Subentendido

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Oi meninas :)
Muito feliz com os três comentários que recebi!
Bom saber que tem gente acompanhando e falando sua opinião.
Então, para vocês mais um capítulo
Sem delongas, não esqueçam de deixar seus comentários
Beijos

Sofia observava tudo a sua volta se sentindo uma sensação estranha de dejà vu, enquanto o novo motorista do seu pai tenta chamar sua atenção. Ele deveria ter vinte e poucos anos, era moreno de olhos claros, tinha um porte atlético e era até bonitinho, mas ela não era igual à Flaviana, e pegar baixa renda, só por diversão, não fazia parte da sua lista de prioridades. Aliás, ela ultimamente achava que a amiga estava decaindo cada vez mais nas suas escolhas. Ajeitou os óculos de sol, sentindo a claridade intensa ofuscar seus olhos, se odiando por ter saído ontem com a amiga, pelas poucas horas dormidas e por ter que ir para aula hoje. Odiava ter que sair da Barra e ir ao Grajaú para estudar. Seus pais haviam falado que era o melhor a fazer, até o meio do ano, mas ela pouco acreditava nisso. Achava que isso deveria ser algum tipo de castigo por ela simplesmente, ser a única pessoa consciente a pensar em detonar o casamento da sua mãe e do Ronaldo. Não sabia como seria encarar novamente a irmã e todos aqueles pirralhos, e apesar de sentir muitas saudades do Pedro, se sentia desconfortável com a ideia de cruzar com os outros “irmãos”.

- Chegamos senhorita – o motorista falou de um jeito galanteador que fez Sofia revirar os olhos de nojo. Ela jurou que viu ele piscar um dos olhos assim que ela saiu do carro e a sensação de que o pervertido estava fitando a parte de trás do seu corpo não a deixou confortável. Falaria com o pai assim que chegasse em casa e pediria pra demitir o motorista abusado. Flaviana estava perto do portão e acenou, dando uma piscadinha. Provavelmente a patricinha havia presenciado o pequeno “flerte” do motorista e estava pronta para falar algo sem noção, mas isso não foi o que mais chamou a atenção. A fitando intensamente alguns metros atrás da sua melhor amiga estava Ben. Ele estava com usando à blusa que há poucos meses atrás havia usado quando os dois trocaram seu primeiro beijo e foi impossível não relembrar daquele momento... A surpresa que sentiu, o toque gentil e invasivo dele, o calor do seu corpo, o seu beijo. Ela não gostava muito de admitir isso, mas havia sido o melhor beijo da vida dela. Claro que ela não tinha muitos parâmetros para isso, pensou consigo mesma, havia ficado tão poucas vezes, já que era muito seletiva. Ele não desviou seu olhar por alguns segundos, até que o Sidney e o Junior o chamaram.

- Uau, que intensidade foi toda aquela – Flaviana falou de um jeito animado.

- Que foi Flaviana, tá viajando? – a loira replicou não querendo dar muita importância para as sensações que estava sentindo.

- Admiti Sofia, você ainda está apaixonada do Ben?

- Flaviana, quer calar a boca! – Sofia retrucou em defesa – Quer que todo mundo ouça – a morena ia falar algo, mas a amiga a impediu – Você sabe muito bem que eu não gosto do Ben, ele só foi um idiota por quem eu tive uma leve atração, que por sinal já passou.

- Leve atração? – a morena indagou com tom de desconfiança, um sorriso se formando em seu rosto — Vou fingir que acredito!

- Será que dá pra gente trocar de assunto? — Sofia continuou impaciente, enquanto as duas andavam em direção ao prédio principal.

– Ah, e tenho que parabenizar o seu pai pela contratação do motorista. Ele é um gato amiga, e não tirou os olhos de você!

- Porque eu já sabia que você ia fazer um comentário desses? – a loira comentou com um sorriso zombeteiro no rosto – Sério Flaviana, você adora pegar a classe trabalhadora né?

- Pelo menos eu não fico pelos cantos pensando em um garoto que não dá a mínima para mim!

