Suplício
1 "— o que está acontecendo aqui?"
2009
— isso é inaceitável Pedro, eu não vou permitir – disparou Guilhermina – primeiro você promoveu ela, eu até permiti porque ela executou bem o trabalho dela, dá pra aguentar, agora querer levar ela pra dentro de casa?
— cuidado com o modo como você se refere a minha mulher mãe, é só uma questão de tempo até nos casarmos, e quanto a promoção da Sônia ela só continua trabalhando porque ela quer, pois eu já deixei claro que sustentaria ela, a mãe dela e a filha dela sem o menor problema – contra-argumentou Pedro na maior calma do mundo, o que deixava sua mãe ainda mais irritada.
— meu filho, só você não vê, só você não enxerga que é um golpe do baú, mas é normal, homens são todos idiotas quando o assunto é mulher, então me escute Pedro, você não vai ser feliz do lado dela, assim que ela conseguir o que quer ela vai te dar uma pé na bunda.
— mãe, eu poderia passar horas tentando argumentar sobre o quanto a Sônia e eu nos amamos, mas não valeria a pena. Eu sei do nosso amor e da nossa história e é isso que me importa e o que está em discussão aqui não é se vou ou não me casar com ela, mas sim se eu vou morar com você ou se construirei a minha própria casa, coisa que eu já teria feito a muito tempo, mas sempre insistiu pra eu não sair de casa.
— Pedro, escuta o que eu vou te dizer. Ela era faxineira, depois virou sua secretária, hoje ela trabalha em um cargo de confiança pra você. A mãe solteira faxineira que casa com o patrão rico, você realmente acha que isso daria certo? Mesmo que vocês se amem tanto quanto você diz, com toda essa diferença social discrepante entre você, vocês dois sendo de mundos completamente diferentes você realmente acha que isso vai dar certo meu filho? Essa Sônia não é mulher pra você meu filho, volte pra Laura, ela sim é a mulher que vai te fazer feliz.
— pelo amor de Deus dona Guilhermina, ouça o que você mesma está dizendo, faz quase dois anos que eu e a Laura terminamos, não tem mais nada a ver nos dois, bom olha mãe, a gente já alongou demais essa conversa. Você vai aceitar a minha mulher ou eu vou precisar sair de casa? — Pedro mudou completamente seu tom paciente para um tom mais firme, deixando claro para a mãe que não estava brincando.
— se você fizer isso eu te demito da empresa Pedro – rebateu Guilhermina, seca.
— você não pode me demitir do que é meu Guilhermina, quando meu pai morreu, tudo foi divido meio a meio entre eu e você, metade do bando é meu – Pedro estava chocado com o que acabara de ouvir, porém não ia mostrar que estava abalado. Ele conhecia a mãe e sabia que ela se fortalecia cada vez mais quando alguém demonstrava fragilidade perante ela.
— eu não vou permitir que nenhuma mulher fique entre nós meu filho, não vou.
— mas quem está fazendo disso uma guerra é você. Mas tudo bem, eu entendi a sua resposta. O ano está quase acabando mesmo, até o fim do ano eu já arrumei tudo, inclusive o lugar pra onde irei me mudar — Pedro virou-se e saiu do escritório da mãe sem dar a ela a chance de responder, ele estava cansado daquele embate e não queria mais continuar. Fazia um ano que ele estava com Sônia e era sempre a mesma coisa.
Porém Guilhermina não tinha o apelido de “Dama de Ferro” a toa, ela já sabia como agir para separar o filho de Sônia, então ela pegou o telefone, na lista de contato ela procurou o nome “Laura” e apertou em “chamar”…
Pedro saiu da sala da mãe e foi até sua sala, onde estava Sônia. Quando ele abriu a porta e a viu, esqueceu momentaneamente de todos os problemas, só o fato de estarem perto um do outro já deixava ambos felizes.
— e aí? — perguntou Sônia, porém ela já sabia da resposta, afinal ela conhecia a sogra que tinha.
— é amor, acho que vamos comparar aquele duplex – disse ele sorrindo.
Sônia levantou-se e foi até Pedro, o abraçou a dei um beijo nele.
— sabe amor, é até melhor, vamos começar uma vida nova juntos num canto só nosso.
Sônia estava mesmo esperando que Guilhermina não aceitasse, afinal morar na casa da mulher que não gostava dela seria um inferno, ainda mais que ela teria que ela precisaria levar sua filha e sua mãe, pois era ela quem sustentava Estela e a pequena Paula e Pedro não via problemas nisso, ele aceitava e gostava de toda a família de Sônia.
