Sure, Why Not?
12 Capitulo 12
Notas iniciais
_ Shhhh! – Fez Arthur bruscamente, ainda que um sorriso espreitava pelos cantos dos seus lábios.
Alfred colocou uma mão na boca para conter outra gargalhada insana e inebriada e agarrou-se ao casaco de Arthur quando tropeçou num degrau. Ouviu um o grunhido rabugento do amigo e não conteve o riso, que ecoou sonoramente pelos corredores vazios e escuros do prédio.
Com as bochechas vermelhas de embaraço, Arthur puxou americano pelas escadas a cima. Era quase uma da manhã e estavam ambos no edifício onde o inglês vivia, a caminho do apartamento deste para se envolverem em… coisas picantes. O que Arthur não esperara quando fora buscar Alfred ao restaurante, é que este estivera a beber licores com o Francis assim que a cozinha ficou arrumada e agora encontrava-se um pouco bêbedo.
_ Faz pouco barulho! – Sussurrou Arthur ao procurar as chaves de casa de dentro do bolso das calças – Ainda acordas os vizinhos!
_ Desculpa! D-desculpa! – Arfou Alfred de volta, ainda a tremer pelas risadas.
Houve um rolar de olhos vindo de Arthur quando chegaram à porta do seu apartamento. Enxotou Alfred, que se inclinara sobre o seu ombro e, após algumas tentativas falhadas graças à falta de iluminação, lá conseguiu enfiar a chave dentro da fechadura e abrir a passagem para dentro da sua habitação.
Uma vez dentro do apartamento, Arthur fechou a porta e trancou-a, pois o filho mais velho do vizinho de cima começara a roubar no intuito de ter dinheiro para as drogas e o arquiteto não estava com a disposição de dar uma carga de porrada a um adolescente invasor de propriedades. Já o tinha feito antes, e não foi agradável.
_ O teu apartamento é tão pequeno. – Resmungou Alfred ao atirar a mochila com os seus pertences para o chão e sentar-se no desconfortável sofá que se situava no meio da sala/cozinha.
_ Tu é que és pequeno. – Retorquiu Arthur infantilmente ofendido.
_ Eu sou maior que tu em todos os aspetos.
_ Exceto no cérebro.
Alfred lançou um grunhido e deitou-se. Estendido, não cabia no sofá e as suas pernas ficavam de fora. Arthur retirou o casaco e pendurou-o no cabide que estava preso à parede ao pé da entrada. Estava um pouco de frio, ainda que fosse consideravelmente mais tolerável do que a temperatura que se fazia na rua, e o aquecimento foi ligado de imediato para ter a certeza que não congelavam ali dentro.
_ Alfred, sai daí.
Houve uma torrente de palavras incompreensíveis e Alfred rolou para o lado, espetando-se no chão com um ganido. Arthur abafou o riso com o punho mas não foi salvo do olhar indignado que o amigo lhe lançava.
Apesar dos olhares, Alfred não mostrou qualquer vontade de se levantar do chão. A exaustão de um bom dia de trabalho e a inebriação de um convívio com o primo e umas garrafas de licor tornaram-no mole e sonolento.
Arthur suspirou e colocou as mãos nas ancas.
_ Vais ficar aí toda a noite?
_ Ugh.
_ Anda lá, seu gorila. – Com grande esforço, Arthur obrigou Alfred erguer-se ao puxa-lo pelos braços. Praguejou quando o americano depositou todo o seu peso em cima de si e cambaleou até ao seu quarto. Atirou o cozinheiro para a cama sem qualquer cerimónia e respirou fundo pelo alívio de se livrar de tal fardo. – Meu Deus… – Arfou e deu uma palmada ligeira no pé calçado de Alfred – És pesado. – Não recebeu grande resposta a não de ser um leve ronco e um olhar semicerrado – Estás uma desgraça. É óbvio que não vai haver festa hoje. – Murmurou sem grande desapontamento, porque nem estava com muita vontade de se envolver em relações sexuais de momento.
_ N-não, vem cá! – Desajeitado, Alfred sentou-se e gesticulou com os braços para que Arthur se aproximasse. Ele não se mexeu – Anda cá, seu merdas, e eu dou-te forte e feio.
