Submisso
12 Capítulo 12 - Despertar
Notas iniciais
Divirto-me com a reação, adoro as dicas e as críticas, enfim, quanto mais melhor!!! E, no bloco da felicidade dos reviews amados, lá vai mais um capítulo.
OBS: Nossa, eu nem acredito que já é o capítulo 12!!! E eu que pensei que essa fic não fosse vingar!!!
Sem mais, "DESPERTAR".
Capítulo 12 – Despertar
O quarto. Novamente acordara e vira o mesmo teto. Nossa, há quanto tempo estava vivendo com os Weasley? Era melhor nem pensar nisso. Quem sabe, se reunisse um pouco de coragem, conseguiria convencer Arthur a deixá-lo dar uma volta no jardim? Ah, a quem estava tentando enganar? Não o deixavam nem ir ao banheiro sozinho, com medo de que caísse e se ferisse.
Estava tão cansado daquela rotina: dormir, tomar banho acompanhado, comer sendo “vigiado” (não conseguia comer direito. Nos últimos dias, mal conseguir sentir o cheiro dos alimentos), ingerir poções das mais diversas e suportar os rompantes de febre... Será que não dava para, sei lá, dar uma voltinha pelo beco diagonal? Tá, certo, certo... “Não!” seria a melhor resposta que ouviria, na hipótese remota de sugerir: “que tal um passeio para o Sirius?”
O motivo de toda aquela preocupação era ela... Sempre ela, a maldita febre que não o deixava se recuperar completamente para poder sumir dali e, com um pouquinho só de sorte (será que Bicuço ajudaria?), fugir para o mais longe que pudesse de Snape. Já fazia um tempo que o seboso não aparecia.
Poderia tentar dar pelo menos uma volta hoje, não? Precisava mesmo esticar as pernas e hoje parecia perfeito. Não vieram incomodar com “você precisa comer alguma coisa, Sirius”, o que era mais que perfeito. Talvez tivesse um pouco mais de sorte.
Espreguiçou o corpo com vontade e se preparou para levantar da cama, mas antes que o primeiro pé alcançasse o chão, ouviu passos se aproximando. Recuou, ajeitando-se rápido e voltando a fechar os olhos. Por quê? Simples: era melhor “continuar a dormir”. Somente assim teria um pouco de sossego. Dormindo não teria que aguentar o falatório repetitivo dos últimos dias.
“Ajude-se, Sirius”, dizia Arthur. “Sirius, não tinha outro jeito. Perdoe-me”, implorava Harry. “Você está agindo feito uma criancinha mimada, Almofadinhas”, repreendia Lupin. “Precisa se alimentar, querido”, recomendava Molly. “Decepciona-me muito, Sirius. Harry está muito triste”, contava Hermione. Será que ninguém compreendia que ele não queria ser informado de nada daquilo? Estava farto!
Então, a conclusão: entre aturar a rotina e ter que ouvir a ladainha de todos, bem, preferia a rotina. Portanto, recusava-se a continuar ouvindo, de Molly a Harry, todos implorando para que ele colaborasse com Snape, que os ajudasse, que a sua saúde precisava melhorar e blá, blá, blá... Melhor era dormir. No caso, fingir que estava dormindo. Pouco depois, a porta foi aberta e vozes encheram o quarto.
_Então, pelo que você supõe, a febre vai e volta, principalmente devido aos efeitos do Signaveris Crescite?
Ah, esse era Lupin.
_Sim, é o que eu suponho. Contudo, temos apenas suposições, não é? Como aquelas tatuagens deprimentes que maculavam a pele de Sirius sumiram? Apenas supomos que foi o efeito da completa eliminação do Signaveris, mas não é possível ter certeza de nada. Com relação à febre também não conseguimos maiores informações. Hermione e Draco fizeram uma pesquisa exaustiva. Mas, como já esperávamos nos deparamos com mais dúvidas que esclarecimentos. Hermione é categórica ao afirmar que tudo depende do vínculo.
Essa voz... Era o ranhoso.
_Não descobriu mais nada quando foi a Durmstrang?
Sirius tentava juntar as informações. Então Snape tinha ido a Durmstrang? Por isso não tinha aparecido.
_Nada que já não soubéssemos, Remus.
_Realmente, estamos de mãos amarradas aqui.
_Mãos amarradas? – Snape bufou. – Estamos estacionados no mesmo lugar, por duas semanas inteiras. A saúde de Sirius está declinando mais que a cotação das bolsas trouxas em período de crise. Não podemos mais fingir que nada está acontecendo, Remus. O ano letivo vai começar... E eu, simplesmente, não consigo me concentrar em nada relacionado ao trabalho. Não consigo ficar tranquilo com Sirius nesse estado.
