Super 8

2 Pé de Lebre.


Notas iniciais
Os fatos estranhos começam a surgir um após o outro, e enquanto alguns culpam seus próprios amigos, outros acreditam que pode ser algo inacreditável.

– Marte, levanta. — chamei-o com tapinhas na cara.

– Hmm?

– Vamos, Catarina marcou um encontro do grupo numa cafeteria, acorda.

– Você avisou a ela que eu estava dormindo...? — pergunta como se estivesse embriagado, os olhos mal abrem, de sono.

– Avisei.

– Vadia...

– Garotos, o café da manhã está pronto. — avisa minha mãe ao abrir a porta do quarto sem bater, não deveria fazer isso no quarto de um adolescente do sexo masculino, até porque não quero desrespeitá-la.

– Vamos comer fora hoje mãe, reunião da equipe numa cafeteria, e...

– "Pode me emprestar cinco dólares?" Já sei, já sei, só farei isso porque o Marte tá aqui, se não você sabe muito bem onde estaria agora.

– Com a cabeça na privada. — respondo revirando os os olhos.

– Exatamente.

Marte, então, fez gestos como que pedisse minha aproximação, queria cochichar algo:

– Agora sei o motivo de você ser assim, Lucca.

– Não viu nada... — respondi também no ouvido dele.

– O que estão cochichando aí? Desçam e tomem um banho os dois, agora!

[Cena 4, Tomada 1... Ação.]

Marte e eu pegamos as bicicletas e pedalamos até a Cafeteria "Kopi Luwak", ligeiramente distante, passando por muitas ruas movimentadas; no caminho observei uma loja de eletrodomésticos com varias TVs na vitrine, exibindo o telejornal da manhã, mas as notícias eram bizarras demais:

– Marte, espere! — parei em frente à loja.

– O que é? — pergunta, até que repara que estou assistindo a TV. — É sério que me parou para ver jornal?

– Esse lugar não é o terreno de ontem?

– É?

A notícia era apresentada:

Um incêndio sem indícios de fontes começou durante a madrugada dessa sexta-feira, moradores de regiões vizinhas puderam sentir o cheiro de fumaça e as cinzas que invadiam suas casas. O corpo de bombeiros foi acionado. O mais interessante é que, assim que o fogo foi apagado, os helicópteros puderam registrar uma mensagem escrita pelo fogo em tamanho gigante: "IT IS NOT A BUNNY. IS A HARE."

– "Não é um coelhinho, é uma lebre..." — traduzi a mensagem mostrada na TV.

– Lucca, aquele último ponto...

– É a toca da Lebre. — respondo, aparentemente calmo por fora, mas cagando por dentro.

[Lebres vivem em campos abertos,

diferente dos coelhos, que cavam tocas.]

Chegando na cafeteria, estacionamos apressados e logo estávamos na mesa com o outro.

– Nossa , vocês estão ofegantes, que houve? — pergunta Catarina.

– Antes de qualquer coisa que me faça perder a chance de te dizer algo do gênero... — adiantou-se Marte, dando uma pausa para respirar. — Eu adoraria te encontrar na rua se insinuando para velhos ricos.

– É recíproco. — rebateu Catarina.

– Catarina, isso não soou legal... — alertou Enzo.

– Ah não? — perguntava confusa sob risos do Marte ao fundo.

– Enzo, algum filme ficou contigo? — perguntei.

– Hm? Não, por que?

– Está faltando um na bolsa, mas isso não é importante, temos um assunto para tratar.

– Nós também temos! — proclamou Catarina. — O que era aquele cara armado de ontem?

– Mais importante. — disse.

– O que é mais importante que isso e o filme? — perguntou.

– Enzo, trouxe o notebook?

– Trouxe. — respondeu colocando-o sobre a mesa.

– Passa pra cá. — peguei-o e comecei a pesquisar sobre o evento do incêndio. — Leiam isso. — disse virando a tela.

– Hm... "It is not a bunny, is a hare.", e daí? — perguntou Catarina.

– Não está reconhecendo o lugar?

– Já estivemos aí?

– Olhe o último ponto final.

– ... O que tem ele?

– Caramba! — bravejou Marte, perdendo a paciência. — É o buraco de ontem!

