aquecimento no mínimo e retirou as roupas.
Como a divisão ainda se encontrava gelada, pois o aquecimento tinha sido ligado há demasiado pouco tempo para fazer efeito, Alfred praticamente correu para dentro da banheira, correu a cortina com brusquidão e abriu o chuveiro. Ainda passou uns momentos de tortura enquanto esperava que a água aquecesse, e uma vez que o vapor começou a subir e a espalhar-se pelo espaço, Alfred enfiou-se para de baixo do jacto de água.
Suspirou em contentamento, relaxou os músculos ainda dormentes pelo sono e esfregou o corpo sem grande pressa. Começou a calcular o que tinha que fazer quando chegasse ao restaurante. Talvez se chegasse cedo o suficiente, conseguiria fazer uns muffins. Não estavam propriamente a precisar de stock novo para a pastelaria, pois tinham vários fornecedores, mas Alfred apreciava sempre contribuir com as suas coisas.
Com o anuncio da chegada do novo membro da família Jones a aproximar-se, Matthew, o futuro pai, começara a chegar mais tarde ao emprego para tomar conta de Katyusha. Contrataram Tino, um homem baixo e gentil, que esperava todos os dias de manhã pelos fornecedores e ajudava-os a carregar e distribuir a mercadoria.
Alfred podia dizer que estava excitado com a perspectiva de ser tio. Vira o que o nascimento da pequena Emma fizera aos homens da família Kirkland, tornou-os em grandes e ameaçadores corações de manteiga. Até Arthur, que fisicamente não era alto e largo como os irmãos, mas que possuía uma personalidade de calhau, parecia derreter quando falava da sobrinha e até lhe tricotara umas botinhas de lã.
O Arthur. Tricotou.
Alfred nunca o vira fazer nada tão gay, e isso era dizer muito, porque já o vira com um pénis na boca, e em primeira mão.
Alfred perguntava-se se ficaria assim tão babado pela futura criança que iria nascer no berço da sua família.
Era provável.
Estava a acabar de enxaguar o cabelo e a remover os restos de champô, quando ouviu a cortina deslizar e Arthur juntou-se ao banho, todo nu e com um brilho maroto no olhar.
_ Não. — Disse-lhe logo Alfred de imediato.
_ Oh, vá lá!
Braços rodearam o seu tronco e o peito do inglês colou-se ao dele enquanto Arthur o inclinava um bocadinho para trás para também poder ficar de baixo do jacto de água. Olhos verdes fecharam-se enquanto Arthur erguia a cabeça para poder molhar o cabelo e, um segundo depois, lábios quentes cobriram os de Alfred.
_ Arthur, eu disse "não".
_ É só sexo, não sejas dramático, fizemo-lo ontem.
_ Mas não no chuveiro. A ultima vez que tentei foder alguém no chuveiro, escorreguei, e nós caímos e ela partiu uma perna. A partir daí, jurei que nunca mais o tornaria a fazer.
Mas era tentador. Arthur estava ali, de corpo nu encostado ao seu, toda uma extensão de pele cujo calor corou, mãos trabalhadoras percorriam agora os músculos dos seus ombros com gestos apreciativos, olhos verdes observavam-no com uma luxúria ardente e alguma diversão enquanto lábios pálidos formavam um sorriso traquina.
Alfred inclinou a cabeça para o beijar e as bocas de ambos foram fundidas com uma paixão que queimava mais do que a água escaldante que escorria sobre os seus corpos. Arthur soltou um som que poderia ser tanto provido de excitação como vitória e, como vingança, Alfred desceu as mãos pelas suas costas e apertou-lhe as nádegas com alguma força excessiva. Pouco importado, Arthur ronronou e, de alguma forma, enroscou-se mais ao seu corpo.
Há medida que o tempo passava Alfred achava mais que Arthur era algum tipo de droga. Com cada beijo, cada toque, cada vez que o corpo do inglês se abria para ele, Alfred sentia-se mais viciado. Havia uma vozinha na sua cabeça que lhe dizia que aquilo um dia iria acabar, que Arthur encontraria alguém e a relação de ambos teria que voltar atrás, ao mesmo ponto em que estava em Setembro, amigos, os melhores, mas nada mais.
