Stray Heart

3 A start, maybe?


Notas iniciais
Bom, primeiro de tudo: Desculpem por não postar a fic antes, é que eu tive que estudar pra as provas de fim de ano e tal. E também, fiquei meio desanimada porque poucas pessoas do 1º cap. postaram review no 2º... What happened?? D: Segundo: Essa é a terceira vez que eu escrevo essas notas porque o chrome reiniciou duas vezes e na terceira eu fiquei com raiva e soquei o computador. Não que isso seja relevante, mas. E terceiro: Eu não revisei direito esse cap. então perdão. Se acharem algum errinho, por favor me digam. Mas pelo menos esse cap. ficou maiorzinho, como eu disse. Não gostei muito dele, porém...

Aquele Arthur era um chatinho mesmo, hein? Não bastava ainda tratá-lo mal, mas também queria mandar nele como se fosse sua mãe! Ele não queria obedecer aquilo de jeito nenhum, e apesar de tentar crer que era porque queria voltar a ser amigo de Matthew, era tudo apenas por causa do seu orgulho.

Confessava que sentia ainda um pouco de medo do punk, mas se ele não tinha batido nele até agora, por que o faria? Ele não conseguia nem ameaçá-lo fisicamente, e a única coisa afiada que ele lhe lançava eram palavras. Ah, palavras não são nada. Nem sequer são matérias físicas, e muito menos são capazes de ferir alguém. E com essas poucas consequências, ia ser fácil arriscar e desobedecê-lo.

Mas contrapondo tudo isso, havia a ciência de Arthur. Ele estava ciente de algo que Alfred não estava, e que era importante para este. O nerd realmente queria saber como é que ele descobrira sobre a admiradora, e se ele sabia quem era ela. Espera, era a admiradora de quem ele estava falando, não é? Só podia ser ela.

Ficou numa situação de extrema dúvida por não saber o que fazer. Passou o resto do dia tentando decidir, mas ao acordar na manhã seguinte, nenhuma conclusão havia sido feita.

Ao chegar na classe, viu o punk, mas como sempre, ele não lhe lançou um único olhar durante todas as aulas. Ele devia estar achando que venceu o desafio, tão facilmente assim... Ah, se ele duvidasse tanto do nerd quanto pensa que o nerd duvida dele, mal saberia o quanto era inteligente. Ele poderia bolar uma estratégia para ganhar tão complexa que o punk ficaria confuso.

A última aula era de Educação Física. Ou a mais odiada por Alfred. Ele até gostava de esportes, mas por mais que se esforçasse, não conseguia melhorar naquilo. E isso só piorava o seu status, além de ter caras que lhe atiravam violenta e propositalmente as bolas nos jogos de queimado ou sempre deixavam-no no banco quando em um jogo em grupo.

Arthur também ficava no banco a maioria das vezes. Na verdade, ele quase nunca jogava. Alfred não sabia se era porque ele também era um desastre nos esportes ou porque simplesmente não estava a fim de jogar. E também não sabia como ele sempre ganhava as notas em Educação Física sem uma gota de suor. Aquele cara era misterioso demais, e pelo visto, parecia realmente saber persuadir as pessoas.

Os dois estavam na arquibancada aquele dia, apenas assistindo ao jogo — devido aos motivos mencionados acima — como sempre ficavam, mas nunca notavam a presença uns dos outros. Mas dessa vez, Alfred sentou-se no último e mais alto banco da arquibancada, que era onde o punk sempre estava, embora mantendo uma representável distância.

Apesar da distância, o garoto de cabelos verdes olhou torto para o loiro ao vê-lo sentar-se ali, mas não disse nada. Ninguém disse nada. Alfred estava surpreso por ele não ter perguntado algo do tipo "O que você tá fazendo aí, seu — algum palavrão arrogante — ? ", e com aquilo decidiu dar o primeiro passo na conversa.

– E aí.

Arthur nem olhou para ele.

– Tudo bem? — Alfred falou um pouco mais alto.

– Estava tudo ótimo antes de eu ouvir sua voz.

– Ah, tá, me desculpe por ofendê-lo, senhor — O nerd usou o tom de voz mais irônico que tinha.

Dessa vez o punk se virou, mostrando os dentes e com as sobrancelhas pressionando os olhos. — Puta que pariu. O que é que você quer? Eu não já fiz um acordo contigo? Para de me seguir!

