Stronger
25 Eixos.
Notas iniciais
What have I become, my sweetest friend?
Everyone I know goes away
In the end
Hurt
[MÚSICA — Hurt — Jonnhy Cash] [Aqui]
Atena estava sentada, em suas mãos havia milhares de documentos, pastas e mais pastas sobre a mesa, um copo de café e tudo mais o que ela precisava para trabalhar.
Encontrava-se em nada menos do que na área da piscina do Rancho Ewings, aonde vinha morando pelos últimos 30 dias com Perseu e mais algumas pessoas que já trabalhavam com ela na sua casa de antes.
Perseu dormia no quarto que um dia fora o de Poseidon, em seu berço, e Atena mantinha-se alerta para o mínimo barulho que a babá eletrônica podia fazer.
Mas a verdade era que se encontrava um bagaço, nem mesmo seus ternos vestia. Usava somente um vestido de moletom, seus cabelos loiros presos em um coque e descalça.
E mexia loucamente em seu computador, atendia as ligações, passava contas pelo seu palm.
Uma loucura desde que havia se tornado diretora da Petroleira e do Rancho Ewings, assim como ainda continuava como diretora de sua empresa de Arquitetura e Urbanismo. Sem jamais esquecer seu pai, que já a iniciava nos círculos para poder herdar a Petroleira e Rancho Danniels também.
Às vezes, como naquele momento em que escutava um de seus sócios falar com sua pessoa, enquanto andava de um lado para o outro pela beirada da piscina, que se perguntava se agüentaria aquilo. Se seu coração que já reclamava de estresse e cansaço com a pressão alta, suportaria tanta liderança e exigências para ser dona daquilo tudo.
Estava assim delisgando o celular, um pouco perdida em pensamentos nublados de sono, quando uma mão pousou delicadamente em seu ombro e virou-se com um susto para ver quem era.
E seu coração pulou com força, louco, mas dessa vez de felicidade, ao receber um par de olhos verdes sobre os seus. Poseidon em carne osso, depois de um mês, estava a sua frente, em sua clássica roupa de cowboy. Maravilhoso. Uma ruga de preocupação entre as sobrancelhas.
– Eu te chamei três vezes, moça. Está tudo bem?
E Atena achou sua língua, sorrindo um pouco culpada pra ele.
– Um pouco desligada, só...
– Trabalhando demais?
Sabia que era hora de mudar de assunto.
Tendo consciência de que ele a seguiria, a loira começou a arrumar suas pastas, fechando as mais importantes e deixando somente a tecnologia ligada. Apesar de Artemis afirmar naquele dia que Poseidon não havia dado nenhuma pista do que faria, Atena preferiria ser cuidadosa. Ambos eram caçadores e ambos sabiam quanto uma informação poderia ajudar.
– O que o traz aqui, Poseidon? Negócios?
– Assim queria, moça, mas vim ver algo mais importante.
– Hum... Perseu está dormindo.
– E quem disse que eu estava falando dele, querida?
A loira ergueu uma sobrancelha para o sorriso de lado de Poseidon ainda que corasse, corasse muito.
– Seu gado?
– Admito que adoro ver você se fazendo de boas às vezes, Atena... Mas gostarei mesmo de saber se posso passar um tempo em seu rancho.
– Quanto tempo?
– Essa tarde.
Atena pesou um pouco isso, mas suspirou, assentindo.
– Pode, Poseidon, esse rancho é seu... Mas não vou estar aqui.
– Aonde vai?
– Tenho uma reunião daqui a pouco, mais uma depois e só volto para o jantar.
– E Perseu vai com você?
Atena olhou para aqueles olhos verdes, um pouco confusa com a raiva que ele mostrava. De onde ele tirara razão para ficar com raiva?
– Claro que não, ele vai ficar em casa. Ou com meu pai. Eu jamais levaria nosso filho para uma reunião, Poseidon, seria ridículo.
Então, uma mão apareceu na pasta que fechava e ela sabia muito bem que ele arrumaria alguma coisa para eles brigarem. Só achava que talvez não estivesse naquele clima naquela hora.
Assim como pensara, os olhos verdes estavam frios, certeiros, com raiva.
– Voce roubou meu império, tirou de mim meu filho, pra chegar e perder todos os passos que nosso filho dá em troca de ter que gerenciar dinheiro, Atena?