Levou a mão à torneira e rodou-a para que a água cessasse de cair. O desejo e um sentimento possessivo já tinham tomado conta do seu ser, mas ele continuava a recusar fazer sexo no chuveiro. Arthur quebrou o beijo momentaneamente para reclamar, mas tudo o que escapou pelos seus lábios foi um guincho pouco dignificante quando Alfred o agarra pelo traseiro e levantou-o subitamente. As pernas e braços do arquitecto rodearam Alfred como um polvo e, com algum dificuldade, ele lá conseguiu tirá-los da banheira.
Carregou Arthur pelo corredor fora até ao quarto e nem se importou com o trilho de pegadas que deixou no chão. Mordidelas cálidas foram depositadas pelo comprimento do seu pescoço e um calafrio atravessou-lhe a espinha quando a língua de Arthur lambeu as gotas de água que escorriam pelo seu cabelo.
Atirou Arthur para cima da cama sem qualquer cerimónia e rapidamente se juntou e ele, fundido as bocas e roçando excitações. Estenderam-se pelos lençóis engelhados e usados, cheios de toques íntimos, membros e línguas entrelaçados.
_ Alfred. — Arfou Arthur contra os seus lábios — Estamos a molhar a cama toda.
_ Não te preocupes com isso.
E Arthur assim o fez, até porque só comentara aquilo por mera cortesia. Alfred tocou-o mais profundamente, acomodou-se entre as suas pernas e explorou-as com as mãos, dedos traçando o seu comprimento com uma ternura que constatava com o desespero presente de momento. Arthur arranhou-lhe a extensão das costas e inclinou a cabeça para trás num pedido silencioso para que Alfred lhe atacasse o pescoço.
Era quase animalesco comparado com todas as outras vezes em que se embrulharam em tais actividades. A primeira tinha sido suave e gentil e as outras descontraídas e divertidas. Mas aquilo? Mordidelas, puxões e lábios rubros e inchados pelo abuso, todos actos ferozes provindos de um desespero desconhecido, pois Alfred não sabia mesmo de onde é que aquela vontade irracional vinha e tê-lo-ia confundido se não fosse o facto do seu cérebro estar enevoado pelo desejo.
Não foi preciso preparação. Arthur mostrara-lhe um dia que o seu corpo continuava pronto para outra volta vinte e quatro horas depois de uma boa sessão de sexo, quando uma manhã subiu para o colo de um Alfred meio adormecido, depositou lubrificante na sua erecção matinal e simplesmente sentou-se em cima dela. Alfred acordara de imediato, tanto pelo prazer súbito de ficar rodeado pelo calor infinito do corpo de Arthur, como pelo pânico pela possibilidade de o seu melhor amigo estar em sofrimento depois de se ter empalado daquela forma.
Mas aparentemente Arthur estivera mais que bem e qualquer protesto que quisesse escapar pelos lábios de Alfred morreu quando aquele rabo divino começou a mover-se sobre o seu membro rígido.
Alfred deixou que Arthur tratasse da parte da lubrificação. Deixava a maior parte das vezes, não só porque Arthur tinha mais experiencia do que ele, como gostava de sentir as mãos hábeis do outro sobre o seu sexo. E por vezes a boca. Sinceramente, qualquer argumento que tivera para recusar sexo oral pela parte do outro derreteu mal os lábios de Arthur se fecharam sobre a cabeça do seu pénis e Alfred quase quis voltar para o passado para espetar um murro a si próprio por recusar tal maravilha do universo.
Mas agora não era altura para falar disso, Arthur estava ali debaixo de si, aberto, molhado, bem cheiroso e tão excitado que parecia doloroso. Gemeram em uníssono quando a ponta do membro de Alfred provocou descaradamente o local entre as nádegas do outro. Os dedos de Arthur embrenharam-se no cabelo ensopado de Alfred enquanto o puxava para outra batalha de línguas e dentes. Abriu mais as pernas, um convite sem palavras e moveu as ancas para cima para reforçar as suas intenções. Alfred lançou um som primitivo ao ver tal comportamento, colocou as mãos nas coxas firmes do inglês para as manter abertas e decidiu provocar Arthur mais um pouco, roçando-se mas não penetrando. Recebeu um olhar maligno em troca e sabia que se não agisse por conta própria num futuro próximo, Arthur iria resolver o assunto pelos seus meios.