Sirius os ouvia, mas continuava a fingir que ainda estava dormindo. Estava tão cansado. Poderia até acertar o Big Bang, de acordo com a febre que o dominava, intensa e perversa, a cada período de três ou quatro horas, dependia muito.
Caso estivesse tranquilo, ou seja, se passasse o dia inteiro sozinho, sem falar com ninguém, a febre era mais espaçada e quase não o cansava. Mas, se os tivesse por perto, como agora, com Snape e Lupin usando o quarto para conversar sobre ele, ah, nesses momentos a febre vinha mais rápido e seus efeitos eram muito mais agressivos.
_Creio que o temperamento de Sirius contribui nesses surtos de febre, mas não há como ter certeza. Continuo acreditando que é melhor deixar os cuidados de Molly e a Toca. Já preparei tudo, mas ela insiste em que devemos permanecer aqui.
_Está realmente difícil, não é? – E a fala de Lupin lhe soou tão arrasada que ele quase sentiu pena... Quase! – Bem, Severus, creio que não há mais nada a fazer. É melhor levá-lo. Creio que Sirius aprovará o que fez, embora vá demorar um pouco – e riu. – Molly entenderá. Ela está bastante preocupada, mas todos nós estamos, não?
Levá-lo? Do que estavam falando... Ou melhor, de quem? Dele?
_Sirius, vamos, deixe de fingir que está dormindo e abra logo os olhos.
Ah, como ele odiava aquele morcego abusado. Como é que ele sabia de tudo, sempre? Abriu os olhos a contragosto. Se pudesse, dormiria o dia inteiro. Não queria acordar, não mais.
Preferia afundar-se num sono contínuo, para assim não cair de cabeça na sua realidade medonha: alvo de uma monstruosidade dos pais, sentindo os efeitos agressivos de um feitiço das trevas, casado sem seu consentimento com o homem que o violou – tudo bem, tudo bem... Ele sabia que Snape não tivera culpa naquilo, mas essa pequena informação costumava ser ignorada quando decidia xingá-lo.
_Por que vocês dois não vão embora? Deixem-me em paz.
Lupin esfregou o rosto demonstrando exasperação.
_Molly disse que você está há três dias sem comer. O que pretende, Sirius? Morrer de fome? A febre não é suficiente?
_Não te interessa o que eu pretendo fazer ou não, Lupin!
_Aí é que você se engana, pois me interessa sim, e muito. Ninguém aqui vai te deixar morrer, seu idiota. Eu sou seu amigo e...
_Amigo? Sei, sei... Eu tenho tantos amigos, não é mesmo? – E o tom era enojado. – Então como, eu me pergunto, como acabei nessa situação? – Evidentemente, Snape sabia que falava dele, mas preferiu ignorar.
Lupin o mirou e Sirius sabia que o lupino exasperava-se mais e mais. O mesmo acontecia com Molly e Arthur. Até Harry, que não se sentia muito bem nos últimos dias, recebeu a sua cota de gritos.
_Chega! – Falou um Snape parecendo muito, muito irritado mesmo. – Você não comeu nada, por três dias? – E voltando-se para Lupin, perguntou. – Isso é sério?
_Não quisemos te atrapalhar em Durmstrang, mas... É verdade sim.
Snape se aproximou da cama, furioso. Dava para ver o rosto se transformando e ficando vermelho de raiva. Colocou sua melhor cara de “foda-se, querido marido” e o encarou, esnobe como tinha aprendido a ser.
_Tem alguma consciência do quão delicada está a sua saúde? O que você quer? Quer que Harry precise enterrar você? Não bastaram os anos que passou longe dele, em Azkaban, certo? Quer arredondar o número para, quem sabe, toda a eternidade?
Aprendeu algo naquele tempo lidando com o professor de poções. O desgraçado sabia como te despedaçar com palavras. Incisivo e preciso, frio como uma navalha, esse era Snape. Usar Harry descaradamente? Era mesmo um cretino sonserino.
_Harry não tem nada a ver com isso!
_Ah, não... Seu grandessíssimo tolo! A sua atitude infantil está deixando o seu próprio afilhado bastante depressivo. Acho que eu deveria relembrá-lo sobre a função de um padrinho.
Depressivo? Harry não estava se sentindo bem, mas, pelo que entendeu, era algo comum, pois a magia dele e de Draco mal tinham acabado de se vincular.