– Não seja ridículo, eu não perco os passos do meu filho, fico duas horas com ele.
E o rosto de Poseidon ficou em pura surpresa. O que ela havia dito demais?
– Duas horas? Isso vem antes ou depois do café da manha? Ele não é um evento, Atena. É seu filho.
– Obrigada por me avisar isso, nem tinha notado – seu tom era ácido. – Foi assim que me criaram, assim que criarei meu filho, Poseidon.
– Nosso filho, Atena, jamais se esqueça disso... – e uma mão segurou seu queixo, forçando-a a olhar para ele, ver a raiva. – Voce pode ter sido criada assim, mas ele é um Ewings também e vai ser criado ao meu jeito, loira. Até onde sua ganância está indo acima do seu filho?
– Poseidon, me solte, isso não é problema seu.
Ele só apertou mais, puxando-a para perto.
– Errado, Atena, é problema meu sim, estamos falando da educação e valores do meu filho, claro que importa. Aquele garoto precisa de uma mãe, todos da minha família tiveram uma mãe fixa e presente, e é isso que você tem que ser pra ele, Atena. Ou quer um filho problemático?
Seus olhos cinza ficaram com raiva sobre os dele, aqueles dedos quentes em seu queixo.
– Eu fui criada assim, não vejo problema algum.
– Voce se importa mais com roubar o meu dinheiro do que com seu filho, isso não é problema suficiente para você não?
E pela primeira vez, olhando naqueles olhos nervosos, ela percebeu a verdade no que não queria ver.
– Voce só quer me ver desistir de sua herança, Poseidon.
Ele tremeu a sua frente, claramente com mais raiva ainda.
– Eu mando todo esse dinheiro pra puta que pariu, Atena, é do meu filho que estamos falando. E você sabe o quanto ele é importante pra mim, você poderia ficar com todo o dinheiro que por mim tanto fazia desde que Perseu esteja sendo bem cuidado, o que você, como mãe, não está fazendo.
Mas Atena não queria brigar com Poseidon naquela hora. Estava cansada, tudo em um grande bolo de desejo de dormir e de ficar quieta, de poder ler um livro no meio daquela bagunça de empresas, exausta.
Por isso, tudo o que fez foi retirar a mão dele de seu queixo, pegar a babá eletrônica de cima da mesa e caminhar em direção a cozinha.
Precisava descansar um pouco.
– Atena, veja o que está fazendo. Está abrindo mão de seu filho! De nosso filho!
E ela odiava quando ele dizia nosso, parecia algo tão... Intimo.
– Poseidon, por favor, me deixe.
– Me dê a guarda do garoto, vá cuidar da sua empresa, mas me deixe então ser um pai decente já que a mãe não está sendo.
Com toda a raiva, de ouvir aquilo, por tocar seu ego e por saber que algumas partes do que ele dizia era verdade, tudo o que Atena pode fazer foi se virar, indignada, e olhar nos olhos verdes revoltados dele enquanto gritava:
– A MÃE DELE ESTÁ DANDO O MÁXIMO DELA PRA FICAR COM ELE!
Foi como um botão, todo aquele estresse, forçar-se a gritar, seu medo de Poseidon inventar de tirar Perseu dela, juntando-se, soltou uma forte pontada em seu coração, uma dor tão forte que sua mão foi para lá, seu ar faltando por alguns segundos e talvez tivesse caído caso um peito forte não a tivesse amparado e mãos segurado seus quadris.
– Atena... Atena, o que foi isso? Voce está bem?
Podia ouvir o desespero e a preocupação na voz de Poseidon. Respirou, mais dor.
– Esta... Está tudo bem, só...
– Voce está pálida, tremendo e com uma expressão de dor, vem me dizer que está bem?
– Eu estou... Só preciso de ar... Ar. Tudo vai ficar bem.
– O quão louca você já está, loira? Fique quieta, vou te levar até o sofá.
Sem reclamar, Atena deixou-se escorar nos braços de Poseidon que a puxaram do chão, com tanta facilidade que ela se perguntou se estava tão magra assim ou se era só impressão sua.
Naquele modo que às vezes ela odiava, como se pensassem a mesma coisa, Poseidon suspirou.