Entrou, então, abafando um som embaraçoso contra a pele no ombro do amigo. Arthur simplesmente arfou com mais força e mordisco-lhe a orelha. Alfred fechou os olhos com deleite, pois tudo queimava na forma mais deliciosa possível, cada toque na sua pele revelava nervos que ele nem sabia que existiam e o calor húmido que acolhera o seu membro era praticamente o paraíso.
As pernas de Arthur rodearam-lhe a cintura, e Alfred sabia que estava preso e não havia escape possível. Não que ele quisesse ir a algum lado, aquilo tudo era demasiado bom para ser abdicado assim sem mais nem menos.
Não foi lento e hesitante, como a primeira vez, ou mesmo estável e risonho, como as outras a seguir. Arthur exigiu movimentos rápidos e ferozes ao grunhir algo e Alfred cumpriu a ordem que foi dada contra a sua orelha.
Não demoraram muito tempo. Nenhum deles tinha propriamente o estamina de um actor porno e estavam demasiado excitados e violentos para conseguirem durar mais do que alguns minutos. Mas era bom, ainda que um pouco sufocante, Alfred investia as ancas desesperadamente e Arthur puxava-o contra si com o mesmo sentimento, com os dentes presos na junção do ombro e pescoço do outro, cheio de intenções em deixar marca.
Alfred gostava dos sons que Arthur fazia. Desde que conhecera Elizaveta e descobrira a paixão que esta tinha por livros homo-eróticos com desenhos japoneses, ficara com a noção errada que o passivo da relação gritava, chorava e baba-se todo no ocorrer da fornicação. Eram formas de pensar ridículas, como era evidente, e aquilo era tudo fantasia. Arthur não gritava, não chorava e tão pouco se babava. A única semelhança que o inglês tinha com os homenzinhos lingrinhas que eram representados naqueles livros era o facto de ele ficar com o rosto incrivelmente vermelho.
Mas Arthur ficava com a cara vermelha por tudo o que requeresse um pouco de esforço físico.
O que escapava pelos lábios do inglês eram gemidos, grunhidos, palavras de encorajamento, ordens, palavrões e uma ocasional ameaça á intimidade do americano.
E Alfred adorava aquilo tudo. Não sabia porquê, a maioria das suas parceiras sexuais limitavam-se ao habitual gemer feminino e uma ou outra indicação do que queriam. Mas Alfred gostava quando Arthur lhe dizia o que fazer, até porque sabia que se fizesse exactamente o que o inglês queria, mais prazer lhe daria e dar prazer aos outros era algo que Alfred apreciava bastante.
Para seu grande embaraço, Alfred atingiu o orgasmo primeiro. O prazer pareceu vir dentro da sua alma e rompeu todo o seu ser enquanto ele se embebia completamente dentro de Arthur mais uma vez. Caiu sem cerimónias em cima do corpo quente que estivera a foder segundos antes e arfou numa tentativa de recuperar o fôlego.
Arthur não disse nada, limitou-se ficar ali deitado e a lançar-lhe um olhar que queria claramente dizer: Deixas-me assim, e eu juro que nunca terás filhos.
Com um pequeno beijo na testa, Alfred tomou o falo ainda excitado do amigo na mão, continuou a investir as ancas apesar de estar exausto, sensível e frouxo, e fez de tudo para satisfazer Arthur. Este estremeceu contra si e gemeu baixinho, e Alfred contemplou, ainda endrominado pelo orgasmo, as expressões extasiadas do amigo, o rubor que cobria toda a extensão de pele suave e húmida do corpo dele, os seus lábios inchados pelo abuso que se abriam para arfar ou lançar pequenos gemidos.
Alfred achou que poderia ficar a ver aquele espectáculo todo o dia.
Mas Arthur não iria durar todo o dia, graças aos céus. A respiração dele ficava cada vez mais descontrolada e o pobrezinho já não conseguia manter os olhos abertos. Agarrou com força os ombros de Alfred antes de petrificar e soltar um som estrangulado enquanto ejaculava.
Ficaram os dois deitados em silencio sobre os lençóis encharcados. Algures no meio do acto de paixão as nuvens pesadas cederam e a chuva começou a cair. O sua melodia monótona e serena juntou-se ao respirar pesado de ambos, e começaram a relaxar um contra o outro e a sentir as mentes voltarem à realidade.
Após uma carícia delicada na bochecha de Arthur com os lábios, Alfred removeu-se do corpo do amigo e rolou para o lado, levando o outro consigo para que a cabeça deste ficasse em cima do seu tórax. Arthur, agradado pelo gesto, retribuiu ao passar com gentileza os lábios pelo seu peito.
