Supernova: A Missão da Estrela da Névoa
1 Parte 1 - À deriva na neve: Capítulo 1
A parte norte do Reino do Norte é uma região conhecida pelas baixas temperaturas e pela neve que costuma cair constantemente durante quase todo o ano, diversas cadeias de montanhas estão espalhadas pela região e nelas as tempestades de neve são muito mais agressivas. Especialmente no inverno não é recomendado o tráfego, muito menos tentar atravessar uma trilha de montanha a noite. Entretanto uma infeliz criatura comete agora a loucura de tentar atravessar as terras geladas nestas condições que não podiam ser mais adversas, usando um casaco e mantas grossas de peles pardas que arrumou na última vila em que esteve, apesar disto não ajudar em quase nada no momento.
Justine, nome pelo qual a pobre criatura atende, segue a passos largos e desajeitados, o mais depressa que pode sendo que seus pés afundam cada vez mais na neve fofa. É uma garota de quinze anos com estatura mediana e pele clara, cujo longo cabelo louro platinado está escondido pelo capuz do casaco, seus olhos são azul acinzentados.
— Ma-maldita ho-hora que re-resolvi sa-sair de Ma-Mabra — gaguejava enquanto sua boca tremia, era uma forma de espantar o frio e extravasar a raiva da situação.
— Não estarias nestes apuros se não roubasse na última vila em que estivemos — respondeu uma voz que vinha da bolsa nas costas de Justine.
— Ca-cala boca! Isso tu-tudo é culpa sua também! — Respondeu Justine parando e pegando a bolsa em suas costas, de lá retirou um espelho tão branco como se tivesse sido feito da mesma neve em que estava cercada, detalhes refinados que foram provavelmente moldados manualmente, revelavam a perícia com que a peça fora fabricada. Na sua parte traseira enfeitava no centro um quartzo branco de aspecto leitoso, lapidado e polido na forma oval.
A garota mirou seu reflexo no espelho, mas a peça não exibia nada além de uma imagem turva, como se estivesse embaçado.
— Estamos perto? — Perguntou para o espelho, sua respiração obscurecia mais ainda o espelho devido a temperatura.
— Falta um pouco ainda, é melhor buscar abrigo, tudo terá sido em vão se morreres congelada — Disse uma voz abafada que vinha da imagem embaçada do espelho, como se alguém estivesse falando através de uma porta. Justine respondeu com uma revirada de olhos e uma bufada de raiva com mais vapor condensado.
“Não há onde se abrigar...”, refletiu a garota virando a cabeça de um lado para o outro o máximo que seu pescoço enrijecido pelo frio permitia, “está tudo coberto de neve, não dá pra ver nada na frente, o jeito é continuar andando até encontrar alguma coisa que possa ajudar.”
Justine era uma controladora novata, suas habilidades estavam em aprimoramento e ela ainda tinha muitas dificuldades com o assunto. Normalmente não deveria ser assim, afinal ela é uma Estrela, uma das representantes dos elementos secundários das energias do mundo, que deveriam zelar pelo equilíbrio do mesmo. As Estrelas se destacam na arte de controlar as energias devido a fonte quase ilimitada de poder que carregam dentro de si, por essa razão sempre costumam estar um ou vários passos acima de outros controladores nas mesmas condições. Isso seria verdade, se ela fosse uma das Estrelas normais dos elementos secundários do mundo e não a Estrela da Névoa, uma dos elementos secundários antípodas.
Após algumas horas na tempestade os passos da garota começaram a ficar mais lentos, tanto pela altura a que estava alcançando a neve, quanto pelos sinais de cansaço e de frio. Já não mais sentia as extremidades do corpo, mas por mais que avançasse nada mudava, apenas mais árvores e neve para todo o lado. Exausta, Justine tropeça e cai de cara na neve, tentava se levantar, mas simplesmente não tinha forças.
— Justine! Tu tens que continuar, estamos perto posso sentir! — Exasperou-se a figura no espelho, conseguindo que a garota levantasse a cabeça.
— Vo-você disse isso a me-meia ho-hora atrás — respondeu baixinho.
— Não importa, tu tens que continuar, não podes desis... — Foi quando a garota baixou a cabeça novamente — Justine? Estas me escutando? JUSTINE!? — Gritou mais uma vez o espelho sem sucesso.
