Summer Vacation
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Já havia passado dois dias desde o encontro no estacionamento, e Kiera ainda não sabia o que pensar sobre o que aconteceu lá.
Por que Dylan estava tão determinado que ela o perdoasse? Ele queria uma menina tola em volta dele novamente? Exatamente como Kiera fazia quando era menor? Enquanto questionava-se sobre os motivos que o fariam "se importar" com ela, Kiera lembrou-se de quando o conheceu.
13 anos atrás, Miami
- Kiera?! Kyle?! Venham aqui! Mamãe quer que vocês conheçam alguém.
Os dois pularam dos balanços que ficavam atrás da casa dos avós, e correram para dentro, pulando de dois em dois degraus a escadinha da varanda.
Chegaram ofegantes na sala de estar. Duas pessoas que Kiera e Kyle não conheciam estavam sentadas no sofá de dois lugares. Uma velhinha com cabelos brancos, e uma criança com cabelos e olhos negros. A vovó levantou-se com a chegada repentina das crianças.
- Que crianças lindas – disse a velhinha com um olhar amável na direção de Kiera e Kyle. A outra criança só ficou encolhida no sofá, observando a cena, silenciosamente.
- Estes são meus filhos, Kiera – Beth colocou a mão no ombro da menina – e Kyle – deu um tapinha na cabeça do menino. – Digam “oi” para a Sra. Nancy e seu neto Dylan.
- Oi – disseram Kiera e Kyle, em coro.
- Dylan, venha dar oi, querido. – a velhinha encorajou o menino.
- Olá – disse ele, se levantando.
- Por que vocês não vão brincar lá no pátio, crianças? – perguntou Beth amavelmente – Eu, Nancy e a vovó Sarah, vamos tomar chá na varanda.
Kiera puxou o vestido da mãe com sua mãozinha delicada.
- Mas mamãe, — começou falando baixinho – ele é um menino! – Kiera falou como se aquele fosse o fato mais horrível da face da Terra.
Sra. Nancy e Beth começaram a rir, enquanto vovó Sarah vinha da cozinha, rindo também.
- Querida, — começou vovó Sarah, perto de Kiera – seu irmão também é um menino, e você ainda assim brinca com ele, não é? – perguntou com um sorriso de dentadura.
Kiera assentiu, mas logo se apressou.
- Mas o Kyle não conta. Ele brinca de bonecas comigo, duvido que o Dylan iria brincar.
Kyle ficou vermelho com a revelação da irmã mais nova.
- Você disse que não ia contar para ninguém se eu brincasse com você! – acusou ele.
Dylan, que até agora era a criança mais calada na sala, resolveu falar.
- Tudo bem, eu brinco de bonecas se você quiser. Mas antes vamos brincar de pega-pega. – olhou nos olhos verdes jade de Kiera.
Ela abriu um sorriso triunfante e anunciou, já correndo:
- O último a chegar aos balanços começa pegando!
Sorriu ao lembrar-se de como era inocente naquela época. Todos eram. Até mesmo Dylan. Depois daquele dia na casa da vovó Sarah, Kyle e Dylan tornaram-se praticamente inseparáveis. Todo verão, ano após ano, eles continuavam a ser melhores amigos e se meter em confusões juntos. Ás vezes, chamavam Kiera para ir com eles aprontar algo para os vizinhos dos avós de Dylan. Mas normalmente eram só eles dois.
No início, Kiera ficou brava. Ela tinha gostado de Dylan quando se conheceram, mas depois, ele e Kyle faziam coisas de meninos que não lhe interessavam. Eles não brincavam mais de bonecas com ela. Quando Kiera completou dez anos, estava tão segura de que perdera o irmão para Dylan, que um dia quando Kyle disse que iria sair para algum lugar com Dylan, ela lhe gritou: “Por que não mora logo com ele? Ou pede para a mamãe nos trocar! Eu fico com a família dele e ele vem para a nossa. Seria muito mais fácil!”. Logo que gritou, saiu correndo em direção ao riacho que tinha ali perto. Ela ficou algumas horas ali, na margem, chorando pelo irmão perdido.
Quando estava começando a escurecer, ouviu passos na mata. Ficou com medo que fosse um bicho ou um fantasma que viria pega-la por ter gritado com o irmão. Assim que viu Dylan, se acalmou. Mas não por muito tempo. Ao ver o “ladrão de irmãos”, ficou brava de novo. Já estava indo embora quando Dylan chamou por ela. Ele fê-la sentar-se e ficar com ele por um tempo. Explicou-a que nunca tivera a intenção de “roubar” Kyle dela. Que também sentia muito pelos dois meninos nunca mais terem brincado com ela. Ficaram conversando um tempo, falando sobre os peixes que nadavam a beira do riacho.