– E o que tem de mais?

– Considerando que nenhum de nós causou o incêndio, e considerando que o filme não foi editado, quem mais poderia ter feito isso? Eu chamei a lebre de coelho, ontem. — expliquei.

A expressão de todos ficou assustada, de certa forma, é mais fácil ver alguém de nós como o culpado, mas não era tudo:

– Lucca, o que quis dizer com "considerando que o filme não foi editado"…? — perguntou Enzo.

– Vamos pedir algo pra comer primeiro, depois mostrarei algo extraordinário que gravamos ontem. — respondi chamando a garçonete com a mão.

– Vão fazer o pedido agora? — perguntou sacando um caderninho e caneta do bolso.

– Um café com muito açúcar e bacon. — disse Marte.

– Ovos com bacon e café sem açúcar. — respondi.

– Gente, mas não vai ser estranho? — perguntava Catarina.

– Estranho por que? — perguntei.

– Vão pedir mais alguma coisa? — perguntou a garçonete.

– Não, pode ir. — disse Marte, fazendo-a retirar-se.

– É que eu nunca entrei em quarto de garotos antes, e sou a única garota aqui... — explicou Catarina.

– Não se preocupe, veremos na garagem, não tem nenhum carro lá e não deve ter nenhum problema. — respondi.

Após Marte e eu comermos o café da manhã, os quatro pegaram suas respectivas bicicletas e pedalaram até minha casa.

[Cena 6, tomada 2... Gravando.]

"Enzo, traz uma lanterna, vou filmar dentro do buraco."

"Ta certo."

Estávamos na garagem de minha casa, repleta de prateleiras cheias de materiais de oficina e um cheiro de óleo abundante. A imagem na tela ia mostrando mais para dentro do buraco.

– Prestem atenção a partir de agora. — alertei.

"O que tem dentro?"

"É fundo... Nem com sol e lanterna consigo enxergar lá."

Dois olhos se abrem então, emanando um brilho como olhos de gato na noite, porém de cor avermelhada e bem maiores, exalando um sentimento de medo.

– O que é isso...? — pergunta Catarina cobrindo a boca com uma das mãos enquanto a outra usa pra se apoiar no chão, chocada e assustada.

"Ei... Eu não vou ter de entrar aí, né?"

– É o que queremos saber, não vi nada enquanto gravava, eu com certeza teria visto isso. — respondi.

O vídeo então chega na parte que o velho armado surge ao longe com berros e em seguida quando eles começaram a correr.

– Ainda estava gravando? — perguntou Marte.

– Eu corri assustado, não pensei em desligar a câmera na hora.

– Está falando igual a mim mais cedo.

– Shh! — shiei com o dedo nos lábios, focando nas imagens, até que: — Enzo, pause!

O vídeo foi pausado, todos olharam para mim curiosos.

– O que foi agora? — perguntou nervosa Catarina.

– Aquilo ali, no chão, não é o meu filme?

Enzo deu um zoom na imagem, realmente era.

– Que diferença faz? — perguntou novamente.

– Vamos voltar lá.

– O que?! Ficou maluco? — fitou-me Marte com minha tamanha esquisitisse.

– É! Ficou maluco? Quer voltar lá com aquela coisa lá? Nem sabemos o que é isso! E aquele incêndio... Foi um recado pra gente! O filme deve ter sido carbonizado. — disse Catarina.

– Eu sei pelo que eu passei pra conseguir esses filmes, não vou conseguir dinheiro pra outro, se tiverem alguma objeção, culpem-se por gastarem suas mesadas.

– Você não está raciocinando, Lucca... Tá pior que a Catarina! — zombou Marte com uma mistura de preocupação.

– Ei! — irritou-se.

– Tudo bem, então, eu vou sozinho.

– Boa sorte. — desejou Enzo.

– Fiquem aqui e me esperem. — pedi.

– Vamos tentar, mas o que vamos dizer se tua mãe perguntar? — perguntou Marte.

– Enrole-a.

Parti, pedalando, até o campo sem nome mais uma vez.

Notas finais
Um dia após o primeiro e o segundo está pronto! Tentarei manter o ritmo.