_ Hmm-hmm. – Fez Arthur, meio divertido, e começou a descalçar Alfred – É claro que vais, amor. Nos teus sonhos.
Com um gemido frustrado, Alfred voltou-se a deitar e lançou um olhar meio confuso para o teto.
_ Vais usar um uniforme de chearleader nos meus sonhos. – Murmurou fantasmagoricamente.
_ Tenho a certeza que vou ficar extremamente sensual. – Após retirar as peúgas do amigo, Arthur virou-se para as calças. Desapertou-as com cuidado antes de virar o rosto para cima e ordenar – Levanta o rabo, se faz favor – Alfred grunhiu qualquer coisa e ergueu as ancas para facilitar a retirada da peça de vestuário.
Extrair o casaco foi mais difícil, pois o americano mostrou-se inútil no que dizia respeito a mexer o que quer que seja para ajudar o arquiteto.
Dez minutos depois, Arthur encarou, vitorioso, o cozinheiro bêbedo, todo despido com exceção aos boxers amarelos com porquinhos azuis. Depositou o vestuário de Alfred cuidadosamente dobrado em cima de uma cadeira que estava num canto, ao pé da janela. Foi buscar num ápice a mochila que Alfred descartara na sala e retirou de lá o pijama do amigo. Dormir sem um desses enquanto caminhavam para um inverno frio, chuvoso e, possivelmente, com neve, seria suicídio.
_ Alfred, para de ser uma lesma embriagada e veste o pijama. – Ordenou Arthur ao voltar para o quarto e atirou os pertences do americano para cima deste.
Após palavrões, puxões e muitos outros “ões”, Alfred finalmente estava quentinho e confortável dentro dos lençóis da minúscula cama de Arthur, vestido com o seu pijama castanho com ovelhas verdes.
Arthur não sabia onde raio é que o amigo ia comprar as suas roupas mais íntimas, mas estas queimavam-lhe os olhos.
Vestiu o seu próprio pijama, que era simples, sem qualquer padrão de um animal qualquer e todo de um verde-escuro uniforme, agarrou uma almofada e uns cobertores que guardava no armário e preparou-se para sair do quarto.
_ Onde é que vais? – Perguntou Alfred num murmúrio.
_ Uhh, vou dormir no sofá.
_ Não, não vais. Anda para aqui.
_ Alfred, a minha cama é demasiado pequena para nós os dois. – Disse Arthur sem muita paciência – Vai dormir.
Desligou a luz e a escuridão envolveu o quarto, interrompida apenas pelos números verdes do relógio digital e o feixe dourado que passava pela porta. Arthur ajeitou a almofada e os cobertores nos seus braços para não caírem e encaminhou-se para a sala.
_ Arthur.
Paralisou sem saber bem porquê, pois Alfred estava apenas a ser um bêbedo ensonado e birrento, mas a suavidade desesperante com que ele disse o seu nome tirou-lhe o folego. Arthur sentiu-se indeciso, pois parte de si queria aninhar-se a Alfred e entregar-se ao mundo dos sonhos, mas outra dizia-lhe que era um gesto demasiado íntimo.
Era estranho pensar de tal forma, mas dormir com um homem, e só dormir, parecia-lhe mais pessoal do que foder alguém e adormecer convenientemente ao seu lado. Nenhum laço de extrema importância parecia ser criado quando isso acontecia. Acordavam no outro dia, trocavam umas palavras e continuavam as suas vidas normalmente e, se o sexo tivesse sido satisfatório o suficiente, podiam até repetir a festa.
Mas Alfred não era um homem qualquer. Ele era o seu melhor amigo, e merecia um pouco mais de consideração do que os outros com que Arthur dormira. Talvez o ato de dormir, e só dormir, na mesma cama que ele fosse um pouco íntimo demais, mas já o tinham feito antes, durante a adolescência. Tudo bem que na altura dormiram um para cada lado, sem se tocar, mas o gesto era praticamente idêntico.
Com um suspiro pesado, Arthur colocou os cobertores e a almofada no chão, porque não lhe apetecia ir ao armário outra vez. Desligou a luz da sala e tateou aparvalhadamente o espaço para não bater em lado nenhum.
