Summer Love
2 First Week, part 1.
Notas iniciais
De acordo com os milhões de descrições da minha avó sobre a família perfeita, eu já podia identificar quem era. A mulher alta, nova e psicopata, era Natalie-não-sei-o-quê, que recentemente tornou-se Natalie Clark. Usava sempre roupas de madame, seus cabelos loiros platinados lisíssimos sempre em ordem, e eu poderia deduzir que ela já acordava perfeita, como se tivesse saído de uma propaganda. Ela era linda.
Ao seu lado seu marido, com raiva, Christian Clark, o maior editor do estado – e meu ídolo por isso, era quase um orgulho estar viajando com ele; se não fosse pelo resto da família. Senhor, com os cabelos brancos por toda cabeça, e barba cheia. A única coisa que parecia viva nele eram seus olhos azuis. Andava curvado, e ainda sim conseguia ser tão grande quanto seu filho. Tinha seus bons cinquenta anos, ou mais. Gritava alguma coisa ao garoto alto, que estava atrás dele.
Este, por sua vez, ria; gargalhava. E mesmo o pai gritando com ele, ria ainda mais do garotinho menor, que chorava. Ethan Clark era tão grande quanto seu pai, se não maior. Tinha um belo corpo físico, mas ainda sim era magro. Não que eu me importe com seu corpo físico, mas Ethan Clark fica mais bonito magro do que se fosse malhado. Seus cabelos eram lisos e negros, e os mesmos olhos azuis eletrizantes do pai. De acordo com a minha avó, ele tinha algumas tatuagens pelo corpo, feitas clandestinamente, para que o pai não soubesse.
E o pequeno garoto, Charlie, mais atrás, segurando um ursinho marrom, chorando. E chorava muito. Seus olhos eram iguais aos do irmão e do pai, mas seus cabelos eram de um ruivo forte. Era tão pequeno e delicado como uma porcelana.
E juntos, caminharam em minha direção. E logo em seguida minha visão foi preenchida por cachos vermelhos, enquanto bracinhos rodeavam meu pescoço, sacudindo-me com seus soluços.
– Você é a mocinha bonita, neta da titia Lily? – soltou meu pescoço, inclinando-se para poder olhar para mim.
– Neta da titia Lily eu sou, se eu sou bonita eu não sei. – nunca gostei de crianças; mas seus olhos estavam quase tão vermelhos quanto seus cabelos ruivos, o que fazia com que fosse como se quase como se meu coração estivesse sido apertado. Quase.
– Você não é a mocinha bonita. – Uh, esse menino quer apanhar? – VOCÊ É A MOCINHA LINDA! – gritou, para todo aeroporto. Eu podia jurar que todo o sangue do meu corpo concentrou-se apenas nas minhas maçãs do rosto.
– Charlie, não a deixe envergonhada! – repreendeu a... Madrasta? Com certeza; o corpo daquela mulher era tão perfeitamente plastificado que eu duvido que ela tenha tido ou venha a ter um filho. – Olá Emma! Fico contente que aceitou vir conosco.
– Eu não tinha como recusar, não é? Nem poderia! Obrigada pela oportunidade. – sorri o mais amigavelmente possível. Meu Deus, eu não iria aguentar três meses com essa ladainha.
Vi Ethan Clark revirar os olhos, pelo modo como Natalie falou comigo ou vice-versa. Levantei para cumprimentá-los, ainda com o pequeno Charlie no colo, que logo pulou para o chão, e começou a gritar:
– NÃO CHEGUE PERTO DO ETHAN! ELE É MAU, ELE VAI PUXAR SEUS CABELOS! NÃO SE APROXIME, MOCINHA LINDA!
– Pode deixar Charlie, eu nunca iria querer chegar perto dela. – Ethan Clark praticamente rosnou para o garoto, agora escondido atrás de minhas pernas.
– ETHAN! – gritou Christian.
– Tanto faz. – retrucou, antes de olhar-me de cima a baixo e revirar os olhos, indo em direção à entrada/saída do aeroporto.
– Desculpe-me pelo Ethan, Emma. Ele está irritado porque o avião sai em meia hora e o amigo dele ainda não chegou. – sorriu Christian. Era estranho ver um sorriso no rosto dele; vovó sempre diz que ele é muito sério, e em todas as fotos que já vi dele, ele está sempre sério também. Acho que era quase uma obrig... O QUE?! AMIGO?!
