Submisso
13 Capítulo 13 - Inseticida
Notas iniciais
Bem, novo capítulo: um leve Drarry e muito do Draco, fazendo das suas, claro. Sem lemon, sorry, mas prometo um em breve (para quem gosta, claro).
Sem mais, aproveitem.
Comentários = felicidade de Núbia!!!
Capítulo 13 – Inseticida
_Amor, por que você não descansa um pouco? – Questionou Draco, assim que saiu do banheiro.
Ambos estavam no quarto do casal e Harry estava lá, sentado na cama, lutando contra a vontade de dormir. Lia uma carta enviada por Hermione que, feliz, contava sobre o sucesso de Ronald na academia de aurores.
Tendo ficado entre os três primeiros lugares em desempenho, o ruivo conseguira iniciar o novo – e penúltimo – ano de qualificação com um estágio curricular obrigatório antecipado. Ou seja, o grande amigo de Harry começaria a se envolver com casos reais, indo para as ruas como subordinado. Segundo Draco, se Ronald ficara entre os três primeiros em desempenho, era porque tinha competência e merecia o estágio antecipado.
_Ora, Draco – e bocejou. – E Sirius? Pode chegar alguma notícia e... Estou preocupado. Você ouviu o que Remus disse. O seu padrinho levou o meu padrinho e veja o que aconteceu...
_Ah, por favor. Vai culpar Severus? Sirius teve total responsabilidade, e você sabe disso. Os nossos padrinhos estão casados, entendeu? Severus o levou da Toca porque julgou ser correto para o bem-estar de Sirius. E eu, sinceramente, não acho que ele está errado.
Harry fez uma cara feia, mas não disse nada. A última notícia que receberam foi a de que Sirius estava se recuperando da queda que sofrera da escada logo que se mudaram, mas que ainda requeria alguns cuidados. Visitas não estavam proibidas, segundo Snape, mas seria melhor esperar um pouco mais, ao menos até que o esposo aprendesse a ter um pouco mais de educação (o que não aconteceria nunca, nas palavras de Lupin).
_Você deveria pensar na sua vida profissional, Harry. A não ser que deseje ser meu esposo em tempo integral. Podemos providenciar logo um herdeiro e...
_Dá pra parar de delirar? Continua a se arrumar, metidinho – e bocejou novamente, o sono ganhando a batalha com folga.
Draco estava elegantemente vestido, com uma túnica azul-petróleo, feita sob medida por estilistas franceses. Logo depois de tomar um gostoso banho com Harry e ter desfrutado de uma excelente refeição, arrumou-se para dar uma “saidinha rápida”. Bem, ao menos foi o que disse ao esposo, completando com um “para resolver pendências da faculdade”.
O moreno não contestou, mas também não se ofereceu para ir junto. Estava cansado demais para ficar esperando Draco resolver assuntos universitários. Aliás, não entendia o porquê de estar tão esgotado. Parecia que alguma coisa sugava a sua energia.
Segundo Draco, ele estava cansado devido ao vínculo. O loirinho explicou, de forma bem didática, que os donceles recém-vinculados demoravam semanas para reestabilizar a magia. O que levaria um pouco mais de tempo para Harry, visto que era casado com veela – ah, como o veela em questão era metido. “São magias distintas e poderosas se harmonizando, amor. Contudo, ao mesmo tempo, a minha magia veela contribui para uma estabilização mais tranquila, sem acidentes”, explicou o sonserino. “Ora, basta descansar um pouco. Eu sou um veela, logo, nada disso me deixa exaurido.”... E para colocar a cereja no bolo: “Não me lembro de você ter reclamado de cansaço quando estávamos no quarto, nem na banheira, ah... Nem na cozinha, sua segunda casa”.
_Eu sei que está preocupado, mas tudo o que pode ser feito está sendo feito. E Severus afirmou que ajudará o seu padrinho. Os Weasley não nos deixarão nas sombras, Harry, sabe disso. Nem Lupin ou Severus. E Dobby avisará se qualquer notícia chegar. Dobby é um elfo muito eficiente, sem mencionar que só falta beijar o chão que você pisa, oh grande-salvador-do-mundo-bruxo!
