Sunshowers
3 Melhores amigos
Era outra manhã, Usopp descia a alameda e já avistava alguns alunos do colégio. Como no outro dia, encontrou Sanji e dessa vez acompanhado por um rapaz de cabelos verdes.
— Ora, Zoro! Por que faltou ontem? — Perguntou quando conseguiu alcançar os passos da dupla.
— Eu não faltei. — Respondeu seco e um pouco sonolento.
— Ham? Como assim? Tava invisível?
— Como eu não fui buscá-lo, esse idiota saiu atrás da escola por conta própria e só encontrou o caminho certo agora! — Sanji não perdia nenhum momento para tirar com a cara do esverdeado.
— Isso não é verdade!!
— Eu sei, Zoro, isso é surreal demais até mesmo para você. — Usopp também gostava de implicar com o amigo e Sanji levantou o polegar, sinalizando que a piada foi boa. Já o outro se irritou, enquanto pensava o porquê de continuar andando com esses dois. — Mas, sério, por que não veio? Sanji disse que estava magoado com ele.
— E ainda estou, não quero ver a cara dele!!!
— Eu tô aqui do seu lado, idiota!!!
Foi nessa hora que Usopp percebeu que Zoro em nenhum momento virou o rosto no sentido para Sanji. Estava o ignorando e andando ao lado dele?
— Usopp, eu não fiz nada! Esse marimo que tem merda dentro da cabeça!!
— Como?! — Zoro já avançava pra cima do loiro, mas ouviram um chamado por trás deles e pararam.
— Usopp, Sanji e Zoro!!! Me esperem!!!
— Quem é esse e como sabe meu nome? — Perguntou o esverdeado, estreitando o olhar por não reconhecer o rosto do caipira que vinha correndo com sua mochila.
— É o novato. — Usopp respondeu sorrindo. — Nosso mais novo amigo.
O sinal tocou e os quatro se acomodaram em suas carteiras junto dos demais alunos. Na verdade, três deles, Zoro ainda estava de pé e pedia ao novato para trocar de carteira com a sua. Ele não queria ficar sentado atrás de Sanji, sabia que o idiota viraria o rosto toda hora pra puxar conversa e Zoro ainda planejava ignorá-lo.
— Mas aqui eu consigo ver Usopp desenhando. — Respondeu Luffy, fazendo o narigudo virar-se imediatamente com os olhos abertos.
— Quê? Usopp desenhando? — Zoro perguntou num tom tedioso e Sanji passou a prestar atenção na conversa.
— Você não sabe? Por acaso é idiota? — Disse o novato, mas sem maldade na voz.
— Você é o último que tem que me dizer isso!! — Rebateu o esverdeado, que segundos atrás bocejava.
— Você sabe desenhar, Usopp? — Sanji finalmente disse algo.
Usopp estava constrangido ao ver três olhares curiosos sobre si. — Sim, um pouco... — Respondeu, enquanto pensava que fora idiota demais por ter esquecido que a carteira atrás da sua estava sendo ocupada por Luffy. Mantinha esse hobby em segredo e costumava desenhar durante as aulas da forma mais discreta possível para aqueles dois insensíveis nunca notarem. Isso reforçava o pensamento de não ser especial para Sanji e Zoro por não chamar suas atenções.
— Um pouco?! — Luffy riu com sua modéstia. — Você desenha muito!!! Mostra pra eles seu caderno!!!
Estava nervoso e não sabia o que fazer, mas o professor entrou na sala e pediu a todos se sentarem e fazerem silêncio. Fora salvo pelo gongo e suspirou aliviado, porém, deu tempo para Sanji e Zoro fazerem a pergunta mais odiada pelos artistas "Me desenha?".
Era o horário do intervalo e Sanji tirava de sua mochila 4 marmitas, não se importou em fazer uma a mais, até porque pensava que não havia muita diferença de 3 pra 4, o mais importante era alimentar todos os seus amigos. Eles estavam no terraço, Sanji e Zoro sentados sob a sombra da caixa d'água para comerem, enquanto Usopp e Luffy se escoravam no parapeito e cuspiam em cima das cabeças de quem passava no térreo.