– Desculpe, como assim? Pensei que iríamos apenas nós cinco.
– Ah sim, iríamos. Mas Ethan disse que não iria se não pudesse levar alguém que “salvasse a pior viajem do século”.
E assim, as férias que já estavam ruins, conseguiram ficar piores quando Ethan caminhou em nossa direção ao lado de um garoto duas vezes maior que ele, de cabelo azul.
[...]
“Última chamada para o voo 943” – 08h00 AM.
Meu Deus, minha última chance de sair correndo e voltar para casa. Olhei para saída do aeroporto, esperando que minha mãe chegasse gritando que aquilo era uma loucura e me levasse para casa, mas não aconteceu. Charlie apertava minha mão, os nós dos seus pequenos dedos estavam brancos. Já havia parado de chorar, depois de brincar com o garoto dos cabelos azuis, que agora eu descobri, era Zachary Thompson, ou Zac. Mas que nome ridículo, Zachary. Parece um mantra budista: Zachary Thompson, Zachary Thompson, ZACHARY THOMPSON! Cruzes.
Como nem o Espírito Santo, nem minha mãe ou uma bomba atômica chegou para me salvar, eu já havia largado as duas malas na esteira de bagagem, andando apenas com a carteira ridícula que minha mãe me deu e Charlie pendurado ao meu lado, caminhando em direção à sessão de embarque daquele domingo com o Mantra-Budista-Cabelo-Azul me enchendo de perguntas de por que raios eu havia aceitado viajar com – de acordo com ele – a Maníaca-Psicótica-Preciso-Fazer-As-Unhas-E-Meu-Cabelo-É-Perfeito e o velho com cheiro de charuto importado, com bônus do – ainda definição dele – obra do Satã e o palito de fósforo. Lembrando que o obra do Satã é o melhor amigo dele. De acordo com ele, Ethan estava pagando 500 dólares pelos três meses, e deixaria Zac ficar com seu cartão, para comprar o que quisesse. Ele também prometeu que dividiria o cartão comigo porque era muita maldade minha mãe obrigar-me ir nessa viagem.
Quando fora liberado para que entrássemos no avião, que vi Charlie correu para sentar ao lado do pai, meu subconsciente já estava imaginando planos de morte por ter que sentar ao lado da Natalie e ficar falando sobre cabelo e maquiagens. Mas não. Pelo menos uma coisa aconteceu de bom. Meu querido novo amigo Zac disse a Ethan que sentaria comigo! Assim, ao invés de ficar falando sobre cabelos e maquiagens, tive que ir ouvindo tudo sobre a vida de Zac.
Seus pais eram separados desde seus seis anos, porque seu pai fugiu com uma garota quinze anos mais nova que ele, deixando um bilhete, “Sinto muito, mas não podia continuar aqui, cuide de Zachary por mim.” e quinhentos dólares. “Como se isso fosse ajudar em alguma coisa” – Zac disse logo depois de explicar que depois disso o pai nunca mais deu notícias, nem dinheiro. Zac e Ethan haviam se conhecido quando a mãe de Zac, Jocelyn, se mudou para cidade dez anos atrás por ter recebido uma promoção no trabalho, e havia sido transferida para lá. A mãe dele era alguma coisa da policia, ou FBI ou sei lá que diabo. Explicou que a mãe não era tão rica quanto à família Clark, mas que viviam bem, e ele havia conseguido uma bolsa no colégio que Ethan estudava.
Assim, sendo novo no colégio e não conhecendo ninguém na cidade, fora ridicularizado por quase todos do colégio, por ser extremamente magro, estranho e sem nenhuma aptidão para esportes; até descobrirem que sua mãe era do FBI. Depois disso, alguns nerds começaram a socializar com ele por ter boas notas – e de acordo com ele, só fizeram isso porque ele tinha nota maior que as deles, então precisavam coloca-lo no grupo, para não entrar em desvantagem. Depois que percebeu isso, saiu do grupo dos nerds – que para ele era o grupo mais estúpido de toda a história de grupos escolares.
