Subentendido
3 Capítulo 3
Notas iniciais
– Sofia, você ainda não se arrumou? – Bernadete perguntou entrando no quarto da garota, que a observou por alguns segundos, achando brega o vestido amarelo extravagante da mulher do seu pai, mas, estava tão cansada e com tanta coisa na cabeça que a única coisa que conseguiu foi murmurar um “Será que ninguém pode descansar em paz nessa casa?”.
– Ih, já vi que está de mau humor – a perua sentou na cama ao lado da loira, que pertencia a Anita – Seu pai vai querer sair daqui a pouco, e você sabe como é importante essa festa para ele, você não vai querer decepcionar o seu pai não é mesmo?
– Ótimo, agora para não decepcionar o meu pai vou ter que ir numa festa chata de aniversário de um cara que eu nem conheço – a loira respondeu cobrindo a cabeça com o edredom.
– Sofia! – Bernadete chamou sua atenção, se aproximando. A garota baixou o edredom relutante e fitou a madrasta – Eu sei que tudo tem sido muito pesado para você, mas acredite ficar chorando pelos cantos não vai adiantar nada.
– Oi? –a loira se levantou encarando a madrasta – Eu chorando?
– Chorando pelo Ben sim – a mais velha continua – Sofia, eu já me apaixonei e acredite, se isolar do mundo não ajuda em nada.
– Eu chorando pelo Ben? – a loira pergunta ironizando – É algum tipo de piada?
– Sofia, até quando você vai ficar se enganando? – Bernadete continuou fitando a garota com pena. Sofia não soube o que responder, não queria pensar nisso, mas sua mente a enganava. Ela queria ser forte, superar isso.
– Quer saber, eu vou nessa festa!
– É assim que se fala garota – Bernadete respondeu afobada – Então, faz o seguinte, você vai ficar aqui se arrumando e eu vou lá falar com o seu pai – Sofia soltou um suspiro preguiçoso – Anda garota, vamos!
– Tá bom, tá bom – ela respondeu mal humorada se levantando. Estava péssima, mas por um lado à maluca da Bernadete tinha razão, não adiantaria em nada ela ficar em casa, deprimida.
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Ben vestia seu terno com calma, estava bem adiantado para o bico que iria fazer a noite para ajudar sua família em Miami. Não tinha praticado parkour e agora se sentia mal, havia várias coisas em sua mente e ele sentia que poderia explodir a qualquer momento. Não queria admitir, mas ver a Sofia hoje havia mexido com ele, que ficou desligado durante a tarde inteira. Ele sabia que sentia algo especial pela Anita e ela sim, era alguém que se merecia investir, mas, então porque a imagem da Sofia aparecia na sua mente nos momentos mais improváveis? Decidiu que tinha outras coisas mais importantes com o que se preocupar, como a falta de notícias da mãe e o aperto financeiro que sua família em Miami estava passando.
– Opa, posso entrar? – Ronaldo perguntou entrando no quarto que antes havia sido uma garagem.
– Claro pai – o garoto sorriu, terminando de ajeitar a gravata borboleta.
– Você vai lá mesmo então? – o mais velho perguntou demonstrando preocupação – Olha Ben, eu posso dar um jeito se você estiver precisando...
– Pai – Ben o cortou de maneira educada – Hoje é sexta, não vai prejudicar nos meus estudos e é uma boa grana, você esta fazendo mais do que o possível. Não se preocupe!
– Será que eu estou fazendo mesmo? – o pai perguntou mais para si mesmo, num tom amargo. Ben soube na hora ao que o pai se referia. Sofia. Ele sabia que o pai tinha um carinho de pai pela garota e saber da armação da mesma para acabar do casamento havia sido duro demais para ele.
– Pai, você é um cara incrível, nunca duvide disso! – o garoto disse orgulhoso dando um abraço no pai, que retribuiu. Nessas horas ele tinha raiva de apenas uma pessoa por todo o sofrimento que ela havia causado na sua família.
– Ah, Ben, tem certeza mesmo que não quer que eu te leve até lá de carro? – Ronaldo perguntou preocupado – Eu posso pedir para o Omar...