_Ha, ha, ha... Você é tão engraçadinho.
_Você esqueceu de dizer que eu sou irresistível, mas... Ah, para que ficar relembrando o óbvio, não? – E riu, depois se aproximou do esposo e o beijou longamente, acariciando-o no processo.
Harry relaxou com o beijo e nem percebeu que era, gentilmente, recostado na cama. Draco era hábil no quesito: fazer as coisas sem que Harry se desse conta. Instantes depois, o loiro se dispôs a acariciá-lo nos cabelos de forma tão íntima, que o fez adormecer. Ah, aquele esnobe fazia mesmo o que bem entendia quando o assunto era Harry Potter.
_Dobby – e o elfo apareceu atendendo ao chamado.
_Pois não, senhor? – perguntou num tom baixo de voz. Era incrível o cuidado que o pequeno elfo tinha com Harry. Na verdade, era emocionante.
_Preciso sair para resolver umas pendências, portanto, deixo Harry sob seus cuidados. Ele está bem, não se preocupe. Apenas fique atento, sim? Caso haja algum chamado, dos Weasley, de Lupin ou do meu padrinho, mande-me uma coruja urgente e também comunique ao meu esposo.
_Sim senhor. Dobby velará o sono de Harry Potter e fará como o senhor pediu.
Draco apenas sorriu, agradeceu e se dirigiu a seu escritório, iniciando uma conversa via lareira pouco depois. Estranho como assim que bateu os olhos naquele cabelo loiro claríssimo, quase branco, sentiu uma enorme saudade.
_Olá, Pansy. A empresa continua bem ou já nos levou a bancarrota?
Pansy trabalhava para Draco, na “Malfoy’s C.O.”. Era a sua assessora direta, uma sonserina sagaz e extremamente competente. Draco a considerava, de fato, sua vice-presidente. Sem ela, teria sido impossível deixar a empresa por tanto tempo e se dedicar, ainda que fosse apenas por alguns dias, exclusivamente ao esposo.
_Oh, senhor Draco Malfoy, apesar de não ter entrado em contato por dias inteiros – e colocou no rosto uma expressão de falsa indignação – está tudo bem. Como vai o seu esposo, Draquinho? Melhor? – E sorriu maliciosamente. A mulher, além de funcionária, era também sua amiga.
_Meu esposo se encontra muito bem, Pansy. Mas preciso de um grande favor. Sei que foge um pouco das suas habituais tarefas, mas preciso de alguém de confiança nisso.
Pansy arqueou a sobrancelha. Alguém de confiança? Sabia muito bem para o tipo de coisa que Draco, geralmente, contava com as poucas pessoas de confiança.
_Não há nada que eu não faça por você, meu amorzinho – e riu.
_Consiga um encontro hoje ainda com o nosso “contato” nos meios de comunicação. Ah, também preciso de uma cópia do contrato.
_Contato? Nossa, quanta educação! Você deveria dizer: encontro com aquele escroque repugnante, que adora o nosso dinheiro! Sabe que consigo esse encontro para daqui a dez minutos, se é que você realmente deseja vê-lo. Contudo, não acha melhor que eu envie o funcionário que pagamos para essa tarefa, como sempre fazemos? Ocorreu algum problema?
_Pansy, você anda meio desinformada, não? – E contou brevemente os últimos acontecimentos.
O rosto da amiga ganhava tons avermelhados de pura raiva, a cada palavra proferida. Gostava daquilo, daquela lealdade que mantiveram, mesmo depois das desgraças sofridas com a guerra. Apesar das grandes perdas, conseguiu manter alguns amigos fiéis, os poucos que tinha.
_Isso é um absurdo! Oh, Draco eu não soube... Mas, isso é culpa sua, sabia? Fico tão estressada com o trabalho, que não me distraio nunca, nem para essas futilidades tenho tempo.
_Pansy, calma. Respire! Assim que eu voltar, você terá um final de semana de férias.
_Um final de semana? Draco Malfoy, eu mereço um mês de férias com remuneração dobrada. Mas, como eu sei que você não sobreviveria sem mim, me contento com quatro dias no balneário mais próximo.