_Cale a boca! Sou um ótimo padrinho. E não sou infantil! Só não tenho sentido fome, só isso – e o tom de voz diminui bastante. – Não estou fazendo de propósito – nessas horas, a melhor estratégia era evitar mais conflito.
Ah, estava ficando mesmo cansado daquilo tudo. Ter que ficar se justificando o tempo todo. Não tinha mais idade pra isso. A ideia de sumir e virar um cachorro sem dono voltou a ser muito convidativa. Ganhar o mundo e não se importar com nada mais... Extremamente tentador!
Encarou Snape e Lupin, os dois mais improváveis amigos e que, de fato, estavam demonstrando ser possível construir uma amizade sólida e sincera. Percebeu a rotineira ardência nos olhos. Droga, ela estava voltando. E vinha com tudo. Estava tão furioso, que já se sentia queimar de raiva.
_Avise a Molly que meu querido esposo e eu vamos para casa.
Como? Casa? Do que aquele morcego estava falando?
_Eu não vou a lugar nenhum com você... – Queria ter gritado, mas estava cansado demais até para levantar a voz. – Prefiro voltar ao Largo Grimmauld.
Fechar os olhos foi tão bom. Eles queimavam menos desse jeito. Sentiu a mão de Snape na sua testa – ah, ele reconhecia o marido pelo toque. Triste! – E o ouviu pouco depois esbravejar contra mais uma rodada de febre.
_Você vai para onde eu decidir, amado esposo – e Sirius sentiu seu corpo ser erguido, abrindo os olhos em seguida.
Tentou se soltar, mas o agarre de Snape era forte. Tentar... Sempre ficava na tentativa. Não conseguiu lutar contra os pais, não conseguiu lutar contra os dementadores... Apenas de adaptava da melhor – ou da pior – maneira possível a situação.
Com o que os pais lhe fizeram, bem, foi até fácil, pois não se lembrava de nada. Com os dementadores foi particularmente ruim, visto que, por mais que amasse animais, viver anos como um cão não foi lá muito agradável. E agora, com toda essa história de doncelaria e... Snape... Nossa, como ficou frio. Frio demais.
_Sirius? Sirius? Severus, ele está tremendo.
_Por favor, Remus, avise a Molly agora mesmo.
Havia algo bem coladinho nele. E emanava um calor tão bom que beirava o paraíso. Enroscou-se ali mesmo, sem nem pestanejar. Ah, estava tão bom. Sentiu-se ser apertado carinhosamente e com necessidade. Naquele momento, nada importava. Só queria se aquecer.
Sentiu um solavanco e logo depois, foi apartado do seu aquecedor particular e colocado numa superfície macia. Mas estava frio... E estava tão difícil raciocinar. Lentamente, apesar de ter sido transportado como um pacote de lá para cá, adormeceu. Que fizessem o que quisessem dele. Não estava nem aí.
Os marotos o visitaram em sonhos. Ele sabia que era um sonho. Via a si mesmo, junto com James, Remus e Peter. Ah, maldito Peter, cuja covardia levou a vida de James e desgraçou a todos eles. Mas não queria pensar nisso agora. Afinal, estava sonhando, não estava? Deveria aproveitar. Sua vida não andava um mar de rosas, por assim dizer.
Deixou-se perder nas memórias sonhadas por muitas horas, até estar tão descansado, que não lhe restou outra opção além de acordar. Abriu os olhos e estranhou. Não conhecia aquele teto. A cama onde fora deitado era imensa, bem diferente da cama apertada na qual estava habituado a dormir. A decoração tinha um leve tom sonserino: austera, minimalista e esverdeada. Onde estava?
Dessa vez, não fingiu dormir. Agiu rápido e colocou os pés para fora da cama. Aguardou um pouco, reunindo forças e depois tentou dar alguns passos. Fazia tanto tempo que não andava que parecia ter perdido a prática. Bem, na verdade, sabia que a falta de doses regulares de alimento – além da febre que em breve voltaria – eram potenciais inimigos de uma maratona.
O cômodo retangular era amplo, com uma janela grande de madeira escura bem a frente da cama. Com dificuldade chegou até a janela e logo percebeu que estava no segundo andar. Viu também um jardim espaçoso e muito bonito, com muitas árvores e flores. Ao fundo, via uma cerca e um portão, mas não se prendeu muito nos detalhes externos. Precisava descobrir que lugar era aquele.