E foi quando dei um tapa em sua cabeça, explicando a ele que eu era do grupo dos nerds, formado por mim; Megan, minha melhor amiga; e Isaac, meu melhor amigo, que inicialmente era do grupo dos neutros, mas era o mais inteligente das pessoas, e foi para o nosso grupo quando foi excluído por descobrirem que ele é gay.
Depois começou a andar com os punks. Foi quando, aos treze anos, começou a pintar o cabelo de cores coloridas. Originalmente, ele era loiro. Depois, pintou de preto. Sua mãe quase o agradeceu, confessou ela, três anos depois, porque ele era muito parecido com o pai. Em seguida, vermelho, verde, amarelo, voltou ao preto, roxo, laranja, rosa, e agora azul. Ele ficava três meses com uma cor – às vezes cinco, se gostasse da cor – e pintava sempre que a raiz começava a sair. Quase uma mariquinha. Quase.
Quando pintou o cabelo de vermelho, os populares – grupo de Ethan – começaram a se interessar por ele, porque além de ter notas boas, começara a desenvolver músculos e o treinador do time de futebol começou a treiná-lo, e logo ele já se tornara titular; e popular.
Zac era um garoto bonito, sim. Mas era muito ingênuo. E irritante. Muito irritante.
Por fim, arrumou a primeira namorada aos quinze anos, mas descobriu que ela o traía com quase metade da escola – menos as lésbicas, os punks, nerds e Ethan e outro garoto. Depois disso, saiu do time de futebol porque todos o traíram, já que dormiram com sua namorada, e agora só tem quatro amigos na escola: Ethan, que também saiu do time de futebol; Dexter, o outro garoto do time de futebol, que saiu noutro ano pelo mesmo problema de Zac; e George e Oliver, gêmeos, que entraram o ano passado na escola. Fizeram o próprio grupo de populares, de cinco pessoas. A formatura seria um mês depois que voltássemos de viagem, e ele disse que eu iria, sem reclamações, e que os caras iriam adorar me conhecer; e para não me sentir deslocada, poderia levar meus amigos. Ele estava animado, porque assim poderia sair de viagem pelo mundo. Mas Ethan faria de novo: havia repetido, depois de ter pagado a festa e a viagem.
– Vou te dar um conselho Emma: continue no grupo dos nerds, porque o terceiro ano é pesado.
– Mal posso esperar para começar e terminar o terceiro ano. – sorri animada.
– Por quê?
– Porque o Christian disse que quando eu acabar o terceiro ano, já tem um estágio reservado para mim na editora dele. E que ele iria publicar meu manuscrito.
– Você escreve?! Eu sempre quis que alguém fizesse um livro sobre mim. Promete fazer? – ele estava tentando colocar uma música naqueles aparelhos de banco de avião, mas havia esquecido-se de colocar os fones antes, assim, quando deu play na música, a voz Tony Sly começou a berrar do banco. No mesmo momento Ethan virou-se para nós e começou a cantar, seguido por Zac, Death Doesn't Care, da minha banda favorita, No Use for a Name, e eu comecei a gritar em plenos pulmões com os dois, não acreditando que alguém pudesse conhecer NUFAN, e era óbvio que eu já estava chorando ao chegar aos gritos de “Ooh”, quando a comissária de bordo veio brigar conosco.
Assim, Zac colocou o disco inteiro para tocar, dessa vez no fone de ouvido, enquanto eu secava minhas lágrimas, explicando que nunca havia conhecido alguém que gostasse de NUFAN.
Após essa estranha cena, Zac começou a listar suas bandas favoritas, e de todas, apenas três eu não gostava. Assim, eu já havia decidido – e comunicado Zac – que se não estivesse casada até os dezessete anos – coisa que aconteceria três semanas depois que voltássemos de viajem; mas não deixei que ele soubesse disso –, eu me casaria com Zac.
[...]
O resto do voo foi tranquilo, Zac me contou sobre os garotos; eu havia gostado de Zac, mas eu nunca iria deixar que ele ao menos soubesse disso.
– Emma, me dá seu celular!
– O que você quer com ele? – eu não iria dar meu celular para ele sem ao menos saber o que ele iria fazer.