Uma mão grande rodeou o seu pulso e um guincho que ele negaria para o resto da vida escapou pelos seus lábios. Caiu sobre o corpo sólido de Alfred e sentiu o calor dos cobertores envolverem-no, protegendo-o contra as garras do fim do outono. A sua cama era praticamente microscópia, e ele não sabia que magia negra é que Alfred fez mas, aninhado contra o peito largo do amigo, com o queixo deste enroscado no seu cabelo e as pernas de ambos entrelaçadas, Arthur não conseguiu arranjar nenhuma queixa ou descontentamento, e deixou-se levar pelo sono.
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Mãos quentes percorriam o seu corpo num gesto que não mostrava sensualidade, mas sim um afeto de derreter o coração. Eram caricias suaves, como se quem lhe tocasse estivesse a tentar memorizar e saborear cada momento e Arthur não conseguiu impedir o leve grunhido de aprovação e aconchegou-se mais ao calor solido que o rodeava.
Pestanejou, ensonado, ao sentir lábios quentes contra o topo da sua nuca e fitou as ovelhas verdes do pijama de Alfred. Como por instinto, Arthur enroscou a face ao pescoço do amigo e inalou o aroma destinto deste.
_ Bom dia. – Ouviu ele a voz de Alfred vibrar contra si.
Respondeu com um gemido seco, ainda demasiado enfiado no mundo dos sonhos para formar frases coerentes. Sentiu os lábios de Alfred formarem um sorriso e o seu corpo foi abraçado com mais força.
Era uma forma estranha mas doce de acordar assim, enroscado nos braços doutra pessoa, a receber beijos miúdos e toques leves. Fazia aquele ato de voltar à realidade muito mais fácil, como se acordar não fosse uma tortura.
_ Que horas são? – Perguntou Arthur com a voz rouca.
_ Sete e meia.
_ E já estás acordado? Não devias estar a morrer num canto, cheio de vómitos e dor de cabeça por causa da ressaca?
_ Não me confundas contigo e a tua inabilidade de consumir álcool. – Resmungou Alfred contra o cabelo louro do amigo – E não eu não estava assim tão bêbedo.
_ Hum-hum. – Riu-se Arthur. Afastou a cabeça um pouco para encarar o amigo e fitou olhos azuis, semicerrados com sono e irritação. Tentou libertar as pernas do aperto das do outro, mas ao fazê-lo passou as ancas perto das virilhas de Alfred e paralisou – Tens uma arma dentro das calças ou estás feliz por me ver? – Perguntou com um sorriso mesquinho e pressionou-se provocadoramente contra a intimidade rígida do Americano.
_ É um fenómeno completamente vulgar durante a manhã.
_ Queres que trate disso por ti?
_ Nah. – Com alguma ginástica, Alfred conseguiu movimentá-los no espaço reduzido sem que eles caíssem da cama, até ter Arthur debaixo de si, com o cabelo louro espalhado com rebeldia pela almofada e os lábios curvados num sorriso maroto – Podes ficar aí quieto enquanto eu me aproveito de ti.
_ Ora, isso seria muito aborrecido para mim. – Retorquiu Arthur e uma das suas sobrancelhas ergueu-se – Espera aí – De alguma forma conseguiu esticar-se todo e remover um pequeno pacote que se encontrava em cima da mesinha de cabeceira. – Toma aqui uma – Eram pastilhas de mentol que ele gostava de ter consigo sempre que acordava, para aliviar o hálito pesado da sua boca depois de uma boa noite de sono. Enfiou uma por entre os lábios enquanto Alfred consumia outra e mastigaram em silêncio durante algum tempo, ainda na mesma posição, com um em cima do outro.
_ Tens sempre estas coisas por aqui? – Perguntou Alfred por entre sons babados e sonoros de dentes a chocalharem com o material elástico da pastilha.
_ Não te ia dar beijos enquanto a tua boca cheirava a doninha putrefacta.
_ Bem pensado. – Alfred baixou a cabeça para depositar um casto beijo nos lábios. Arthur estremeceu com um estranho deleite que pouco tinha de sensual, mas que o aquecia por dentro com um sentimento desconhecido e desconcertante. Levou as mãos ao rosto do amigo e deliciou-se com a sensação rugosa de uma barba curta e jovem contra os seus dedos.
_ Precisas de fazer a barba. – Informou Arthur com um sorriso.