Naquele dia, Dylan prometeu para Kiera que ele e Kyle voltariam a brincar com ela. Só não de boneca. Segundo Dylan, quando os meninos chegavam as 13 anos, não podiam mais brincar de coisas de meninas; fazer isso era como por em dúvida sua masculinidade. Kiera não entendeu nada daquele papo de masculinidade, e disse que tudo bem se eles não quisessem mais brincar com ela disso, mas que ainda teriam de brincar de outras coisas. A partir daí, Kyle voltou a ser seu irmão, e Dylan voltou a ser o amigo deles, não só o melhor amigo de Kyle/ladrão de irmãos.
Tudo ficou bem entre os três até que Kiera completou 16 anos, e eles, 19. Naquele verão, tudo mudou. Ás vezes Kiera se pagava pensando como teria sido a vida deles se, naquele ano, eles tivessem feito escolhas diferentes. Infelizmente, não adianta pensar sobre isso, pois mesmo querendo, as coisas que aconteceram não mudariam.
Depois daquele ano, Kiera recusava-se a passar as férias de verão na casa da Vovó Sarah. Ela poderia tolerar aniversários, datas especiais e feriados, mas nada de férias de verão.
Nos primeiros dois anos, seus pais tentaram convencer Kiera a ir, mas ela não aceitava. Não lhes contou o motivo, também. Só duas pessoas sabiam o motivo: BJ, que ficou sabendo um ano depois do ocorrido; e Lizzy, que ficou sabendo quando ela e Kiera tornaram-se inseparáveis após a iniciação na faculdade. Seus pais acabaram desistindo de tentar ir. Passaram os últimos quatro verões em NY. Kyle ficou irritado, pois adorava ir para Miami e passar o verão com o melhor amigo. Ele brigou com Kiera, chamando-a de mimada e infantil. Além de ter um coração partido por quem estava apaixonada, também teve pelo irmão.
Kyle acabou superando e focou nos estudos. No ano em que fizera 19 (mesmo ano em que tudo desmoronou para Kiera), entrou para o time de Futebol da faculdade, e começou a cursar Engenharia Ambiental. Arranjou novos amigos, e logo deixou de lado sua rixa com a irmã. Eles se amavam. Kyle e Kiera eram gêmeos de alma, separados por três anos de diferença. Nem que quisesse, ele conseguiria ficar bravo com ela por muito tempo.
Kiera ficou um pouco nostálgica depois de lembrar-se desses acontecimentos. É claro, eles nunca haviam sido esquecidos, mas só porque continuavam em sua memória, não significava que ela gostava de pensar sobre eles.
Pegou o celular e ligou para Kyle. Ele atendeu no terceiro toque.
- Oi, maninha.
- Oi Ky. Você está em casa? – perguntou Kiera.
- Sim, por quê? Pensando em visitar o irmãozinho? – brincou com ela.
- Na verdade, — Kiera começou, falando baixinho – sim.
Kyle subitamente ficou preocupado.
- O quê houve, Kie? – questionou.
- Nada, nada – Kiera apressou-se em explicar. – Só queria conversar um pouco, você sabe.
- Ok, pode vir! Se você chegar e eu estiver no banho, já sabe onde está a chave.
********
Vinte minutos depois, Kiera estava em frente ao bloco de apartamentos de Kyle. Assim que desligou a chamada com ele, correu para tomar um banho rápido. Vestiu-se e foi caminhando até o apartamento do irmão.
Subindo as escadas, ficou pensando no quê diria para Kyle. Não tivera exatamente um motivo para ir visitar o irmão. Agora que tinham se mudado da casa dos pais, os dois mantinham um pouco mais de distância. Cada um com seu motivo: Kiera queria liberdade, Kyle queria espaço para as garotas com quem saía e os caras do futebol. Parecia simples, mas funcionava para os dois. Depois daquela tonelada de lembranças da infância, Kiera sentiu saudades de passar um tempo com o irmão mais velho.
Chegou ao terceiro andar e foi em direção à porta do apartamento 316. Bateu três vezes, levemente.
Nada. Imaginou que ele ainda estivesse no banho.
Kiera olhou na direção das escadas, depois checou o corredor para ver se tinha alguém por ali. Vazio. Subiu na ponta dos pés e alcançou a chave em cima do arco da porta. Um dia, Kyle teria que mudar esse esconderijo, ele era tão óbvio!
Kiera abriu a porta e entrou. Olhou em volta para certificar-se de que Kyle não estaria andando pelado pela sala de estar. Com o seu irmão, nunca se sabe. Não havia ninguém por ali.
Sentou-se no sofá e ligou a TV. Estava passando um documentário sobre “O quê as pessoas mais gostam de fazer”. Ver esse documentário lembrou-a de quê ainda tinha de pensar em algo para o projeto de fim de semestre para a faculdade. Também tinha que marcar uma hora com o “senhor instrutor”. Urgh, essa é a pior parte, pensou. Dando uma segunda olhada na TV, teve uma ideia. E se ela fizesse um documentário sobre “O que as pessoas gostariam de fazer, se soubessem que só teriam mais um dia de vida”? ERA ISSO!, pensou. Esse seria o trabalho perfeito. Teria bastante pesquisa, sim, mas com um pouco de trabalho duro e a ajuda do Dy..instrutor, conseguiria. Talvez pudesse pedir a ajuda de Lizzy com as fotos... Imaginou Lizzy tirando fotos e filmando enquanto Kiera entrevistava pessoas nas ruas. Animou-se com a ideia. Finalmente, teria um trabalho decente. Pega essa, Sr. Finley!!, pensou rindo.
