Supernova: A Missão da Estrela da Névoa
2 Capítulo 2
Notas iniciais
A amizade com Pierre não enfraqueceu ao longo dos anos, embora ele tenha ficado mais distante após sair de casa e entrar para um grupo de foras da lei da cidade: Os Cardinais. Ele desde os dez anos já conhecia o atual líder, chamado Michael, após evitar que o mesmo fosse apanhado e executado por guardas uma vez no mercado da cidade. Michael ainda era adolescente na época e não era mais que um simples “soldado” dentro do bando, a partir daí passou a chamar o garoto de irmãozinho e o transformou em um protegido informal. Entretanto quando as habilidades com o fogo de Pierre afloraram, ele recebeu um convite formal de Michael para entrar no grupo, ao qual foi aceito sem hesitação.
O período coincidiu com a época que ele saiu de casa, pois brigou com os pais que queriam que ele seguisse a vida no exército, recusado veemente por Pierre que sabia que jamais sairia do posto de soldado, afinal todas as patentes eram reservadas aos concluintes das escolas da cidade. Esta era outra amargura de Pierre, quando ele tentou ingressar nas escolas de Decas, nossa fatídica cidade, fora recusado sumariamente, sob a alegação de que não haviam bolsas, não importava qual o nível de conhecimento que se tivesse.
Segundo Pierre, preferia ficar com Michael subtraindo as várias riquezas das elites, do que continuar sendo apenas mais um capacho na cidade. Só mantive a fé no amigo porque ele me confidenciou que seu maior sonho era deixar a cidade e ir para Mabra, mas para isso precisava de dinheiro, afinal a distância era muito grande para aventurar ser um andarilho num mundo desconhecido. Então imaginava que ele só ficaria tempo suficiente para conseguir os fundos e ir embora.
Mas o que me levou a procurá-lo? Simplesmente perguntar se os Cardinais estavam precisando de alguém disposto a fazer de tudo para salvar a mãe.
Agora no presente estava uniformizada de pé na sala, enquanto Madame Josephine tomava uma taça de vinho ao lado de um homem trajando terno, robusto e meio careca, com um bigode bem escovado, o Mercador Rubens. Ele foi o homem que comprou o antiquário, sob a promessa de sempre manter a Josephine as melhores ofertas de artigos raros e extraordinários que chegassem em suas mãos.
Ela adquiriu o gosto do marido por objetos raros, mas não por valorizar a história ou o mistério e sim apenas por vaidade, passava horas falando às amigas sobre as peças que possuía e quais desejava. Pelo menos era uma das beneficiárias das escolas da região por doar os artefatos que lhe eram excessivos, apesar de saber bem que na verdade eram apenas os objetos pelos quais ela tinha perdido o interesse, então se aproveitava para divulgar seus descartes como forma de benfeitoria.
Eu já estava impaciente, logo mais já estaria na hora de meu compromisso e não poderia me atrasar de forma alguma. A Madame já tinha embebedado Rubens o suficiente, prática corriqueira durante as visitas em que ela pedia para ver as peças no final, para que a negociação do preço fosse feita com o homem já alto. Por fim ele puxou uma caixa que mais lembrava um estojo, o objeto que seria ofertado hoje deveria estar ali dentro.
"A caixa até que era interessante", refleti involuntariamente.
— Madame Josephine, lhe apresento a raridade que encontrei no oriente, um espelho que pertenceu a uma civilização já extinta, especulasse que seja da época das primeiras tribos dos servos dos deuses — a mesma lábia de sempre, o Mercador Rubens não entendia muito de paleontologia e arqueologia, mas sabia como montar uma história para que um objeto chegasse a um patamar de valor cultural inestimável, mesmo que talvez não fosse totalmente verídica.
Ele abriu a caixa, fazendo os olhos de Josephine brilharem de excitação e seus dedos ansiosos alcançaram o objetivo. De lá ela retirou um espelho branco metálico, com detalhes moldados tão delicadamente que até com controle talvez o resultado não seria tão perfeito. Enquanto ela girava a peça na mão, foi possível observar uma pedra branca incrustada na costa do espelho, cheia de palavras escritas em baixo relevo ao redor. Até mesmo eu acho a peça linda... Preciso ver mais de perto...