— Não resta opção, precisamos de ajuda, seja lá quem for por favor perceba! — Diz a figura, sendo correspondida por um brilho branco nas costas do objeto, sua imagem antes difusa agora se torna mais nítida embora não totalmente. A figura que lembrava uma mulher levanta a mão direita que se torna a única parte totalmente distinguível, com as costas da mão para frente, possuía uma luva sem dedos feita de cota de malha, aparentemente um pouco folgada. No centro da costa da mão estava uma pedra negra, lapidada em formato octogonal. Imediatamente a imagem tremeu a partir da pedra como uma onda em expansão, sendo correspondida pela intensificação do brilho do quartzo branco. A onda transcendeu para fora do espelho, como uma distorção incolor no espaço, enviada para todos os lados.
Era um pedido de ajuda, sinalizando que elas estavam ali. Por sorte se alguém sensível as energias estivesse próximo, poderia ajudar.
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— Justine! Meu banho já está pronto? — Gritava uma mulher no alto de seus sessenta anos cuja voz mais lembrava uma gralha, enquanto repousava confortavelmente em um sofá de cetim azul bebê. Trajava um vestido amarelo longo bem justo em seu físico rechonchudo, os cabelos muitos já brancos presos em um apertado coque, apesar do visual o rosto afilado com maquiagem um pouco exagerada tornava sua aparência cômica, principalmente por estar dentro de casa. A senhora estava inquieta, já impaciente com a demora da sua criada mais recente que era filha de outra também criada mais antiga.
Uma Justine que recém tinha completado treze anos descia apressada as escadas, buscando atender ao pedido da senhora no sofá.
— Ainda não Madame Josephine, estará tudo pronto em dez minutos — disse retomando o fôlego.
— Mas será possível que não consegue preparar um simples banho? Já arrumou meu quarto pelo menos? — Perguntou ríspida.
— Já sim senhora — baixando a cabeça em sinal de respeito.
— Então volte e termine de preparar meu banho, depois passe meu vestido vermelho com bordados em dourado, não quero ver nenhum amassado entendeu? Veja na cozinha se já prepararam o jantar também, hoje receberei meu mercador favorito trazendo novidades do oriente — como esquecer? Ela falava nisso a semana toda.— Entendeu tudo o que falei?
— Si-Sim senhora — respondeu.
— Então o que está esperando? Vá logo! — Abanando as mãos como se estivesse espantando um cachorro.
A garota deu seu sorriso falso mais convincente e fez uma rápida reverencia, subindo as escadas com a mesma pressa que desceu. Quando estava sozinha no banheiro se permitiu espernear um pouco, era insuportável tolerar aquela velha, mas era necessário. Sua mãe que era quem costumava cuidar da casa, estava de cama vítima de uma grave doença, sendo necessário que ela a substituísse.
Começou a despejar os sais de banho e loções, mas tomando cuidado para não errar a dosagem, se não ouviria mais meia hora de reclamações de como aquilo poderia danificar a delicada pele de Madame. Pessoalmente gostava de pensar que estava preparando a panela para fazer ensopado de porca, todo aquele cuidado era porque a carne era de péssima qualidade e estava compensando em outros ingredientes.
Charllote, a mãe de Justine, desde jovem era funcionária da mansão e permaneceu ao longo de vinte e cinco anos trabalhando ininterruptamente, atendendo a todas as necessidades e excentricidades que lhe eram solicitadas pela patroa, até o ano passado pelo menos. Mestre Louis era o dono original da mansão e foi quem contratou Charllote, era um homem inteligente e muito generoso, dono de um antiquário na cidade, um completo oposto da esposa Josephine. Infelizmente ele faleceu havia dezessete anos, vítima de uma doença rara que imaginava ter pego em alguma de suas viagens de juventude. Deixou a esposa com uma generosa fortuna, a qual ela faz pouca questão de manter gastando em futilidades, sem nenhuma reposição pois nem o antiquário manteve.
Durante sua vida trabalhando na mansão Charllote ficou grávida, fruto de uma paixão que teve por um artista encantador que trabalhava em um circo que uma vez esteve na cidade. Do amor fugaz dos dois nasceu Justine, que nunca chegou a conhecer o pai, pois o mesmo partiu antes mesmo que Charllote percebesse que estava grávida. A filha de Charllote teve uma gestação conturbada, pois Madame Josephine se recusou a ter uma mãe solteira em sua casa. Após ser aconselhada por um missionário de Phelgor, voltou atrás e permitiu que a moça ficasse com a criança, desde que trabalhasse durante o máximo de tempo que conseguisse, além de arcar com os custos de uma substituta temporária no período de final de gravidez e resguardo. Mesmo com todos esses empecilhos, Charllote conseguiu dar a luz a uma menina saudável, a qual batizou de Justine em homenagem a sua falecida avó. Suas responsabilidades e trabalho dobraram de ali em diante, pois teve que cumprir com suas obrigações na mansão e para com a senhora, ao mesmo tempo que cuidava de uma criança pequena.