- Do que você está rindo, Kie? – perguntou Kyle, chegando à sala.
Kiera sorriu, virando-se para o irmão.
- Nada, Ky. Só tive uma ideia brilhante para o meu projeto de fim de semestre. – Kiera não conseguia esconder a felicidade recém-adquirida.
- Ok, ok. Não quero saber sobre o que é. Mostre-me quando estiver pronto. – Kyle sorriu. Então, pareceu se lembrar de algo importante, e sua face escureceu – O que aconteceu Kiera? Você parecia preocupada no celular.
O sorriso de Kiera vacilou um pouco, mas nada mudaria seu bom-humor agora.
- Ah, Ky, não foi nada. Só queria conversar. Você sabe, eu estava me lembrando da nossa infância e me senti um pouco nostálgica. Eu sei, ridículo, não é?! – disse rindo de si mesma.
Kyle riu também.
- Não é ridículo Kie. Nesses dias também estive pensando sobre isso. Acho que a chegada do Dylan provocou isso em nós.
Agora o sorriso de Kiera extinguiu-se completamente. Tentou disfarçar o desconforto enquanto Kyle se atirava em uma poltrona ali perto. Ele nem pareceu notar a mudança de humor na irmã, e continuou.
- Depois desses quatro anos separados, é bom ter meu melhor amigo de volta. Você sabe, eu meio que te odiei por um tempo por não querer mais passar as férias de verão em Miami. Mas é claro, eu nunca realmente consegui te odiar. Era um pouco impossível com aquela carinha. — Kiera sorriu com o carinho que o irmão demonstrava por ela. — Você sempre adorou ir para lá, por isso eu não entendi quando você não quis mais ir, depois daquele ano. Ainda não entendo o porquê, mas tudo bem, eu superei isso. Agora que eu estou dividindo o apartamento com o Dylan, estamos nos falando bastante e co... – Kiera parou de escutar assim que Kyle disse as palavras “eu estou dividindo o apartamento com o Dylan”.
- Espera Kyle. O Dylan está morando aqui? – perguntou relutante, já temendo a confirmação.
- Sim, ele se mudou ontem. Louco não é?! Não nos falamos por quatro anos e agora ele está morando comigo. Mas como ele já terminou a faculdade, está dedicando o tempo livre para o trabalho como instrutor na NYU e quase não fica em casa. Ele é seu instrutor, não é?! – questionou Kyle.
- Sim, — disse Kiera, cansada das pegadinhas do Senhor Todo Poderoso lá de cima – sim, ele é.
- Por que eu sinto como se.. – Kyle foi interrompido pelo toque do telefone residencial.
Levantou-se da poltrona e foi atender.
- Alô? – atendeu Kyle, sereno.
Kiera estava mexendo em um fiozinho que estava escapando da manta do sofá, enquanto Kyle falava ao telefone. Assim que conseguiu arrancar o fio, olhou na direção do irmão.
Kyle, que antes estava com uma expressão relaxada, agora aparentava estar preocupado.
- Onde foi? Sim, sim, eu sei onde é. Ok. Sim, eu estou indo. Só um minuto. – Kyle colocou a mão sobre o microfone do telefone e olhou para Kiera – Arrume-se, nós temos que ir. – e voltou a falar ao telefone.
Kiera não estava entendendo nada. Kyle desligou o telefone e saiu à procura de algo. Seus tênis, talvez.
- Kyle, o que houve? – perguntou Kiera, preocupada.
Kyle continuou de um lado para o outro do apartamento, atrás de algo que, aparentemente, ainda não tinha conseguido encontrar.
- Kyle, fala comigo! – Kiera praticamente implorou. Ele continuou ignorando-a.
- KYLE! – Kiera gritou. Kyle só olhou para ela, atordoado.
- O quê? – perguntou.
- O quê aconteceu? Você recebeu esse telefonema e agora está como um louco. Fica indo para lá e para cá, procurando algo que, pelo jeito, está um pouco impossível de encontrar.
Kyle continuava procurando o objeto “precioso”.
- Me ajude a encontrar a chave do meu carro. Eu explico no caminho.
Desistindo de exigir alguma resposta no momento, Kiera saiu à procura da chave. Kyle estava olhando no congelador (???), quando Kiera gritou do banheiro.
- Achei! – veio correndo em direção à sala.
- Ótimo! Onde achou? Ah, não importa, só vamos logo. – falou apressadamente, já indo em direção da saída.
- Mas vamos para onde? – Kiera questionou novamente.
Kyle parou a caminho da porta. Virou-se para Kiera com uma expressão que beirava o desespero.
- Para o hospital. – parou e respirou fundo, encorajando a si mesmo – Mamãe e papai sofreram um acidente grave.
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