_ok, ok... Consiga a reunião e uma cópia do contrato, depois acertamos seus dias de folga. Diga apenas que o representante das empresas deseja encontrar com ele para tratar de assuntos ligados ao erário estabelecido.
_Sim, sim... Não importa de onde vem o dinheiro, desde que a conta do gringotes continue abarrotada de galeões. Aquele mercenário!
O loiro sempre ficava surpreso com os rompantes de Pansy. A amiga era muito apaixonada na defesa da sua “família”, palavra usada por ela para denominar a ele e aos demais amigos em comum: Blaise Zabini e Theodore Nott.
_Vou aguardar aqui mesmo, Pansy. Por favor, seja rápida.
_Querido, eu sou mais que rápida! – E a comunicação se desfez. Draco mal teve a chance de terminar o whisky de fogo do qual se servira e a lareira mostrava Pansy, um sorriso malicioso nos lábios.
Draco deixou o copo de vidro de lado e a encarou bem de frente. Pela expressão, havia aprontado alguma.
_Ora, Pansy. O que você fez dessa vez?
_Quase nada, senhor Malfoy... – E sorriu, contrariando rotundamente o “quase nada” anterior. – O senhor tem uma reunião agendada com o senhor Barnabás Cuffe em 15 minutos, na sede da empresa do referido senhor. O escroque em questão pareceu muito inclinado em atendê-lo quando mencionei um possível corte no financiamento... Estranho, não? Ele estava tão ocupado antes, quando eu nada disse sobre assuntos especificamente financeiros. Ah, a recepção já foi avisada da sua chegada. Dirija-se a qualquer um dos funcionários e diga que tem uma reunião com o senhor Barnabás Cuffe.
_Obrigada, Pansy. Acaba de ganhar mais um dia das suas merecidas férias.
_Excelente!!! Beijos Draquinho.
Draco aparatou, tendo em instantes um prédio imponente, mas que nem de longe tinha em seu interior pessoas tão confiáveis quanto à sólida estrutura arquitetônica da sua fachada.
Esticou as vestes – não que precisasse, afinal, Malfoys eram sempre impecáveis – e entrou, altaneiro e com um sorriso exuberante nos lábios. Na recepção, uma jovem bruxa sorria para todos os que se aproximavam e não conseguiu disfarçar o gritinho de excitação ao vê-lo se aproximar. Ai, ai... Ele nunca entenderia a fixação de algumas mulheres.
_Como vai, senhorita? – Cumprimentou com o seu melhor rosto sou-gostoso-e-sei-disso.
_Oh, muito bem, senhor Malfoy. Em que posso ajudá-lo?
_Tenho uma reunião com o senhor Barnabás Cuffe. Acredito que em poucos minutos. Minha assistente acabou de confirmar.
A mocinha em questão verificou suas anotações e se espantou. Então a reunião que deveria ser um completo sucesso, desde a recepção até a finalização seria com ninguém menos que Draco Malfoy.
_Oh, sim, sim... Claro. Larson – e acenou para um dos muitos funcionários, que veio em seguida. – Acompanhe o Sr. Malfoy até o escritório central. O Sr. Cuffe o aguarda. Espero que tenha um ótimo dia Sr. Malfoy.
Draco apenas meneou a cabeça agradecendo a gentileza. Depois se dispôs a seguir o homem alto e de pele acanelada que o levaria até seu objetivo, Barnabás Cuffe, editor do Profeta Diário.
O elevador o levou até o 5º andar. Não prestou muita atenção nos detalhes da decoração, mas sentiu alguns poucos olhares curiosos sobre si. Afinal, mesmo que fosse para uma sala mais reservada, estava no prédio do Profeta e ainda era ele mesmo, Draco Malfoy, empresário de destaque, aluno brilhante, casado com o Eleito (sem falar no passado como comensal).
Minutos depois, a caminhada pelo prédio cessou. O tal Larson o anunciou diante de uma porta moderna, de material prateado brilhante, que se abriu assim que fora deixado sozinho. Entrou, agora sim detalhando visualmente o lugar. O requinte era visível e, felizmente, a decoração seguia um estilo minimalista, muito adequado ao ambiente prático que um jornal exigia.