_ Agora precisas de outro banho. — Murmurou o inglês enquanto Alfred enterrava o rosto no seu cabelo. — E tenho a certeza que vais chegar atrasado. Já são quase oito horas.
_ E de quem é a culpa?
_ Tua.
_ Minha!? — Fez Alfred com uma indignação fingida, afastando-se para encarar o rosto traquina do amigo — Tu é que vieste invadir o meu duche para me seduzir!
_ Tu é que não tens controlo na tua pila.
_ Era uma escolha entre controlar a minha pila ou aturar os teus amuos por rejeição. Sem ofensa, sabes que eu acho que és um tipo excelente, mas ficas insuportável quando estás amuado.
_ Não fico nada! E digo-te já que tens a pior conversa pós coito que já tive o horror de presenciar!
Alfred rolou os olhos e decidiu que Arthur não merecia resposta. Continuou a aproveitar a sensação de bem estar que um bom orgasmo lhe trazia e traçou linhas incertas por entre as omoplatas salientes do inglês. Sabia que tinha que se levantar, que se a Elizaveta reparasse que ele não estava na cozinha do restaurante a tempo, telefonaria a Matthew e algo doloroso poderia acontecer.
Mas Arthur estava ali, mole, quente, molhado e delicioso. Como raio é que Alfred iria sair da cama?
_ Alfred.
_ Hmmm?
_ Usas-te preservativo?
Preservativo? Que raio de pergunta, é claro que usou, ele não era irresponsável, nunca tivera sexo sem um dos seus amiguinhos de látex serem incluídos e...
Olhou para o seu membro flácido e conclui que este não estava coberto com nada.
_ Ugh...
_ Oh, ew! — Fez Arthur com um esgar desgostoso enquanto se erguia e colocava-se de joelhos. — Obrigadinha, agora tenho que fazer limpeza extra!
_ Como é que eu me ia lembrar de por um preservativo quando tu estava todo agarrado a mim como um polvo obsessivo!
_ É uma regra básica do sexo, Alfred.
_ Bem... tu também não te lembraste do preservativo! — Acusou Alfred defensivamente e cruzou os braços.
_ Não é a minha responsabilidade, eu não meto a minha pila em lado nenhum.
_ Preservativos são da responsabilidade de toda a gente. As mulheres não têm pénis para meter em lado nenhum, e no entanto acho que elas deveriam ter sempre um preservativo na carteira. Por isso, se a culpa é minha, também é tua.
_ Está bem, está bem! A culpa é nossa. — Mas era evidente que ainda atribuía tal esquecimento a Alfred — Agora vem tomar um banho a sério. — Arthur saiu da cama húmida e meteu-se em pé, apenas para lançar um som quase inumano — Ew, ew, está a escorrer!
E correu para a casa de banho.
Alfred suspirou e ficou deitado durante mais um bocado, perguntando-se de quando é que ele e Arthur tinham ficado tão domésticos. Talvez sempre tinham sido ou talvez aquele relacionamento todo tinham-nos tornado mais próximos, tanto no sentido físico como emocional.
A relação deles, aparte do sexo e dos beijos trocados diariamente, não tinha mudado muito. Continuavam a ter conversas estúpidas, as noites de cinema, as visitas à cozinha do restaurante, atirar migalhas de pão aos patos do lago e muitas outras coisas mundanas. Por um lado, Alfred até estava aliviado, pois aquela tensão toda que tiveram durante semanas dissipara-se, mas por outro sentia-se em alerta, pois aquilo iria acabar um dia e ele não sabia se conseguiria voltar ao que eram antes de se envolverem daquela forma.
Levantou-se e retirou os lençóis molhados da cama com o fim de os lavar mais tarde. Ouviu o chuveiro trabalhar na casa de banho e um leve grunhido logo de seguida. Com a mente ainda pesada com os pensamentos sobre a sua relação com Arthur, Alfred colocou os lençóis usados todos a monte à porta do quarto, agarrou duas toalhas extra do armário e juntou-se ao melhor amigo debaixo do jacto de água do chuveiro.
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Arthur estava de bom humor quando saiu da oficina da sua família. Ainda que a chuva impedisse que a construção da casa de Ludwig e Feliciano continuasse, as noticias era de que num futuro próximo o tempo ia melhorar e, apesar do frio insistir em ficar, os aguaceiros cessariam o tempo suficiente para avançar mais um pouco.