O crescimento de Justine fora quase normal, mesmo que restrita ao quartinho da empregada boa parte do tempo. Sua mãe conseguiu educá-la da melhor forma que pode, a cidade não contava com escolas acessíveis a pessoas de baixo poder aquisitivo, por isso ela mesma cuidou da tarefa de alfabetizar a filha, muito graças ao que aprendeu com o antigo mestre da casa que até permitia que ela tomasse alguns livros emprestados para ler e aprimorar seu conhecimento. Repetiu o mesmo com a filha pegando alguns livros da vasta coleção do falecido Louis, embora escondido da patroa que não permitia que seus pertences fossem usufruídos pela criadagem da casa. Não passava de pura mesquinharia, pois Madame Josephine só se importava que os livros estivessem arrumados e limpos, mas de fato nunca os tocou de verdade, então bastava retirar de forma discreta, colocar um de aparência similar e retornar depois.
Quando Justine ficou mais velha, recebeu autorização da mãe para sair e brincar sozinha, mas obedecendo regras rígidas pois qualquer deslize colocaria o emprego da mãe em risco, assim como a cidade em que moravam era um lugar onde a desigualdade social era enorme, então a proibiu de ir até a periferia sozinha. Como filha de uma criada, não podia brincar com as outras crianças de classe alta, então mesmo tendo acesso a belas praças e jardins, era muito solitária. Foi quando conheceu Pierre, filho de empregados em outra mansão da vizinhança, com qual desenvolveu rapidamente uma forte amizade.
Pierre era um garoto moreno, um pouco mais baixo que Justine e franzino, mas compensava em inteligência e astúcia. Foi ele quem a convenceu a sair do reduto das mansões, apresentando a ela boa parte da cidade, entre elas a periferia que correspondia de fato a maior parte da cidade. Ensinou a garota a chamada por ele de “sabedoria das ruas”, que consistia em como se manter longe de confusão e com quem se relacionar dependendo do que se queria em troca. Por sua vez Justine contou sobre o que aprendia com sua mãe e até conseguiu ensinar o rapaz a ler, embora a escrita dele não tenha sido tão bem sucedida. O amigo tinha muita curiosidade sobre o controle, principalmente o fogo que era sua maior afinidade, então a garota buscou livros na mansão com o tema que eram dentre vários na coleção do finado Louis.
O conhecimento sobre controle era relativamente inútil para Justine, pois ela era considerada um Nulo, alguém que não consegue controlar as energias. Ela mesma tentou várias vezes, mas não conseguia nada, seu esforço sempre terminava com a mesma sentindo uma sensação dolorosa estranha, como se algo no seu interior estivesse a ponto de explodir.
Porém ela lia mesmo assim sobre o controle e as energias, pois achava o assunto fascinante. Em sua cidade o preconceito com nulos não era tão grande, a maioria da população trabalhava nas minas de carvão próximas ou nos campos agrícolas e como a educação era precária, o conhecimento básico sobre controle era transmitido de pai para filho entre a população mais pobre, sendo reservado para a elite o acesso à tecnologia e as descobertas de ponta do mundo exterior. Então boa parte da população só consegue armazenar pequenas quantidades de energia e realizar truques baratos, como hidrocinese de copos d’água e liberar pequenas labaredas com os dedos.
Graças a Justine, Pierre desenvolveu suas habilidades no controle de fogo de forma fantástica, conseguindo liberar bolas de fogo consistentes e concentrar o mesmo nas pontas dos dedos em minúsculas chamas, que eram tão quentes que conseguiam até mesmo cortar algumas superfícies. Em troca ensinava ainda mais o que aprendia por ai para Justine e até a levava para conhecer outros nulos, com eles Justine aprendeu o básico de como sobreviver sem o controle e até a se defender usando diversas armas comuns como facas, pedaços de madeira e qualquer ferramenta visível, tudo muito interessante para uma pessoa nas condições dela.