O local era amplo, bem iluminado e arejado. Ao fundo havia uma grande mesa retangular. A madeira era de extrema qualidade, disso ele sabia só de olhar. Aproximou-se e só aí viu o homem mais velho – um cinquentão – mirando-o de uma das janelas. Um olhar lascivo percorreu todo o seu corpo. É, Draco sabia o efeito que causava nas pessoas. Um veela instigava o lado mais sensual das pessoas, para o bem ou para o mal.
_Sr. Malfoy, admito que é uma surpresa encontrá-lo – e lhe estendeu a mão, a qual Draco tocou levemente. Depois sentou numa das cadeiras que lhe forma indicadas.
_Sr. Cuffe, pensei que minha visita não fosse, em nada, surpreendente.
O sagaz editor apenas balançou os ombros de leve como se não fizesse ideia do que, afinal, Draco falava. O loiro encarou bem aquele rosto ainda pouco marcado pelos sinais da idade e despejou de uma vez, sem filtros.
_Minha empresa e outras contribuem com vultosos incentivos, mensalmente, para a sua instituição, correto Sr. Cuffe?
O homem grisalho a sua frente apenas arqueou a sobrancelha. Não demorou nada a concatenar os pontos e prever o limbo no qual Malfoy planejava arremessá-lo.
_Nosso acordo é claro, não é? – E o contrato foi arremessado na mesa imponente. – Investimentos e proteção devem sempre andar juntos, contudo, não foi o que ocorreu. Há alguns dias atrás, uma de suas colunistas publicou uma “reportagem”, ainda que eu me recuse a chamar aquele lixo de reportagem, sobre a minha vida particular, assim como a do meu esposo.
_Ora, Sr. Malfoy, o casal Potter-Malfoy é formado por duas pessoas públicas e de grande interesse público, logo...
_Não me venha com essa... Não vou ficar aqui debatendo com o Sr. o conceito de respeito e de vida privada, contudo, anuncio o nosso corte de insumos, a partir desse mês. Sem proteção, sem crédito, compreendeu bem, Sr. Cuffe?
_Sr. Malfoy, não precisamos chegar a algo tão... Drástico.
_Não creio estar sendo drástico. Os demais empresários que confiam em mim para representá-los, bem, todos me deram carta-branca. E o Profeta feriu nossas normas contratuais, visto que expôs um dos empresários com o qual tem um acordo de “proteção de imagem” – e fez menção de se levantar: isca jogada.
Barnabás foi rápido o suficiente para dar a volta na mesa e tocar-lhe o ombro, um evidente pedido mudo para que não fosse embora... Ah, presa fisgada!
_Sr. Malfoy... Não poderia reconsiderar? Podemos desfazer esse mal-entendido. Tenho plena convicção disso.
Draco respirou fundo, largando-se na cadeira, o rosto sustentando uma expressão endurecida e indignada.
_Não vejo como. Fomos bastante prejudicados com a falta de respeito a nossa intimidade. Sem mencionar as informações falsas. Vocês realmente têm repórteres? Mais parecem autores de ficção científica trouxa, tamanhos os absurdos publicados. O que sugere, Sr. Cuffe?
Barnabás ajeitou a túnica que, coincidentemente, partilhava da mesma cor que a de Draco, embora, nem de longe tivesse o mesmo corte ou caimento. Depois, com passos lentos, voltou a se sentar, mas dessa vez, ignorando a posição de poder na qual se colocara anteriormente, do outro lado da mesa, procurando ficar bem perto de Draco.
_Afastarei o jornalista responsável.
_É pouco. Muito pouco. O quanto está disposto a fazer para nos manter com o senhor?
O homem enrugou o rosto numa expressão de pânico. Draco sorriu satisfeito. Então o “escroque”, como tão bem gostava de destacar Pansy, acreditava que bastava afastar Skeeter? Ah... Barnabás teria uma grande surpresa. E ele iria se divertir deveras.
Discorreu sobre as suas exigências, de forma bastante objetiva. Evidentemente, não houve questionamentos algum. Para finalizar a reunião, o loiro solicitou que um adendo contendo as novas regras fosse adicionado ao contrato original, dando natureza legal às mudanças instituídas.