Além das boas noticias, o facto de recentemente ter sido merecido tanto sexo ultimamente deixava-o tão relaxado e bem-disposto que até os seus irmãos estranharam. E, como se a foda a que fora sujeito naquela manhã não fosse suficiente, a satisfação que o murro depositado na cara estúpida de Francis Bonnefoy ainda percorria o seu ser com palpitações de deleite.
A perspectiva de tomar um café com o grande chef não o fascinava muito, mas o dia tinha-lhe corrido demasiado bem para se levar a baixo por tal insignificância.
Almoçou novamente com Ludwig e Feliciano, que à medida que o tempo se passava tornavam-se cada vez mais amigos e menos "clientes". Arthur gostava disso, não conhecia muita gente homossexual e era agradável ter outros gays por perto que não fossem parceiro sexuais ou quisessem dar umas cambalhotas com ele. Não que ele tivesse algum problema com todos os hetero da sua vida, mas era bom poder ter alguém com quem falar de sexo sem que essa pessoa lhe lançasse um leve olhar confuso ou, no caso de Scott, por exemplo, um guincho de completo horror.
Enfiou-se na cozinha quando Feliciano e Ludwig se despediram após a sobremesa. Disseram qualquer coisa sobre sestas, mas Arthur tinhas quase a certeza que eles iam simplesmente dar largas ao mundo multicolorido da fornicação homossexual.
Alfred cumprimentou-o alegremente, como se ele fosse um velho amigo que desaparecera durante semanas. Arthur revirou os olhos com toda aquela animação mas deu-lhe um beijo para o recompensar e passou-lhe as mãos pelos abdominais para se recompensar a si mesmo.
_ Sabes que ao contrario de ti, ainda tenho trabalho a fazer. — Comentou Alfred quando se afastaram e apressou-se logo a virar a carne que estava a grelhar de momento.
_ Queres que te ajude em alguma coisa?
_ Lá por teres conseguido torrar pão hoje sem explodir com a minha cozinha, não quer dizer que agora tens aptidões suficientes para seres meu ajudante.
Arthur mostrou-lhe o dedo do meio.
Alfred acabou por não ter a sua ajuda, mas não perdeu a sua companhia. O inglês instalou-se num dos bandos que se situavam perto da bancada, afastado o suficiente para deixar o amigo movimentar-se sem percalços.
_ Almocei outra vez com o Ludwig e o Feliciano. — Comentou Arthur calmamente ao observar Alfred a preparar um hambúrguer com queijo.
_ Hmmm. — Fez Alfred para indicar que estava a ouvir e que queria que ele continuasse a falar.
_ Eu gosto deles. São simpáticos e conseguem ser refrescantes, sabes? É bom ver caras novas, principalmente quando eles são...bem... como eu.
_ Ainda bem que estás a fazer amigos.
_ Suponho que sim. Devíamos combinar um jantar, só nós os quatro.
Alfred lançou-lhe um olhar confuso.
_ "Nós"?
_ Sim, "nós". Tu, eu o Feliciano e o Ludwig. — Retorquiu Arthur sem paciência.
_ Mas... mas eles são um casal.
_ Já estava ciente disso, muito obrigada.
_ E nós não somos um casal.
_ Também sei isso. Onde é que está o teu problema?
_ Eu não... — Alfred bufou, frustrado consigo mesmo, e começou a colocar a carne de hambúrguer dentro do pão. As suas sobrancelhas estavam franzidas e, apesar dos movimentos precisos das suas mãos, o seu olhar estava vagamente distraído — Eu não tenho um problema em concreto, mas é que isso tudo parece-me um bocado... encontro duplo.
_ "Encontro duplo"? — Arthur não conteve o leve sorriso de troça — Onde raio é que foste buscar essa ideia?
_ Bem, é um bocado esquisito quando quatro homens, onde três deles são gays e o outro é... o que quer que seja que eu sou, vão jantar a um restaurante chique todos juntos. Especialmente quando dois deles são um casal.
_ Isso é estupido. — Comentou Arthur sem conter o escarno na voz — É só um jantar, não uma proposta de casamento. Comíamos, conversávamos e depois cada um ia para o seu lado. E mesmo se fosse um "encontro duplo", qual era o problema? Sou assim um par tão horrível? E pensa bem na tua resposta, já tiveste a tua pila enfiada no meu rabo vezes o suficiente para eu as poder usar como chantagem.
