Superfície
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Capitulo 1.
Senti uma cama abaixo de mim. Eu estava confusa e minha cabeça latejava. Meu corpo inteiro doía e eu não queria abrir os olhos, ainda assim o fiz. Eles ardiam devido à excessiva claridade. Estava de manhã. Pisquei algumas vezes. Olhei para os lados procurando saber onde eu estava. Era um quarto relativamente pequeno. As paredes eram brancas, assim como a poltrona e o armário. O único barulho que eu escutava era o da máquina ao meu lado, fazendo um tipo de ‘bipe’ constante. Pisquei os olhos de novo. Eu estava no hospital. Tentei levantar, mas meu corpo inteiro doía demais.
- Como eu vim parar aqui? – minha voz saiu rouca e fraca.
Fechei os olhos novamente. Não conseguia lembrar, mas sabia que alguma coisa estava tremendamente errada.
- Meu Deus... – fui interrompida por uma moça — provavelmente a médica – que entrou no quarto. Ela usava um jaleco branco e seus cabelos loiros e compridos estavam soltos sobre seus ombros.
- Vejo que você despertou. – ela disse extremamente simpática. – Eu sou a Dr. Lisa.
- O que aconteceu? – perguntei nervosa.
- Claire certo? – ela perguntou conferindo em sua prancheta.
- Certo.
- Ontem algum morador das redondezas encontrou você desmaiada em um pequeno beco atrás do seu trabalho. Lembra-se disso? – ela perguntou colocando o cabelo atrás da orelha.
- Não... Quer dizer, sim. Eu acho que sim. – balancei minha cabeça. Estava confusa e as memórias pareciam voltar embaralhadas.
- Você estava ferida e perdendo sangue, por isso chamaram uma ambulância. – assenti, acompanhando sua linha de raciocínio. – Pelo o que averiguamos, parece que foi agredida. Por mais de uma pessoa. – enquanto ela falava, as memórias voltavam confusas. – Você recobrou a consciência já no hospital, mas só repetia um nome. Julie.
Um grito se formou em minha garganta. Agora eu me lembrara.
- Esse nome faz sentido para você? – ela perguntou observando minha reação.
Levantei-me da cama em um pulo. Ignorei a dor em meu corpo e retirei a agulha que se encontrava em meu braço direito.
- Eu preciso sair daqui. – disse me sentindo fraca.
- Você ainda não está recuperada. Precisa ficar. – ela disse impedindo minha passagem. Meus joelhos estavam falhando e meus olhos estavam repletos de lágrimas.
- Eles a levaram. – eu disse com a voz sufocada. – Eles levaram a Julie de meus braços. – tudo ao meu redor começou a girar. – Eles levaram minha irmã. – E então eu desmaiei.
(...)
Não sei por quanto tempo fiquei inconsciente, mas quando acordei já era noite. Estava deitada na cama, coberta e o quarto estava silencioso. Passei a mão no rosto, começando pela boca. Eu sentia os pequenos cortes latejando. Queria sair daquele lugar. Queria ir atrás da minha da Julie antes que fosse tarde demais. Apertei o botão que chamava a enfermeira e ela logo veio. Era uma senhora de cabelos negros e pele morena, não tão simpática quanto a médica. Pedi a ela que chamasse a doutora e assim ela fez. Alguns minutos depois Doutora Lisa adentrou cautelosamente no quarto. Seguida de um homem uniformizado que identifiquei como um policial e uma mulher séria com roupas sociais.
- Claire, esse é o policial Carl e essa é Anna, ela é do conselho tutelar.
- Ah, sim. – respondi entendo a situação. – Mas o que eles estão fazendo aqui?
- Você só tem dezesseis anos Claire. Foi agredida e segundo seu relato sua irmã foi sequestrada. – ela disse. – Você precisa conversar com eles. Ta bem? – eu assenti.
- Bom Claire. – Anna começou a dizer. – Você é menor de idade e foi agredida. Então onde estão seus pais? – ela perguntou com cautela.
- Morreram a algum tempo. – respondi, me esforçando para não chorar.
- Quem tem a sua guarda?
- Meu tutor. – respondi com desgosto.
- E quem seria esse?
