Subversiva
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Notas iniciais
As lágrimas caiam sem parar dos olhos de Miranda, Raul tentou consolar a esposa mas foi prontamente repelido. Foram cinco rápidos anos, anos de prosperidade para o clã e deterioração para seu casamento. Depois de anunciar a união dos filhos Miranda mal voltou a olhar em seus olhos, a vida dela era Gnoa, que a cada dia ficava mais gordinha e orelhuda.
Há poucos meses Miranda havia decidido mandar a filha para o clã do Fogo do Sul, clã longínquo, depois do mar de Teeres.
—Sabe que não precisa fazer isso, Mira, sabe que eu faria tudo por ti e por ela.
—Eu sei o que estou fazendo Raul, ao contrário de você sei o que é melhor para minha filha.
—Acha que eu queria que ela fosse embora? Foi sua ideia. — Raul replicou segurando sua esposa pelos braços, querendo aproveitar pelo menos por alguns segundos do calor da mulher que tanto amava. Seu coração estava revolto e ferido. Mira, sua ninfa Mira, já não mais o olhava nos olhos, não deixava mais sentir seu cheiro de primavera. Ele havia descutido com os anciões que eram terminantemente contra a saída de Gnoa do seio do clã, havia se imposto e... Demônios o havia feito por ela. Porque ela não entendia?
—O que você esperava que eu fizesse? Prefiro sofrer esses longos anos sem minha filha a deixar que ela crie um vinculo com Adrian. Você ao menos pensou como seria a vida desses dois juntos? Como seria se eles vivessem e crescessem juntos?
—Entendo o que pensou. Mas Adrian mal para no clã, meu amor. Ainda está concluindo seus estudos e faz muitas viagens. — Raul acreditava que depois do nascimento de Gnoa as viagens de Adrian quase triplicaram. Adrian fazia tudo para ficar longe da irmã e estava se saindo muito bem. Tirou uma mecha loira que teimava cair nos olhos verdes da esposa. — Podemos ficar com ela mais alguns anos, e depois pensamos no que fazer.
—Não, tenho que fazer isso agora, temo não conseguir deixá-la ir nunca e sei que vai ser melhor para ela. Minha menina já vai sofrer muito com o casamento, um distanciamento de Adrian vai melhorar a situação dela.
—Não queria fazer você sofrer.
—Então não deveria fazer meus filhos sofrerem.
A caravana finalmente estava pronta. Raul e Mira foram para o lado de fora e passaram pelos grandes muros de pedra, logo Gnoa apareceu mordiscando um pão de mel enquanto era carregada por Lucan.
—Já está na hora mãe? — Lucan perguntou sério, tentando claramente esconder a angústia, o menino alegre já era quase um homem. Em apenas poucos meses Lucan participaria da sua cerimônia Tekan onde provaria ser digno de se transformar em guerreiro ou retornar ao estágio de principiante.
—Está sim querido. Onde está Adrian, não vem se despedir?
—Ele... — pigarreou entregando Gnoa para o colo da mãe — Estava muito ocupado, mas desejou boa viagem a Guiny.
—Entendo. — Miranda estava desolada, aquele casamento que nem havia acontecido estava e já estava acabando com sua família— E você minha cerejinha, está muito pesada, não?
—São os pães de mel mamãe, não posso resistir. — a menina passou as mãos engorduradas tentando ajeitar os cachos vermelhos que escapavam do penteado que a mãe havia feito de manhã.
—Prometa que vai se comportar e ser uma boa menina.
—Porque eu tenho que ir sozinha mãe? Não gosta mais de mim? Eu posso ficar fina como as outras meninas. — disse agitada — Eu prometo, vou ser fina.
—Já conversamos sobre isso. — Raul se pronunciou limpando as lágrimas dos olhos castanhos da filha — Sua mãe sempre escreverá, e a visitaremos sempre que puder. Tem que se comportar e ser obediente, sim? Seu primo Luís irá ir com você. Qualquer coisa que precisar fale com ele, ele vai ficar ao seu lado. Sempre.
Raul explicou, mas Gnoa não queria saber, queria apenas continuar com seus pais, chorou e esperneou, nada adiantou e quando Luis chegou para levá-la Gnoa tentou escapar. Não havia mais remédio teria que ir embora. E do colo de Luis via seus pais e seu irmão ficando cada vez mais pequenos e embaçados, até que o sono a embalou.
