Submisso

6 Capítulo 6 - Memórias


Notas iniciais
O espírito natalino estimulou a minha criatividade. Portanto, deixo um presente de Natal pra vcs, um daqueles bem tenebrosos... Sorry! KKK
Ah, próximo cap só depois em 2013!!!

Capítulo 6 — Memórias


"A mui antiga e nobre Casa dos Black” sempre lhe pareceu mais um mausoléu que verdadeiramente um lar. Estava jogado num dos sofás macios de veludo azul, típicos do gosto esnobe de Walburga, deleitando-se apenas com o prazer de curtir a solidão já que, pelo que tinha verificado, estava sozinho, algo raríssimo.

Não é que não gostasse de ninguém na família, não mesmo. O irmão até lhe causava algum sentimento, mas estava tão estranho ultimamente. Era jovem demais e suscetível demais às ideias preconceituosas tão em voga entre os que detinham sangue-puro.

Na lareira à frente, as chamas crepitavam e cada estalar da madeira aumentava a ansiedade que sentia. Onde ele estava afinal?

_Hey!

_Ah, até que enfim! Você demorou demais.

_Por favor, sem tanta reclamação. Foi você quem insistiu para nos comunicarmos por aqui. Por que não usou o espelho de duas faces, Sirius?

_Porque ninguém aqui em casa pode saber dele! E não o trouxe comigo. Ficou aí em Hogwarts. Mas dá pra deixar essas besteiras prá lá? Sei que ainda é cedo, mas quero saber se está tudo certo para quando o ano letivo acabar. Conseguiu falar com os seus pais?

A cabeça composta por chamas demonstrava mesmo ter, na realidade, um cabelo indomável, tamanhas eram as chamas que o compunham. Já os óculos redondos se transformaram em leves contornos avermelhados. Como adorava aquele rosto amistoso.

_Ora, é claro que sim. Os Potter o receberão de braços abertos, caro amigo.

Foi impossível não sorrir com gosto. Em breve sairia de casa, deixando para trás toda aquela baboseira de pureza do sangue. Não conseguia mais suportar as ideias preconceituosas dos Black. Até seu pai, com quem costumava ter uma relação mais agradável, andava distante nos últimos tempos.

_Sem você por aqui tudo fica muito chato. Nem encontrei o Ranhoso para passar o tempo.

_Ele deve estar se escondendo de você, enfurnado biblioteca, na sessão “Arte das Trevas” para quem tem cabelos sebosos.

James sorriu com prazer ao lembrar uma das últimas “peças” pregadas.

_Curiosamente, não o achei nem com o mapa. Vou me esforçar mais amanhã. Agora, me diz... Seus pais já explicaram o porquê de terem feito todo esse estardalhaço, obrigando você e Régulo a voltar para casa essa semana?

_Sim, explicaram... Assim como me explicam tudo o mais que desejo saber deles! – e ouviu a risada de James encher a sala! – Sabe o que é pior? Régulo nem está em casa.

_Bem, de qualquer forma, logo você estará livre! Será em poucos dias, Sirius!!!

_O que ocorrerá em poucos dias, senhor Potter?

A voz deixou cada pedacinho de pele que tinha retesado. De onde ela tinha saído?

_Que prazer em revê-la, senhora Black.

Encarar a mãe bem nos olhos – e tentar parecer inocente – era algo difícil. Mas, contudo, não era nenhum crime falar com um amigo, era? Bem, é claro que a parte na qual ele mesmo fugiria depressinha dali para a casa do “amigo em questão”, fora omitida.

_Olá, mãe. Pensei tê-la visto sair.

_Oh, sim, sim... De fato fui ao beco diagonal mais cedo, mas, como percebe, acabo de chegar. E você, senhor Potter, o diretor sabe que anda usando a lareira da sua casa para conversas pessoais?

_Ah, claro, ele mesmo pediu que passasse a Sirius os deveres. E as aulas de hoje já terminaram.

O silêncio inquisitivo só cessou quando James, numa interpretação incrivelmente genuína, prosseguiu:

_Senhora Black, por favor... Ajude-me a convencer Sirius de festejar a maioridade. Falávamos disso... Bem, na verdade, eu falava aqui, sozinho, sofrendo o desprezo do honorável “senhor Black”. Sirius está sendo um estraga prazer! – e sorriu tão fresco, tão natural, que era impossível não acreditar naquele rosto maroto.

_Ah, sim... Venho tentando, senhor Potter. Realmente faltam alguns dias para o aniversário, mas a teimosia do meu primogênito é mais forte que a anciã tradição dos Black. Entreguei ao mundo um ingrato, não é?

James soltou uma gargalhada que ele mesmo, o “primogênito ingrato”, sabia ser de puro fingimento. Pelo menos serviu para satisfazer a curiosidade da nobre senhora Black, que continuou a falar, já em tom de despedida.

