Depois de ficar horas ouvindo meus pais discutindo a relação com a terapeuta de casais, ela simplesmente olhou pra mim e perguntou “O que você está sentindo, Alex?” A primeira resposta que apareceu em minha cabeça foi mandar ela pra merda ou arrumar um homem, mas eu já estava indo para os Estados Unidos nas férias, imagina se fosse pelo resto do colegial. Mas parei uns segundos, talvez minutos pra falar o que realmente eu tava sentindo naquele momento, tudo que eu achava certo na minha vida, na verdade estava errado, eu não conseguia entender, porque trair se você pode simplesmente se separar e tal, na minha cabeça esse papinho que eles se amam apesar de tudo e queria da uma chance a relação não cola, qual relação mesmo?! Ah é, essa coisa de sair com outras pessoas, e voltando pra casa pra dormir junto à noite, super normal.
– Você quer saber como me sinto? Falei calmamente e olhei para minhas mãos, respirei fundo. – Bom, to me sentindo um merda.
– Filho... Minha mãe me interrompeu.
– Ela perguntou como eu tava me sentindo. Falei irônico e meu pai fechou a cara. – O que foi? Vocês queriam que eu estivesse como? Feliz? Eu pego o papai se agarrando com uma mulher, eu conto pra você mãe e você me fala que já sabia e que saí com outros também. Vocês acham isso normal?
– Alex, não é bem assim. Meu pai falou pela primeira vez.
– E é como? Falei apressado levando as mãos à cabeça. – Sério, me explica.
– Isso não é da sua conta. Meu pai se mantinha firme, enquanto minha mãe chorava em silencio. – É apenas entre sua mãe e eu.
– E você acha que não me afeta? O que as pessoas vão falar quando descobrirem essa... Pensei em falar putaria, mas não queria piorara situação dá minha mãe aos prantos. – E o que vou falar pro meus amigos?
– O que de fato vai acontecer, que seus pais vamos nos separar, Alex. Não é o fim do mundo! Meu pai continuava com aquela cara de idiota, e isso estava começando a me irritar.
– Bullshit, porque não se separaram antes? Tinham que ficar com essa palhaçada? Me ajeitei no sofá, estava tão irritado que não parava de bater meu pé no chão. – E ainda me manda pra casa da Vó, que mal vejo sejamos honestos.
– Por isso mesmo, filho. Você tem que respirar novos ares. Mamãe segurou meu braço. – Vai fazer bem a você.
– Não vai não, minha vida toda está aqui em Londres, meus amigos e minha coisas. Não preciso de férias longe daqui.
– Você ficou bêbado e bateu com o carro, Alexander. Meu pai me olhou diferente e confesso que fiquei desconfortável. – Você vai sim, e não quero ouvir reclamações.
– Você precisa de limites, Alex. Eu ri, tipo ri muito mesmo. A risada era tipo tão alta e tão anormal que até a terapeuta arregalou os olhos. – Alex, isso não tem graça.
– Tem sim, você vem me falar de limites? Então tá, eu vejo vocês em casa. Levantei como um raio e sai daquele lugar o mais rápido possível, passei na casa do Jack e fiquei lá por horas jogando videogames, o bom de ter um melhor amigo é que ele não toca no assunto que te incomoda, mas nem todos são assim. Acordei umas 06h da manhã no chão do quarto do Jack, ele roncava na cama com o controle na mão, sorri e ajudei meu amigo.
– Ei Jack, acorda, tenho que ir. Meu amigo acordou em um pulo. – Dude, preciso ir antes que meus pais acordem.
– Ah ok, vou só escova meus dentes. Dei uma risada e o balancei.
– Agora man.
Jack resmungou um xingamento, mas o ignorei e catei minhas coisas que estavam na mesinha, andávamos calmamente até a porta da cozinha pra não acordar os pais de Jack, me despedi do meu amigo e segui a pé pra casa, o dia ainda amanhecia, meus vizinhos ainda dormiam e eu continuava me sentindo um merda. Cheguei em casa e tirei meus sapatos na porta, enquanto entrava calmamente vi duas malas na sala e meus pais sentados no sofá. Fechei os olhos enquanto fechava a porta, o sentimento de que eu iria me ferrar dominou meu corpo e eu quis vomitar.