– Salvar meu número, e salvar o seu no meu celular. – entreguei o celular palra ele, e ele até tirou uma foto para salvar; estava salvo como “Zac Lindo T. (Efron)”.
– Você se compara com Zac Efron? Está brincando comigo? – eu não estava mais me aguentando de rir, quando ele me mostrou como salvara meu número: “Emma não Watson”. Qual é, eu não me considerava bonita. Mas para um garoto que se compara ao Zac Efron, eu era quase a rainha do mundo. Mentira. E ninguém, nunca, poderia ser comparada a Emma Watson. Eu, muito menos.
Depois de muito reclamar, os nomes ficaram os seguintes: Mantra Budista Thompson e Emma Loira Mocinha Linda. Acredita? Aquele tapado ficou me azucrinando pelo elogio de Charlie mais cedo. Mas eu nunca deixaria que esse fosse meu nome, então mudei para Emma, e o assunto foi encerrado.
Quando Zac tirou seu iPod do bolso e começou a ouvir música, me excluindo completamente, eu comecei a chorar, contando a ele a trágica história do meu iPod. Ou Gerry, como eu gostava de chamá-lo.
Meu iPod – comprado pela miséria de dinheiro que eu ganhava por trabalhar na padaria da esquina, aguentando a choradeira da senhora Dora de como seu marido estava quase morrendo por causa da bebida; e aguentando seu marido, reclamando da mulher, que estava chata, rabugenta e chorona – havia caído no chão do aeroporto, quando estava prestes a alçar voo um avião com destino a NY, e vários executivos começaram a andar e acabaram chutando Gerry. Quando eu finalmente encontrei meu querido companheiro, um agente do Satã acabou pisando sem querer – de acordo com a mãe, que não iria me dar um novo iPod – em Gerry. Eu nunca mais veria Gerry funcionando de novo, levando embora mais de 1.000 músicas. Mas claro que eu me vinguei do menino. Peguei o boneco de algum desenho idiota que o menino segurava como se fosse a coisa mais importante do mundo e joguei no chão aquela porcaria, pisando e deixando em pedaços. “Ops, foi sem querer.” – eu disse para a mãe do menino com o máximo de sarcasmo que pude, e a mulher parecia que iria me engolir viva. Assim, com minha mesada de dois meses e o salário da padaria, era óbvio que eu não poderia gastar todo o dinheiro em um iPod novo, a menos que eu quisesse sobreviver o restante das férias sem dinheiro.
– Sinto muito Emma, mas você pode usar o cartão do Ethan e comprar um novinho. Eu te ajudo a baixar as músicas.
Quando o avião pousou – e Zac quase começou a chorar -, eu me senti incrivelmente feliz por ter aceitado ir nessa viagem, pelo simples fato de ter a companhia de Zac – o que assustou a mim, porque geralmente eu não gosto das pessoas.
Mas a felicidade durou pouco.
Depois de pegar minhas bagagens, comecei a caminhar em direção a saída, até trombar com alguém aparentemente três vezes maior que eu – isso porque eu era relativamente alta.
– Olha por onde anda babac... – interrompi minha frase ao ver dois olhos azuis fixos em mim e duas mãos rodeando minha cintura para que eu não caísse no chão. Estava tão perto. E era tão lindo. Eu podia ver meu reflexo neles, mas o melhor de tudo era ver e sentir a eletricidade de seus olhos. Podíamos parecer estranhos à vista de fora: uma garota com duas malas enormes atrás sendo “abraçada” por um garoto bonitão, alto e de olhos lindos. Ou poderíamos parecer um casal. Talvez pelo medo de ser interpretada pela segunda alternativa, balbuciei alguma coisa relacionada a desculpas e empurrei Ethan Clark. Ele arregalou seus olhos, que logo tomaram uma expressão de raiva. Depois disso, passou direto por mim e foi pegar suas malas.
Ethan Clark definitivamente não gostava de mim.
Bom, não que eu me importe, por na verdade eu também não gostava dele.
O garoto era um tirano. E iria fazer da minha vida um verdadeiro inferno.
[...]
Quando chegamos à casa de veraneio naquela linda praia do sul, eu tinha certeza de três coisas: a) Ethan Clark iria me matar por roubar o meu amigo dele – e embora ele não soubesse ainda, seu dinheiro –; b) a família era podre de rica, poderia sair dinheiro pelos poros de cada um ali; e c) eu amava Charlie.