– Voce está mais magra... Quer adoecer, Atena?
Mais do que ela já estava?
Enquanto pensava sobre isso, seu peito ainda a doer um pouco, mas já a conseguir respirar bem, Atena sentiu-se ser deitada cuidadosamente contra as almofadas macias do sofá e delicadamente Poseidon colocar uma delas embaixo de sua cabeça, acomodando da melhor forma possível seu corpo.
E seus olhos cinza seguraram um par de olhos verdes preocupados.
– Melhor, moça?
– É só uma coisa boba, não tinha o porque disso tudo, cowboy.
– Qualquer coisa que derrube Atena Danniels é algo a ser levado a serio.
Odiou-se por gostar de ver ele reconhecendo que sua pessoa era forte. Mas antes que pudesse dizer alguma coisa, seus olhos se fecharam, exaustos demais pra discutir com ele e o som alto de um bebê chorando fez-se ouvir pela babá eletrônica.
Parecia que tudo estava acontecendo junto, pois aquele fora o momento de Leila, sua assistente pessoal, entrar na sala, o som de seus saltos reconhecíveis em qualquer lugar.
– Senhorita Danniels, Jack ligou para avisar que seu contrato fora conseguido com sucesso, espera a senhorita para um lan... Oh, Senhor Ewings, não havia o visto.
– Leila, ignore ele, continue dizendo, rápido, tenho que pegar Perseu.
– Hum, como quiser, Senhorita Danniels. De toda forma, boa tarde, Senhor Ewings... Há um horário vago pra daqui dez minutos, antes da sua reunião as quatro. Posso marcar o lanche com Jack?
Mas quem respondeu não foi a loira de olhos fechados que implorava por forças para levantar daquele sofá e conseguir se arrumar para aquelas reuniões e sim para um homem que ela quase podia vê-lo de braços cruzados, quase como se a protegesse, quem falou:
– Leila, Atena não está em condições disso. Voce vai ligar para todos os sócios dela, desmarcar todas as reuniões de hoje, invente uma história coerente que não envolva nosso filho, ligue depois para o doutor Brian e avise que eu preciso dos serviços dele com urgência, pra hoje mesmo... E vá pegar Perseu.
– Mas... Mas... Senhorita Danniels?
A verdade era que Atena estava tão exausta, seu corpo tão cansado e mole, seus olhos fechados daquela forma tão boa e ouvindo Poseidon dar aquelas ordens, quase como estivesse preocupado de verdade com ela, a fez ficar calada, sem força mesmo de ir pegar seu filho que chorava.
– Leila, faça o que ele diz.
– Senhorita Danniels...
Poseidon a cortou.
– Agora, Leila. Pegue Perseu.
– Sim... Sim, senhor Ewings.
E escutou-a sair andando em passos rápidos em seus saltos.
Certeza de que Poseidon a havia assustado, ele sempre assustava dando ordens, talvez a única que não sentisse com medo era ela. Porque tinham o mesmo modo rápido de agir na hora que precisavam.
Estava a pensar nisso, no momento em que surpresa, Atena abriu os olhos ao sentir Poseidon acomodar-se atrás de sua pessoa, puxando seu corpo para aqueles braços fortes e o calor que havia ali. Ela podia ter reclamado, mas nem isso ela queria fazer.
Ele havia a pegado em um momento de pura fraqueza.
E parecia perceber isso do simples modo como acarinhava seus cabelos.
– Voce tem que se cuidar melhor, Atena. Não pretendo enterrar tão cedo mais uma mulher importante em minha vida. – ele suspirou. – Eu sei que errei, mas perceba que existe mais que esse dinheiro... Existe Perseu, que ele precisa de você como mãe dele, loira. Precisa de você, não daquela fortuna. Ele é nosso filho, ele será rico independente do modo que ficarmos. Ele é inteligente, como a gente... Por favor, perceba isso.
E pela primeira vez, Atena só pode olhar para aqueles olhos verdes cautelosos que a olhavam de cima, suas emoções entrando em conflito. Uma mão dele acariciou sua bochecha.
– Eu não quero te perder, Atena.
Só ela sabia o quanto daquilo era verdade pelo simples modo como ele deixara-a ver como ele estava em relação a ela, mas não podia com aquilo, não agora.