– Não pai, eu vou com um cara da organização, ele vai passar aqui daqui a pouco. É sério, não se preocupe! – ele disse tranquilo enquanto o pai dava tapinhas de leve nas costas.
– Se cuide lá e qualquer coisa me ligue – Ben revirou os olhos e depois sorriu – Não volte muito tarde!
– Pode deixar! – Ben disse terminando de ajeitar suas coisas. O pai se despediu e saiu do quarto. Ben escutou um bipe baixo e olhou o celular. Mensagem da princesa plebeia.
“Príncipe, preciso da sua ajuda. Posso ir até o seu castelo?”
O garoto sorriu antes de responder rapidamente.
“Você será sempre bem vinda ao meu castelo princesa”.
Ben deitou na cama, esperando a namorada e acabou adormecendo. Ele estava em um lugar lindo, cheio de flores, e podia ouvir a risada da Anita. Sorriu, a procurando com os olhos e sentiu o toque gentil da sua mão. Olhou para sua própria mão que estava com uma aliança dourada. Uma garotinha sorriu perto dele. Ela se parecia com a Anita, mas tinha seus olhos. Reconheceu o lugar como um altar de casamento, decorado de maneira chique. Viu boa parte de sua família, todos mais maduros e um noivo nervoso no altar. Ele definitivamente não conhecia o cara, mas pode ver a Vera fazendo elogios e falando no ouvido dele. Procurou seu pai com os olhos, mas não encontrou. Até que uma marcha nupcial começou a tocar. Ele pode ver a noiva, coberta com véu, de mãos dadas com o seu pai. Ele não conseguiu ver o rosto, mas podia jurar que era a Giovana, se a mesma, não estivesse sentada sorridente em uma das primeiras fileiras de cadeiras perto do altar. O seu pai parecia orgulhoso em conduzir a mulher, o que deixou Ben mais ansioso para ver o rosto da noiva. O noivo foi até o seu pai e pegou a mão delicada da noiva, a encaminhando até o altar e depois, gentilmente, tirou seu véu e beijou a sua mão. Ben se sentiu tonto no momento em que seus olhos cruzaram com o da linda loira a sua frente. Era Sofia, em uma versão mais adulta e ela estava incrivelmente mais linda do que ele costumava lembrar. Ela olhou em seus olhos por alguns segundos e deu uma piscadinha discreta com o olho esquerdo. Seu sorriso revelava malicia, mas tudo que o Ben conseguia pensar era que estava vendo um anjo, o seu anjo, e ver ela na mão de outro homem estava o deixando maluco. Como ele permitiu algo assim? Ele se perguntou enquanto o juiz começava a cerimônia. Todos sorriam emocionados para o elegante casal, enquanto Ben sentia um aperto no peito enorme e uma vontade imensa de tomar a noiva nos braços. E quando ela disse sim e o noivo a beijou, foi como se mil facas perfurassem seu peito, ele não queria mais estar ali, ele não queria ver mais aquilo, ele não queria...
– BEN! – ouviu uma voz feminina chamar preocupada – Ben, príncipe, acorda!
– Eu – ele falou assustado, as lembranças do sonho ainda muito recentes em sua mente – Oi Anita – ele falou suspirando fundo se sentindo culpado ao olhar para a namorada – Eu estava...
– Tendo um sonho ruim – a namorada passou a mão pelos cabelos dele – Eu sei, percebi, mas foi só um sonho – Anita sorriu de um jeito doce e deu um selinho no namorado. Estava insegura, não queria admitir, mas havia ouvido o namorado falar o nome da Sofia enquanto estava dormindo? A dolorosa lembrança do hospital, quando o Ben havia ficado internado. Ela sabia que o namorado por mais que odiasse falar sobre isso, já havia sentindo algo por sua irmã.
– Eu só estou cheio de coisas na cabeça – ele falou enquanto Anita franzia a testa. Ela parecia distante, tão distante quanto ele.
– É a sua família em Miami não é? – ela perguntou compreensiva, voltando a atenção para ele — Vai ficar tudo bem príncipe. Eu vou te ajudar, sabe, não é muito, mas é tudo que eu consegui com as restaurações dos móveis – a garota lhe deu um maço de dinheiros. Ele se emocionou com o gesto. Sua namorada era a garota mais perfeita do mundo.