A cama era de casal, mas disso ele já sabia, então não perdeu muito tempo com ela. Armário, cômoda, mesas de cabeceira... Todos os móveis eram bem talhados, de madeira de qualidade, no mesmo tom da que compunha a cama. Havia também uma pequena mesa e duas cadeiras confortáveis.
Tudo ali era muito impessoal. Tentou uma das portas. Era um banheiro. A louça e os demais apetrechos eram usuais, embora tenha gostado muito da banheira ampla. Ah, adorava banheiras. Mas não sabia ao certo se era um vestígio da educação esnobe que tivera, ou se essa “tara” se devia ao fato de ter ficado anos sem um bom ano em Azkaban.
Mal fechou a porta do banheiro, a outra porta se abriu, quase numa sincronia. E então ele compreendeu, buscando pelos fragmentos de informação que coletara antes de apagar, ainda na Toca. Aquele cretino o tinha sequestrado!
_Finalmente acordou. Sente-se melhor? – E o desgraçado falava como se nada tivesse acontecido, como se fosse a coisa mais normal do mundo ser levado contra a vontade do lugar no qual era cuidado. E o que era aquela bandeja? Comida?
_Que lugar é esse?
Snape não respondeu imediatamente. Primeiro deixou a bandeja em cima da mesinha. Havia omelete e outras coisas que não podia definir. Mas ele continuava sem apetite algum.
_Snape, responda!
O pocionista sentou numa das cadeiras e acenou para a outra. Então esse era o joguinho? Tudo bem, ele jogaria. Não sem dificuldade chegou à cadeira e fez o desejado: sentou.
_Primeiro você come. Depois eu respondo.
_Não estou com fome.
_Não vejo nisso um argumento forte o suficiente para deixar de comer. Você está desnutrido, Sirius, portanto: coma. Ovos, pão, leite... Coma, Sirius. Seres humanos não se sustentam de pura brisa, nem os cães – e riu. – Sua desnutrição já chegou aos ouvidos de Harry, sabe?
Filho-da-mãe-manipulador-cretino... E teria continuado com muitos outros chamamentos delicados, mas tinha diante de si um desafio: ingerir alimentos. Estava tão enjoado.
_A poção para controlar a febre deixa o estômago sensível. É um efeito colateral recorrente. Preparei poções com os melhores ingredientes para você. Posso assegurar que se estivesse fazendo uso das que ministram em St. Mungus, ah, já teria preferido arrancar o próprio estômago. Vamos lá, Sirius. Deixe-me ajudar você, sim? – E lhe lançou um olhar tão sincero que poderia até acreditar nele.
Segurou o garfo e começou a comer. Foi uma tarefa penosa e demorada. Sem contar o fato de que estava odiando a si mesmo, afinal, estava fazendo a vontade de Snape! Mas só de pensar em Harry mais preocupado com ele... Não, não vacilaria com o afilhado.
Quando já tinha exterminado a omelete e partido para o pão, se surpreendeu com o ar de genuíno alívio que identificara no seu marido. Ele estava mesmo tão contente assim só em vê-lo comer? E o que era esse sentimento nele? Felicidade por estar agradando aquele seboso? Oh, por Circe!!!
Terminado o pão, bebeu o restante do leite e depois afastou de si a bandeja. Mesmo que ainda pudesse ver nela frutas e bolo, lhe era simplesmente impossível comer mais. Para a sua felicidade – é, ele realmente se sentiu bem. Patético –, Snape se deu por satisfeito, desaparecendo com os vestígios do lanche num balançar de varinha.
_Quero a minha resposta.
_Bem, você está na sua nova casa... Na nossa casa, mais precisamente no nosso quarto, amado esposo – e como ficou mudo devido à “surpresa”, o maridinho prosseguiu. – Quando você entrou em coma, Sirius, eu decidi cuidar de você. Ao que me parece, ninguém nunca fez isso, não é? Não com outro sentimento além da amizade.
_O que você está dizendo?
_Estou dizendo que eu sou o seu parceiro ideal. Creio que deva se lembrar... Nossas magias decidiram isso, não nós. Mas nós temos o direito de escolha. E eu escolhi você.
Aquelas palavras... Estavam no apocalipse? Era o fim dos tempos? Já estariam todos mortos e aquela cena era o seu inferno particular? E por que, Santa Morgana, por que seu coração batia acelerado, quase saindo pela boca ao ouvir “e eu escolhi você”? NÃO, ISSO NÃO!!! NUNCA IRIA ACEITAR QUE ELE MESMO ESTAVA CAINDO DE AMORES PELO RANHOSO!!!