Alfred rolou os olhos e acabou de colocar o ultimo pedaço de pão em cima de uma rodela de carne grelhada. Uma vez terminado, e já que não tinha nada de momento ao lume, arrastou-se até onde Arthur estava sentado e inclinou-se um pouco para o agarrar pelas bochechas e soprou-lhe para o rosto.
_ Arthie-kins, ninguém na sua boa mente alguma vez teria um encontro contigo.
Sorriu ao ver a expressão injuriada do inglês e beijou os seus lábios entreabertos pela ofensa. Arthur soltou um som de ressentimento pelo nariz, mas retribuiu o beijo com o mesmo fervor, pois não corresponder um gesto daqueles vindo de um homem do calibre de Alfred era praticamente blasfémia.
Levantou-se para que Alfred não continuasse curvado para a frente (o pobre coitado ainda ficava marreco) e depositou todo o seu peso contra o corpo solido do outro, que o segurou ao rodear os braços fortes pela sua cintura. Era bom saber que mesmo que ele ficasse mole como um fio de esparguete, Alfred estaria lá para o manter em pé, especialmente quando era ele que causava a instabilidade dos seus membros.
Ugh, Arthur não costumava ter sentimentos e sensações que se assemelhavam a uma protagonista de um romance erótico para donas de casa, mas tinha que admitir que a boca de Alfred costumava deixá-lo com joelhos moles. E o sexo, uma vez ou outra, também dependia do estado de espirito de ambos, também já o deixara de pernas bambas.
Arthur deveria ter sugerido coisas gays a Alfred mais cedo. Tipo, anos mais cedo. Todo aquele período de celibato forçado pela falta de pilas interessadas em outras pilas não teria acontecido e Arthur teria vivido muito mais feliz.
Arquejou ao sentir os dedos frios e um bocado pegajosos de Alfred a penetrarem o fundo da sua camisa e subirem pela sua espinha e o calafrio que atravessou o seu ser não conseguiu ser evitado.
_ Pensei que estavas a trabalhar. — Suspirou contra os lábios do americano.
_ E estou. — Retorquiu Alfred num vago tom de superioridade — Neste momento estou a tratar da sobremesa. — E uma das suas mãos desceu as costas de Arthur para se ocuparem com uma das nádegas.
_ Essa foi a coisa mais estupida que alguma vez me disseste enquanto me apalpas o rabo.
_ Não, não foi. Eu uma vez disse-te, se bem me lembro: "Achas que os cães vêm fantasmas?" ao qual tu respondeste: "Alfred, se não me fodes agora, eu mato-te e depois descobres se os cães vêm o teu espirito ou não". — Passou o nariz pela superfície da pele do pescoço de Arthur e este estremeceu — Não foi nada simpático da tua parte.
_ Ser simpático não faz parte da minha personalidade.
_ Ora, ambos sabemos que isso é mentira.
Arthur calou-o com os lábios mais uma vez, porque de momento beijar Alfred era mais interessante do que o ouvir falar. Agarrou-se a ele como uma lapa e atacou-o até ficarem sem fôlego, mas mesmo então não se separaram, preferindo arfar contra a pele da cara de um do outro enquanto se acariciavam com os lábios e se tocavam gentilmente por cima das roupas.
Era como se ele fosse adolescente outra vez, quando se escapulia com o Antonio Carriedo para detrás das bancadas do campo de futebol e passava horas com a boca colada à do outro e a trocar apalpões inexperientes e atrapalhados. Havia algo mais intimo, familiar e seguro com Alfred, mas o sentimento quente e jovial era o mesmo.
Há muito tempo que já não fazia coisas daquelas, curtir com alguém só mesmo para passar um bom bocado e não para os aliciar para o meio dos seus lençóis. Sabia, como era evidente, que ambos naquela noite iriam acabar novamente enrolados por entre a imensas almofadas espalhadas pela cama de Alfred, suados e satisfeitos, mas naquele momento, ali na cozinha do restaurante, beijar e tocar sem grandes perversões era o suficiente.