E a chegada de Leila pasma, com um chorão Perseu, foi a cartada perfeita para deixar aquilo de lado.
– Ele deve estar com fome, senhorita.
– Obrigada, Leila. – disse enquanto acomodava seu filho em seus braços, o choro dele alto, doído, de fome. Os olhos verdes daquela pequena criatura encararam os seus e ela se culpou por deixá-lo assim. Talvez Poseidon estivesse certo, em que diabos estava pensando? — Leila, desmarque tudo e está dispensada por hoje.
– Sim, senhorita... Licença, senhor, senhora.
Mas Atena não ergueu os olhos de Perseu para ver a sua assistente ir embora, estava mais ocupada tirando a parte de cima de seu vestido, abaixando o sutiã para amamentar o pequeno garoto que ainda chorava e pela primeira vez, Atena mais do que agradeceu o calor de Poseidon contra sua pele nua enquanto acomodava o filho deles da melhor forma possível em seu colo.
O circulo que o pai daquele garoto fez foi a melhor coisa possível. Em questão de segundos, Perseu calava-se, se alimentando, e Atena acarinhava os cabelos negros de seu filho.
– Shhh, está tudo bem, querido... Mamae está aqui. – e lembrou de algo. – Papai também... Desculpa por te deixar esperando, mamae está cansada, sabe que precisa cuidar de voce melhor... Só... Só...
– Hey, hey, loira... Está tudo bem pra você também.
Aquele sussurro em seu ouvido, seguido de um suave beijo em sua tempora, fez seus olhos cinza se encherem de lágrimas. Lágrimas de cansaço, de tristeza, de tudo mais que ela não sabia.
– O que você acha de dormir um pouco enquanto... – Poseidon jogou uma coberta sobre seu colo. -... Eu e o garotão ficamos acordados?
– Ele precisa...
– Loira, eu tive irmãos, eu entendo disso... Que tal dormir? Assim que acordar, vamos falar com o médico, acho melhor descansar, você está cobrando demais de si mesma, durma um pouco.
Então, sabendo que seria bobeira brigar com aqueles braços fortes que se enrolaram a sua volta, as mãos dele ajudando-a a segurar Perseu, tudo o que pode fazer foi pousar a cabeça contra o ombro largo, seu nariz de leve tocando o pescoço de Poseidon e fechou os olhos.
Às vezes, como aquelas vezes, a loira sentia falta de alguém para ajudá-la, alguém para olhar por Perseu quando não podia, ou simplesmente ficar com ela, como Poseidon ficava.
Alguém nesse seu mundo em que pudesse confiar, e mesmo sabendo que fazia algo errado, que se mostrava vulnerável na frente dele, a loira dormiu, um sono que precisava.
[...]
Artemis estava acordada ela já não sabia há quanto tempo. Encarava o teto de algum apartamento rico e bonito.
Ao seu lado, Dylan, o dono da boate, dormia calmamente, tão nu quanto si mesma estava. Mas a única coisa que ela conseguia pensar era: Que merda ela estava fazendo?
Com um suspiro, levantou-se e encaminhou-se para o banheiro.
Toda aquela noite, depois que seu companheiro havia dormido, Artemis vinha se perguntando porque continuava a fazer aquilo. Não era mais a mesma pessoa, não era burra para querer se enganar com isso, mas deitar ali, aceitar aquilo... Estava tão mais difícil do pensou ser possível, do que seria. Precisava daquilo. Sabia que precisava para deixar sua maldita e traumatizada mente quieta, calada. Mas estava cobrando outro preço dela.
Um preço emocional.
Estava gastando sua personalidade, coisa que aprendera somente em um certo rancho do Texas.
E naquele momento, olhando para sua imagem sexy e perfeita, com um pouco com cara de ressaca, mas linda, Artemis perguntou se de fato existia algo além daquela imagem dela... Porque os caras só queriam uma noite com ela? Era tão somente sexo? O que...
Seus dedos trementes tocaram sua bochecha e seus olhos verdes pasmos encararam a pequena gota em sua pele. Chorando... Estava chorando?
Sem perder tempo, Artemis foi se vestir. Precisava sair dali. Precisava... Precisava se acalmar...
– Hey, onde você vai, Art? — escutava a voz de Dylan.
Mas precisava sair dali. Por isso, somente pegou suas coisas e fugiu.