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Clã Agni¹ ~Clã do Fogo do Sul ~ Sete anos depois
Luis afiava sua espada com fervor, precisava aliviar a tensão, e isso só se resolveria com um treino bem pesado ou uma ardorosa noite de luxúria com Luna. Sorriu ao lembrar da garota pequenina que ele havia transformado em mulher. Sabia que estava entrando em um terreno perigoso e que se os pegassem provavelmente seria morto e teria seu corpo carbonizado, como julga a lei para aqueles que maculam qualquer fêmea sem o devido compromisso, mas a doce garota o havia encantado com seus lábios açucarados e corpo escultural.
Não sabia da dimensão dos seus sentimentos para com a moça, e não queria assustar-se com isso agora. De qualquer forma sabia que queria a moça, e lutaria por ela como dita a tradição, mas antes precisava realizar mais missões para obter mais confiança do chefe do clã e seu apoio, o prometido de Luna era de terras longíguas e selvagens com certeza o chefe ira prefirir um genro com quem tivesse mais afinidade e confiança, isso se ele provasse que era digno de ocupar tal lugar.
Estava quase terminando a tarefa quando um furacão entrou em seu quarto. Gnoa chorava outra vez, era estranho como crianças podiam ser muito cruéis quando queriam. Gnoa era muito famosa, e isso despertava diversas reações nas pessoas. Os mais velhos quase a santificavam pelos anos de boa sorte depois de seu nascimento, muitos também sentiam inveja de sua posição e espalhavam diversos boatos como um que a menina tinha sido encontrada na floresta e que era filha de duendes ou outro que se alimentava de recém-nascidos. É óbvio que ninguém realmente acreditava nisso, mas os boatos e mexericos feriam a menina que apesar de estar entre seu povo crescera muito longe da família, sem falar das crianças criticavam sua aparência e que por terem medo das histórias mantinham certa distância da primeira filha do clã do norte.
Ele próprio não ligava para orelhas grandes da menina, raramente as via porque ficavam escondidas em um emaranhado de cachos, porém, concordava que estava com mais peso do que uma menina de doze anos deveria estar, mas ainda sim tinha sua tenacidade. Além de possuir um coração tempestuoso, o que podia ser um problema para uma fêmea, a maioria ainda achava que elas deveriam ser submissas e obedientes.
—O que foi dessa vez, Gnoa? — perguntou sem desviar os olhos da lâmina.
—Angélica, ela rasgou meu vestido e me xingou de gnoma gorda. — disse com a voz abafada pelo travesseiro.
—E o que você fez?
—Soquei a cara dela. — Luis sentiu um sorriso se formar em seus lábios mais logo o reprimiu.
—Sabe que vai ser castigava por Kátia não sabe? — Kátia era responsável pela educação doméstica de Gnoa e das filhas do chefe do clã do Sul, uma fêmea amargurada e que tinha uma cinta dura de couro de búfalo de faziam as mais malcriadas gritarem por horas a fio. Essa era muito exigênte e não suportava os modos bruscos da menina Gnoa, que não tinham nenhum talento que uma fêmea que se presasse deveria ter. Não sabia cantar, dançar e deus do fogo como era ruim com uma agulha! Destruía todos os tecidos finos e caros em quais ela colocava suas mãos gorduchas. Outra aversão não só de Kátia, como de Alana — esposa do chefe do Clã Sulista— e suas três finhas — Angélica, Amara e Luna — tinham, o corpo de Gnoa que não se encaixava em nenhum padrão de beleza. Era realmente uma piada de muito mal gosto do destino que Miranda, uma verdadeira flor que possuía uma beleza transcendental que era conhecida até depois do Mar de Teeres tivesse tido uma cria tão... problemática.
Talvez os deuses tivessem cobrado pelos anos de boa sorte, castigando a pobre alma da criança. Pelo menos assim pensava Alana que já sentia bastante benevolente de abrigar uma criança tão abusada e feia, isso apenas para agradar o marido que andava mais do que irritado por ela não conseguir ter um rebento macho. Já não bastava três fêmeas que tinha, os malditos nortistas tinham que empurrar mais uma para cá.
— Não quando você estiver aqui, fico feliz que não tenha sido mandado para uma missão outra vez. Não pode apressar nossa viagem? Posso me manter longe de Kátia por um ou dois dias. — disse matreira, já planejando em como se manter longe da carrasca.
