Superfície
2 Capitulo 2
Notas iniciais
Nicholas era assim, não trabalhava, mas sempre estava aqui pelo bar. Tinha coisas caras, não sei de onde ele conseguia o dinheiro e nem gostaria de saber.
– Eu prefiro Nicholas. – falei, ignorando seu sorriso.
– Você que sabe. – ele disse ainda com o sorriso presunçoso.
Ele se aproximou e eu me afastei por reflexo. Ele riu.
– Eu to com pressa. – disse pegando minha mochila no chão.
– Vai viajar? – ele perguntou arqueando as sobrancelhas.
–Isso te interessa? – perguntei imitando-o.
–Ai! – ele colocou a mão no peito fingindo que estava magoado. — Isso doeu.
Revirei os olhos. Coloquei a mochila nas costas e comecei a andar.
–Espera. – ele segurou meu braço. – Eu também estou indo viajar ta vendo? – ele disse apontando para sua mochila. Fiquei em silêncio esperando que ele chegasse ao ponto.
–Quer uma carona? – ele perguntou sério.
–Não, obrigada. – respondi e ele me encarou.
–Por que não? – ele perguntou curioso.
–Porque eu tenho pernas e posso ir andando até um ponto de ônibus. – eu disse dando um sorriso irônico. Ele revirou os olhos, entediado. – Tchau Nicholas. – eu disse puxando o meu braço. Comecei a andar e dessa vez ele não me seguiu. Eu sabia muito bem onde Julie estava e eu tinha que me apresar se quisesse chegar logo. Andei longos minutos até a placa do ponto de ônibus, que por sinal estava deserto. Encostei no poste e esperei, mas a única companhia que eu tinha era a garoa que começara a cair. Esperava que passasse logo, mas para minha infinita sorte, a garoa se transformou em chuva, que por sua vez se transformou em uma tempestade.
–Que ótimo. — murmurei irritada.
Minhas roupas ficaram ensopadas em pouco tempo. Ventava forte, o que me fazia sentir ainda mais frio. E quando eu sinceramente achei que as coisas não poderiam piorar, eis que aparece na estrada um ChevyImpala 1967 preto. O carro do Nicholas. Virei o rosto esperando que ele não me visse, não deu certo é claro. O carro parou no meu lado.
–Claire? — ele indagou.
–Sim? — eu disse sem conseguir enxerga-lo muito bem por causa da chuva.
–Tem certeza que não quer uma carona? — ele perguntou, sem conseguir reprimir uma risada.
Por mais que eu quisesse a carona, precisava recusar. Não podia meter ninguém nessa história, principalmente o Nicholas que não tinha nada a ver.
–Tenho. Eu vou de ônibus. — disse tentando não gaguejar, por culpa do frio.
–Sabe que os motoristas estão em greve certo?- ele disse apontado para o poste. Me virei para o mesmo. Estava escrito que os motoristas ficariam em greve por pelo menos duas semanas, para revindicação de um melhor salário.
–Perfeito. — disse tentando não bater em alguém.
–Então, vai querer a carona ou não? — ele perguntou arqueando as sobrancelhas.
–Você está indo para onde? — perguntei.
–Interior. — ele disse.
Era para onde eu estava indo. Como poderia recusar a carona se isso salvaria a Julie ? Pisquei os olhos. Eu precisava da ajuda de Nicholas, mas não poderia deixa-lo saber sobre o resto das coisas.
–Tudo bem, eu vou aceitar a sua carona. -disse me dando por vencida.
–Eu sabia que você não resistiria a mim. — ele disse sorrindo, enquanto saia do carro para abrir a porta para mim. Agora ele dava uma de cavalheiro? Reprimi uma risada e entrei no carro. Ele deu a volta, entrou e deu partida.
–Tem certeza que quer viajar hoje? — ele perguntou. — Está tarde, você está toda molhada e não me leva a mal, mas você não parece muito bem.
–É claro que eu não estou bem. Eu acabei de sair do hospital. — eu disse óbvia.
–O que você aprontou agora? — ele perguntou tentando conter o riso.
–Ontem três homens encapuzados, me perseguiram, me bateram e ...- a frase morreu. Tinha falado de mais, como sempre. Ele me encarou. Sua expressão era indecifrável, até que ele disse:
– E ?
– Sequestraram a minha irmã mais nova. — eu disse por fim.
–A Julie ? — ele perguntou. Assenti. — Por que não foi na polícia, para eles investigarem ou sei lá ?
–Porque eu sei quem foi. — respondi simplesmente.
–Deixa eu adivinhar. Você está indo atrás dessa pessoa agora, não é? — ele disse e suspirou quando eu assenti. — Você realmente não devia estar fazendo isso.
–Nicholas, você não manda em mim. Só está me dando uma carona e sem dúvidas eu não pedi sua opinião. — eu disse e encarei a chuva no lado de fora, pela janela.
–Você que sabe. — ele respondeu se concentrando na estrada. Sua voz parecia diferente. Parecia magoada.
A chuva continuou a cair lá fora. Olhei para Nicholas de relance e vi que ele ainda parecia chateado. O carro estava em silêncio absoluto, exceto pelo o barulho dos meus dentes batendo. Eu estava morrendo de frio. Tentei não me concentrar nisso e dormir. Fechei os olhos e a última coisa de que me lembro era Nicholas me cobrindo com seu grande casaco.
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