_ Olha quem fala, a tua cara parece um cato.
Arthur franziu o sobrolho e passou uma mão na sua face.
_ Não está tão má como a tua. – Hesitou – Incomoda-te? – Alfred estava habituado aos rostos lisos e macios tão característicos do sexo feminino, a existência dos minúsculos pelos salientes na cara do inglês poderiam perturbá-lo – Eu posso ir tratar disto num instante.
_ Não vais a lado nenhum. – Murmurou Alfred contra o seu queixo e colocou mais peso em cima do seu corpo – Vais ficar aqui quietinho e pudemos enroscar as nossas barbas.
_ Nunca ouvi nada mais sensual em toda a minha vida.
_ Hmmm. – Alfred roçou o nariz pelo pescoço de Arthur – Eu queria curtir contigo neste momento, mas fazer tal coisa com uma pastilha na boca parece-me um bocado nojento.
_ Há um maço de lenços na gaveta, tira de lá um.
Alfred assim o fez. Uma vez com o lenço na mão, cuspiu para lá a pastilha e pediu a Arthur que fizesse o mesmo. Este foi um bocado mais delicado e retirou-a com os dedos. O lenço foi descartado para cima da mesinha de cabeceira, onde ficou enrolado e solitário.
Arthur ia comentar alguma coisa, provavelmente um insulto idiota, mas a boca quente e esfomeada que cobriu a sua travou qualquer palavra que pudesse sair. A sua garganta tremia com um ronronar aprovador, o seu corpo aquecia gradualmente no turbilhão da luxúria e nada mais importava a não ser a suavidade e maciez dos lençóis, a fofa almofada onde tinha a cabeça e o corpo sólido de Alfred que, hipoteticamente, o cobria e protegia de todos os males do Universo.
Sexo com Alfred tornava-se cada vez mais divertido. Era bastante soft no que dizia respeito a kinks, ainda nem tinham passado para outras divisões a não ser o quarto, quanto mais usar o auxílio de brinquedos ou vestir roupas picantes, mas Arthur não conseguia queixar-se porque apesar de suave e absolutamente baunilha, até era bom. E sentia que com Alfred, não havia qualquer necessidade de fingir o que quer que seja. Não tinha que agir como se fosse a coisa mais sexy do Universo, não tinha que se obrigar a submeter só porque o seu parceiro achava que ficava menos homem se fodesse alguém com algum fogo dentro de si, não tinha que fazer expressões inocentes e chamar ninguém de papá, céus, esse tinha sido o sexo mais perturbador que alguma vez tivera, se Alfred alguma vez lhe pedisse para dizer tais coisas, teriam que reconsiderar a aquela relação.
E Alfred, agora que já se sentia mais seguro e já sabia mais ou menos trabalhar com o corpo de outro homem, mostrou-lhe que piadas também poderiam ser feitas no decorrer de relações carnais, tal como discussões profundas sobre programas de televisão. Uma semana antes, na cama do americano, passaram a sessão de sexo toda a discutir o que era melhor: Se os livros ou os filmes de Harry Potter. Arthur nunca pensara que alguma vez iria criticar uma saga de filmes enquanto tinha um pénis ereto enfiado pelo cu a cima, mas tal proeza foi feita, e com frases relativamente coerentes. Tal facto era um orgulho para a sua pessoa.
_ Queres panquecas? – Perguntou Alfred enquanto obrigava Arthur a retirar a sua camisa de pijama – Apetece-me umas panquecas. Umas boas e belas panquecas – Começou a beijar o peito do arquiteto – Com toneladas de xarope por cima – Ergueu-se um pouco para que Arthur pudesse puxar-lhe as calças para baixo – E um bocadinho de manteiga derretida escorrer.
_ Isso parece-me extremamente calórico. E eu não tenho nada disso aqui em casa.
Alfred rolou os olhos, baixou as ancas e roçou o seu membro excitado contra o de Arthur, que soltou um som de apreciação.
_ Não tens ovos, farinha, leite e margarina?
_ Eu não como aqui muitas vezes. Ou vou a casa dos meus pais ou vou ao teu restaurante.
_ É por isso que és uma merda na cozinha, é falta de prática.
Arthur franziu o sobrolho enquanto rodeava as ancas de Alfred com as pernas e saboreava a sensação quente das intimidades de ambos interagirem uma com a outra.