—Está tão ansiosa assim para encontrar seus pais? — A menina o olhou com olhos brilhantes, e Luis se perdeu nas orbes castanhas por alguns segundos.
—Estou sim, mas estou muito nervosa também e umas cintadas a menos não me fariam mal.
Já Luis não estava tão animado, sabia que teria prestar contas a seu pai e não queria decepcioná-lo. Se seu pai ainda estivesse com a ideia de retomar o controle do clã depois de sete anos, nada o faria mudar de ideia.
—Nós vamos ficar lá para sempre, Luis? — Luis hesitou, ficariam lá para sempre? Bom ele não, mas o destino de Gnoa era incerto depois dessa viagem.
Escutaram batidas rápidas na porta e Luna entrou em toda sua glória os cabelos negros caindo livres pelos ombros.
—Luis, precisamos conversar... — a mulher parecia preocupada — Oh, não sabia que estavam ocupados! — disse mordendo os lábios envergonhada— Volto outra hora.
—Não precisa sair. Gnoa já estava de saída.
—Não estava não. — replicou Gnoa levantando a sobrancelha em um claro sinal de desafio. Detestava todas as malditas cachorras filhas de Alana, mas Luna era a pior delas, porque Luna não apenas impliacava com ela como as outras, também dissimulava para Luis como se fosse o modelo de santidade em pessoa. Ela sabia que Luis não gostava que implicassem com ela e na frente dele tratava de ser o mais doce possível, mas Gnoa não a suportava e não iria fingir.
—Vá arrumar suas bagagens, Gnoa.
—Estou muito bem aqui, obrigada.
—Gnoa, já falei para ir. Agora! — Gnoa mordeu a língua, Luis estava enfeitiçado pela Luna, era algo que ela não entendia. As pessoas pouco enxergavam além da aparência, isso era uma lição de ela aprendia todos os dias desde que chegara aqui, só não pensava que Luis fosse assim também.
Luis observou o rosto de Gnoa obscurecer e seu corpo endurecer, ela levantou da cama como uma rainha feita de gelo e marmore, e saiu sem se pronunciar. Realmente Gnoa era uma fêmea esquisita. Por todos os deuses, ela ainda daria muito trabalho.
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Clã Pishacha² ~Clã do Fogo do Norte~
Gnoa foi recebida com muito festejo, porém por estar muito cansada, foi logo dormir. Foram três meses de viagem, três meses dormindo em estalagens, e comendo comidas rápidas. Não dormira nem por duas horas e sua mãe viera acordá-la. Dormira por anos com as amas contando histórias sobre sua família, diziam que a beleza de sua mãe era incomparável, mas hoje ela via que era muito mais que isso. As criadas quase nunca falavam de seus irmãos e quando perguntava era fortemente repreendida. De qualquer modo, sua mãe era belíssima, os cabelos caiam em ondas douradas e os olhos verdes brilhavam quando a olhavam.
Será que não sentia repulsa por ter uma filha feia? Sabia que era bem inferior às outras meninas no quesito beleza, mas sua mãe não parecia se importar. Talvez fingisse muito bem.
—Estamos atrasadas minha cerejinha. — sorriu-lhe tristemente ajeitando seu cabelo —Tem que se aprontar, teremos a cerimônia de noivado em poucas horas.
—Noivado? Quem irá se casar?
—Quem? Oh... meu santo fogo. Não sabe ainda?
—Não sei o que?— A surpresa de Miranda foi enorme. Será que sua filha estava ali às escuras? Não fazia a menor ideia do que estava acontecendo?
—Querida, sabe o que acontece quando nós mulheres sangramos pela primeira vez?
—Sim, significa que estamos prontas para procriar. — teve vontade de gargalhar ao lembrar-se de quando Luis a encontrou sangrando e com muita vergonha não conseguiu falar-lhe o que tinha acontecido e ele correu com ela nos braços gritando por um curandeiro. Uma das piores humilhações de sua vida.
—E o que acontece?
—A cerimônia... Mas eu... Eu não...
—Está é sua cerimônia de noivado, meu bebê. Sangrou há poucos meses não?
—Sim. — Gnoa não acreditava, casamentos nunca passavam pela sua mente, não tinha nenhum interesse neles. Seus olhos arderam, não queria se casar.