Depois de conhecer a casa, iríamos dividir os quartos, e graças a Charlie, que queria dormir no quarto do irmão e de Zac – “Quero me sentir um hominho, igual meu irmão.” – e Natalie, eu iria dormir em um quarto sozinha! E em uma cama de casal! A situação era a seguinte: tínhamos três quartos. Um, o maior quarto da casa, tinha uma cama de casal, e era onde Natalie iria ficar com Christian; havia outro quarto com cama de casal, mas era menor. E por fim, um quarto com dois beliches. Assim, para que eu não dormisse em um quarto sozinha com Zac, e Ethan não tivesse que dormir em uma cama de casal com Zac, eu fiquei com o quarto com a cama de casal, e os garotos nos quartos dos beliches.
Depois de ter tirado um cochilo, estava lendo no quarto quando Natalie entrou dizendo que sairíamos para um passeio, e que sairíamos em meia hora. Relutante, fui tomar um banho, e vesti um dos vestidos que minha mãe havia comprado – depois de constatar que todos eram rodadinhos –, uma sapatilha e um casaquinho por cima, devido ao vento gelado que batia no quarto, entrando pela janela. Mamãe havia sido clara: passe pelo menos um batom, use os vestidos e saias e nada de sair com aquelas camisetas das suas bandinhas de revoltados. Assim, passei o batom que havia no meu nécessaire, e desci as escadas, indo para a sala, esperar todos. Charlie estava no sofá, arrumadinho, vendo algum desenho idiota na TV.
A casa, tanto por dentro quanto por fora, era toda branca, com detalhes azuis; e acho que é assim que uma casa de veraneio tem que ser. Com dois andares: o de baixo era composto pela sala de estar, sala de jantar, cozinha, um banheiro e alguma outra parte que eu ainda não havia conhecido. Subindo as escadas, já no segundo andar, havia os três quartos, cada um com um banheiro, uma sacada – que todos os quartos também tinham -, e um quartinho que poderia ser o quartinho-tranqueira. Sabe: boias, ferramentas, e todas essas coisas que ficam guardadas e ninguém lembra que realmente está lá.
Por fim, estávamos todos na sala, prontos para sair. Christian iria levar-nos para comer em um restaurante, e a partir de amanhã teríamos uma empregada na casa. Seria legal ter uma empregada por três meses. Seu nome era Teresa, e aparentemente, ela havia sido indicada por minha avó, Amélia.
Enfim chegamos ao restaurante. Era aconchegante, em todas as mesas havia velas e um senhor tocava violão, cantando algumas músicas antigas. Christian escolheu a mesa, e começamos a fazer os pedidos. Frutos do mar!
Christian me contou tudo sobre a editora; Natalie falou que iria me levar ao salão que havia na cidade; Charlie disse que eu iria conhecer os desenhos favoritos dele; já Zac e Ethan não falaram nada a noite inteira. Aparentemente, confidenciou-me Zac quando estávamos indo para o carro, ele e Ethan haviam brigado, porque Ethan estava fulo da vida com Zac por tê-lo deixado ir ouvindo a ladainha de Natalie sobre roupas e sapatos.
[...]
Depois de voltarmos para casa, cada um foi para o seu quarto. E assim, a semana passou – e eu decidi não usar o cartão de Ethan para comprar um iPod, seria muita maldade, apesar de tudo – rápida e sem problemas.
Claro que com “sem problemas” quero dizer “Assistindo desenhos com Charlie, deitados na cama do meu quarto; com Zac me fazendo jogar jogos chatos de tabuleiro; e, claro, Ethan fazendo da minha vida um inferno – mas era óbvio que eu sempre revidava e me vingava, sempre com sucesso.” Eu já havia até me acostumado, e gostado. No final da semana, já éramos amigos. Quero dizer, eu e Zac, sim. Já eu e Ethan, eu poderia dizer que éramos inimigos que, toda vez, acabávamos nos braços um do outro. Isso graças a minha falta de coordenação. Ethan sempre me salvava de levar uns tombos bem feios. Mas então, eu me recompunha e agradecia, ele me soltava e fingíamos que nada aconteceu.
