Super 8

3 Problemas de Família.


Notas iniciais
Houveram atrasos devido à uma nova rotina e problemas com a saúde, mas o capítulo finalmente saiu.

Estou numa estradinha de terra, uma subida pequena até o terreno do buraco, como eu o chamo; os pneus desgastados da minha bicicleta escorregavam a cada pedregulho na qual passo por cima, pude observar uma estranha movimentação. Enfim lá, deparo com faixas amarelas impedindo minha passagem, viaturas policiais, bombeiros, e peritos investigando na área do incêndio. Larguei a bicicleta no chão e corri até a faixa:

– Ei, guri, não pode passar daqui. — interveio um oficial segurando-me pelo ombro.

– Algum problema aqui? — surgiu uma voz familiar atrás de mim, é o pai do Enzo.

– Sr. Linssey, sou o Lucca, amigo do teu filho.

– É claro que é. — riu. — Pode soltar-lo, detetive. Filho, vamos conversar no meu carro? — convidou-me já à caminho da viatura, aparentemente eu não tinha opção. Talvez ele possa ajudar.

Segui-o e adentrei ao veículo, ambos nos bancos frontais, quando fitou-me de forma contundente:

– Então, o que veio fazer aqui, filho?

– Eu vi o incêndio na TV, achei que seria um bom cenário pro meu filme...

– Ah, claro, o filme, Enzo me fala bastante dele, mas onde está sua câmera?

– Deixei com ele.

– Você parece tenso, acalme-se, vou apenas fazer um pequeno interrogatório.

– Eu estou bem.

Coçando as têmporas, prosseguiu:

– Está fazendo um filme sobre o que mesmo?

– Alice no país das maravilhas.

– Olha só, se não é aquele conto da garotinha que persegue o coelho... Opa! Não é um coelho, é uma lebre! — riu claramente forçado, fiquei em silêncio. Prosseguiu: — Desculpe pela piadinha inapropriada... Vocês estão gravando o filme com uma câmera super 8, não é?

– O Enzo te contou até isso?

– Não, ele não me conta esses detalhes. — disse puxando do bolso o filme pelo qual eu estava lá, surpreendo-me.

– Eu não sou culpado, Sr. Linssey.

– Calma, eu não te acusei de nada. Mas posso te pedir um favor?

– ... Sim, pode.

– Fique longe do meu filho, entendeu? — apontou-me o dedo ao falar em tom soberano. — Não quero que ele se meta nas birutisses do teu avô.

– Espera aí, você está me acusando, como pode ter tanta certeza que o filme é meu?

– Câmeras super 8 saíram do mercado, alguém raramente compraria um filme nos dias de hoje, eu conhecia o louco do teu avô.

Pela segunda vez ele referiu-se ao meu avô como algum sinônimo de maluco, apesar de ser muito estranho alguém em são estado mental comprar tamanha quantidade de filme como o meu avô fez. Mas... Como ele sabe disso se meu avô morreu antes de sequer gravar algo? Ele narrava o que fazia para todo mundo?

– Eu não...

– Aquele velho saía gravando tudo o que via, igualzinho a você, era irritante.

– Ele... O que? — confundi-me.

– Se eu te ver junto de meu filho mais uma vez, baterei na porta de tua casa com um par de algemas, tenho certeza que as impressões digitais estão aqui. — ameaçou. — Agora, saia.

Retirei-me do carro em direção à bicicleta, olhando várias vezes para trás.

– E diz pro Enzo ir pra casa assim que você ver ele! — gritou.

[Então ele chegou a gravar.]

Ao retornar para casa, Enzo e Catarina estavam sozinhos na garagem, guardei a bicicleta ali mesmo:

– Onde está o Marte? — perguntei.

– Os pais dele vieram buscá-lo puxando pela orelha, foi a melhor coisa que já vi esse ano. — respondeu Catarina.

– Conseguiu achar o fime?

– Sim, mas, tive um problema.

– Que tipo de problema? — perguntou Catarina.

Expliquei toda a situação com o pai do Enzo para os dois enquanto vasculhava as prateleiras da garagem, não mencionem nada sobre meu avô.

– Meu pai disse isso?

– Que horrível...

– Ele sempre teve um rancor com sua família, falando nisso.

– Ele se envolveu com alguma briga com meu avô? — perguntei.

– Não sei, ele nunca me falou a respeito.

– Mas o que tem seu avô? — perguntou Catarina.

– Nada não. — respondi. — Mais uma coisa, Enzo, ele falou para você ir pra casa.

– Agora?

– Agora. — confirmei abraçando-o. — Vamos resolver isso, certo?

– Vamos! Nós quatro! — disse Catarina. — Somos uma equipe, apesar de odiar o Marte.