A cerimônia de noivado ocorria logo após as primeiras regras de uma mulher, onde o macho se responsabilizava por sua fêmea; e após dois anos — tempo para o amadurecimento da fêmea — ocorria o grande casamento. A maior honra de uma fêmea, que a única utilidade era procriar e garantir a satisfação do seu macho. Gnoa sabia como era um casamento, ouvia os lamentos e choros de muitas que procuravam a bruxa Zane.
Zane era uma velha curandeira, que exercia seu trabalho ilegalmente já que era proibido qualquer tipo de conhecimento — fora do âmbito doméstico e recreativo como música, dança e afins — era restrito para as fêmeas. Se matemática e geografia eram puníveis com chicote, uma fêmea entender de medicina era quase um insulto ao próprio deus Fogo.
Contudo, Zane era nativa do povo da Terra, um povo bem mais liberal que o povo do Fogo, que apesar da aliança não aprovava a liberdade que os da Terra davam para suas fêmeas. Zane era viúva e tinha um filho, Demétrio, que estava concluindo seus estudos na casa de seu avô no clã da Terra do Noroeste.
Gnoa admirava Zane que acreditava que os do Fogo poderiam aprender com o tempo, Gnoa não tinha tanta certeza, mas não falava nada porque tinha medo da velha parar de ensiná-la todas as tardes. Zane dizia que apreciava muito sua companhia, mas Guiny sabia que ao menor erro poderia perder a chance de estudar, a bruxa Zane era muito temperamental, e estudar as ervas, emplastros, remédios e como o corpo funcionava eram as únicas coisas que davam prazer a Gnoa. Ela mesma já havia cuidado de alguns ferimentos de muitas que haviam sido espancadas e até mesmo estupradas.
Sabia o quando o casamento podia ser ruim, e se casasse com um macho impiedoso seriam muito pior.
—Quem é?
—Oh, minha doce menina. — Sua genitora tinha lágrimas rolando pelos olhos verdes. Será que é tão ruim? Talvez um homem muito velho.
—Fale-me, por favor, me conte sobre. Preciso saber no que estou me metendo. — a voz tão séria da filha partia seu coração. Parecia tão crescida e parecia ter noção das dificuldades do matrimônio.
—Diga-me, Miranda...
—É Adrian, minha filha. Adrian, seu irmão.
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Luis encarava o ferimento que ainda sangrava em seu rosto. Já havia trocado de bandagens duas vezes mas o corte ainda sangrava em abundancia. Com certeza ficaria uma cicatriz bem feia. Quando havia recusado a requerer uma batalha para o controle do clã seu próprio pai exigiu uma luta com ele, para provar que ainda era digno de ser seu filho.
Nunca poderia lutar com seu pai. Muito menos com ele incapacitado já que seu manejo da espada com a mão esquerda não era muito bom. Quando recusou essa luta também seu pai golpeou-lhe com um punhal no rosto, o rechaçando como filho e homem, e lhe deu uma cicatriz para nunca esquecer qual era seu destino e dever.
Tomar o controle do clã de volta.
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Gnoa corria pelos corredores. Não iria se casar com seu próprio irmão. Não tinha a menor possibilidade, acharia Luis e voltaria para casa, onde tudo fazia sentido. Passou por um dos corredores e ouviu risos escandalosos.
—Já viu a pequena mamute chegou? — a voz irritantemente aguda era definitivamente feminina — Todos estão horrorizados. Como Miranda que é conhecida pela sua beleza é difícil acreditar que ela pariu uma ogra. — Gnoa estancou, claro que falavam dela, sempre falavam. Respirou fundo. Não se importaria. Não se deixaria machucar mais.
—Cale a boca, Bea, e levante essas saias. — Gnoa ouviu um resmungo masculino e contraiu o rosto, esperava um mexerico de cadelas fofoqueiras e não duas pessoas fornicando.
Girou os calcanhares e tentou sair nas pontas do pé, mas tropeçou em um dos tapetes de pele e caiu no chão. Ouviu um impropério masculino e passos rápidos, levantou e tentou correr mas o homem já tinha alcançado. Levantou-a de modo brusco e tão rápido que por um breve momento Gnoa se sentiu leve.
—O que está fazendo aqui criança?! Gosta de espiar os mais velhos?
Gnoa olhou o rosto duro do homem a sua frente e se surpreendeu, achava que nunca conheceria pessoa mais séria que Luis, mas o olhar feroz do homem parecia dizer que poderia matará-la apenas pela interrupção do seu coito.