Afinal de contas, quem era, Artemis Bordeaux? Nem ela sabia.
[...]
Apolo andava pelas ainda movimentadas ruas de Dallas.
Estava frio, muito frio. Chegava a formar nuvens a cada vez que respirava. As pessoas passavam por ele, alguns em casais, muitos bêbados, e ele só olhava. Suas mãos no bolso de seu sobretudo negro, um livro no bolso interno.
Uma perfeita madrugada de frio e cafés 24 horas para seres insones.
Estava assim, pensando em qual entrar, que sentiu algo bater contra sua pessoa e forçou-o a segurar fosse lá o que fosse. Mas ele jamais esperou aquilo.
As probabilidades de se esbarrarem em uma cidade como aquela, ainda mais depois dela ter deixado bem claro que o odiava, eram maiores que 1 para dois milhões.
Só que era isso que estava a sua frente.
Um par de olhos verdes perdidos encararam os seus azuis. Sua dona vestia um curto vestido de capuz, em seus saltos altos, os cabelos vermelhos um pouco bagunçados e claramente... Chorando.
– Artemis, você está bem?
Ela assentiu, meio como se não soubesse como responder.
– Acho... Acho que to.
– Como você acha? Voce usou drogas?
– Não... Eu só... Eu só... Preciso...
– Voce precisa é se esquentar, você está tremendo. – e via os lábios dela ficando roxos de frio enquanto os ombros dela tremiam. – Garota, esteve andando só com essa roupa por quanto tempo¿
– Eu... Não sei... Só sai da casa dele e...
E Apolo não queria saber quem era aquele. Por isso, tirou seu sobretudo, ficando só com um moletom, e colocou nela que pela primeira vez nem reclamou. Ela parecia tão perdida.
– Alguém está com você, Artie?
– Só eu... Eu precisava sair daquele lugar... Eu precisava... – e Apolo viu mais lágrimas descerem pelo rosto dela. Assim como notava como mais e mais pessoas começavam a notar quem era aquela ruiva. A mídia dela era perfeita demais pro gosto dele. – O que está acontecendo comigo, Apolo?
Mas tudo o que ele fez foi passar um braço pelo ombro dela e puxá-la para a primeira cafeteria com aquecedor.
– Vamos sair desse gelo.
Poucos minutos depois, Apolo a via se encolher contra seu casaco, um copo de chocolate em mãos, lágrimas silenciosas ainda caindo e calada, perdida enquanto fitava o liquido escuro.
O que ele mais queria saber era o que havia acontecido para deixá-la daquele jeito. O que ela havia percebido? O que havia trazido a Artemis de seu tratamento para a Artemis de Dallas? O que havia ocorrido com a garota a sua frente?
– Artie?
Olhos verdes desfocados encararam os seus.
– Artie, o que houve? Voce está me deixando preocupado.
E ele sabia que ela brigava com algo interiormente, provavelmente se deveria falar ou não, ele reconhecia aquele olhar dela. Assim como vira quando o desespero dela ganhou e ela suspirou.
– Eu... Dormi com Dylan – começou baixinho, sem fitá-lo. – E estava bom, foi bom. Fomos para o apartamento dele, ocorreu tudo aquilo e dormimos. Quando eu acordei, tomei meus remédios e parei e... Me senti estranha.
E apesar de algo em seu eu odiar ouvi-la falar que dormira com outro, Apolo aproximou-se ao ver mais lágrimas.
– Por que se sentiu estranha, Artie?
– Porque aquilo parecia tão... Errado... Tão... Ruim... E de repente, eu me perguntei quem era eu, e sabe o que percebi, Apolo?
Os olhos verdes tristes encararam os seus.
– O que, Artie?
– Que eu não sei quem eu sou... Sei porque fazia, gostei... Mas depois, eu precisava sair dali, precisava respirar, aquilo me sufocou e eu... E eu comecei a caminhar... E bati em voce... E agora estou aqui, contando toda essa merda para meu inimigo.
– Por que você faz isso, Artie?
E ele viu a mudança no olhar dela, de apagado para muito ciente.
– Eu... Eu não quero falar sobre isso.
Ele perguntou mais baixo, sem olhá-la:
– Os piores pesadelos voltaram?
Silencio. Longo. Pesado.