– Não princesa, eu não posso aceitar isso! – Ben falou recusando a oferta da namorada – Esse dinheiro é seu, e além do mais, eu estou conseguindo fazer essas festas de final de semana, e têm as aulas de inglês – ele levantou procurando o celular – Eu preciso ir agora, você vai ficar bem?
– Claro que vou – Anita disse ao namorado, com doçura, enquanto o observava sair com presa. Não queria admitir a si mesma, mas sentia uma distância crescendo entre os dois nas últimas semanas e o seu principal temor é que isso fosse relacionado à saída da irmã do casarão.
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Sofia observou à madrasta e o pai discutindo enquanto entrando no elegante clube. Caetano havia cumprimentado uma ruiva que havia passado por eles e agora ela era obrigada a ouvir o estranho casal discutindo. Balançou a cabeça observando o celular, achando um saco a festa. Não estava para clima para festejar nada. Observou o pai sair com Aberlado e imaginou consigo mesma que o pai iria fazer contatos importantes, tratar de algum negócio, como sempre. Decidiu sair para procurar algo para beber longe dos olhares da madrasta e do pai.
– Ei, Sofia, vai me deixar aqui sozinha? – ouviu Bernadete chamar e decidiu ignorar – Ei garota, eu estou falando com você!
Continuou caminhando, indo em direção ao bar. Algumas mulheres mais velhas a passaram cumprimentando. Reconheceu como sendo as antigas amigas da sua mãe, da época que era casada ainda com seu pai. Forçou um sorrisinho e passou rapidamente pelas mulheres. Não gostava delas e mesmo sem querer, pensou na mãe e sentiu saudades da sua antiga vida. Balanço a cabeça, pensando que estava no lugar certo, e se a mãe queria continuar naquela vidinha, morando no Grajaú, ela não podia fazer nada para mudar isso. Fez o pedido de um drink para o barman e sorriu para si mesma, com a facilidade que recebeu a bebida de coloração vermelha em uma taça requintada com pétalas de rosas vermelhas. Tomou um breve gole, sentido o gosto forte e gaseificado da bebida descendo pela sua garganta. Sentiu a vibração do celular e viu uma mensagem da Flaviana.
“Sofia, cadê você? Preciso te contar algo, você não vai acreditar”.
“Ai Flaviana, estou numa festa muito chata, meu pai e a Bernadete me obrigaram a vir, aniversário de um filho do amigo do meu pai, você precisa ver a cara do garoto, muito prego... Mas até que tem suas compensações, olha só isso aqui”.
Ela digitou e resolveu bater uma foto com o seu drink, até ser surpreendida por duas ousadas mãos retirando o elegante drink da sua mão.
– Ei, você aí – o rapaz a sua frente chamou o barman – A moça é menor de idade, ela não tem permissão para beber esse tipo de bebida.
– Eu sinto muito cara, eu realmente não sabia que ela não tinha idade para beber – o barman falou se explicando, e deu uma piscadinha para Sofia, retirando o drink de perto dela e se afastando. Os olhos do garoto encararam Sofia com um misto de curiosidade, mistério e prazer.
– Oi? O que foi isso hein? — Sofia encarou o rapaz sem entender nada sentindo uma irritação tomar conta de si. Cruzou os braços na frente do corpo. O garoto a sua frente deu uma risadinha debochada, fazendo a loira ficar mais irritada – Eu te conheço por acaso? Não vai dizer que foi meu pai que mandou você até aqui? – ela disse em tom de riso achando a ideia absurda.
– Você me conhece, talvez só não se lembre de mim... – o rapaz respondeu ironizando – E não, não foi seu pai que me mandou aqui, ele parece muito ocupado agora, correndo de uma loira com um vestido um tanto chamativo.
– Ok, agora você definitivamente está me assustando! – ela disse desconfiada, achando o rosto do rapaz familiar.
– Qual é magrela, vai dizer que não se lembra de mim?
– Ai meu Deus! – ela exclamou observando o rosto do rapaz mais atentamente, o cabelo escuro bagunçado, os olhos castanhos zombeteiros – Você aqui?
