Sugar
2 Sorrisos
Notas iniciais
A-ya não era uma pessoa muito sorridente, também. Das poucas vezes que curvava os lábios num sorriso distorcido, era sempre graças a alguma fofoca — ou rumor, como ele mesmo gostava de chamar — que fizera sucesso em meio à escola.
Era sempre assim: A-ya inventava alguma coisa, divulgava para alguns colegas — "Não conte a ninguém," ele sempre dizia; era seu charme, "mas eu ouvi sobre aquela garota e, sabe..." — e, depois do que seriam, no máximo, dois dias, vinha todo radiante contar a C-ta de sua nova obra prima. C-ta, é claro, nunca se sentiu incomodado com isso. Ele era o melhor amigo de A-ya, afinal! Não é exatamente isso o que amigos fazem? Se apoiar? Além disso, o que deixava A-ya feliz, deixava C-ta feliz também, e vice-versa. Eles eram esse tipo de amigos.
As coisas só começaram a ficar um pouco desagradáveis quando A-ya decidiu que gostava de inventar rumores sobre uma vítima em especial. E é claro, óbvio, evidente que seria a pessoa mais... inadequada, se C-ta fosse gentil com as palavras.
B-ko era uma das garotas mais populares do Ensino Médio. Era linda, tirava boas notas e estava sempre rodeada de amigos. C-ta nunca entendeu o que levou A-ya a escolhê-la como alvo, mas também nunca insistiu demasiadamente no assunto. Certo, ele tinha de admitir que ela, com cabelos castanhos na altura da nuca, grandes olhos azul-lilases e traços delicados, era realmente uma das meninas mais belas que ele já vira. Ainda assim, beleza não era tudo. Ele mesmo era muito bonito. A-ya era muito bonito. Muitas pessoas eram muito bonitas. A-ya não era tão fútil assim... a seu modo.
Não que C-ta estivesse com ciúmes, mas ele sentia um aperto extremamente incômodo no peito toda vez que A-ya mencionava B-ko instantes antes de sorrir. Era quase como se ela estivesse roubando seus sorrisos, os sorrisos que apenas C-ta conhecia. É claro, C-ta não tinha direito de proibir A-ya de sorrir — ninguém tinha o direito —, mas aquilo era tão... tão... Ele nem sabia ao certo como descrever.
***
Naquele dia, A-ya parecia mais agitado do que o normal. Não que estivesse saltitando pelos corredores ou irradiando alegria, não; mas o jeito como se movia e os suspiros estrangulados que deixavam seus lábios davam a impressão de que ele estava fazendo um tremendo esforço para não gritar. C-ta sabia que aquilo só podia significar duas coisas.
Um: Algo o havia deixado extremamente irritado.
Dois: Algo o havia deixado extremamente animado.
Quando, à tarde, sentaram-se à mesa da cafeteria para conversar, C-ta teve certeza de que era a segunda opção.
— Você acredita que ela quase me deu um tapa?! — exclamou A-ya, pondo as duas mãos sobre a mesa e inclinando-se para frente, para C-ta.
— Como é que é?! — Em conjunto, C-ta inclinou-se para frente também, e o outro se transformou num ciclope a seus olhos.
— Foi! — continuou A-ya, dessa vez esticando-se para trás e suspirando de olhos fechados para se acalmar. Pronto, pensou C-ta. Voltou ao normal. — Foi uma cena rídicula.
— Pode continuar — incentivou C-ta, após virar-se para murmurar os pedidos para a atendente que os esperava.
— Então... — A-ya respirou fundo e tirou o cabelo dos olhos com a mão. — Sabe a escadaria que dá pras quadras? — C-ta anuiu. — Não sei como ela me achou por lá, mas antes que eu percebesse ela já tinha me encurralado contra a parede. Quase achei que ela fosse me beijar.
Se C-ta estivesse com um copo de bebida entre os lábios, com certeza haveria líquido voando.
— Como é que é?! — repetiu, e A-ya apenas revirou os olhos.
— Achei, C-ta. Que exagero, quem se assustou fui eu.
— Mas se ela beijasse, você beijava de volta?
A-ya o encarou como se fosse louco, o cenho franzido e os lábios rosados apertados um no outro. O quê?, pensou C-ta, e sua dúvida transpareceu em seu semblante. Não seria estranho para ele se B-ko realmente tivesse tentado roubar um beijo de A-ya. Ele mesmo já se pegara imaginando várias vezes como seria a sensação de ter aqueles lábios contra os seus.
— C-ta, você sabe que a gente está falando da B-ko, né?
— Oh! — Fingiu surpresa. — Não é da professora Nami?
A-ya grunhiu e revirou os olhos em evidente impaciência, e C-ta não conseguir conter sua risada. A-ya realmente não tinha jeito. Murmurou um obrigado para a garçonete quando suas bebidas chegaram — C-ta pedira um capuccino dessa vez, enquanto A-ya permanecera com seu café expresso —, tomou um gole e incitou A-ya a continuar, mirando-o com olhos verdes bem abertos.
— Enfim — continuou A-ya, olhando de relance para seu café que ele já sabia estar ridiculamente amargo. — Ela estava toda irritada e tagarelando sobre como eu sou um canalha idiota que só fala mentiras. — Sorriu sombriamente e encolheu os ombros. — Pobrezinha, demorou para notar.
Dessa vez, quem revirou os olhos foi C-ta. A-ya não era um canalha idiota que só falava mentiras. Talvez, na maior parte do tempo, ele realmente fosse um canalha que fala mentiras, mas não um idiota. Dando de ombros, afinal prolongar-se naquele assunto não levaria a nada, C-ta abriu um sachê de açúcar e despejou-o sobre o café de A-ya, que até agora só encarara sua bebida com um olhar assassino.
— Isso é açúcar demais.
— Não é, não.
— É, sim.
— Dá um gole.
Silêncio. Um ruído. Silêncio. E um estalar de língua nos dentes.
— Tá.
— Eu te conheço bem demais. — C-ta sorriu vitoriosamente.
— Às vezes não sei se isso é bom ou ruim — resmungou A-ya, com seus lábios curvados ligeiramente para cima enquanto tomava mais um gole.
C-ta apoiou a cabeça sobre uma das mãos e ficou ali, apenas observando-o. Ele adorava quando A-ya dava esses sorrisinhos, discretos e tímidos, como se ele próprio se proibisse de sorrir. Era raro quando isso acontecia, e C-ta sempre sentia um enorme calor preencher-lhe o peito, como se o simples fato de A-ya se mostrar minimamente feliz já fosse o suficiente para deixá-lo inteiramente em paz.
— Que é? — murmurou A-ya, seu rosto adquirindo uma coloração ligeiramente vermelha quando percebeu que C-ta já o encarava há tempo demais.
— Você faz isso como se nem percebesse — suspirou o outro, sem tirar os olhos dele, sorrindo também.
— Percebesse o quê?
— Que você sempre... — Mas C-ta nem terminou de falar. Perdeu-se antes disso, observando A-ya sorrir timidamente para sua xícara de café, evitando o olhar do amigo. Por um momento ele até mordera seu lábio inferior, novamente como se tentasse impedir-se de sorrir. E agora quem sorriu foi C-ta, sentindo o coração acelerar agradavelmente no peito. — Que você sempre vive nesse seu mundo, tão alheio ao resto... — suspirou.
— O quê? — indagou A-ya, só então levantando os olhos. Parecia não tendo compreendido as palavras do outro.
C-ta apenas recostou-se em sua cadeira, encolhendo um dos ombros ao bebericar seu capuccino.
— Nada.
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