— Justine, o que está fazendo? — Disse Madame Josephine me despertando do transe. Eu estava quase em cima dos dois no sofá.
— De-desculpe Madame, é que a peça é tão bonita que precisava ver mais de perto — disse me afastando rapidamente sob um olhar fulminante da patroa.
Rubens riu — é sua criada tem razão, trata-se de algo de primeira linha, mesmo para alguém com pouca sensibilidade como ela isso é óbvio. — Sorte dele não poder ouvir meus pensamentos de pouca sensibilidade sobre ele e a opinião dele.
— É pode até ser, mas só alguém com gosto refinado pode julgar adequadamente sem ser ofuscado pelo alvor desta peça — disse esfregando os grossos dedos no vidro — infelizmente por melhor que seja, um espelho não é um espelho se não puder refletir o rosto de seu dono, este está danificado, embaçado permanentemente.
— Sim, mas pense no valor histórico... — Ponderou Rubens agora com um sorriso amarelo, com toda certeza só conseguiria metade ou menos do que planejara, valor histórico não dizia muito para Madame, tudo não passava apenas de um artigo para exibição e para se gabar depois, ainda mais um espelho que não pudesse exibir a beleza que ela achava ter.
Os dois ainda demoraram vinte minutos debatendo, mas chegaram a um acordo. Para meu alívio, Rubens saiu logo depois levando um título financeiro em seu nome, por meio do qual seria pago com o devido valor estipulado pelo título no banco. Arrumei rapidamente o que estava sujo na sala, a cozinha já estava em ordem. Voltei apenas para confirmar se Josephine queria mais alguma coisa, a pegando ao pé da escada segurando a caixa.
— A Madame deseja mais alguma coisa?
— Não, arrume tudo aqui, estou exausta e vou me deitar, não quero ser perturbada — respondeu iniciando a subida.
— Já está tudo pronto, então se a senhora não se importa, também vou me recolher. — Ela respondeu apenas com o gesto habitual de como se estivesse me enxotando.
Por um último momento mirei a caixa na mão de Josephine, sabia que não poderia examinar o espelho pessoalmente, pois a bruxa trancava os artigos que lhe eram vendidos por Rubens primeiro em um armário no quarto, ao qual não tinha acesso, depois escolhia qual destino ele teria. Balancei a cabeça rompendo o contato visual e voltei para o serviço.
Fui até meu quarto dar uma última olhada na mamãe, que dormia tranquilamente, parte dos remédios eram tranquilizantes e a ajudavam a ignorar a dor e dormir. Sentei ao seu lado e passei a mão em sua testa, pelo menos hoje não tinha febre.
O tratamento não estava avançando como desejado, Charllote não mais levantava, ora porque seus membros não lhe obedeciam, ora porque estava fraca demais para pensar em se levantar. O médico já estava sem esperanças, mas eu não desistiria, não importava o que precisasse fazer curaria minha mãe e nós duas sairemos desta maldita casa.
A meia-noite num beco sujo e mal iluminado, um rapaz estava em pé jogando uma moeda para o alto, usava calça e camisa polos em tons escuros de azul. Eu vestia calça e uma regata preta bem justas, mas flexíveis, meus cabelos loiros estavam presos em um coque bem apertado e firme, portava uma mochila de ombro com os itens necessário para esta noite. Aproximo-me dele lhe chamando atenção.
— Está atrasada, os outros já chegaram — Disse Pierre.
— Eu sei, a bruxa demorou horas pra comprar um simples espelho quebrado — disse colocando a bolsa no chão. O rapaz abriu um sorriso de lado e me deu um abraço.
Pierre não mais lembrava o jovem franzino que conheci, ficou mais alto do que eu, adquiriu alguma massa muscular embora ainda pudesse ser considerado magro. A única coisa que não mudou foi seu jeito extrovertido e sua astúcia, que continuava aguçada como sempre.