_Bem, tente convencê-lo, senhor Potter. De qualquer forma, o seu presente será entregue hoje, querido filho – e o sorriso cheio de malícia eriçou os cabelos da sua nuca. – Mereço esse prazer, certo? Não quero arriscar a que, no dia do seu aniversário, você simplesmente suma de casa e eu nem consiga dar um presente! Ah, lembranças aos seus pais, senhor Potter – e deixou o cômodo, tão rápido quanto entrou nele.

James Potter esperou a mulher sair e sussurrou:

_Sua mãe me dá calafrios, sabia?

_Jura?! Em mim também, Pontas.

_Então, já vou indo. Remus está meio chateado com lua hoje. Ficamos combinados então, certo? – e ao que o amigo balançou a cabeça positivamente, concluiu. – Boa sorte com o seu presente.

_Há, há, há... Vai ver eles vão me presentear com um quite mata-trouxa.

Foi ainda rindo que a cabeça de James desapareceu da lareira. Sirius largou-se novamente no sofá, pensando no que ainda faltava para a sua fuga do ninho de cobras no qual vivia. Pelo menos, ter sido obrigado a passar essa semana em casa trouxe ganhos: aprontou as malas e já as reduzira. Levaria tudo consigo quando retornasse à Hogwarts. Livros escolares e outros “objetos” indispensáveis ficaram mesmo na escola, bem guardados em seu malão. É, não faltava nada... Deixou em seu quarto apenas alguns objetos e roupas que não lhe diziam muita coisa. Quando o ano letivo acabasse, não voltaria para casa.

_Senhor... Senhor!

A voz de monstro o sacudiu das divagações sobre a gloriosa despedida. Quanto tempo havia se passado? A sala já estava escura e na lareira restavam apenas cinzas. Monstro abanou as mãos na frente de seu rosto, “acordando-o” de vez.

_Os mestres o chamam para jantar, senhor.

Droga! Jantar?! Seria mais um daqueles jantares monótonos e cheios de palavras de desaprovação. Onde estava Régulo nessas horas? Sem o irmão em casa, sabia que não teria como fugir, não depois do que sua mãe dissera sobre “aniversário” e “presente”. Teria que fazer um grande esforço e se concentraria em repirar e comer. Apenas isso, o mais maquinal possível.

Monstro desapareceu num estalar de dedos, certamente se apressou para servir o jantar. Ah! Detestava tudo aquilo. Toda aquela pompa desnecessária. Não eram mais bruxos do século XIX, por Circe! E foi ainda tentando controlar o mau gênio que abriu a porta da sala de jantar, por sinal, decorada ricamente até dar náuseas, e entrou.

Entrando de cabeça na sua interpretação (Sirius Black para os pais metidos e esnobes), o moreno se dirigiu a mesa. Não que realmente se importasse, pois, no geral, era bastante “ele mesmo”, mas hoje não queria confusão. Pretendia ficar na dele, fingindo ser o que nunca foi, para assim ter tranquilidade e evitar perguntas desnecessárias sobre a sua repentina felicidade. Com os pais era necessário ser sempre muito educado – um saco. Régulo sim era excelente nisso, ainda que fosse impossível dizer se o irmão mais novo era, de fato, sincero ou não em seus atos.

A sala de jantar era especialmente imponente, com uma vistosa mesa retangular de madeira forte e escura, tão antiga quanto a da porta de entrada (ancestralidade, na cabeça dos pai, rimava com pureza de sangue, mesmo que fosse apenas sobre um dos elementos da mobília). As vinte cadeiras de espaldar alto, igualmente imponentes, sempre lhe causavam certa graça, afinal, para que tantos assentos se era raro ter algum convidado para o jantar?

No topo da mesa estavam os pais, vestidos como se fossem a uma solenidade ministerial, mas nenhum sinal do jantar estava por perto. Não havia nem o cheiro da comida saborosa preparada por Monstro. Havia apenas uma bela e solitária garrafa disposta entre os pais. Bem, talvez nem tão solitária assim, já que três taças servidas a acompanhavam.

_Venha, Sirius. Antes do jantar, brindaremos a sua maioridade.

_Ainda não sou maior de idade, pai. Continuo com dezesseis! Vai mesmo permitir que eu beba? – e sorriu sacana depois do tom agradável do patriarca.

_Completará dezessete anos em dois dias, filho. Não haverá nenhum problema – e sorriu. – É uma pena Régulo não estar aqui agora.

_Ele chegará amanhã. Precisei que Régulo fosse à casa de Narcisa, querido – comunicou Walburg, os olhos atentos à aproximação de Sirius que, já segurando a taça, incitou.

_Bem, vamos ao brinde então!