_ Eu não sou uma merda na cozinha. Sei fazer scones.
_ Arthur, da última vez que comi um scone teu, fiquei com diarreia durante três dias.
_ E como é que sabes que a culpa foi do scone? Pode ter sido coincidência.
Tudo o que recebeu foi um olhar óbvio vindo da parte do seu melhor amigo. Apertou os lábios para não sorrir e levou a mão para baixo, num serpentear delicado por entre os corpos, até rodear os membros de ambos e apertar com delicadeza. Alfred grunhiu baixinho contra a sua bochecha.
_ Se não parares de criticar a minha comida, faço uns “burritos” e obrigo-te a comer cinco de seguida.
_ Oh, não, acho que morria.
Arthur riu-se e a mão de Alfred juntou-se à sua na ação de os estimular aos dois. Era maior e mais larga que a sua e cobria mais terreno, tal como trazia mais deleite.
Enquanto trocavam palavras estupidas, risos, beijos amigáveis, desfizeram-se um ao outro só com as mãos, sem necessidade de nada mais profundo ou complexo. Só as mãos, como se fossem adolescentes, jovens e despreocupados com o mundo, apenas movidos pela excitação necessidade de companhia. Era cálido, aprazível e nostálgico, e Arthur decidiu que se pudesse acordar com aquilo todos os dias para o resto da sua vida, provavelmente seria bastante feliz.
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A chuva complicava a construção da casa de Ludwig e Feliciano e a obra foi suspensa até o tempo melhorar. O grande alemão não parecera particular mente perturbado com a noticia mas o seu minguo companheiro quase se desfez em lágrimas quando Albert Kirkland lhe deu as noticias.
Apesar disso tudo, Arthur continuava num estado de espirito excelente, sentia-se animado e energético e até desenhava unicórnios guerreiros com espadas de fogo num bloco de notas. Não demorou muito até Scott reparar no seu bom humor.
_ Porque é que estás tão alegre? – Perguntou ele secamente, encostando-se na sua cadeira. Estavam no escritório da oficina, sentados num lado da mesa enquanto Albert discutia o negócio com Ludwig e Feliciano. – Finalmente voltaste a ver Doctor Who?
Arthur enrugou o nariz.
_ Eu nunca deixei de ver, só não gosto tanto como gostava antes.
_ Então essa tua felicidade não é por causa de Doctor Who?
_ Não, sem dúvida que não é por causa de Docto Who.
_ Sherlock?
_ Nunca vi. E não tem nada a ver com televisão, nem é da tua conta.
Scott inclinou-se para dar uma vista ao bloco de notas onde Arthur rabiscava e este esboçou de imediato um pénis deformado com testículos desproporcionais.
_ Que bonito. – Disse Scott secamente – É baseado em alguém que conheces?
_ O homem dos teus sonhos.
_ … Tu és um pequeno caralho, sabes?
_ Não, este aqui… — Apontou para o pénis presente no bloco de notas – É um pequeno caralho, e vai ser o teu futuro marido.
_ Continuas a falar e enfio-te esse bloco pela goela abaixo. – Ameaçou Scott num rosnar baixo e colocou a mão na parte de trás do pescoço do irmão.
Arthur sorriu com mesquinhez e ergueu as sobrancelhas de forma sugestiva.
_ Desculpa, mas este não é o tipo de caralho que estou habituado a comer.
_ Ew, Brody! – Chamou Scott e virou-se para o lado oposto a Arthur, onde se encontrava Brody, que o ignorou – O Arthur está a divulgar coisas gays que eu não quero saber.
_ Se não queres saber, deixa-o em paz. – Respondeu Brody sem paciência para as infantilidades dos irmãos e tentou voltar-se para a conversa do pai e dos seus clientes.
Scott cruzou os braços, amuado pelo seu horror ter sido descartado pelo outro e não dirigiu mais a palavra a ninguém. Arthur virou a página do bloco e começou a desenhar uma cena homoerótica entre o elfo Legolas e o anão Gimli da saga de “O senhor dos anéis” e, uma vez terminado o rascunho, colocou-o sorrateiramente em frente de Scott que, distraído, demorou um pouco a perceber-se de que estava a ser apresentado de algo.