Estava ficando quente de novo... Começou a acreditar que a febre que sentia estava mesmo ligada a seu temperamento, como o seboso dissera, ou seja, devia ser uma febre emocional. Que coisa mais ridícula! Se as suas emoções o levariam para um destino amoroso com Snape... Ah, preferia que a massa encefálica derretesse com a febre e escorresse nariz abaixo.
_Você bebeu, Snape? – A voz já afetada pela febre.
Snape sorriu. Meu Deus... Nunca vira aquele homem sorrir, não com aquele brilho provocador nos olhos.
_Sim, eu bebi, três vezes nos últimos dias. Estou bêbado de você, querido esposo. Ah, como foi difícil vê-lo dormir e não te beijar...
Sentiu o rosto queimar e os olhos arderem. Maldita febre. Levantou e se afastou da mesa, consciente de tentar se aproximar o máximo da porta, que conduzia a saída do quarto.
_Você está maluco. Completamente maluco.
_Ora, Sirius, você ainda acha que pode mentir pra mim. Eu vejo no seu rosto, eu enxergo na sua mente. Você me quer, tanto quanto eu te quero.
Chegou mais perto da porta, mas Snape o segurou. Ele era mais alto e mais forte. Amaldiçoou-se por ter ficado tanto tempo sem comer e estar sendo vítima daquela febre de novo.
_A febre voltou. Posso sentir sua pele mais quente – e tentou se soltar dele, sem muito sucesso. – Sabe, tenho uma teoria sobre a sua febre.
_Foda-se a sua teoria... Solta o meu braço!
_A febre vai permanecer até nosso vínculo ser completado. Entendeu, Black? Apenas quando consumarmos nosso matrimônio, só aí, a febre o deixará. Portanto, só há um caminho para a cura, meu querido esposo. E o caminho é aquela cama.
Miserável. Quem ele achava que era? Forcejou e se livrou do pocionista, abrindo a porta do quarto. Mas antes que pudesse passar por ela, Snape o agarrou e beijou com uma voracidade animal. Então o cretino queria beijá-lo, ok? Snape aprenderia que não se beijava um cachorro.
Mordeu com tanta vontade, que logo sentiu o sabor metálico do sangue. Aproveitou para empurrá-lo, mas, ao não ser liberado do agarre, desferiu um soco a esmo, apenas para conseguir se soltar. Estava se sentindo fraco agora, a visão meio turva por conta da febre que voltava a subir. E, ainda assim, o acertou em cheio.
Só quando deixou o quarto é que se lembrou de que não conhecia casa. Apressou-se o máximo que pôde, mas já estava tão cansado. Não, não devia se deixar vencer tão fácil pela febre. Era fugir ou esquentar a cama de Snape. Acelerou os passos, mal enxergando um palmo a sua frente. A cabeça pesava. E então, sentiu o chão sumir debaixo de seus pés.
Mais ouviu que viu a si mesmo despencar escada abaixo. Quando, por fim, chegou ao último degrau, sentiu o corpo todo dolorido, em especial o lado direito. Ficou de pé nem soube como. Talvez, ver uma porta com uma evidente claridade o tenha incentivado.
Arrastou-se pelo que lhe pareceu ser a sala, o pouco de lucidez que tinha concentrado em sair dali. Ouviu um barulho no andar de cima, certamente Snape se recuperara do soco. Precisava correr, ou melhor, se arrastar mais rápido, visto que a dor sentida no pé se equiparava a de um cruciatus.
A porta o levou ao jardim. Um sol forte o ofuscou. Para onde ficava a rua? Andou a esmo, a grama fofa acariciando seus pés descalços. Lembrou-se da cerca e, assim que a visualizou, tentou alcançá-la. A essa altura, já estava sem fôlego e com frio, muito frio. Merda de febre!
Lentamente, foi perdendo o ritmo. Procurou pela árvore mais próxima – na verdade, só via um borrão esverdeado – e se apoiou, dando-se conta de que não era apenas o pé que doía de forma lancinante. É, não conseguiria fugir. Será que era mais fácil fugir de Azkaban do que fugir de Snape?
_Seu idiota!
Nem tentou argumentar. Estava beirando a inconsciência quando teve o corpo erguido por um Snape furioso e decididamente irritado. O encarou, meio desfocado por causa da febre. Lá estava a bela marca avermelhada do soco. Se conseguisse raciocinar direito, teria se gabado daquilo.
_Você será castigado por isso, querido esposo.
E foi a última ameaça que ouviu antes de ser envolvido, novamente, pelas trevas mornas daquela febre maldita.
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