Não demorou muito para Justine começar a pensar em deixar a mansão quando fosse mais velha, conseguir algum ganha pão e tirar a sua mãe de lá o quanto antes. Não suportava Madame Josephine e não imaginava como sua mãe suportou todos esses anos trabalhando para a megera, apesar de que naquela cidade as opções não eram das melhores também. Foi então que no começo do ano veio a reviravolta, sua mãe amanheceu com fortes dores e uma febre alta incessante, não conseguindo nem se levantar. Logo no começo Madame Josephine mandou chamar um médico e curandeiro da cidade para verificar o estado de Charllote, embora mais para atestar se não se tratava de algo contagioso do que preocupada com o estado de saúde da criada. O senhor que atendeu o pedido informou que não era contagioso, mas sem dúvida, se tratava de uma doença grave cujo tratamento era ostensivo e caro.
Sem nenhum pudor Madame Josephine demonstrou enorme alívio ao saber que não era contagioso, pareceu até ignorar o aviso de que era uma doença mortal. Quando indagada pelo médico se arcaria com os custos, ela apenas deu um sorriso amarelo e pagou a consulta do momento, dizendo que depois trataria daquele assunto.
Mais tarde naquele dia a mesma chamou Justine na cozinha, dizendo que devido aos anos de dedicação, manteria Charllote na casa e pagaria o tratamento, mas em troca a menina deveria trabalhar no lugar da mãe para cobrir os gastos. Josephine não teve escolha se não agradecer a “bondade” da patroa da mãe, agora também sua. Fora da mansão sua mãe teria ainda menos chances, com uma filha desempregada e ninguém para ampará-las, teria então Justine que se submeter aprovação de aturar Madame Josephine.
Os meses seguintes foram atribulados, a velha senhora não fazia questão nenhuma de tornar fácil a experiência de adaptação e aprendizado de Justine como criada, despejando todo o trabalho que sua mãe era acostumada a fazer sobre a garota, como se ainda fosse Charllote executando as tarefas, ou seja, sem nenhuma explicação ou paciência quanto as dúvidas e a cobrança de eficiência sem duvida injusta para uma iniciante. Apesar disso a garota estava conseguindo conduzir a situação, sua mãe estava respondendo ao tratamento e seu desempenho estava melhorando, diminuindo as reclamações de Josephine.
O período de estabilidade não durou muito tempo infelizmente, depois do quarto mês Charllote voltou a ter febre e uma de suas pernas ficou paralisada, consequentemente o tratamento ficou mais caro. Madame Josephine no entanto, agiu de forma bem negativa.
— Não vou lhe dar mais nada além do que já desembolso Justine, tem ideia do prejuízo que tenho mantendo você e sua mãe invalida nesta casa? — Respondeu com um leve desdém.
— Quer dizer, meu trabalho como criada exclusivo para pagar o tratamento de minha mãe não é suficiente, não é mesmo? — replica Justine alterando a voz — Mesmo que minha mãe tenha trabalhado com tanta devoção nesta casa durante décadas, sempre foi uma caridade não é mesmo?!
— Basta! Quem és para alterar a voz comigo? — disse Madame Josephine erguendo o dedo em direção a Justine.
A menina sentiu imediatamente uma dor de cabeça escruciante, ela colocou as mãos nas têmporas e se abaixou pois perdeu as forças nas pernas. Mas da mesma forma como a dor começou, foi embora.
— Espero que tenha compreendido pequena nula, qual é o seu lugar neste mundo. — Recompondo-se Josephine do esforço que empregara. — Se não está satisfeita, que vá mendigar com sua mãe na praça da cidade junto ao resto de pobres coitados
A Madame era uma controladora com afinidade com o elemento mente, apesar de sua mãe ter lhe dito que ela não era das melhores nem em telecinese e nem em telepatia, avisou para jamais provocá-la pois a mesma conseguia usar seu controle para causar dor. Era uma prática proibida torturar empregados seja de qual forma fosse, mas quem estava lá para defendê-los? Aguentar as vezes era muito melhor do que perder o único sustento.
Justine deixou uma lágrima cair e se ajoelhou — Perdoe-me Madame, o desespero me levou a cometer essa loucura — aos pés de Josephine, seu coração estava em pedaços pela humilhação de precisar fazer isso.
— Assim espero pequena nula, tem sorte deu ainda ter consideração por sua mãe pois deveria colocá-las pra fora agora mesmo — cerrando os olhos — mas não serei mais compreensiva, na próxima demonstração de insolência colocarei vocês duas pra fora imediatamente!
— Não vai mais acontecer, eu juro — ainda do chão, viu os pés da Madame dando meia volta e se distanciando até as escadas.
Ela ainda tinha muito ódio, seu desejo era subir lá e degolar aquela porca velha, mas tinha outras providências para tomar se quisesse salvar sua mãe. Naquela noite procuraria Pierre em busca de ajuda.
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