Notas iniciais
Espero que gostem.

Quando acordei, o dia já havia amanhecido. Levei alguns segundos para perceber que o carro estava parado. Virei para o lado e vi que Nicholas não estava no carro. Cocei os olhos e coloquei os cabelos atrás da orelha. Vesti o casaco dele que estava sobre o meu colo.

–Nicholas ? — o chamei, abrindo a porta do carro.

–Aqui. — ele disse saindo de trás do capô do carro que estava levantado.

Parei uns segundos para observa-lo. Ele estava com a mesma roupa do dia anterior, uma calça jeans velha e uma camisa branca, que agora estava dobrada, deixando a mostra seus músculos bem definidos.

–O que... o que houve com o carro ? — perguntei, tentando não gaguejar. Ele deu um sorriso torto que logo sumiu.

–O carro quebrou. — ele disse. — Bem no meio do nada. — ele bufou,frustado.

Olhei para os lados e constatei que ele estava certo. Estávamos realmente no meio do nada. Os dois lados da estrada eram puro capim.

–Você só pode estar brincando comigo. — eu disse respirando fundo.

–Queria estar. Acredite. — respondeu, batendo o capô do carro.

–Você sabe pelo menos o que está errado ? — perguntei.

–Tenho quase certeza que são as velas. — ele disse passando a mão no cabelo.

–Velas ? Aquelas tipo pra quando acaba a luz ? Ou aquelas tipo ''vou acender para algum santo'' ?

Ele deu uma risada.

–Não tem nada a ver com isso Claire. São as velas da ignição. E não se preocupe, já chamei um mecânico, para troca-las. — ele disse.

–Vai demorar muito ? — perguntei ansiosa.

–Um pouco. — ele disse. — Agora vamos entrar no carro e esperar. — ele deu a volta e entrou no lado do motorista. Fiz o mesmo.

–Estamos perdendo tempo. Eu tenho que chegar logo. — eu disse, prendendo me cabelo com um elástico.

–Já tem um plano para salvar sua irmã ? — perguntou.

–Não se ofenda Nicholas, mas eu prefiro guardar isso pra mim.

–Não me ofendi. — ele disse dando um sorriso.

–Vai demorar muito ?

–Claire, perguntar isso várias vezes não vai fazer o mecânico chegar mais rápido. Sabe disso certo ?

Revirei os olhos.

–Muito engraçadinho Nicholas. Muito mesmo.

–Obrigado. As mulheres amam senso de humor. — ele disse dando ombros.

–Por que mesmo que eu peguei carona com você ? — resmunguei.

–Porque eu sou irresistível, bonito e engraçado. — ele disse dando um sorriso torto.

–Idiota. Isso com certeza você é. — retruquei.

–Ai, isso magoa. Eu sou só um cara que usa o sarcasmo como uma forma de esconder sua dor secreta. — ele disse dando uma risada.

–Ah é ? E qual seria sua dor secreta ? — perguntei sugestiva.

–Me conta a sua, que eu te conto a minha. — ele disse, agora sem rir.

–Eu perguntei primeiro.

–Quantos anos você tem Claire? Seis ?

–Dezesseis, para sua informação. — respondi séria. — E para sua informação eu tenho muitas dores secretas, então você fala primeiro.

–Tá bom então. — ele suspirou. — Para começar eu tenho três irmãos. Isso já é uma dor secreta, concorda ? — ele perguntou.

Dei uma risada.

–Sério Nicholas.

–Sério então. Como eu disse, tenho três irmãos, mas nenhuma mãe. Meu pai foi embora depois que minha mãe morreu, quando eu tinha dez anos. Kevin nos criou e ele tinha apenas quinze na época. Joe tinha treze e Frankie tinha dois. Dois anos... — ele sacudiu a cabeça. — Mas Kevin deu duro, conseguiu aquele bar e nos criou do jeito que conseguiu. Nós crescemos, Joe e eu começamos a trabalhar para ajudar o Kevin, mesmo ele insistindo que não precisava, mas sabe... eu nunca mais fui o mesmo desde que nosso pai foi embora, ele era meu pai sabe ? Nunca superei bem... nunca.

Coloquei minha mão sobre a sua.

–Nicholas, está tudo bem. — dei um sorriso, ele fez o mesmo. Parecia abatido, o que me deixou triste. — Além do mais, você nunca vai ganhar de mim, no jogo de quem tem a vida pior.

Nós dois rimos.

–Se é assim... pode começar a falar.

–Para começar, eu nunca tive um pai. Ele morreu antes de eu nascer... — dei um suspiro. Nicholas deu um sorriso triste.

–Mas você tinha sua mãe, certo ? -Ele perguntou.

–Certo. Eu tinha minha mãe e ela era a melhor pessoa do mundo... Nos mudamos para essa fazenda quando eu tinha seis anos, onde ela era empregada, e eu morei lá praticamente minha vida toda. O patrão dá minha mãe, o Michael, era um cara bem legal, ou pelo menos parecia ser... — dei outro suspiro. Nicholas me encarava com curiosidade. — Quando eu fiz dez anos descobri que o Michael estuprava minha mãe. Minha própria mãe... — meus olhos estavam repletos de lágrimas. — Eu quis ir embora dali... tentei convencer a minha mãe, mas ela insistia que precisávamos daquele dinheiro, então ficamos. Ele maltratava a minha mãe, fazia coisas horríveis com ela... Ele batia nela, ele a queimava com a ponta do cigarro. Aquele desgraçado... ele destruiu a vida da minha mãe e a minha também... Minha mãe engravidou e teve a minha irmã... e depois que ela morreu... eu fugi com a Julie, sem olhar para trás... -pisquei os olhos para espantar as lágrimas — Eu passei um ano inteiro sem ter notícia daquele desgraçado. Eu achei que estivesse segura. Longe do seu alcance. Achei que a Julie estive segura... mas estava tão errada... — o choro estava preso na minha garganta. Tentava reprimi-lo de qualquer forma.

Nicholas pôs sua mão sobre a minha. Ele também tinha lágrimas nos olhos.

–Está tudo bem Claire. Nós vamos dar um jeito nisso. — ele disse, tentando me animar.

O abracei. Parei de reprimir as lágrimas e chorei. Chorei com uma criança, enquanto Nicholas apenas fazia carinho nos meus cabelos.

–Vai dar tudo certo. Eu prometo Claire. — ele disse.

Passamos algum tempo assim, abraçados. Não sei se foram horas ou minutos, mas só me separei do Nicholas quando o mecânico bateu na janela dizendo que estava com a peça nova para o carro. O conserto não foi exatamente rápido. Só conseguimos voltar a estrada depois que o o sol se pôs.

–Ainda falta muito ? — perguntei pela milésima vez em meia hora.

–Sim Claire. Ainda faltam algumas horas. Quer se acalmar ? — ele sugeriu.

–Não, obrigado. — revirei os olhos.

–Vai dar tudo certo Claire. Eu já te disse.

–Eu sei. — murmurei.

–Então por que está tão nervosa ?

–Eu só estou com medo...

–Pois não fiquei. Eu estou aqui com você... — ele sorriu e meu medos desapareceram naquele segundo.

Notas finais
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