Subversiva
1 Pureza
Notas iniciais
A festa estava absurdamente linda. Diversas luzes coloridas, música, flores, e o banquete digno de um rei. Tudo do bom e do melhor para comemoração do nascimento da primeira filha do clã do Fogo do Norte. O nascimento da pequena era considerado um milagre, porque era a primeira fêmea a nascer em uma década. O clã do Fogo do Norte era conhecido pela sua excelência em batalhas, eram os melhores guerreiros, os mais destemidos e corajosos.
A última década havia sido cruel com o povo do fogo. As desgastantes batalhas com os clãs da Água e o período infértil tanto nas fêmeas como no solo castigaram o clã que enfraquecia cada vez mais trazendo a euforia do povo da Água. Portanto o nascimento do bebê era visto pelos anciãos como o pressuposto de uma nova era para o povo nortista do fogo. Um amuleto da boa sorte. Sua filha era muito preciosa, até para mesmo para sair da família principal.
Raul respirava profundamente ao ouvir mais uma proposta de casamento para sua filha, o bebê mal acabara de irromper pelo ventre da mãe e já queriam tomá-la de si. Já sabia o que iria fazer e a comoção que iria causar, sua esposa provavelmente iria surtar, mas faria o que precisasse ser feito.
—Já falei José, não vou vender minha filha como uma égua parideira.
—Não homem, nunca quis nada assim, mas a menina é um milagre e deve ter um marido. Porque não o meu Christian? — José, da família Fernandes, tentava argumentar, sabia que a negociação seria difícil já que Raul era um chefe muito sagaz. Geralmente o contrato de casamento das crias fêmeas da família principal eram firmados logo após o nascimento da criança. Algumas famílias subordinadas, porém ainda influentes, aderiram ao costume tentando alcançar um pouco da influência dos Antunes e Ávila.
—Não pressione nosso chefe,José. A menina vai se casar com meu Pietro. — disse o patriarca da família Claudino que acabava de chegar.
—O esposo da menina já foi escolhido. Porque não conta para todos que foi o felizardo, Raul? — Roberto irmão de Raul falou alto, quase gritando, chamando a atenção de todos presentes na festividade.
Raul quis cortar a garganta de seu irmão mais velho, era muito difícil de acreditar que já foram bons amigos. Roberto era o primogênito portanto herdeiro da chefia do clã e já Raul como irmão mais novo daria continuidade à família secundária. Porém, uma terrível batalha que tirou a mão direita de Roberto mudou as coisas. Nenhum clã seria respeitado e temido se o chefe não pudesse manejar sua própria espada. Um líder mutilado. Clãs já pereceram por isso e os anciãos decidiram que seria melhor Raul assumir a chefia.
O despeito e raiva impregnaram Roberto. Desde então o relacionamento deles ficou abalado, e Raul temia acabar acordando com um punhal cravado no seu coração pelo seu próprio irmão, seu braço direito e comandante responsável não só pela sua segurança, mas como de toda família principal.
—Minha filha se casará com Adrian, da família Antunes e Ávila.
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Miranda rangia os dentes de puro asco. Do que adiantava ter sete irmãs se todas elas eram cadelas invejosas? Ela era caçula de dez irmãos, filha de um dos mercadores da tribo e nunca nem imaginaria que um dia chegaria a ser esposa de um Antunes. Surpreendentemente o segundo filho, Raul, interessou-se por ela e lutou com seu prometido pelo direito de tê-la. Foi um luta brutal, mas um Antunes nunca perdia, então não foi surpresa quando Raul entrou todo machucado em sua casa, —Na época não era permitido para as fêmeas assistirem as batalhas internas do clã— e colocou-a sob os ombros e a levou para casa secundária.
Suas irmãs ferveram de ódio, seus dois irmãos apenas ficaram indiferentes; e seus pais inflaram de orgulho porque agora as linhagens deles se misturariam e sua família seria agora privilegiada. A inveja das irmãs triplicou quando Raul foi promovido a chefe e agora ela não era apenas uma Antunes, mas também uma Ávila, nome oficial da família principal do clã.
A verdade era que não amava Raul, e ainda continuava não o amando, mas ela apenas uma fêmea e sua opinião pouco importava, mas apenas de se livrar do antigo prometido, um homem que tinha idade para ser seu pai, ficou aliviada.
Os anos passaram e Raul conquistou sua admiração e afeto, e acima de tudo respeito, era um ótimo marido e um bom chefe. Tinham dois belos filhos e acabavam de ganhar uma linda menininha que ressoava tranquila em seus braços.
O bebê que abria as portas para uma nova caminhada do clã.
—Não acha as orelhas dela um pouco grandes Miranda? Ela parece um duende da floresta. —Laura riu maldosa.
—Não se preocupe com a minha filha Laura querida, preocupe-se com seu nariz de tucano e com os dos seus filhos. — disse sem tirar os olhos do rostinho corado do seu bebê. Lucan que estava sentado à beira da cama riu da resposta malcriada da mãe.
Laura saiu furiosa do quarto e Mirando expulsou as outras irmãs. Ainda estava cansada tinha passado o dia quase todo em trabalho de parto e não tinha paciência para outras intrigas.
Só podia confiar no marido e em seus filhos.
Seus filhos lindos, dois meninos robustos e fortes, ambos com os cabelos pretos e olhos negros como os do pai. Lucan era uma graça e já demonstrava talento para batalhas o pequeno de dez anos que nunca havia visto um bebê estava encantado com a irmã. Já Adrian era mais taciturno, e muito sério na opinião da mãe, mas sabia que tudo isso era o peso do herdeiro nas costas. Um dia ele herdaria o clã e tinha que estar à altura para isto.