– Voltaram.
E Apolo teve que tomar um pouco de seu café para não pedir que ela o pedisse ajuda. Ela havia roubado tudo dele, qual era sua estupidez em querer ajudá-la? O que o fazia daquela forma idiota¿?Artemis suspirou.
– Podemos mudar de assunto?
– Acho que você precisa dormir um pouco.
– Não me trate como sua paciente.
– Artie... – e ele a olhou com sinceridade. – Voce nunca foi apenas uma paciente.
– Apolo, por favor...
– Eu quero te ajudar, você está precisando de um banho, dormir, ficar quieta... Deixe-me te levar ao menos até sua casa?
Mais um pequeno silencio.
– Posso só terminar meu chocolate?
E ele sorriu um pouco, também sem fitá-la.
[...]
Artemis parou sob a soleira da sua porta. Apolo havia sido um completo cavalheiro, como ela às vezes via, sem tocar no assunto delicado do Rancho, sem mostrar nada além de querer ajudá-la.
Naquele momento, sorria sem graça para ele enquanto entregava o sobretudo que ele havia emprestado.
– Valeu, cara.
E ele também sorriu de leve.
– Voce vai ficar bem?
Ela não sabia como responder aquilo. Não mesmo, por isso, deu de ombros.
– Vou... E adorei seu carro.
– Alugado.
– É impressão minha ou Cadillacs pretos voltaram a moda? Voce, Hades, Dylan, e puta que pariu toda tem um deles.
Apolo riu.
– Deve ter voltado.
– Pode ser, gosto deles mesmo... – e ela segurou a maçaneta da porta e ele na mesma hora pareceu entender aquilo tudo, de que era hora de parti. Mas mesmo ela não queria que ele fosse. – Hum... Obrigada, sabe, pelo café.
Devagar, ele sorriu, os olhos verdes sobre os seus. E ambos sentiram a tensão, o clima pesado.
– De nada... Se precisar de algo, Artie... Me ligue.
– Hum... Ok.
– Boa noite, ruiva.
– Boa madrugada, Príncipe.
Assim, vendo-o se afastar de costas, claramente achando aquilo tudo tão estranho quanto ela mesma, Artemis fechou a porta.
Que porra de destino era esse que estava brincando com os outros?
[...]
Poseidon olhava Atena suspirar.
O médico, doutor Brian, guardava em seu bolso um estetoscópio que segundos atrás ele usara para ouvir o coração da loira sentada no sofá.
Mesmo depois de dormir, em seus braços, ainda havia profundas olheiras que ele tinha certeza que ela escondia com a maquiagem. Olheiras que demonstravam nada menos que o tremendo esforço e o quanto aquelas empresas estavam a consumindo.
E isso o preocupada, mais do que queria, mais do que achava possível.
– Como ela está, doutor? — perguntou Poseidon antes que ela pudesse dizer algo. Conhecia-a bem demais para saber que desviaria o assunto. Ela era ótima naquilo.
O doutor, em questão, ergueu os olhos castanhos e encaoru os seus.
– Exaustão, extremo cansaço e estresse fizeram essa mulher ter uma muita suave contração errada dos músculos do coração pelo seu esgotamento. Sua pressão está alta, mais do que o permitido. E só temos que tirar os excessos de comidas rápidas, maus almoços e muitas reuniões e colocar descanso, paz e um tempo com seu filho, além de melhor alimentação ou... – e o médico olhou para os sérios olhos cinza. – Voce não conseguira amamentar Perseu, está perdendo peso rápido... Voce não é mais solteira que pode fazer tudo, querida, ou você muda alguns hábitos, ou seu filho vai precisar de leite especial.
E Poseidon viu como aquilo acertou profundamente a loira pelo simples olhar desesperado que ela deu para o filho deles que estava dormindo em seus próprios braços fortes, o rosto de Perseu contra o tecido da sua blusa branca social.
Retirar aquilo seria como matar uma parte do feminino dela. E a viu apertar os lábios, como se segurasse alguma emoção forte... Ou lágrimas. Vê-la chorar era a ultima coisa que Poseidon queria. Ela era leoa demais para aquilo.
– Mas... Doutor... E meu trabalho? — disse ela, com voz tremula. – Eu... Comecei agora, não posso sair. Não há como deixá-lo agora.