Nas nossas costas surgiram duas pessoas, uma mulher vestida da mesma forma que eu, com cabelos pretos bem curto. Estava acompanhada de um homem com uma regata cinza escuro e uma calça preta, a barba era fechada bem aparada e seus cabelos já eram grisalhos.
— Lina, Roger — cumprimentei os dois recém-chegados com um aceno de cabeça. Ambos não eram de conversar, apenas chegavam, realizam o serviço e desapareciam depois, talvez nem seus nomes fossem os verdadeiros.
Comecei a descarregar a mochila que me foi dada ontem por Pierre sem muitas explicações — já falei como você fica bonita nesse uniforme? Devia usar mais vezes — Disse Pierre para mim me deixando corada.
Apesar de um dia já ter olhado Pierre com outros olhos, sabia que não tinha chances, tragicamente os interesses dele eram outros... Terminei de retirar uma corda e uma espécie de pistola com um gancho na ponta.
Junto aos Cardinais consegui ajuda financeira para complementar o pagamento do tratamento de minha mãe, já que Madame Josephine se recusara a dar mais dinheiro. Como sabia que caridade era um ser quase mitológico, só existia em histórias, tive que dar algo em troca. Fui colocada em uma função que me permitisse continuar na mansão, ao mesmo tempo que não envolvesse as atividades mais violentas do bando. Por isso Michael propôs que eu ajudasse nos furtos especializados de joias e outros itens caros.
A princípio Pierre foi contra, em Decas era permitido que comerciantes autorizados instalassem armadilhas letais para ladrões, como a criminalidade era alta e o sistema judiciário estava cheio de trabalho, o governo considerava mortes desse tipo como "flagrantes passiveis de medidas consideradas de legítima defesa". Mas como era a única coisa disponível e eu não aceitava que Pierre me desse dinheiro, como ele havia oferecido varias vezes, resolvi aceitar.
Não restando opção, ele me ajudou no pequeno treinamento que tive para invadir casas e estabelecimentos, escalar paredes, até mesmo a desarmar pequenas armadilhas de artefatos de controle. Qualquer controlador poderia estar no meu lugar, entretanto o grupo estava com falta de pessoal devido a várias prisões e execuções que estavam ocorrendo e os membros controladores disponíveis estavam sendo mobilizados para enfrentamentos com outros grupos criminosos pela disputa de território e a própria polícia.
Pierre se prontificou a ir comigo para os roubos, apesar de Michael ser contra, o que gerou uma pequena discussão entre os dois. O "irmãozão" acabou concordando que a atividade era uma das de menor risco de bem executada, assim como as habilidades de Pierre seriam úteis. Por isso destacou Roger, um de seus homens de confiança, para nos acompanhar nos furtos mais complexos. Roger era um controlador especializado em dispositivos de luz e eletricidade. Logo depois agregaram Lina, uma controladora com grande afinidade com o elemento metal, especializada em arrombamentos.
Ao longo dos últimos dois meses realizei cinco furtos, dois em mansões com baixa segurança, apenas como testes e os outros três em estabelecimentos de médio e grande porte. Os furtos já estavam ficando comentados, mas a polícia ainda não tinha pista dos responsáveis. Pierre me instruiu a nunca dizer quem eu era enquanto estivesse na organização, por isso minha entrevista com Michael foi a portas fechadas.
— Já chequei o perímetro da loja e as redondezas estão vazias, as armadilhas segundo nosso informante são feitas de cristal que poderão ser desarmados com esses dispositivos — Pierre mostrou uma pequena esfera negra para o grupo — eu e Justine vamos até as peças em exibição, Lina e Roger vão até o cofre.
— Cristal? Já vi que vai ser dureza... — Lamentei. Os cristais eram artefatos controladores que os lojistas instalavam para detectar a presença de intrusos, um simples descuido e desde um simples alarme ou até um choque letal poderiam ocorrer. Para isso usávamos óculos presos ao rosto cujas lentes proporcionavam visão noturna e revelavam detalhes que não eram visíveis a olho nu.