- Eu fugi. – disse, evitando a pergunta. – Ele me tratava muito mal e eu fugi.
- Entendo... Quando sair do hospital, será levada a uma instituição para menores. – ela disse anotando em um bloco de papel.
- Um orfanato? – perguntei sugestiva. Ela assentiu.
- Agora vamos a parte policial. – Carl disse. – Você foi agredida, sua irmã foi sequestrada. – ele disse também anotando. – Gostaria de prestar queixa contra seu tutor também? – ele perguntou e eu reprimi uma risada. Estaria morta se prestasse uma queixa contra Michael. Literalmente morta.
- Não obrigada. – respondi.
Ele fez mais algumas perguntas sobre os agressores e sequestradores, eu respondi vagamente. Não queria a polícia metida nessa história. Depois eles foram embora, para o meu alívio. Dei um sorriso sem mostrar os dentes para a doutora Lisa e ela se despediu, saindo do quarto em seguida. Levantei-me da cama e fui até o banheiro. Olhei-me no espelho e percebi que não estava tão machucada como pensei. Tinha dois corte nos lábios, um acima da sobrancelha direita, nada muito grave.
- Eu não posso ir para o orfanato. – murmurei. – Tenho que sair daqui.
Olhei-me mais uma vez no espelho. Meu rosto fino e de feições suaves estava cansado. Meu cabelo cor de mel, estava ondulado como sempre. O penteei e o prendi em um rabo de cavalo frouxo. Vesti uma calça jeans clara, uma blusa preta de meia manga e meu converse all-star amarelo. Lágrimas invadiram meus olhos enquanto o calçava, aquele tênis era cheio de lembranças... de promessas. Balancei a cabeça deixando para lá. Sequei as lágrimas e voltei ao quarto. Caminhei até a porta e a abri olhando para o corredor vazio. Foi fácil sair do hospital despercebida, afinal não era a primeira vez que eu fugia de algum lugar. Corri até em casa. Eu morava em um pequeno apartamento de um quarto, sala, cozinha e banheiro. Fui até meu quarto. Ele estava levemente bagunçado como sempre. Minha cama estava para fazer, porque eu acordei atrasada, o berço de Julie estava arrumado, mesmo com ela sempre fazendo bagunça. Meus olhos se encheram d'água, involuntariamente e eu as reprimi. Peguei minha mochila azul e enchi das coisas básica que eu iria precisar, roupas, documentos e todo o dinheiro que eu tinha. Tranquei a casa e saí do prédio. Fui até meu trabalho, o bar. Assim que cheguei lá, vi que estava lotado. Muitos homens, a maioria bêbados. Ignorei as cantadas e os olhares indiscretos, enquanto ia até o balcão. Meu patrão, Kevin estava fazendo contas e dando trocos, quando me aproximei.
-Oi Kevin. — disse meio afobada.
-Claire, você não devia estar no hospital? — ele perguntou parecendo preocupado.
-Não. — menti. — Eles já me deram alta. — menti de novo.
-Ata. Veio trabalhar ?
-Para falar a verdade, eu vim dizer que vou ficar uns dias fora.
-Tudo bem, mas quando voltar não sei se o emprego ainda vai estar disponível. — ele disse compreensivo.
-Sem problemas. — eu disse. — Muito obrigado por tudo Kevin, agora eu tenho que ir. — me despedi e caminhei até a porta. — Adeus Kevin. — gritei me virando, enquanto andava.
Quando voltei a me virar para frente era tarde demais. Bati de frente com alguém, minha mochila caiu no chão e a da pessoa também.
-Me desculpa... — olhei para a pessoa.
-Imagina. A culpa foi toda minha. — ele sorriu, se desculpando.
- Nicholas ?
Era o irmão mais novo de Kevin. Ele era completamente convencido e cheio de si. Ainda assim era lindo. Era mais alto do que eu, magro com alguns músculos aparecendo por baixo de sua camisa branca. Tinha o cabelo castanho escuro totalmente cacheado e olhos simplesmente perfeitos. Sem falar na boca...
-Eu mesmo. — ele disse com um sorriso torto nos lábios. — Já disse que pode me chamar de Nick
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