_ Oh meu Deus, que merda!? – Guinchou ele num tom de extrema virilidade e Arthur riu-se abertamente com o choque na sua expressão – Eu nem…!? O que…? Como é que isto funciona!? – Levou o bloco ao nariz como se estivesse a tentar decifrar algo muito complexo.
_ Rapazes! – Bramou Albert na sua voz de pai e tanto Scott como Arthur encolheram-se nas suas cadeiras – Parem com as conversas, estamos a tratar de um assunto sério.
Pediram desculpa pelo incómodo e ficaram em silêncio durante alguns minutos, até que o aborrecimento levou a melhor e começaram a escrever mensagens retardadas alternadamente e a desenhar coisas ofensivas um ao outro no bloco.
No seu canto, Brody fingiu que não os conhecia.
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_ Kirkland! Hei Kirkland!
Arthur estava a sair da carrinha quando ouviu o seu nome e franziu as sobrancelhas ao virar-se para encarar quem o chamava. Sentiu o seu bom humor a ser sugado pelo aspirador da melancolia ao ver Francis Bonnefoy correr na sua direção.
Esteve quase a entrar na sua carrinha e sair dali antes do homem o alcançar, mas tinha um lanche marcado com Feliciano e seria rude da sua parte baldar-se a tal encontro.
Por isso limitou-se a fingir que não tinha ouvido nem visto o Chef de alta gama que se aproximava e trancou a sua bebé antes de lhe dar uma festinha afetiva no capô.
_ Olá!
Arthur grunhiu-lhe algo incompreensível para retribuir o cumprimento e fitou-o de sobrolho carregado. Francis estava todo bem vestido, penteado e perfumado, como sempre. Não havia qualquer falha com a sua aparência e Arthur sentiu-se inferior com o seu cabelo rebelde, roupas largas de trabalho e a cheirar a óleo de motor (Scott passara uma mão nojenta pela sua cara como vingança pelas suas ações naquela manhã).
_ Se não és a criatura mais alegre que já vi hoje. – Comentou Francis com sarcasmo e a expressão de Arthur ficou ainda mais negra.
_ Queres alguma coisa? – Rosnou sem paciência e, para se distrair da presença indesejada, ajeitou o se cachecol em volta do pescoço.
_ Hei, hei, não é preciso seres tão antipático.
Arthur limitou-se a lançar-lhe um olhar desagradado.
_ Está bem, está bem, ainda não gostas de mim, mas estou desposto a mudar isso!
Tudo o que Francis recebeu foi um olhar desconfiado. Passou uma mão delicada pelo seu cabelo ondulado e brilhante, que se manteve na total perfeição depois do gesto e fitou Arthur com algum nervosismo.
_ Voltei aqui para visitar a minha família e emendar relações menos… amigáveis.
_ Já estás aqui há mais de um mês, se querias “emendar” a nossa relação, ou lá o que seja, porque é que só estás a falar comigo agora?
_ É um bocado difícil falar com alguém que está sempre a evitar-me. – Comentou Francis. Arthur lançou um som irritado, mas não disse nada – E sempre que te vejo, estás com o Alfred, e acho que o nosso assunto não deve ser abordado na sua presença. Ele… ele não sabe, pois não?
_ Do quê? Dos nossos encontros na casa de banho onde enfiavas a minha cabeça em sanitas? Não. Achas mesmo que a tua cara ainda estaria tão bonita se ele soubesse?
Francis estremeceu só de pensar na possível raiva do seu primo e levou uma mão á sua face numa caricia protetora. Arthur observou-o com uma imensa vontade de ser ele a tocar-lhe no rosto. Com o punho fechado.
_ Pois… — Fez Francis num tom suave – Não lhe digas nada.
_ Eu nunca lhe disse nada sobre isso e nunca direi. Não é da sua conta.
Ficaram em silêncio durante algum tempo, Arthur recusava-se a continuar a conversa e esperava que Francis proferisse mais alguma palavra. No céu cinzento, nuvens gordas e pesadas preparavam-se para libertarem os aguaceiros. Não havia ninguém na rua. Tinham-se abrigado no restaurante dos Jones ou na padaria da esquina.
_ Olha... – Começou o famoso chef – Eu quero começar tudo de novo, está bem? Somos adultos, temos as nossas vidas e não há razão nenhuma para não sermos amigos.