O alvo hoje seria uma grande joalheria da cidade, passamos um tempo considerável planejando a invasão cuidadosamente. Aproximei-me do edifício de nove andares com a pistola de gancho com a corda, disparando para o terraço. O gancho se prendeu no alto da construção, após assegurar que estava bem preso, subi o mais silencioso que pude a distancia que até pouco tempo atrás não teria nem coragem, sendo seguida depois pelos outros.
Chegamos ao terraço que estava tranquilo e seguro, recolhemos a corda e guardamos na mochila. O terraço não costumava ter armadilhas, afinal fritar gatos e outros animais noturnos não era de interesse dos proprietários. A frente estava a porta de acesso ao terraço.
“Sua vez” indiquei com as mãos para Pierre com uma firula.
A habilidade de cortar com fogo fora muito aprimorada por ele, agora não mais se tratava de uma chama e sim de que ele podia concentrar a energia do fogo em regiões específicas dos materiais, provocando um corte preciso e homogêneo. Dobradiças de metal e fechaduras comuns até de médio porte eram nadas para ele, assim como ele conseguia cortar vidros sem estourá-los como se seus dedos fossem pontas de diamantes.
Retirando a porta com cuidado, encontramos o primeiro cristal, pelos óculos era possível ver o feixe de luz naturalmente não-visíveis saíndo do objeto formando uma fina parede a frente. Peguei uma das esferas negras e coloquei em contado com a luz, a esfera continha energia das trevas que devorava luz. Expondo-a aos feixes, ela seria liberada corroendo o feixe mais próximo em contato até chegar ao cristal, terminando por estilhaçá-lo. Roger por sua vez não precisava disso pois utilizava seu próprio controle da luz de forma treinada para desarmar os cristais, qualquer outro que tentasse sem conhecimento prévio com controle da luz acabaria por acionar as armadilhas.
Quebrar os cristais exigia mais do que jogar as esferas a esmo, era preciso mantê-las em contato tempo suficiente para que a energia fosse liberada e destruísse o cristal, alguns feixes se moviam de maneira aleatória em alguns momentos, não permitindo um contato por tempo suficiente se a esfera ficasse parada. Além de que era necessário economizar, artefatos de manipulação das trevas não eram coisas abundantes e fáceis de encontrar.
Descemos até o sexto andar que era a sala do cofre, deixando Roger e Lina, enquanto eu e Pierre seguimos para o primeiro andar que era onde estavam algumas peças para exposição. Ao chegar ao destino dei um suspiro de frustração.
“Está cheio de cristais aqui”, gesticulei para Pierre que também parecia apreensivo. Não tinha como, gastaria muitas esferas para chegar nas joias.
Esses anos todos seguindo meu amigo para todos os lados e aprendendo movimentos com os outros nulos da cidade serviram de alguma coisa, pelo menos para esse momento. Segui abrindo caminho pelos feixes de luz dos cristais, as vezes era necessário ficar em posições que mais pareciam que minha coluna se partiria ao meio, flexibilidade que não poderia esperar de Pierre, então ao passar já deixava uma trilha razoável para que ele seguisse sem muito esforço.
Próximo as peças os feixes se moviam mais, então era necessário abrir um caminho maior ao redor algumas vezes para poder eliminar estes. O lado bom é que era necessário atingir apenas um feixe para destruir todo um cristal, então logo estavam livres para que Pierre passasse pelo vidro e apanhasse as joias.
Em pouco mais de uma hora conseguimos juntar tudo o que estava no andar e em outros dois, estávamos prontos para partir, nossos companheiros a essa altura já deviam ter aberto o cofre. Os dois já aguardavam impacientes próximos a entrada do quarto andar.
— Que demora, ein? — Indagou Lina — Já estávamos partindo sem vocês.
— Vocês ficam com a parte mais difícil e nós com a mais demorada, paciência — respondeu Pierre entregando a sacola com as joias para Roger, que era responsável pela parte de levá-las para o local combinado.