— mas o mais triste é que não vamos nos ver hoje a noite – disse Pedro.
— vamos sim amor, só que mais tarde. Tenho a apresentação da Paulinha na escola, mas depois eu vou pra sua casa.
— logo logo esse trânsito todo acaba amor – disse Pedro beijando-a – vamos morar juntos e ser uma família completa.
No final do expediente quando Pedro chegou em casa, Sônia o estava esperando.
— Pedro, precisamos conversar.
— é, eu sei, mas você já está mais calma? — indagou Pedro a mãe, em um tom defensivo.
— você sabe que desde que perdi seu pai você é a única família que eu tenho meu filho, você e o banco são tudo o que eu tenho, então é por isso que as vezes eu posso ser superprotetora, mas é normal, você precisa entender que toda mãe é assim, eu apenas sou um pouco mais direta que as outras mães, o que você precisa entender é que para uma mãe, mulher nenhuma é boa o suficiente para o filho dela.
— pois é dona Guilhermina, ninguém pode te acusar de ser sutil – disse Pedro, dando um sorriso e abaixando a guarda.
— vamos jantar? — disse Guilhermina sorrindo.
Pedro ficou feliz com a atitude da mãe, ele achou que ela estava tentando acertar as coisas entre eles, porém ele não fazia ideia dos reais planos da mãe.
Os dois jantaram e os dois foram para a sala assistir TV. Guilhermina dava muita importância para esses pequenos momentos em que passava com o filho.
— vou pegar uns drinques pra nós. O meu uísque só com gelo pois é assim que mulheres poderosas fazem – disse Guilhermina dando uma gargalhada.
— você mesma vai pegar, sem mandar ninguém fazer isso pra você? Quem é você e o que fez com a Guilhermina? — disse Pedro sorrindo.
— eu não disse que estou tentando mudar?
Guilhermina chegou na cozinha e então pegou dois copos de uísque e colocou a bebida nos dois, então Laura veio em direção a ela sem fazer muito barulho e pegou um dos copos.
— o que é essa porcaria que você vai colocar no copo dele? Se fizer algum mal pro meu filho eu te esfolo viva – indagou Guilhermina.
— calma sogrinha – disse Laura com um sorriso – só vai colocar o Pedro pra dormir feito um bebê.
Guilhermina voltou para a sala com os copos e deu um deles para Pedro, o que Laura havia “batizado”. Os dois beberam e Pedro começou a ficar sonolento depois de alguns minutos.
— mãe, o papo tá ótimo, mas eu preciso deitar um pouco. Logo mais a Sônia vem pra cá, quero estar bem – Pedro levantou-se, despediu-se da mãe com um beijo na testa e subiu para seu quarto.
Então assim que saiu, Laura chegou até Guilhermina.
— daqui uns cinco minutinhos eu subo, ele já estará dormindo. Que horas a sem sal chega? — indagou Laura.
— pelo que Pedro me falou é por volta das 22h.
Laura olhou para o relógio.
— então melhor eu me apressar – disse Laura sando um tapinha nas Guilhermina – beijos sogrinha.
Estava um silêncio sepulcral na casa de Guilhermina quando a moça que trabalhava na casa anunciou que Sônia havia chegado. Embora ela não gostasse de Sônia e deixasse isso bem claro, ela permitia que Sônia frequentasse a casa quando Pedro estava ali. Ela então deu um gole em seu uísque e Sônia.
— boa noite dona Guilhermina – disse Sônia com um simpático sorriso no rosto.
— você sabe o caminho para o quarto do meu filho, muito bem por sinal – disse Guilhermina e deu mais um gole em seu uísque.
Sônia já estava acostumada com o jeito arrogante da sogra e aquilo não lhe surpreendia, ela apenas deu uma risada e subiu em direção ao quarto de Pedro. Quando ela chegou, a porta estava entreaberta e a luz do abajur estava acesa, então pela fresta da porta ela pode ver Pedro deitado na cama e sobre o corpo dele havia um braço.
Ela se aproximou da porta e então abriu-a em um movimento vagaroso com as duas mãos e viu que se tratava de Laura. Pedro estava na cama com sua ex namorada que nunca havia aceitado o fim do relacionamento e o perseguia até hoje.
— o que está acontecendo aqui? — gritou Sônia.
Laura despertou-se rapidamente e olhou para Sônia e Pedro levantou-se em movimentos vagarosos, ela notou que ele estava grogue.
— Sônia não é nada do que você está imaginando – disse Laura.
Sônia ficou paralisada por um momento, ela não conseguia acreditar no que seus olhos viam.
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