Sem querer ficar para descobrir pregou uma dentada na mão calosa do homem que se afastou surpreso, Gnoa correu como se o próprio deus do submundo a perseguisse, sabia que ele poderia alcançá-la em poucas passadas, mas ele não fez e ela se sentiu agradecida por isso.
Saiu porta afora e circundou os pastos verdes; quase teve ímpetos de chorar de felicidade quando encontrou Luis a beira de um lago, via somente as suas costas mas seus longos cabelos negros eram inconfundíveis.
—Luis temos que ir embora. Levanta-se, ande logo! Temos que ir antes que comessem a me procurar. —Luis escutou a voz da menina que era sua responsabilidade desde os quinze anos de idade.
—Porque a pressa? O que fez de errado agora?
—Eu não fiz nada! — a exclamação indignada dizia o contrário, Luis quase sorriu, sua priminha não tinha jeito. —Querem me casar com meu irmão, minha mãe está louca, Luis temos que ir embora antes que me achem. Olhe para mim quando estou falando com você! Por todos os deuses o que aconteceu com seu rosto?
—Não importa. Sei sobre o casamento, Gnoa. Por isso estamos aqui.
—Você sabia?! Não posso acreditar.Porque não me contou?!
—Viria se eu contasse?
—Absolutamente não.
—Então poupou a dor no seu couro cabeludo porque eu a traria nem que fosse pelos cabelos. Agora é mulher e deve saber seu lugar, e é aqui com seu marido.
—Você é um falso! Enganou-me, te odeio, Luis.
—Não odeia não. Porque não me ajuda com esse corte e depois vamos para sua casa?
—Prefiro lavar minha boca com sabão.
—Pois bem, porque não toma um banho. — Luis disse e empurrou a menina no lago. Ela lhe xingava enquanto tentava se levantar com as pesadas camadas de saias que vestia. —Posso pegar o sabão agora se quiser, malcriada.
—Espero que queime no mais profundo dos infernos Luis, traidor miserável. Solte-me, vou me levantar sozinha.
—Agora chega Gnoa. — a voz brava e autoritária assustou Gnoa — Acho que te dei muita liberdade, mas aqui é diferente. Se não se comportar como uma fêmea mansa como foi ensinada por Kátia será castigada como dita a lei.
—Não quero me casar, Luis. Com ninguém, muito menos com meu irmão. Não é natural. — a voz chorosa mexeu mais com Luis do que ele permitia.
—Mas é seu dever, pequena. Você nasceu em uma família importante e com isso vêm as responsabilidades.
—Você é meu primo, a única família que tive e conheci, carrega o nome Antunes tanto quanto eu e não o vejo casado com sua irmã.
—Primeiro, eu não tenho irmã. Segundo, a questão não é o Antunes, mas sim é o Ávila. — Ávila era sempre o problema — E não se sinta uma aberração o casamento cosanguíneo era comum em muitos clãs e isso se perdeu com o tempo porque os clãs precisaram de alianças com famílias importantes de outros clãs quando ocorreu A Grande Guerra. É isso que um casamento significa: um acordo para conseguir algo. Naquela época eram guerreiros, armas e mantimentos. Hoje é a pureza que seu pai quer restabelecer no nosso clã.
—E nessa equação eu perco minha liberdade e qualquer chance de ser feliz. Chance de descobrir o que eu quero, o que eu sou. —Ela abaixou a cabeça e Luis quis se matar por sua sinceridade.
— Infelizmente, Gnoa, nasceste fêmea, terá de querer o que teu marido querer. Viver em prol da felicidade dele. É a sua vida. Seu destino. — Luis suspirou, sabia das privações de uma mulher, sabia que não tinha sentido sofrer por algo irremediável, mas não deixava de sentir seu peito se comprimir quando imaginava Gnoa apanhando por causa de uma resposta malcriada. — Vamos você está atrasada e precisa de um belo banho, está toda imunda de terra.
—Mas primeiro deixe-me cuidar desse corte. Vai me contar o que aconteceu, vai ficar com uma cicatriz horrível no rosto.
—Absolutamente não, bruxa Gnoa. — respondeu fazendo ela soltar um risinho abafado. Sabia ela não tinha se conformado, mas tinha escolhido fazê-lo por um tempo enquanto fosse conveniente.
—Será que se meu irmão ficar sabendo dos meus dotes médicos ficaria um pouco inclinado a acabar do casamento sabendo que posso envenená-lo com uma simples flor?
—Você pode arriscar, se gosta de ser chicoteada.
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