Um sopro de alívio percorreu meu peito e pelo visto Pierre se sentia assim também, juntei meu punho direito ao dele comemorando o sucesso e começamos a subir as escadas. Quando estávamos na metade do caminho, ouvimos um barulho vindo do térreo, seguido de uma agitação de passos pela escada.
— Parados! Vocês estão cercados! — Gritou uma voz no começo da escada, logo reconheci o uniforme negro da polícia, uma subdivisão do exército da cidade, eles avançavam com pistolas em mãos. O aviso foi ignorado e nós quatro começamos a correr escada acima, um disparo passou próximo a minha cabeça, explodindo nos degraus acima. Mas para o nossa surpresa maior ainda, mais policiais desciam pelos andares superiores.
— Somos alvo fácil nas escadas, depressa por aqui! — Ordenou Roger passando pela entrada do quinto andar — crie uma distração — ordenou a Pierre.
O rapaz mirou a entrada do andar e disparou uma bola de fogo, que incendiou toda a passagem — isso não vai segurá-los por muito tempo — advertiu. Estávamos ferrados, o terraço estava fora de cogitação e não existiam janelas ou saídas por onde fugir.
— Não temos para onde ir, a rota de fuga era pelo sétimo andar! — Desesperou-se Lina.
— Vocês duas peguem — e entregou duas pistolas que estavam em sua bolsa — vamos manter os homens ocupados e você — virou-se pra Pierre — está vendo aquela parede com aquele quadro? Corte o mais depressa possível para passarmos, não precisa caprichar, agora! — nesse momento o primeiro policial passou pela cortina de fogo, sendo alvejado por Roger.
Pierre seguiu para a parede lateral, não sabia bem o que ia fazer, mas concentrou a maior quantidade de calor na palma da mão esquerda. Quando ele tocou a parede um barulho de crepitação similar a carvão e depois de retorcimento de metal foi ouvido, as paredes eram sem dúvida reforçadas, por isso explodir não foi uma opção. Enquanto isso eu não sabia bem o que estava fazendo, nunca havia atirado em um alvo vivo até hoje, então só fazia mirar nas paredes próximas quando surgia algo ameaçando entrar.
— Depressa com isso! — Gritou Roger.
— Estou indo o mais rápido que posso aqui — respondeu o rapaz entre os dentes, fechando a figura do que seria um círculo razoável para uma pessoa passar o tronco. Logo após um barulho de concreto sendo movido e caindo pesadamente no chão foi ouvido, a passagem que ele abriu deixava a fraca luz da lua crescente entrar.
— Pronto! — arfando com as mãos no joelho.
— Você garota nula, vai primeiro e checa o perímetro — ordenou o homem.
Guardo a pistola na calça e vou até o buraco, colocando a cabeça pra fora, no térreo a esquerda e direita era possível ver as agitações das luzes dos veículos dos policiais nas entradas do edifício, embaixo dessa parede do buraco não havia nada, logo a frente tinha um prédio com as janelas voltadas para cá. Pego o disparador com o gancho na mochila que ainda carregava e substituo por um arpão, era necessário um tiro perfeito pois não havia segunda chance.
O alvo era a parede oposta a janela, teríamos pouco tempo até os policiais perceberem o que estávamos fazendo. Disparo sem mais hesitação, puxando a corda após sentir o impacto na arma, do arpão se fincando na parede, puxo a corda buscando firmeza e parecia estar seguro. Amarro a corda no bloco de concreto e ferro que se desprendeu da parede, deveria ser pesado o suficiente pois uma trama de metal estava entre o material, talvez o reforço para evitar que a parede fosse demolida com facilidade.
Fui a primeira seguindo as ordens de Roger, posicionando uma tira de couro na corda fiz um breve tirolesa até me chocar com a janela a estilhaçando. Estava vazia, pelo visto não pensaram nessa possibilidade. Vou até a janela e faço um gesto para Pierre que já estava posicionado.
Depois que ele aterrissa ficamos apreensivos esperando os outros, mas ouvimos uma explosão vinda da joalheria, fumaça saia do buraco que fizemos. Pierre então se volta para mim.
— Temos que ir, não vai demorar muito para nos encontrarem aqui — disse segurando meu braço e já me puxando para a porta.