- Tem certeza? – a loira questiona desdenhosa, não contendo uma risadinha.

- O Martin é passado e eu arrumei um jeito de me vingar – ela se justifica – Já você...

- Eu o que Flaviana? – a loira pergunta na defensiva – Eu simplesmente não acho que vale a pena perder meu tempo com o Ben, mas a Anita, ah, aquela garota vai querer nunca ter mexido comigo!

- Eu só acho que se o Ben não é tão mais importante você não deveria entrar nessa, sua mãe ficou tão mal com toda a história da explosão do cano. Pensa bem nisso Sofia!

As meninas entraram alguns minutos atrasadas na sala, o que gerou comentários de “Meninas, vocês estão atrasadas” da Raissa que estava dando um recado sobre uma reunião de pais, alunos e professores para discutir assuntos referentes à escola. A loira podia ver olhares direcionados para ela. Havia ficado quase duas semanas sem ir para aula, e tinha certeza que a Giovana devia ter adorado espalhar para seus colegas de classe e professores que ela havia ficado de castigo em casa por estar traficando drogas ou algo do tipo, o que era ridículo de se pensar, já que a mais propensa a fazer algo do tipo era a própria Giovana, ela pensou, enquanto sorria para si mesma. As horas se arrastaram até o intervalo, e encontrar o olhar mongoloide da Anita, na sua direção, seguido pelo beijo que ela deu no Ben, na hora em que estava comendo a fez perder a fome. A loira não via a hora de sair daquele lugar infernal e assim que o sinal bateu, saiu rapidamente, se despedindo da Flaviana, que iria ficar porque tinha hora marcada no salão do Serguei. Ela sabia que a amiga não queria admitir, mas suas visitas a um certo cabelereiro do Grajaú estavam cada vez mais frequentes.

Enquanto ela saia pelos portões, lembrou-se do irmão mais novo. Não podia ir embora sem falar com ele, não depois de todo esse tempo longe. Então, engoliu a seco toda a sua vontade de respirar novamente o “Ar da Barra” e decidiu que valia a pena perder alguns minutinhos a mais, se fosse para estar com o Pedro. Foi até a ala que o pequeno estudava e o viu conversando com o Felipinho, concentrado, provavelmente explicando alguma coisa para o amiguinho. Assim que os olhos do pequeno focalizaram a irmã, ele se despediu do amigo e saiu correndo em disparada, abraçando a irmã com força.

- Sofia! – o pequeno exclamou extasiado. A loira lembrou-se da conversa que tivera com o irmão depois que todos souberam da sua armação para destruir o casamento da mãe, e de como ele foi o único, que mesmo a culpando, abraçou a irmã e chorou quando a mãe comunicou que Sofia iria morar com o pai.

- Oi meu pequeno, isso tudo é saudade? – Sofia perguntou, sorrindo, correspondendo o abraço do irmão.

- Acho que sim – ele fez uma breve pausa — Aquela casa sem você não é mais a mesma – ele continuou carente, fitando a irmã com os olhos preocupados.

- Eu sei, tenho que confessar que estou sentindo falta do muquifão – ela disse brincando, mas sentiu uma pontada de tristeza – Claro que é só por causa de você Pedrinho – ela se explica rapidamente – E da mamãe – ela continua tentando apagar da sua mente a imagem do garoto de olhos verdes que tanto a atormentava nos últimos meses — Mas não vamos falar disso tá? Vim te convidar para dar uma volta hoje no shopping, tem aquela livraria incrível que você gosta e eu estou com meus cartões de novo – ela falou se exibindo.

- Eu adoraria passar à tarde com você, mas tenho um compromisso com a ciência hoje à tarde!

- Ah, eu estou sendo trocada pela ciência então? – a garota ironiza, balançando levemente a cabeça.

- Mais ou menos – o menino brinca lançando um sorriso com covinhas para a irmã — Eu combinei com o Ben de ir ver o treino de parkour dele hoje, estou fazendo uma medição dos saltos dele, sabe, e ele também vai me ensinar alguns saltos. Você não quer vir com a gente?