Quando enfim se despediu do editor, que parecia com menos vitalidade depois de ceder a cada uma de suas exigências, relembrou as palavras de Molly Weasley. Como demorara tanto tempo para apreciar a bondosa matriarca? Ela era incrível. Acreditava que a amava, de verdade. Parecia até ouvi-la novamente: "use o cérebro para resolver o problema, não a raiva. Skeeter faz o que faz porque tem respaldo. Vingança é um prato que se come frio, querido".
Aparatar em casa foi recompensador. Só pensava em Harry, nos seus beijos e em como queria se afundar nele, até a exaustão. Dirigiu-se ao quarto sem nem respirar mais uma vez, a boca praticamente salivando ao imaginar Harry dormindo "desprotegido” em cima da cama. Abriu a porta, desejoso, os olhos predadores determinados a encontrar a presa enrolada nos lençóis... Mirou a cama... Vazia?
Seu veela lhe dizia que estava tudo bem com Harry e que ele estava na mansão... Podia senti-lo. Então, por que Harry não estava ali, deliciosamente desvestido, esperando por ele? Ora, ter que procurar pelo moreno quando estava assim, nesse estado, era um... Absurdo!
_Dobby!
O elfo apareceu rapidamente e lhe fez uma mesura. Antes mesmo que o loiro perguntasse qualquer coisa sobre Harry, a voz fininha já detalhava os últimos acontecimentos com esmero.
_Dobby fez exatamente como mandou, senhor. Cuidou do sono de Harry Potter com muita atenção. Ah, e não houve nenhum chamado.
_E onde Harry está?
_Ele acordou faz quase uma hora. Disse que estava com muita fome. Dobby ofereceu um bolo de chocolate fresquinho, mas o amo Harry passou mal só de ouvir Dobby falar em bolo! Harry Potter quis, ele mesmo, preparar um lanche... Mas...
Draco pensou que Dobby fosse chorar de tristeza por não ter podido preparar, ele mesmo, um lanchinho para o idolatrado Harry Potter. Mais qual não foi a sua surpresa ao ver que, ao invés de uma expressão depressiva, o elfo sustentava uma grande dúvida nos olhos.
_Entre os trouxas se costuma preparar ovos mexidos com morango, cerejas e mostarda preta?
A cara de completo nojo antecedeu a resposta do loiro.
_Oh, Merlin. Não creio... Na verdade, rogo que não. Os trouxas costumam preparar ovos do mesmo modo que os bruxos o fazem. Morangos, você disse?
_Sim senhor... E cerejas. O amo Harry está lá na cozinha. Já encheu o prato três vezes. Estou preocupado, senhor. Será que teremos ovos suficientes?
Draco foi direto para a cozinha, não sem antes tranquilizar Dobby sobre a quantidade de ovos (2 dúzias) ser mais que suficiente. E que não: ele não precisava sair desesperado para comprar mais ovos e que Harry não ficaria nem um pouco ofendido se, por acaso, os ovos acabassem antes que o seu paladar estranho estivesse devidamente satisfeito.
A cozinha era um lugar bastante agradável, uma vez que se passava a entrar nela de vez em quando. Antes de estar casado, esteve na cozinha raríssimas vezes. Agora que convivia com Harry, a visitava constantemente. Não estavam juntos por décadas, mas aprendeu no pouco tempo de convivência que o moreno era uma pessoa franca, otimista e de gostos realmente simples. Não havia erro maior do que cair na esparrela da imagem que o esposo projetava de si mesmo: metido, egocêntrico e fútil. Ah, ele em nada era um tolo convencido, mesmo que parecesse pensar no estilo de: eu-sou-o-herói-beijem-os-meus-pés!
Por exemplo, para Harry, a cozinha era um local tão frequentado quanto qualquer outro da casa. Na verdade, ele costumava se esconder de Draco por lá, quando as coisas não estavam indo muito bem entre os dois, naquele início confuso e cheio de gritos.