— Mas e os outros? — Mantive-me parada.
— Eles sabem se virar, Roger o Lina estão nisso a muito mais tempo que nós dois — disse insistindo. Nesse momento alguém aparece no buraco, era Roger, chegando no lado rapidamente pela corda, ainda portavas as joias.
— O que foi isso? Onde está Lina? — Perguntei.
— Vem logo ai — apontou o homem — usei uma granada quando tentaram avançar com escudos.
Lina estava visível no buraco, já pronta para deslizar quando um par de mãos a agarrou pela cintura, seguido de vários outros. Tirei a pistola do bolso em desespero, mas fui detida por Roger.
— Não seja idiota, ela já era, vamos sair daqui! — Ordenou.
Apesar de confusa, segui os dois homens e descemos os andares, buscando sair pelo lado do prédio oposto a confusão da joalheria. Conseguimos sair sem problemas do prédio, a rua estava sem sinais de policiais e de qualquer outra pessoa. Começamos a correr o máximo que pudemos sem falar nada, chegando na periferia os policiais teriam dificuldade de nos encontrar. Paramos em um beco para recobrar o fôlego, além de ver se não estávamos sendo seguidos.
— Como eles chegaram tão rápido? Desarmamos todas as armadilhas! O contato nos traiu? — Perguntou Pierre.
— Houve traição com toda certeza, mas não temos tempo para pensar nisso, precisamos chegar em ponto seguro — esfregou a barba tirando o suor do pescoço — mas pra isso precisamos nos separar, vocês dois seguem para o esconderijo, eu vou levar isso para o local de costume — referindo-se a outro esconderijo que os produtos roubados eram levados, evitando que os chefes fossem pegos com as provas dos crimes.
— Ok, manteremos os comunicadores sempre ligados — apontou Pierre para o pulso que continha um relógio. Todos já estávamos prontos para seguir nossos caminhos.
Sem mais delongas, eu e Pierre escalamos uma grade do fundo do beco, seguiríamos por entre as propriedades pra despistar. Mas mal dobramos a esquina e ouvimos um disparo, seguido de um barulho de choque e um grito de dor que era de Roger com toda certeza. Ficamos paralisados para saber o que aconteceu e se podíamos ajudar, comecei a puxar a pistola da calça quando ouvi uma voz conhecida.
— Onde estão os outros dois? — disse uma voz conhecida.
— Lina! Você é a traidora?! — Disse Roger com indignação na voz, nos aproximamos mais com cuidado para ver o que acontecia.
Ele estava jogado ao chão, dois policiais o estavam amarrando possivelmente para inibir o seu controle, logo próximo a eles estava Lina segurando uma pistola.
— É Detetive Blanche pra você Roger, revistem ele — ordenou aos dois policias que começaram a remover todos os itens de Roger. Pierre discretamente passou o polegar no bracelete, possivelmente fechando a comunicação.
Eles pegaram as joias na sacola e mostraram para a chefe, que sorriu parecendo satisfeita — sabe, eu poderia ter prendido ou executado todos vocês desde que infiltrada descobri a maioria dos esconderijos, mas com isso só ganharia a promoção e as condecorações, perdendo a chance de ficar com isso — pegando um colar de brilhantes — não é rapazes?
Os homens riram com a detetive, para variar nesta cidade nojenta, uma agente corrupta estava mostrando as garras.
— Tenho que te agradecer também Roger, minha divisão deveria efetuar a prisão de vocês na rua e não dentro da joalheria, mas alguém que será punido severamente apressou as coisas — colocando o colar de volta na bolsa — por pouco quando começaram a atirar não resolvi me revelar e efetuar, mas alguma coisa me dizia que ainda tinha como recuperar as joias.
O sorriso dela provocava um asco imenso em mim. Minha vontade era ir lá e atirar nos três, mas Pierre percebendo segurou meu braço firmemente.
— Poderia ter ganho muito mais se trabalhasse para nós — disse Roger do chão.