— Ei, vocês dois! Parem com essa brincadeira nojenta e vêm almoçar! — Sanji gritou estressado como sempre. — Aliás, marimo, não estava me evitando? Por que agora tá sentado bem na minha frente?
Zoro não respondeu e estava com o olhar desviado mais pra direção dos garotos.
— Ora, ainda tá me ignorando?! — Enfureceu-se, mas deu a marmita para ele mesmo assim. Zoro sabia que o loiro nunca o deixaria sem comer, ainda que estivessem de mal. Ou pelo menos da sua parte.
Usopp e Luffy riam quando acertavam alguém, e Sanji teve que se levantar do chão para pará-los. — Vão comer e parem com essa brincadeira, senão vão acabar acertando uma garota!!!
O esverdeado comia enquanto os observava e pensou que seria uma boa se uma garota ganhasse uma cuspida bem em cima do cabelo. Pelo menos a garota que seu melhor amigo estava a fim.
— Sanji! Ponha mais carne na minha!! — Luffy pediu assim que abriu a marmita e sentado ao lado de Zoro.
— Quê? Já faço de graça e ainda reclama? Você é um folgado... — Reclamou, apontando o garfo na sua direção, mas a partir daquele dia colocaria mais carne na marmita de Luffy. O rapaz loiro não conseguia negar comida a ninguém.
A aula terminou.
Apenas Usopp e Luffy voltavam juntos da escola, Sanji ficou com vontade de fumar e Zoro foi junto a ele para um lugar onde fumaria sem nenhum adulto no encalço. Subiam a alameda com as árvores cada vez mais secas, um vento frio descia rua abaixo junto de um zumbido.
— Logo fará frio. — Constatou Usopp.
O novato concordou num aceno, mas se lembrou de algo. — Por que nunca contou a Sanji e Zoro que desenha?
— Ham, sobre isso... — Sabia que Luffy viria com essa pergunta uma hora, e desviou o olhar para cima. Ainda era de dia, mas o céu estava cinza por conta das nuvens densas. Talvez choveria, pensou. — Não sei se tenho muita intimidade com eles para falar do que gosto.
— Ainda acha eles babacas? — Luffy perguntou um pouco enfurecido e Usopp se estremeceu ao se lembrar do soco do outro dia.
— Não!! — Rebateu antes que o garoto lhe surpreendesse com outro soco. — Na verdade, acho que eles que não gostam de mim.
— Você é mesmo babaca.
Usopp ficou magoado. Qual era o problema desse cara pra falar tão claramente? Não sentia pena das pessoas? — Você é muito cruel...
Luffy levou o seu dedo indicador até sua testa, demonstrando que estava pensando profundamente. Não era um rapaz de pensar muito e isso chamou a atenção do narigudo. — Eles devem se dar mais bem um com o outro do que com você, devem ser melhores amigos!!
— É, não precisa pensar tanto pra chegar nessa conclusão.
— Está me chamando de burro?
— Quê??? Claro que não, hahaha. — Coçava a nuca desesperado para não levar outro soco, mas, de repente, Luffy começou a pular ao seu lado como se tivesse tido uma ideia brilhante.
— Já sei!! Por que não seja meu melhor amigo e eu ser o seu?
Piscou os olhos, confuso. — Isso se consegue perguntando?
— Desculpa, eu não sou muito inteligente. — Dessa vez era Luffy que coçava a nuca sem jeito. Usopp riu e compreendeu que aquele idiota só era muito honesto quando falava, em nenhum momento queria magoá-lo.
— Você não é burro, pelo contrário. E eu adoraria ser seu melhor amigo.
De repente caiu um toró e os dois passaram a correr desesperados. Torciam para que nada em suas mochilas molhasse, principalmente todos os papéis de cadernos e livros.