– Porque tanta surpresa? – ele continuou, colocando as mãos no bolso. Ela o observou melhor, ele estava mais alto do que ela, o que parecia até ser algum tipo de piada, e usava um terno fino, ela sabia reconhecer de longe, mas estava sem gravata e amarrotado, como se ele tivesse acabado de tirar da mala. Pensando melhor, talvez ele próprio tivesse saído de uma mala, ela pensou, contendo um riso. Os cabelos estavam levemente bagunçados e havia uma barba rala em seu rosto.
– Eu falei que um dia ia voltar. Agora, isso é jeito de recepcionar velhos amigos?
– Quem disse que você é meu amigo? – ela questionou levantando uma sobrancelha, o fazendo franzir a testa e consequentemente uma careta – Você era só o garoto que ficava puxando minhas tranças e me chamando de magrela.
– Ei, eu te chamava de magrela adorável – ela acabou rindo, o que o deixou empolgado também, até ficar um silêncio constrangedor.
– Eu não me lembro dessa parte “Teteu” – ela brincou relembrando o antigo apelido do amigo.
– Lembrar-se desse apelido horrível que a sua irmã me deu é bem coisa sua né Sofia, já te falei o quanto eu sempre odiei esse seu lado cruel e mau? – ele disse rindo – Não sou chamado assim há anos!
– Você tira a minha bebida e ainda tem coragem de dizer que eu sou cruel e má?
– Bom, podemos negociar isso – ele deu uma piscadinha – Mas, eu ainda estou esperando o meu abraço.
– Oi? – ela disse ironizando — Nem morta, você deve ter vindo direto do aeroporto para cá, deve estar fedendo.
– Aposto qualquer coisa com você que eu estou bem cheiroso!
– Porque se tornou tão importante assim abraçar sua inimiga número um da infância?
– Porque faz sete anos que não a vejo e preciso confessar que quase me arrependo de ter puxado suas tranças e tê-la chamado de magrela — ele falou olhando nos olhos da loira – Você está linda Sofia, por favor, não me faça repetir isso – ele revirou os olhos e a puxou pela mão abraçando a garota, que se deixou levar – Viu, não é tão ruim assim?
– Eu quase não te reconheci!
– Eu sei, vi seus olhos cheios de malicia, pensando quem era o gato malvado que havia tirado seu pequeno prazer – ele fez uma pausa – Ou talvez seja porque eu cresci um pouquinho!
– Um pouquinho Matheus? – ela questionou em tom de deboche.
– Podemos falar de outra coisa – ele falou observando a festa a sua volta – Sua irmã não quis vir para a festa?
– Ainda apaixonado por ela?
– Não, agora eu estou apaixonado por você! – ele piscou um dos olhos e ela acabou rindo. Sabia que era brincadeira dele e odiava admitir, mas o garoto estranho, melhor amigo da sua irmã na infância até que havia se transformado em alguém apresentável – Você acredita?
– Óbvio que não!
– Isso feriu meu coração!
– Porque você não pega todas as suas cantadas baratas e vai atrás de outra menina e me deixa em paz?
– Ei, porque tanta amargura nesse coração!
– Só não estou com paciências para idiotas – ela murmurou, lembrando sem querer do Bem.
– Quem foi o idiota que te deu um fora? – ele falou pegando dois drinks sem álcool, e entregando um para Sofia.
– Está tão na cara assim?
– Acredite ou não, agora eu consigo ler as mulheres – ele disse zombeteiro.
– Isso eu duvido muito!
– Sei que eu era o cara que te enchia, mas, acredite, eu mudei – ele levantou os braços em sinal de rendição – E se você quiser se abrir...
– Porque eu contaria algo pessoal para uma pessoa que eu não vejo há sete anos? – Sofia disse com a voz quase estridente – Sem falar que essa pessoa vivia infernizando a minha vida — o garoto riu, e vendo que ela ficou irritada, tentou se controlar – E eu não quero isso aqui, está sem álcool, eu quero... – ela se virou para procurar um garçom e as palavras morreram em sua garganta assim que viu o moreno na sua frente com o esmoquin branco.
– Sofia?
– Ben?
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