Exceto por um episódio. Foi na sexta. Natalie havia me levado ao salão. Christian havia encontrado dois antigos amigos, que estavam casados – não entre si, com suas respectivas mulheres – e com filhos. Eles iriam dar um jantar formal na casa de Christian, e Natalie queria fazer um dia de mulheres no salão, com as mulheres dos amigos de Christian. Assim, passei por todas as fases que uma mulher deve passar: minha sobrancelha foi feita, depilaram minhas pernas, fizeram minhas unhas, tratamento facial, meu cabelo foi repicado. Eu me sentia linda.
Mas eu não era a única que me achava linda.
Eu cheguei do salão e corri para me arrumar, faltando apenas uma hora e meia para o jantar, e dei graças a Deus por minha mãe ter colocado um vestido preto longo na minha mala, junto com saltos também pretos. Deixei meu cabelo solto, enrolando as pontas e passei um batom vermelho.
Desci as escadas e ajudei Teresa a terminar de por a mesa. Teresa era muito simpática, um amor de mulher. Seus cabelos eram totalmente brancos, e usava óculos de armação dourada na ponta do nariz. Era a típica vovó dos biscoitos e tricô. O marido havia morrido no final do ano passado, e ela morava com a filha mais velha. Ela e minha avó eram amigas de longa data.
Depois de terminar de por a mesa com Teresa, voltei para sala, esperando que alguém já tivesse lá. E, me assustando com o barulho, me virei em direção às escadas. O-Ou. Minha perna bambeou, o salto virou e eu quase caí. Quase. Correu na minha direção, me segurando pela cintura antes que eu fosse para o chão.
Comecei de baixo para cima.
Usava um sapato social e terno. A gravata preta não estava com nó, apenas aberta, jogada em volta de seu pescoço, e seu cabelo estava todo bagunçado, e acho que esse era o charme. Sua boca estava entreaberta, de modo que eu sentia seu hálito de menta soprando no meu rosto. Suas bochechas, coradas; e eu pude ver, pelo reflexo de seus eletrizantes olhos, que eu estava do mesmo jeito.
Ethan estava completamente lindo. Chegava a me desnortear.
– Você está linda, Emma.
Seus olhos estavam brilhando, e fitavam meus olhos de volta com a mesma intensidade que eu fitava os seus. Até que ele começou a baixar os olhos para minha boca. Claro que eu poderia ter me recomposto, agradecido, ele me soltaria e fingiríamos que nada aconteceu. Como sempre acontecia. Mas, bem, dessa vez, eu não me recompus. E a cada milésimo de segundo, seus lábios ficavam mais próximos dos meus.
– ETHAN, EU NÃO SEI DAR NÓ EM GRAV... – Zac apareceu no topo da escada, e Ethan pareceu dar conta do que estava prestes a acontecer; acabou me soltando e eu, caindo no chão. – Uh, desculpem. – e voltou de onde diabo estava. E de onde não deveria ter saído.
– Droga. – minha bunda latejava. Inspira. Expira. Conte até dez. Agora conte até cem.
– Emma! Desculpa. – segurou-me novamente, me erguendo em pé daqueles saltos miseráveis.
– Não, tudo bem. Aí, está doendo. – seu olhar me pedia desculpas. A culpa não era dele, céus. – Sério, Ethan, não tem problema, a culpa não foi sua.
– Sinto muito, de qualquer modo. – e, pedindo licença em seguida, voltou a subir as escadas.
Depois disso, voltou apenas quando os convidados chegaram, e todos nos sentamos à mesa para comer. Christian ficou falando aos homens que eu era uma boa escritora, e que ele com certeza gostaria de ter a mim em sua editora. Os rapazes ficaram falando sobre negócios, e as mulheres sobre cabelos e unhas. Todas eram novas, e seus maridos, velhos. Era realmente estranho. Charlie, Ethan, Zac e eu não falamos nada o jantar inteiro, a menos que alguém nos perguntasse alguma coisa. O que só aconteceu duas vezes.
E eu pude perceber duas coisas.
Ethan não tirou os olhos de mim o jantar inteiro. E não desviava o olhar quando eu o encarava.
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