Como a casa de Luffy era mais perto, Usopp resolveu ficar por lá enquanto a chuva não parasse. Perguntou se podia usar o telefone, o seu celular havia descarregado, e ligou para sua mãe assim que teve o consentimento de seu amigo. Disse a ela que estava protegido na casa de Luffy e que voltaria quando parasse de chover.
Depois de desligar, Luffy ofereceu uma toalha que o narigudo aceitou de bom grado. Olhou ao redor e achou a casa dele bonita, talvez era mais bonita que a sua.
— Quando seus pais chegam?
— Eu não tenho pais, moro com o meu irmão mais velho, Sabo.
— Ha... sinto muito...
— Tudo bem, eu na verdade nunca os conheci! Cresci com meu avô e meus dois irmãos! — Luffy deu um largo sorriso para assegurar que estava tudo bem, mas Usopp sentiu tristeza e não o calor afetuoso que vinha sentindo até o momento. — Que tal jogarmos no meu quarto?
— Sobre isso... — O rosto negro de Usopp se avermelhou. — Gostaria que ouvisse uma de minhas histórias.
— Sério? São sobre o que?
— Aventuras.
Ainda chovia do outro lado da janela do quarto de Luffy, e seu irmão mais velho não havia chegado, mas estava tudo bem. Usopp pegou seu caderno de anotações e leu alguns trechos de uma história sobre um menino de borracha que se aventurou para o mar.
— Bem, acabou.
— Já?!
— Só tem esses trechos aleatórios por enquanto, gostou? — Usopp nem precisava fazer essa pergunta, porque ele notou o quanto o outro estava interessado e envolvido na história.
— Muito! Eu adorei o protagonista, ele é idiota que nem eu! Shishishi.
— Não diga uma coisa dessa a si mesmo. — Sorriu e Luffy se lembrou que havia dito isso para ele no outro dia.
— Mas eu sou mesmo idiota, gostaria de ter tantos talentos como você. Não desiste de seus sonhos.
Usopp achou isso a coisa mais estranha que já ouviu na vida, sentiu que tais palavras foram mais para ele próprio do que para si. Por que aquele garoto imperativo ficava melancólico do nada? — Luffy, você quer me dizer algo?
De repente seu celular vibrou sobre a mesa da cabeceira, enquanto carregava com o carregador de Luffy. Era uma mensagem de Zoro querendo encontrá-lo e era urgente, como o próprio escrevera, deixando bem claro. Usopp colocou o celular no bolso e viu pela janela que já não chovia, depois apanhou sua mochila no pé da cama de Luffy. Porém, pensou por que Zoro não contatou Sanji em vez dele.
— Minha mãe vai me matar por chegar mais tarde, agora preciso ver Zoro.
— Te levo até a porta.
— Muito obrigado e, por favor, não desista de conversar comigo.
— Não sou eu que está saindo da conversa. — Essa fala de Luffy acertou em cheio Usopp, o mais certo seria ficar para ouvi-lo, dava para ver que ele não estava bem. Mas Zoro dizer "urgente" numa mensagem era algo bem incomum também.
— Me perdoe, Luffy.
— Tudo bem, te perdoo só por ter me mostrado sua história. Eu tava pensando, se você fica todo grilado em mostrar seus desenhos, o mesmo deve acontecer com as histórias, certo? Fico feliz por confiar em mim.
O narigudo não tinha sacado isso, até Luffy contar. Realmente era verdade, ele também escondia de todos que escrevia.
— É porque você é o meu melhor amigo! — Luffy concordou. — Apesar de eu não poder te ajudar agora. — Coçou a nuca, constrangido.
— Apenas vá, Usopp! Outro dia te conto!
Antes que Luffy fechasse a porta da casa, Usopp se aproximou e deu um beijo numa de suas bochechas. Depois saiu correndo sem perceber que havia deixado o amigo bem corado.
Luffy tocou sua face e notou que estava quente. Por alguma razão desconhecida, seu coração bateu mais forte.
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