– Vocês vão viajar? Perguntei encostando na porta.
– Você tem 10 minutos para tomar banho, seu voo sai em uma hora. Papai falou num tom não muito agradável e eu ri indo pra escadas.
– Ok, boa noite.
– Alex, estamos falando sério. Você vai ficar com sua Avó na Califórnia, e já está decidido.
– Pai, isso é uma palhaçada. Vocês fazem a merda e eu pago por isso? Falei aos berros.
– VOCÊ fez suas merdas também, Alexander. Você vai e acabou. Agora vá tomar banho e você tem 5 minutos. Papai levantou do sofá e me encarava sério, bufei e subi as escadas e me tranquei no meu quarto, confesso que queria gritar, mas acabei quebrando as coisas da minha mesa. Tomei um banho rápido, coloquei uma roupa qualquer e coloquei meu notebook e algumas coisas em uma mochila, quando eu desci mamãe me entregou um saquinho com um lanche para eu comer no caminho, sorri sem humor e ela piscou pra mim. Não trocamos uma palavra o caminho inteiro, eu estava tão cansado de brigar, mas também estava cansado de não ser ouvido, a proteção que meus pais colocam sobre mim não é normal, e isso me afeta. Talvez eu fosse de fato um mimado babaca. Chegamos ao aeroporto, fizemos o check-in e fui direto para o avião, abracei minha mãe e a vi derramar uma lagrima solitária, sorri pra ela e ela retribuiu, passei pelo meu pai e acenei com a cabeça. Sentei na protona e encostei minha cabeça na janela. E como não acontecia há muito tempo eu chorei, chorei ali sozinho com estranhos a minha volta, eu pensei que minha vida era perfeita, eu fazia o que queria e tava tudo bem, e de um dia para o outro meus pais não eram os mesmos e eu não era mais o mesmo. Eu estava indo para o ultimo ano de colégio, eu deveria está nas ultimas férias de verão com minha turma, mas invés disso eu estava indo ficar com uma avó que não via há anos na Califórnia, onde a vida de todo mundo é baseada em praia e gente de biquine. Dormi a viagem inteira, mamãe comentou que alguém iria me pegar no aeroporto, sai do avião e logo sentir o calor que fazia então esse era o famoso verão? Hm, até agora estava odiando, eu já estava suando quando cheguei às escadas e avistei meu nome Alex Jones em um pedaço de papel, revirei os olhos com a breguice, o cara tinha um pouco mais de 40 anos ou menos, tinha olhos azuis e era loiro, vestia calça jeans e uma camisa xadrez, ótimo minha vó mandou um caipira me buscar, ótimo.
– Alex Jones? Ele perguntou sorrindo, simpático.
– Infelizmente! Ele riu e forcei um sorriso. – Você é?
– Sou John Scott. E sua avó me falou que talvez você falasse isso. Apertei sua mão. – Pronto pra ir?
– Claro! Sorri forçado novamente e ele deu de ombros. O carro do sujeito era bem usado, e fiquei com saudades do meu. O nome do bairro era alguma coisa Beach não me importei muito, passamos pela praia e as pessoas estavam lá de biquine, jogando algum jogo, ou tomando sol, vida boa. Ele estacionou na calçada.
– Bom essa é a minha casa, a amarela ao lado é da sua avó. Falou apontando. – Seja bem-vindo.
– Somos vizinhos? Pensei alto e o olhei.
– Acho que sim. Te vejo depois, kid. John seguiu para sua casa, e eu pra da minha avó, coloquei minhas malas na varandinha e foi quando ouvi uma garota gritar, quando virei uma menina de cabelos negros com um tom loiro da metade pra baixo, short jeans azul e uma blusa tão rasgada nas laterais que eu conseguia ver seu sutiã, ajeitava sua bicicleta ao lado da casa de John.
– Hi dad. John tinha uma filha, foi ai que eu ouvi a risada mais gostosa que eu já ouvi em meus 17 anos, John sorria com ela, mas tudo que eu conseguia ouvir era ela, o vento balançava seus cabelos enquanto ela ria do pai que estava sentando nas escadas da varanda, me esforcei para ouvir a conversa, mas tudo que consegui ouvir foi seu nome “Summer”.
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