Sofia observou o irmão por alguns segundos. Algo na mente dela berrava por um não, mas uma pequena parte dela, dizia sim. O irmão percebeu a indecisão da loira.

- Eu não sei se é uma boa ideia Pedro – ela disse sem saber ao certo o que dizer e então ela levantou os olhos. Lá estava ele, Ben, em pé, um pouco mais afastado, com as mãos no bolso, parecendo sem jeito e distante. Seus olhos se encontraram brevemente e ela sentiu um leve arrepio percorrer seu corpo, seguido pelas batidas descompassadas do seu coração. Ela queria falar algo, ou talvez fugir dali, mas os olhos do garoto eram hipnotizantes, sempre foi assim, desde a primeira vez.

- Oi Ben – Pedro cumprimentou o irmão, não percebendo a tensão que existia entre os “irmãos” mais velhos – Eu estava aqui convidando a Sofia para ir com a gente...

- Cara, é melhor a gente ir, não queremos chegar atrasados não é? – Ben falou ignorando a fala do irmão mais novo, evitando olhar nos olhos da loira a sua frente. Não queria admitir para si mesmo, mas depois de todos esses dias sentiu algo quando observou a garota entrando pelo portão mais cedo. Queria ignorar isso, e a melhor forma de isso acontecer era ignorando Sofia. Falou algo no ouvido do mais novo, que sorriu. Algo na atitude dele deixou Sofia nervosa, ansiosa e irritada. Acabou se dirigindo a ele de um jeito ríspido.

- Olha aqui Ben, eu estou conversando com o meu irmão, se você não percebeu – ela falou alterando o tom de voz.

- Acontece Sofia que o Pedro é meu irmão também! – Ben retrucou, por impulso. Sua voz saiu mais alta do que gostaria, mas era impossível ter autocontrole perto da loira, ela o deixava transtornado. Sofia abriu a boca para falar algumas vezes, mas, como ele esperava, ela não tinha resposta.

– Vem cá Ben, você não tem nada melhor para fazer não, como brincar de príncipe e princesa com a minha irmã?

A loira deu um sorriso presunçoso, agora o moreno que havia ficado sem resposta. Pedro observava os irmãos sem saber o que fazer já que ambos ignoravam o pequeno. Por fim, decidiu pedir ajuda para alguém.

- Vem cá Sofia, você não se cansa de ser essa garota invejosa e fútil, que não consegue ver a irmã feliz? – Ben falou irritado, fazendo Sofia gargalhar alto, mas por dentro ela estava gritando, de raiva. Odiava quando as pessoas falavam que ela tinha inveja da irmã.

- Oi? Eu com inveja da Anita? – Sofia continuou, desafiando o garoto e a proximidade entre os dois foi se tornando cada vez mais perigosa, sem que os dois percebessem – Isso é algum tipo de piada?

- A mim você não engana Sofia – ele disse apontando o dedo na direção do rosto da garota, parecendo magoado – E sabe o que é mais incrível – ele deu um meio sorriso e encarou os olhos da loira a sua frente – Apesar de todos os seus planos e armações, você não conseguiu se livrar do Grajaú Sofia!

- E você deve ter ficado feliz com isso, não é Ben? – ela disse maliciosa, mordendo o lábio inferior levemente. Ben não pode conter o olhar direcionado para os lábios rosados da garota e só então percebeu a proximidade dos dois. Perturbado, o garoto se afastou, sentindo-se idiota.

- Como se eu fosse ficar feliz de ter que encontrar uma garota baixa e fútil como você todos os dias, capaz de enganar a irmã, a família...

- Olha Ben, eu não estou a fim de ficar ouvindo o seu sermão de como eu sou uma garota má que corrompi a família e o seu namorinho, se é que aquilo pode se chamar de namoro, então, vê me erra garoto!

