Sunshowers
4 Cicatriz
As calçadas e as ruas estavam molhadas devido a chuva. O comércio se fechava aos poucos, como Usopp notara ao ver um supermercado se fechando, e pensou que deveria ser 21:00 horas. Contudo, estava longe de voltar pra casa e sua mãe com certeza gritaria com ele quando retornasse. Suspirou e deu uma olhada no céu, as nuvens se dissipavam e davam lugar para as estrelas brilhantes.
O encontro com Zoro não seria na casa dele, mas sim numa das praças do bairro. Usopp caminhava e pensava o que seria "urgente" para o esverdeado que sempre andava letárgico. Finalmente chegou na praça arborizada e passou os olhos a procura do amigo, até que o viu sentado num banco com um pequeno poste ao seu lado. A lâmpada piscava e não havia mais ninguém no local. Porém, quando Usopp se aproximou, ele estranhou Zoro estar com a cabeça agachada e completamente molhado.
— Zoro... você tomou banho de chuva?
O esverdeado levou um susto e ergueu o seu olhar, um que Usopp nunca vira. Era um olhar alarmado.
— Sim... Não fui pra casa. — Isso era verdade, ainda andava com a mochila que estava no seu colo e usava seu uniforme.
Usopp ficou preocupado e se sentou ao seu lado. — O que houve?
Zoro voltou a fitar o chão com o olhar ainda alarmado, isso até levar ao rosto suas mãos grandes. — Usopp, eu sou um pervertido.
Apesar das palavras terem saído abafadas, Usopp ouviu claramente. — Então... é só isso? — Não acreditava que havia deixado de ouvir Luffy para ouvir uma coisa besta como essa. Ele sabia que Zoro era lerdo, mesmo tendo um porte físico desenvolvido, mas por mais atrasado que fosse, algum dia sentiria desejos como qualquer adolescente. — Escuta, isso é normal. Afinal, estamos na idade em que os hormônios mexem com a gente.
Ao compreender que o narigudo não fazia ideia do que ele quis dizer, Zoro tirou suas mãos do rosto para encarar Usopp seriamente. — Eu roubei um beijo do sobrancelha enrolada.
"Sobrancelha enrolada" era o apelido que Zoro dera a Sanji por suas sobrancelhas terem espirais.
— Quê?! — Usopp exclamou tão alto que subiu um eco nas redondezas da praça por estar vazia. — Você beijou o Sanji?!
— Fale mais baixo!!!! — Disse com o dedo indicador nos lábios e depois começou a coçar o couro cabeludo por ter tido um flashback daquele momento tão constrangedor em que saíram da escola para o loiro fumar. — Como sou pervertido!!! Há dias tenho tido uns pensamentos estranhos e eu achei melhor evitá-lo. Mas o idiota disse que estava a fim de mais uma garota e hoje não me segurei!!! Meu Deus, chamo tanto aquele tarado de tarado, mas tarado sou eu!!!
— Zoro, calma... Você não é um tarado. — Pousou uma mão no ombro do amigo, que não parava de se debater. — Você é apenas gay, ou bi e tem os pansexuais também.
— Gay?! — Disse incrédulo.
— Sim, gay, qual é o problema?
— Eu não sou g-g...
— Se tu beijou um cara que te excita, você é gay, caralho!
— Ai meu Deus, eu sou gay!! — Voltou a se debater e Usopp o segurou pelos ombros para encará-lo.
— Não há problema em gostar de outro homem, isso tá longe de ser perversão, pecado, tabu, ou seja lá o que dizem. É natural tanto quanto gostar de mulher.
O olhar sério de seu amigo lhe acalmou. Depois de ser solto pelas mãos morenas, respirou fundo.
— E qual foi a reação de Sanji?
— Ele me chamou de pervertido.
Usopp deu um profundo suspiro, não tinha dúvidas que era rodeado por idiotas. — Não fique ofendido, ele deveria estar chocado.
Zoro apoiou os cotovelos nas coxas das pernas para apoiar a cabeça nas mãos. — Acho que nossa amizade acabou e ele nunca mais vai me ver. — No entanto, sentiu dois tapinhas nas costas e olhou pro lado.
— Vai ficar tudo bem, Zoro. — Sorriu.
Até porque Usopp tinha certeza que Sanji sentia o mesmo, esse beijo já era pra ter acontecido há muito tempo.
Um rapaz loiro e de cabelos ondulados preparava o jantar depois de chegar do trabalho.
— Luffy! O rango está pronto e saia desse vídeo game!!
Luffy correu do quarto para a cozinha. — Mas é claro que vou sair, não vou deixar de comer nunca.
O loiro sorriu com a resposta e fazia a mesa em que Luffy já estava sentado. Ele tirou uma mecha sobre a cicatriz de seu rosto e a colocou atrás da orelha. — Falar nisso... Você tem feito o seu almoço?
— Não.
— Luffy! Não me diga que está queimando a mesada do vô com porcarias da lanchonete? — Sentou-se na mesa muito enfurecido.
Sabo odiava o jeito relapso de seu irmãozinho, e era até por isso que não preparava o almoço. Ele queria que Luffy soubesse se virar mais.
— Na verdade, um amigo faz pra mim uma marmita. — Disse e reparou o olhar desconfiado do irmão. — Eu sei que são garotas que fazem isso, mas Sanji faz marmita para todos e por isso não está dando em cima de mim!!
— E por acaso Sanji é o garoto que estava aqui mais cedo? — Sabo cortava seu pedaço de carne educadamente, enquanto seu irmão havia comido (ou engolido) numa mordida só.
Luffy ficou rubro ao saber que seu irmão viu Usopp saindo de casa. — Não... o que tava aqui era o Usopp...
Limpou o canto da boca com um lenço. — Ora, vejo que está cheio de amigos, então!!! Um que faz marmita pra ti e outro que te dá beijinhos.
O mais novo ficou novamente rubro ao ouvir isso. — Foi no rosto, nada demais.
Porém, Sabo percebeu que Luffy não estava normal, quando mexia na comida com um garfo em vez de devorá-la por completo. — Fico feliz que já se enturmou, Luffy. E como presente, você que vai lavar a louça hoje!
O garoto lamuriou com uma careta e Sabo riu, mas era verdade que estava feliz por Luffy estar com amigos. Desde que houvera o acidente de carro responsável pelas cicatrizes em seus rostos e que levou o irmão mais velho a morte, Luffy nunca mais foi o mesmo. Embora sorrisse, sabia que gostaria de chorar e até mesmo começou a implicar com os garotos da antiga escola. Como seu irmão ficou marcado, Sabo achou melhor mudarem para outra cidade e Luffy poder recomeçar tudo de novo.
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