Enzo então pegou sua bicicleta e perguntou:

– Catarina, vem comigo? — chamou Enzo. — Posso te deixar em casa.

– Ah, não, não quero fazer desfeita com a Sra. Tochetto.

– Sei...

– Com a minha mãe? — perguntei.

– Ela nos convidou para almoçar aqui hoje, se eu também for embora, não sobrara nenhum convidado.

– Bom, eu vou indo. — avisou Enzo.

– Espera! — gritei, entregando-o um walkie talkie que encontrei nas prateleiras. — Ele provavelmente vai monitorar teu celular, fala comigo por aqui.

– Certo, até mais.

Ao longe, Enzo observava-me com olhar de pesar, algo o incomodava, e não era só a história sobre seu pai, tinha algo mais.

– E agora?

– O que? — perguntei.

– Como fica as filmagens?

– Quero desistir de Alice e fazer um filme sobre algo diferente.

– Como o que?

– Sabe fazer maquiagens assustadoras? — perguntei.

– Sei...

Na noite do dia seguinte, Marte, Catarina e eu estávamos gravando nosso novo filme, sobre apocalipse zumbi. A câmera estava num tripé, Catarina ainda maquiava Marte, eu já estava pronto, escolhendo o ângulo que seria filmado:

– Marte, trouxe o gelo seco? Precisamos de nevoeiro.

– Sim, eu trouxe.

– Catarina, deixa ele assustadoramente feio.

– Eu tenho que embelezar ele um pouco pra chegar nesse ponto. — respondeu Catarina, colocando um sangue artificial para escorrer na boca de Marte.

– Vagabunda! Deixa só a gravação terminar pra você ver quem vai parecer um zumbi.

– Não me provoca! Lucca, faz alguma coisa!

– Vamos, vou dizer o que tem de fazer. — disse indo de encontro a eles. — Eu, o mocinho, irei beijar a mocinha, Catarina, minutos antes do zumbi aparecer e morder-la. Daí eu irei buscar vingança, exterminando todos os zumbis em meio a um apocalipse que se espalha rapidamente.

– Beijo?! — corou Catarina.

– Que clichê, Lucca.

– Eu sei, mas não temos tanto elenco pra algo maior.

– De onde vai tirar tanto zumbi? — perguntou Marte.

– Deixa isso comigo, vou ligar a câmera, entrem em suas posições, Marte você vem daquela direção, depois vamos repetir a cena em outros ângulos e com closes.

– Isso vai dar um trabalhão, será que eu trouxe gelo o suficiente?

– Não temos tempo pra isso agora, vamos.

Eu e Catarina, frente a frente, como um verdadeiro casal de namorados, esperando o meu sinal para começar. Marte iria ligar a câmera e se posicionar enquanto Catarina e eu atuávamos.

Luz, câmera, e... Ação.

– Cena 1, tomada 1, morte da mocinha, ação! — disse Marte batendo a claquete na frente da lente da câmera e indo em posição.

A atuação começou.

– Lúcia, eu te chamei aqui porque eu queria lhe dizer algo importante... — disse Pasco.

– Por que não me telefonou? Está tarde.

Um estranho nevoeiro então começou, assustando Lúcia.

– Não tenha medo, o nevoeiro não fará mal algum, o que tenho para te dizer é algo que preciso dizer há muito tempo, está preso no meu coração, não posso mais esconder ou disfarçar!

– Calma, o que é tão importante assim?

– Meu estomago flutua, minhas mãos tremem, minha boca seca... Sempre que estou perto de você...

– Pasco...?

– Eu te amo.

Ele segurou-a pelo ombro, seus olhos estavam conectados um ao outro. Seus lábios aproximavam cada vez mais dos lábios de Lúcia. Ela não reagia. "Apenas faça" ela pensava.

Um beijo, quente e demorado, fazendo com que Lúcia o abraçasse e segurasse em suas costas com força. Um beijo apaixonado e indescritível. Os dois então encararam-se com olhos úmidos e respiração ofegante.

De repente, um gemido mortificado pôde ser ouvido:

– Quem está aí? — gritou Pasco.

Não havia resposta alguma. Lúcia sentiu medo e Pasco abraçou-a, quando eis que surge um morto-vivo diante de seus olhos. Espantado, Pasco lançou-se no monstro para proteger Lúcia:

– Corra!

Ela correu de fato, mas na direção do zumbi, para salvá-lo duma mordida, que pegou em seu pulso.

– Aaah! Dói demais!

– Lúcia! — gritou, suas mandíbulas forçadas e sobrancelhas apertadas mostravam que estava irado, socando o zumbi no queixo, caindo para trás. Pegando, então, Lúcia no braço e correndo para longe dali.

[Corta!]

Notas finais
Os mistérios estão crescendo, pretendo revelar-los o mais rápido possível.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.