Alfred afastou-se momentaneamente e sorriu com o som de descontentamento que Arthur soltou enquanto se embrenhava numa busca quase cega pelos seus lábios. Dedos longos e gentis acarinharam a linha do maxilar do inglês durante outro beijo, deslizando até chegarem à orelha e massajarem um ponto particularmente sensível. Arthur grunhiu, apreciativo, e deleitou-se com cada gesto e toque que era depositado em si.
_Deus do Céu!
Surpreso por tal exclamação súbita, Arthur mandou um salto instintivo, o que provocou com que a sua testa, de alguma forma, fosse embater contra o nariz de Alfred. Este soltou um guincho de dor e levou de imediato as mãos até ao rosto para fazer pressão no local ferido.
Olharam os dois até à porta da cozinha, onde Francis os olhava com um misto de espanto e humor. Durante momentos longos ninguém disse nada. Arthur estava petrificado, sem saber o que dizer ou mesmo pensar, Alfred massajava o nariz enquanto um rubor de embaraço e pânico começava a cobrir-lhe a face e Francis limitava-se a dançar com os olhos de um para o outro como se estivesse a tentar pensar em algo importante para proferir.
Finalmente, o famoso chef clareou a garganta.
_ Pois... — Disse ele, vagamente constrangido — A rapariga, Eliza? Bem ela disse-me que estavas aqui, Kirkland. Quando... uh... — Olhou para Alfred com indecisão — Eu espero por ti lá fora para acabares... o que estavas a fazer.
E desapareceu para o restaurante. A grande porta de metal balançou com movimentos frenéticos até abrandar e finalmente parar.
Arthur finalmente saiu do seu transe chocado.
_ Ele sabe!
_ Uhg, acho que me partiste o nariz.
_ Não sejas bebé. — Arthur removeu-lhe a mão do rosto e observou o órgão afetado — Estás ótimo. Mas o cabrão do teu primo agora sabe que nos andamos a comer!
_ Tenho a certeza que ele não vai dizer nada a ninguém. — Murmurou Alfred ao colocar uma mão consoladora no ombro do amigo, mas a incerteza era evidente no seu olhar.
_ Ai, não vai, não. Passa-me uma daquelas facas!
_ Não vais ameaçar o Francis com uma faca de cozinha.
_ Quem é que disse que eu o ia ameaçar? Alfred, fizemos um pacto uma vez que se um de nós matasse alguém, o outro ajudaria a esconder o corpo. Agora é o momento para mostrares a tua lealdade.
Alfred rolou os olhos e depositou um ultimo beijo nos lábios do amigo, que soltou um pequeno roncado de desprazer. Passou-lhe as mãos pelo cabelo desalinhado e acariciou-lhe o rosto. O seu polegar deslizou pela bochecha corada de Arthur e este fechou as pálpebras momentaneamente para saborear a sensação.
_ Vai falar com ele. Ele está à tua espera. E, por favor, não uses a violência. — Pediu Alfred com o sobrolho franzido — Isso só o vai incentivar a fazer o contrário do que lhe pedires.
_ Está bem, está bem, eu vou falar com o imbecil. — Resmungou Arthur e deu dois passos para trás no fim de colocar alguma distancia entre ambos — Mas logo à noite quero uma massagem.
_ Okay.
_ E um banho de espuma.
_ Oka...
_ E acesso ilimitado ao teu pénis.
_ Ew, Arthur!
Mas o inglês deu-lhe uma palmada afetiva na cara, ignorou o sobrolho carregado do outro e saiu da cozinha. Passou por Elizaveta, retribuiu o sorriso e aceno que esta lhe lançou e marchou ameaçadoramente até à mesa onde o seu bullie do Liceu.
Francis estava sentado descontraidamente com um copo longo de uma bebida qualquer multicolorida quando Arthur se aproximou como uma nuvem de tempestade. Ao notar na sua sombra, o chef ergueu o olhar e cruzou-o com o do arquiteto.
Qualquer choque ou surpresa tinham desaparecido da expressão de Francis e tudo o que sobrara foi uma satisfação imensa e um sorriso mesquinho.
Arthur cerrou os punhos, puxou uma cadeira com brusquidão e sentou-se sem qualquer elegância. Inclinou-se para a frente, numa tentativa de parecer intimidante, que foi recebida com indiferença, ao julgar pelo rosto pouco impressionado do outro, e estalou com a língua.
_ Tu e eu... — Disse após alguns momentos de silêncio — Vamos ter uma conversa.
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