A garota deu dois passos a frente e sentiu um puxão forte, que a fez quase colidir e cair em cima do “irmão”. Seus corpos estavam próximos e ela conseguia sentir a respiração dele em seu rosto.

- Só fica longe da Anita, Sofia! – ele disse em tom de ameaça.

- E se eu não quiser ficar? – ela disse desdenhando – Você vai fazer o que para salvar sua donzela do perigo Ben... Me bater?

Seguiu-se um longo silêncio onde os dois apenas se encaravam, um não querendo dar o braço a torcer pelo outro.

- Quer saber, isso tudo é uma grande perca de tempo!

- Concordo plenamente – eles continuaram se fitando – Então, se der para você me soltar...

O garoto fitou sua mão segurando o braço da garota e a soltou, perturbado, novamente. Encontrou os olhares desconfiados de Seguei e Júlia. Observou a loira novamente. Um sorriso perpétuo em seus lábios.

- Sofia, você aqui – Júlia falou observando a patricinha com os braços cruzados – Porque isso não me surpreende?

- Infelizmente tenho que frequentar essa escola de “quinta”, cheia de fracassados, mas pode avisar pra sua amiguinha, a Anita, que em breve eu não vou precisar ficar olhando para a cara dela e do príncipe dela – ele colocou os óculos de sol e foi até Pedro, se abaixando e ficando na altura dele.

– É melhor eu ir embora, eu vejo você na segunda está bem? – ela disse contrariada e deu um beijo na bochecha do irmão. Depois seus olhos voltaram-se para um Ben apático. Tentou ignorar o bolo que se formou na sua garganta e caminhou dando largas passadas, o mais rápido que conseguia, perguntando a si mesma, o que havia feito de errado para merecer tal castigo, até que sentiu alguém a tocando por trás. Virou-se e encontrou o irmão mais novo, respirando pesadamente.

- Ei, você andou muito rápido!

- O que foi Pedro? – ela perguntou rispidamente, querendo sumir o mais rápido possível daquele lugar que a trazia tanta infelicidade – Olha é melhor você ir logo com o Ben, eu realmente não estou preparada para isso, para sair com vocês.

- Eu sei – ele respondeu – Por isso falei para o Ben que achava melhor passar à tarde com você hoje, e ele não concordou, mas respeitou minha vontade, Aparentemente ele acha que você é uma má influência para mim.

- E você não acha que eu sou uma má influência para você? – a garota perguntou incerta.

- Ele não te conhece direito, não como eu, e eu sei que você não é uma má influência, só deve estar meio perdida. O divórcio pode ser algo traumático na vida de uma criança e pode influenciar psicologicamente pelo resto de sua vida.

- Ai meu Deus, você é o melhor irmão do mundo sabia? – Sofia falou emocionada – Me desculpa por ter falado aquelas coisas para aquele idiota do Ben na sua frente.

- Eu sei que no fundo você gosta dele, só não gosta de admitir. Um dia você vai conseguir lidar com tudo isso e admitir para si mesma.

- Eu gostar do Ben? – ela perguntou incrédula.

- E ele também gosta de gosta de você – o garoto falou sorrindo, como soubesse de algo que ela desconhecia.

- Ah, é claro que ele gosta – ela disse debochando.

- Sofia, eu estou falando sério! – o irmão disse contundente, fazendo a loira revirar os olhos.

- Okay – ela disse pensando nessa possibilidade maluca. Tentar decifrar o que se passava na cabeça do Ben já havia quase deixado maluca uma vez, não queria cometer o mesmo erro dessa vez. Ela afirmou para si mesma, mais uma vez, que o seu amor era apaixonado pela sua irmã. Ele havia escolhido ela, e por mais doloroso que fosse, tinha que aceitar isso e seguir em frente — Mais alguma coisa que eu não sei sobre mim?

- Acho que não – os dois se abraçaram e foram caminhando para a saída da escola. Os irmãos entraram rindo no carro enquanto um garoto de olhos verdes, do outro lado da calçada, observava a cena de longe.

Notas finais
Eaí, o que acharam?
Mereço reviews?