_Parabéns! – As felicitações se repetiram e as taças foram esvaziadas.

A bebida era estranha, sem gosto algum, mas se sentiu quente, muito quente, assim que o líquido estalou em sua língua. Instantes depois, o pai se aproximou, retirou a taça das suas mãos e murmurou alguma coisa... Ficou difícil de entender. Foi algo como: “Desculpe? É para o seu bem.” E foi a última sentença que ouviu antes de ser envolvido por um sono sem motivo, poderoso e profundo.

Quando abriu os olhos, percebeu que o cenário havia mudado. Estava num outro cômodo que, a julgar pelo papel de parede e pelos detalhes em relevo do teto, ficava no terceiro andar. Sentiu embaixo de si uma superfície macia e concluiu estar deitado numa cama. Apoiou os cotovelos no colchão, reunindo forças para levantar, no que fracassou miseravelmente. O que tinha acontecido com ele? Por que se sentia tão cansado, como se a sua própria vida tivesse sido sugada dele?

Seu corpo estava estranhamente fraco, o que não fazia sentido algum. Estava em plena forma, nem saíra com os amigos numa noitada alucinante, logo, não havia motivo algum para que se sentisse como se sofresse a mais terrível das ressacas. Precisou de quase dez minutos para, de fato, conseguir pelo menos ficar sentado. E outros dez minutos para perceber que não estava sozinho, pois a visão estava nublada. Parecia que... Parecia que estava sem magia. É, era isso. Tentou um feitiço não verbal simples... E nada! Um alarme soou em seu cérebro.

_Pai? – a voz saiu tão fraca que forçou um pouco a garganta, para falar mais alto. – Pai, o que aconteceu? – e notou que Orion era acompanhado por Walburga e por outro homem, alto, magro e de nariz grande e adunco, que até sua visão confusa lhe permitia reconhecer atrás da máscara que lhe cobria parte do rosto. Tinha a pele pálida e longos cabelos escuros.

_Finalmente, podemos começar. Já sabe o que fazer. – e ao que o desconhecido acenou com a cabeça, ouviu o pai prosseguir num tom claro e forte. – Eu o entrego e permito que o tome.

O desconhecido em instantes subiu na cama, afundando o colchão. Logo pôde sentir uma lufada de magia arrancar-lhe as vestes, todas elas.

_O QUE... O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? – era impossível não gritar indignado.

Tentou se jogar para fora da cama, mas a sua doce mãezinha o impediu, num ágil agitar de varinha que o devolveu ao leito, dando tempo para o mascarado agarrar-lhe pelas pernas, abrindo-as de maneira vergonhosa. Foi tão brusco que gemeu de dor. Estava nu, a mercê de um estranho e sem magia. Era humilhante! Quando havia começado a gritar?

Sentir o peso daquele homem sobre si, afundando-o mais na cama, impossibilitando até que se mexesse com liberdade... Dava náuseas. Mãos ásperas o apertavam e ficou rouco de tanto gritar e implorar que o ajudassem, que parassem com aquilo... Mas logo percebeu: ninguém ali o ajudaria. Seus próprios pais concordaram com aquela atrocidade. Ele estava sozinho, em inferioridade numérica e sem magia. Só podia ser um pesadelo.

Quando teve os lábios beijados mordeu a boca oposta a sua com a ferocidade de um bicho. Conseguiu até arrancar sangue do agressor, tendo como resposta um forte tapa, que lhe virou o rosto.

_Segure-o, senhor Black. E comece o encantamento – a voz do mascarado era grave, pausada e tinha um tom assustador, mas estranhamente lhe soava como a de alguém conhecido.

Então qualquer chance que pensou de escapar se esfumaçou. Teve as mãos erguidas acima da cabeça e o seu pai o agarrou fortemente pelos pulsos. Doía e certamente ficariam marcas. Viu varinhas sendo apontadas para ele e ouviu estranhos dizeres, o que só podia ser um encantamento. Em pouco tempo, o encantamento se intensificou, passando a competir com os seus próprios gritos e com os sons abafados saídos da boca do mascarado.

Teve as pernas erguidas e sentiu o toque brusco em sua entrada. E aquilo quebrou o resto da sua resistência. Não pôde mais conter as lágrimas. Encarando seu atacante, sentiu o membro duro pressionando-o, mas também viu algo que o desconcertou... Havia uma sombra por trás daqueles olhos escuros.

Oh, Merlin! Seu agressor estava sob o domínio de uma imperius. Como seus pais puderam cometer esse mais esse crime? Já não era atrocidade suficiente permitir que um homem entrasse na sua casa e o estuprasse? Por isso deram um jeito de Régulo não estar em casa... Ele nunca permitiria isso!