— E você acha que sou idiota? Como policial jamais me aproximaria de Michael, agora chega de enrolação, onde estão os dois? — Disse apontando a pistola para a cabeça dele.
— Nós nos separamos e se forem espertos, já estão muito longe avisando o Michael de que temos um traidor entre nós.
— Então não preciso me preocupar, agora mesmo estamos fechando o cerco em cada buraco que vocês se escondem, logo serão pegos também.
Roger resmungou xingando a detetive, recebendo um chute na costela como resposta.
— Mas sabe, você ainda está vivo por outra razão, onde está o depósito das mercadorias roubadas? — Perguntou a detetive de forma que quase não ouvimos.
Após uma risada de Roger — sua ganancia não tem fim mulher?
— Não faz mal, teremos muito tempo na delegacia pra conversas, vamos embora! — Disse se erguendo enquanto os outros policiais levantavam Roger.
Quando sentimos que deixaram o beco, começamos a correr pelas vielas dos prédios. Não tínhamos destino certo, não havia para onde ir, estava tudo acabado. A essa altura o céu já estava clareando mostrando que logo amanheceria. Pierre me deteve.
— Justine, vou levar você até em casa — disse o rapaz — a culpa é minha de você estar nessa situação...
— Não começa Pierre, desde o começo eu te falei que queria fazer o que fosse necessário, sabia dos riscos, agora vamos — puxando seu braço — quem sabe não consiga te esconder lá com a minha mãe por enquanto?
Nos acalmamos e tentamos parecer menos suspeitos antes de nos misturarmos a população que já começava a aparecer nas ruas, pegamos um trambolho e seguimos para o bairro onde eu morava. Nesse horário apenas os trabalhadores estavam acordados seguindo rumo as minas e as plantações que ficavam no sentido oposto dos bairros mais nobres.
Desembarcamos e ainda não tinha uma viva alma nas ruas e jardins bem cuidados, as atividades por aqui costumavam começar só as oito para evitar incomodar os ilustres moradores. Enquanto uns levantavam cedo para garantir a sobrevivência, outros já a tinham garantida desde o berço, por isso não precisavam nem deixá-lo se não quisessem.
Em frente a mansão de Josephine tudo parecia igualmente calmo, nenhum sinal de viaturas ou de atividades suspeitas na casa. Comecei a andar em direção a lateral da casa, quando percebo que Pierre não me acompanhava.
— O que está fazendo? Vem logo — digo num quase sussurro.
— Eu não vou Justine, você só vai se complicar se me apanharem com você.
— Não seja idiota, ninguém vai procurar você numa mansão! — digo exasperada.
— Eu preciso voltar, ver se o Michael precisa de ajuda — ele disse se aproximando e me abraçando, por fim me deu um beijo na testa e se afastou — não me procure, eu acho você.
Antes que eu pudesse protestar, ele começou a trilhar correndo o caminho de volta, deixando-me com os olhos marejados pela incerteza do que aconteceria a partir de agora. Sem os Cardinais o que seria de Pierre? Ou pior, como eu conseguiria pagar o tratamento da mamãe?
Vagarosamente percorri o caminho até a entrada da cozinha, perdida em pensamentos. Só me restava tomar um banho e cuidar dos meus afazeres, seguiria a rotina normal, ficando atenta as notícias sobre o caso que com toda certeza viriam.
Girei cuidadosamente a maçaneta, Saymon que era o cozinheiro já devia ter chegado e estava preparando o café de Josephine. Quando comecei a abrir a porta, a mesma se abriu sozinha violentamente e uma mão me agarrou, antes que pudesse se quer imaginar um policial me imobilizou no chão.
— Bom dia senhorita Justine, como foi a volta para casa? Muito trânsito? — Ironizou Lina, ou melhor, Detetive Blanche — estava aqui conversando com a digníssima Madame Josephine sobre suas atividades ilícitas, tomando uma bela xícara de café — com um sorriso sarcástico enquanto estava sentada a mesa.
Para meu terror, ela estava acompanhada à mesa por Madame Josephine que a encarava com um leve sorriso e olhar de desdém, enquanto segurava uma xícara também.
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