Era rotineiro o grifinório passar boa parte do dia na cozinha, fosse conversando com Dobby, fosse cozinhando alguma bobagem (ele adorava, mas não admitiria nem sob tortura!). Draco o repreendeu várias vezes por passar tanto tempo enfurnado no meio de fogão e panelas. Até os amigos ele gostava de receber na mesa da cozinha!
A última vez que falara algo a respeito foi, na verdade, a bem pouco tempo. E foi categórico ao afirmar que “cozinha não era lugar para um Malfoy”. Já Harry, com aquela típica sutileza de Trasgo, apenas respondeu: “Então suma daqui. E se você me disser mais alguma coisa sobre o que Malfoys devem ou não devem fazer, ah, eu vou fazer você engolir seu sobrenome!” Bem, o moreno sempre era bem ele mesmo.
Dobby não errara. Harry estava lá... Na cozinha. E sentado no chão mesmo (claro, usar a mesa e a cadeira era demais para o herói), bem próximo do fogão. Vestia um pijama leve e estava sentado de pernas cruzadas, com uma frigideira apoiada no cólo. Nossa, ele praticamente lambia os dedos, enquanto comia com uma vontade de fazer inveja. Era a verdadeira encarnação da satisfação. Parecia estar degustando ambrosia, a comida dos deuses.
A concentração na estranha mistura amarela era tamanha, que não permitiu que Harry o visse ali, bem pertinho, parado a poucos metros de distância. Entre uma garfada e outra, gemidinhos de pŕazer saíam daquela boca carnuda... Ah, uma delícia!
_Desse jeito, você vai acabar sendo devorado. Hummm. Estou até com calor.
O susto foi inevitável e a frigideira quase virou, mas a habilidade de pegador falou mais alto e, numa manobra rápida, ela se reequilibrou no seu cólo. O conteúdo quase se esparramou pelo chão e Harry ficou deveras irritado com a intromissão abrupta.
_Mais que droga, Draco. Por que você não fez um barulho, sei lá, alguma coisa, pra anunciar a sua chegada? Quer me matar de susto? – E voltou a comer demonstrando pouco (ou nenhum) interesse no marido.
A palavra “indignação” é insuficiente para classificar o sentimento quase homicida que dominou o esnobe Malfoy. Nunca, em momento algum, ele fora trocado por uma estranha mistura de ovos com morango e cereja... Argh.
Aproximou-se da pia e se assustou com a quantidade de cascas de ovo acumuladas. O que Harry queria? Ter um infarto?
_Harry... Quantos ovos você comeu?
Meio a contragosto, os olhos verdes o encararam.
_Todos – e prosseguiu deleitando-se no que para Draco não parecia em nada apetitoso. – Mas eu não vou dividir com você, pode desistir.
Ah. Foi suficiente. Só podia estar maluco. Dobby dissera que tinham duas dúzias de ovos em casa. Será que o esposo nunca tinha ouvido falar em taxas de colesterol? E a dieta determinada por Severus?
Sem nem titubear, avançou na direção dele e pegou a frigideira para, instantes depois, verter o pouco que restara daquela “nojeira” direto na lixeira, um modelo novo, devidamente enfeitiçada com um feitiço auto-limpante. Dessa vez, a habilidade de pegador não foi rápida o suficiente para impedir a ação de Draco.
_O que você... – E o moreno foi da desolação a fúria extrema. – Por que fez isso, Malfoy?
Malfoy? Oh-oh... Quando Harry o chamava de Malfoy, as péssimas recordações da relação de ambos em Hogwarts voltavam com força total. O loiro detestava ouvir o esposo o chamando assim, com todo aquele desdém.
_Por que, Potter? – Devolveu ressentido. – Você ainda pergunta?
Ficando de pé o mais rápido que pôde, o herói continuou a reclamar.
_Você não tinha esse direito! Eu estava comendo e...
_Comendo ovos... Duas dúzias de ovos, Harry? Tem ideia do quanto isso pode ser ruim para a sua saúde? Esqueceu a dieta que lhe foi passada pelo meu padrinho?
_Você não me respeita mesmo, não é? – E foi com espanto que o loiro presenciou o acontecimento mais inesperado, desde que a doncelaria do moreno fora confirmada: Harry Potter estava chorando!
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