A força com a qual foi invadido o sacudiu. Aquele desgraçado se enfiou nele de uma só vez. Nesse campo era virgem. Nunca fizera nada sexual com homens. A dor violenta o fez perder a voz e mais lágrimas brotavam dos olhos, sem controle algum. O grito que talvez pudesse aliviar aquela dor de morte ficou sufocado na garganta. Sentia-se imundo! Não conseguiu gritar só murmurar baixinho: “Por favor, chega... Por favor!” É, ele, o pomposo Almofadinhas estava mesmo implorando.

Os corpos estavam tão próximos, que podia sentir a respiração do outro, vendo as partes de seu rosto com perfeição. E qual não foi a surpresa ao notar que o homem que entrou nele com vigor, chorava também. Era possível identificar que travava uma luta imensa contra a imperius, mas Orion era mais forte, dominando-o e impelindo-o a continuar a estuprar o próprio filho.

O nojo lhe tomava ao sentir as mãos ásperas abrirem mais as suas pernas, iniciando um vai e vem bruto, rápido e sem nenhuma piedade. O sangue não escorria de dentro de si, jorrava! Estava sentindo tanta dor que era impossível esconder o desespero de seu rosto. Cada sacudida em seu corpo gerava mais e mais agonia. Talvez por puro compadecimento, Orion afrouxou o agarre em suas mãos e os dizeres por ele ditos vacilaram brevemente, o que lhe deu uma oportunidade única.

Respirou fundo, afastando de si a sensação de ter o corpo invadido, ultrajado... Não, não... Precisava se controlar. Não podia sucumbir, nem se afundar em autopiedade. E pensar assim arrancou a nuvem cinzenta diante de seus olhos. Pôde reunir um pouco que fosse suas forças. Sentia aquele homem refestelando-se nele, entrando, saindo e gemendo de prazer... Ah, era tão degradante!

O ódio o cegou e se soltou do pai para, logo depois, arrancar a máscara do desgraçado que ainda estava dentro dele. As suas unhas feriram a face do agressor, arrancando-lhe sangue, mas o que realmente o deixou estupefato foi descobrir quem o pai escolhera para tamanho absurdo.

_Você! – e reconhecê-lo o colocou abaixo do chão. Era melhor tê-lo ofertado como sacrifício aos lupinos.

Os movimentos aceleravam tornando-se mais animalescos. Era visível que o fim se aproximava, pois o prazer estava lá, bem estampado no rosto do não mais desconhecido. Mesmo que tentasse odiá-lo e incluí-lo na sua lista de vingança, não podia, não era capaz. Sentia apenas uma dor profunda, beirando o desejo de se matar por ser aquele homem que estava ali, fazendo-o sofrer tanto.

_Não precisava se apressar, meu filho. Eu ia mostrar quem estava por trás da máscara! Olhe bem para ele, Sirius. Um mestiço! Ele é o que a sua natureza impura elegeu como “parceiro ideal” – disse-lhe a mãe, a voz meio abafada pelo encantamento e pela força da magia que o envolvia com mais solidez.

Aquela coisa dantesca chegava ao fim, sabia disso. O ato deplorável do qual foi a vítima principal – isso porque o seu violador também foi usado, dominado por uma imperius – caminhava ao desfecho, que veio tão rápido quanto iniciou: penetrações violentas seguidas de um jato quente e incessante dentro dele, queimando-o seu interior ferido pela força com a qual foi invadido e uma e outra vez.

Uma poderosa força mágica o envolveu quando sentiu o membro ainda duro o deixar. Orion pronunciar “obliviate” não foi nenhuma novidade, assim como ver o rosto de pele alva e nariz adunco dormitar, na mesma cama na qual o fez sangrar. A sensação de imundície o dominou, mas teve pouco tempo para pensar que preferia ter morrido antes de ter passado pelo que passou, pois sua mãe o forçou a beber algo espesso, certamente uma poção.

O feitiço morria a sua volta, assim como as imagens em sua cabeça apagavam lentamente. Pouco depois, sem saber o porquê, todo o mar revolto de sentimentos desapareceu. Sentiu-se flutuar numa imensidão calma de tranquilidade. Por que mesmo tinha sofrido tanto? Ah, não havia acontecido nada. Tudo estava muito bem... Não se lembrava de nada que pudesse alterá-lo.

Contudo, a memória havia sido restaurada. E ele se lembrava, continuamente, de tudo o que havia acontecido. A lembrança que o fazia desejar derrama-se em lágrimas de sangue se repetia, repetia e repetia. Não conseguia evitar, não conseguia parar... Estava condenado!

Notas finais
Memórias tenebrosas são um bom presente de Natal?
Certamente não, mas prefiro a verdade que uma mentira, ainda que bem contada.
Próximo cap em 2013!!!
Obrigada pelos comentários. Leio e respondo a todos com muita felicidade!!!
Feliz 2013!!!