– Ou você se afastar para cuidar de si mesma e de seu filho ou você terá uma parada cardíaca em menos de duas semanas que poderá deixar seu filho sem mãe... Voce quem escolherá, senhorita Danniels.
E somente Poseidon poderia falar daquele modo, com aquela forma direta com ela. Um pouco com raiva, o homem com chapéu de cowboy olhou para o doutor.
– Acho que terminamos aqui, doutor. Deixe o que ela tem que fazer ai em cima da mesa, a partir daqui em assumo. Agradecemos que tenha vindo.
O doutor rapidamente sorriu, sabendo que aquela era a hora de ir embora. Com mais algumas palavras com Atena sobre o que fazer, Poseidon acompanhou o médico até a porta e voltou em passos mais devagar para não acordar Percy.
Atena estava encolhida no sofá, a cabeça em uma mão, e ele sabia antes mesmo de se aproximar que ela chorava, calada, quieta, como só ela fazia.
E aquela Atena machucada, cansada, em comparação com a leoa que roubou tudo dele, estava o matando por dentro. Jamais gostaria de vê-la daquele modo.
Foi assim, com cuidado tanto com ela quanto com o filho deles em seus braços, que Poseidon sentou-se quadril com quadril com ela, e quando menos esperou, tinha-a abraçando sua cintura, o rosto contra seu ombro que Perseu não estava e abafando as lágrimas, os soluços.
Aquilo era demais para ele. Pousou seu queixo sobre os cabelos loiros, dando o apoio, a força, o carinho que ela precisava naquele momento. Sendo a base dela.
– O que eu fiz, Poseidon? — sussurrou ela entre lágrimas. – Até onde fui?
De leve, afagou os cabelos loiros.
– Shhh, vai ficar tudo bem, sempre ficamos bem, loira. Somos as duas famílias mais fortes do Texas... Tudo vai dar seu jeito.
– Vamos?
– Vamos.
E a deixou chorar em seus braços. Por muito tempo, quase não podia acreditar naquilo, que via aquela mulher orgulhosa chorar e aceitá-lo como uma base. Seu ódio por ela diminuiu naquele momento.
– Poseidon...? — murmurou depois de um tempo, tempo esse que eles haviam ficados calados.
Ele estava de olhos fechados, sentindo em seu abraço as duas coisas mais importantes da vida dele.
– Sim, Atena?
Ela soluçou antes de se afastar para encarar seus olhos cinza. O rosto dela estava vermelho, molhado, cansado, mas ainda bonita.
Aqueles olhos estavam suplicantes.
– Pode fazer o que quiser, use minha doença pra pegar de volta seu rancho, peça ajuda de Artemis, de Apolo, qualquer coisa, até minhas empresas... Mas, por favor, não tire Perseu de mim. Não use meus defeitos pra tirar ele de mim... – e ele viu uma lágrima escorrer. – Por favor, nosso filho é tudo pra mim.
Ali, encarando o desespero, o medo, o modo como aquela mulher que jamais implorava estava implorando pra ele, o fez sentir-se tão pequeno, de um modo que há muito tempo não se sentia.
E a única coisa que pode fazer, vendo que ela temia que ele fosse ser tão cruel assim, Poseidon segurou aquele rosto e suavemente tocou seus lábios aos dela.
Um beijo.
Um simples beijo que fez muito mais do que apenas acordar sua luxuria, mas também acordou algo que ele vinha temendo e que precisava mostrar a ela naquele minuto.
Atena encarava-o um pouco pasmo ao se afastar, pouco ele ligava para aquilo, a acarinhar aquele rosto. Aquele rosto que já havia o feito se arrepender tantas vezes.
– Eu não vou tirar nada de ninguém, loira. Ele é seu filho. Ele é nosso filho... E ele precisa da mãe dele, como a mãe dele precisa dele. – e, muito delicadamente, pousou um dorminhoco Perseu nos braços de Atena. – Ele vai ficar onde deve.
Aquele sorriso, aquele simples sorriso de agradecimento e aquelas lágrimas de alivio que ela mostrava ao fitar seus olhos verdes, fez Poseidon segurá-la mais uma vez e beijá-la.
E nem ele mesmo sabia o que fazia naquele momento além de ser tudo o que aquela mulher precisava.
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