—Mãe porque a tia Laura é tão chata? — Lucan perguntou subindo mais na cama.
—Porque seu pai não quis comê-la.
—Mãe! — ela escutou o protesto duplo e riu, tinha passado por árduos treinos para ocupar o cargo de matriarca do clã, mas afinal, era e sempre seria a filha malcriada de um mercador.
—Ora, por favor, vocês dois já estão bem grandinhos e sabem o que eu estou falando. Principalmente você Adrian, acha que eu não vejo você se enrabichando com as criadas? Se algum bastardo aparecer por aqui sabia que corto seu pinto fora.
—Qual vai ser o nome dela? — Lucan perguntou com as bochechas vermelhas tentando mudar de assunto.
—Mãe, por favor! — Adrian se mexeu desconfortável e irritado, porque a mãe não era como as outras e ficava envergonhada apenas de escutar algo impróprio. Ela nem ao menos se incomodava, pior, muitas vezes era ela mesma que falava. —Quero sair, já vi que têm um bebê, posso ir?
—Não, seu pai pediu para que esperássemos aqui, ele deve ter algo importante para dizer. E se aquiete Lucan quando seu pai chegar escolheremos o nome dela.
Foi dito e feito, a porta abriu revelando o corpulento Raul no auge dos seus quarenta anos, o semblante preocupado do marido a deixou em alerta.
—O que foi Raul? — perguntou se sentando na cama, ajeitando o bebê gordinho nos braços.
—Não se esforce, ainda está muito fraca. — disse se aproximando e beijando sua testa com doçura.
—O que aconteceu pai? Podemos dar um nome para ela agora? Posso escolher? Posso? — Lucan perguntou ansioso.
—Não pode, — disse acariciando o rostinho da filha com o indicador— Adrian vai escolher. — A cara confusa foi geral.
—Eu? Por quê?
—Porque ela é sua prometida.
—Você só pode estar completamente insano! — Miranda gritou furiosa, os cabelos loiros chicoteando o rosto jovem enquanto ela sacudia a cabeça fervorosamente— Minha filha acabou de nascer e já quer marcar o casamento, e ainda por cima com seu próprio irmão!
—Calada! Pare com essa gritaria mulher, não me envergonhe na frente dos meus filhos e convidados. Ainda sou o chefe desse clã e dessa família. — a voz autoritária de Raul se vez presente fazendo lágrimas brotarem nos olhos de Miranda que mordeu a bochecha para não mandá-lo para o mais profundo inferno.
—Como espere que eu reaja quando me diz que vai casar meus dois filhos? — perguntou com a voz mais branda.
—Apenas espero que acate minhas ordens, todos vocês. — disse fitando os dois filhos. Adrian que antes atordoado demais para falar agora o encarava com um olhar ferino— A menina se casará com Adrian e começaremos a restaurar a pureza sanguinea da família principal.
—Pai, que história é essa? — Adrian perguntou apertando a ponte do nariz com força, sabia que decisão era definitiva, seu pai não falava em vão e tinha usado a mesma voz furiosa que usava no conselho, mas simplesmente não podia acreditar.
—Não é algo assim tão absurdo, há alguns atrás anos isso era uma prática muito comum em muitos clãs.
—Alguns anos pai? Séculos você quis dizer. — exclamou irritado.
—É uma tradição que eu concordei em reviver. Todos sabem que estamos fragilizados, os campos estão secos, os animais morrem, perdemos mais machos em batalhas que mal posso contar, nossas fêmeas não procriam e a escassez de água é um crise real. Não podemos atacar os clãs da Água dessa maneira, seremos massacrados.
—Como pode um casamento pode melhorar essa situação?
—Trazendo poder. Em realidade, a ilusão do poder. — explicou Raul — Seu avó casou com Megara Costa e Santos para firmar e estreitar os laços com os clãs da Terra. Seu casamento com sua irmã simboliza a centralização do nosso poder, nos reafirma. Desde que sua mãe emprenhou os pastos estão mais verdes, encontramos novas reservas de água no subterranêo, e a colheita promete e muito. Tudo isso tavez não tenha nenhuma relação com o nascimento dela e seja apenas uma benção do deus Sol, mas o povo acredita, e isso estimula o espírito dos nossos guerreiros.
Os olhos escuros de Adrian brilhavam com a estratégia do pai, era realmente brilhante, mas mesmo assim... O falatório, a vergonha que iria sofrer. Pelo deus Sol, suas crias poderiam nascer defeituosas e anormais.
—Pai tem certeza que... — Raul rangeu os dentes e lhe dedicou um olhar duro. Não tinha que se explicar com sua família, era o chefe do clã, suas ordens nunca deveriam ser questionadas, mas achou importante para instrução de seus filhos — e menor aflição de Miranda— que eles não ficassem no escuro e soubessem de todos os detalhes.
— Está dizendo que irá ir contra a vontade do seu chefe?
—Não. — um soluço de Miranda fora ouvido junto com a voz fria de Adria,.
—Então nomeie sua fêmea.
—Não faça isso Adrian. Seu pai está fora do seu juízo perfeito.
—Nomeie.
—Gnoa. — Adrian jogou toda sua raiva no nome. Se teria que aguentar a vergonha de desposar sua própria irmã, ela que conviver sendo chamada de gnomo pelo resto da vida.
—Não, Adrian. Não vai dar esse nome horrível para o meu bebê. A culpa não é dela. — as lágrimas banhavam o rosto de Miranda, sua bebezinha mal tinha nascido e já lhe fora dado um estigma para carregar nas costas.
—Já está decidido, Miranda. Está será Gnoa Antunes e Ávila, a primeira cria fêmea da família principal.
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