_ Enfias-te a minha cabeça numa sanita pública. – Disse Arthur com desdém – Para mim isso é razão suficiente para te mandar para o caralho.
_ Vá lá, eu estou a tentar! Tens que cooperar também! – Pediu Francis enquanto juntava as mãos em frente do peito – Eu faço o que quiseres! Diz-me o que é que queres e eu faço-o.
_ Podes começar por tirares a tua cara da minha frente.
_ Por amor de… Kirkland! És um homem extremamente difícil de satisfazer!
_ Nem por isso, ainda hoje fiquei muito satisfeito e não foi preciso muito trabalho. Tu é que não tens qualquer talento para o fazer.
Francis franziu as suas sobrancelhas delicadamente cuidadas ao ouvir as suas palavras e Arthur viu o exato momento em que a compreensão destas tinha chegado ao cérebro do seu antigo atormentador.
_ Hmm, foi alguém que eu conheço?
_ Não é da tua conta.
_ Estou a tentar fazer conversa!
_ Eu não quero conversar contigo.
_ Vá lá! Eu pago-te um café!
_ Eu já tenho um lanche combinado com amigos.
_ Jantar?
_ É noite de cinema, vou jantar com o Alfred.
_ Almoço amanhã?
_ Ouve! – Já estava a perder a paciência – Eu não quero ter nada a ver contigo, está bem? Fiquei muito feliz quando foste para a França, fiquei felicíssimo quando soube que ias lá ficar e agora a minha felicidade foi sugada quando regressaste. E só quero viver a minha vida sossegado e, sinceramente, a única razão porque alguma vez fui minimamente cívico para contigo, foi pelo Alfred. Devias agradecer-lhe. – Limpou a sujidade inexistente do seu casaco e fez um ar altivo – Agora se não te importas, tenho assuntos a tratar.
Passou por Francis, irritado pela presença esbelta do outro e das memórias negativas que este lhe trazia. A lata do homem, pedir-lhe amizades depois de todo o tormento que o fizera passar durante a adolescência. Bem, ele podia ir-se foder, porque um Kirkland guardava ressentimento durante muito tempo se não pudesse recorrer à violência para resolver a situação, e como Arthur na altura tivera um pouco de vergonha (como informar o mundo qua a nossa cabeça estivera enfiada numa sanita sem morrer de embaraço?) não fizera nada ou chamara os irmãos para fazerem por ele.
A sede por vingança ainda borbulhava dentro do seu corpo, mas agora ele era adulto, profissional e educado, não iria andar por aí à pancada com qualquer um.
Com exceção aquela vez na casa de banho pública do restaurante chique.
Começou a chover de mansinho, apenas uma ou outra gota caiam ao acaso no chão e Arthur praguejou quando o seu nariz foi atingido.
_ Kirkland!
_ O que foi agora? – Inquiriu o arquiteto, rabugento, enquanto limpava o nariz com a manga do casaco.
Francis aproximou-se com uma expressão decidida estampada no rosto.
_ Se eu te deixar dares-me um murro, deixas que eu te pague um café amanhã?
Houve mais um silêncio constrangedor enquanto Arthur considerava a proposta de Francis. Por um lado, queria recusar e continuar a sua tarde sem qualquer percalço. Voltaria à sua rotina de fingir que Francis não existia até este voltar para França. Mas pelo outro lado, podia dar-lhe um murro, ficar satisfeito, mas depois ter que o aturar no dia seguinte. E ele não tinha qualquer desejo em continuar na presença do chef.
Mas… murro.
O ganido que Francis lançou quando o punho fechado da quarta cria de Helen Kirklan embateu no seu nariz ecoou pela rua vazia e um deleite sádico aqueceu o estomago de Arthur. Respirou fundo, abanando a mão para aliviar o ardor da pancada e virou costas ao homem que tinha ambas as mãos na cara e lançava pequenos soluços de dor.
A chuva começou a cair, agora com força, e Arthur apressou-se a correr para o restaurante, mas não antes de ouvir:
_ Como é que uma coisa tão pequena tem tanta força!
Sorriu ao abrir a porta e deixar-se amornar pelo calor acolhedor do estabelecimento.
O seu bom humor regressara.
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