– Calma, cara — Alfred foi sarcástico de novo. — Eu só queria propor uma coisa. Um outro acordo.

– Outro acordo o caralho. Eu já dei o meu, e nele diz que você deve me deixar em paz. Senão, zero garota pra você.

– Você não me explicou como sabe sobre a garota.

– Eu sei porque sei. Se eu explicasse, quebraria o acordo.

– Mas você conhece ela?

– Eu. Não. Vou. Contar! — Repetiu pausadamente o punk.

Alfred mordeu a bochecha interior e hesitou um momento, sem saber o que dizer.

– Eu te odeio.

– Obrigado. — Ele encostou-se na arquibancada e cruzou as pernas.

Alfred ficou estupefato com a habilidade de discussão daquele garoto, e não soube mais o que contra-argumentar. Ficaram em silêncio por pouco mais de cinco minutos, apenas assistindo o jogo de basquete dos caras populares e ouvindo o barulho irritante que a borracha dos tênis dos jogadores faziam no chão.

– Seus piercings são legais. — Foi o que sem consciência alguma escapou da boca de Alfred, subitamente.

O punk olhou para ele com uma ruga no meio das grossas sobrancelhas. — Quê?

– Os piercings — O loiro apontou de modo desajeitado para a orelha do punk. — Em qual estúdio você colocou eles?

Arthur instintivamente escondeu a orelha com a mão, e ficou um segundo tentando compreender aquele Alfred e o que ele estava falando. Ele estava tentando persuadi-lo? Tentando virar seu amigo para conseguir a informação?

– Por que tá me perguntando isso?

– Sei lá. — Ele deu de ombros e olhou para a quadra de novo.

Arthur pensou em continuar e perguntar o motivo dele estar tentando puxar assunto tão desesperadamente, mas ao mesmo tempo, não estava a fim de acrescentar mais nada.

A conversa parecia ter morrido, mas Alfred voltou a falar algo de repente:

– Eu queria colocar também.

Arthur olhou do mesmo modo torto para ele, e depois deu uma leve risada, que mostrava escárnio. — Até parece...

– Por quê? Eu não posso? — Ele cruzou os braços e fez uma careta de criança chateada.

Dessa vez foi Arthur quem não soube o que responder, e olhou para a frente antes de murmurar: — Sei lá.

Ele não esperava que Alfred risse, e ficou ligeiramente surpreso ao vê-lo mostrar os dentes adornados com metais azuis para ele. Ia abrindo a boca para perguntar com sua típica rispidez o porquê dele estar rindo, mas o nerd falou primeiro.

– Você é um cara legal. — Soltou Alfred, outra vez sem pensar antes de falar.

– Você é um completo idiota. — Arthur disse, no mesmo tom indiferente.

Depois disso, a conversa cessou de vez.

–-

Nos dias que se seguiram, Alfred evitou aquela mesa. Ele nem sabia se queria desobedecer à ordem, mesmo sabendo que não havia perigo. Ou achando que não havia.

A conversa estranha e forçada que tinha tido com o punk não tinha adiantado nada. Por mais que o nerd tenha tentado puxar assunto e conquistar a sua simpatia, ele continuou agindo como um rabugento. Aquele cara era realmente insuportável... Exceto com Matthew. Pelo que o nerd estivera observando, ele agia como um irmão mais velho de Matthew. Demonstrava afeição, mesmo que apenas nas palavras na maioria do tempo, e protegia-o a todo custo. Alfred simplesmente não entendia aquilo, mas também não tinha vontade de compreender.

Era segunda-feira, e ele continuava com sua rotina de observá-los, de longe, do seu cantinho onde sentava no chão. Talvez se fizesse isso o bastante, eles ficassem com pena dele. E isso parecia estar funcionando quando Alfred notou que os dois estavam cochichando e olhando para ele ligeiramente. Depois de algumas palavras inaudíveis, o punk soltou um suspiro e assentiu com a cabeça. Matthew hesitou um pouco, para logo virar-se e acenar para o nerd, de longe.

Alfred não entendeu a linguagem labial do loiro de óculos, mas sabia que eles tinham concordado e decidido que iriam aceitá-lo ali. Internamente contente, levantou-se no mesmo segundo e foi até eles em passos rápidos.

– Senta aqui com a gente. — Matthew confirmou os pensamentos de Alfred.

O nerd arregalou os olhos e mirou Arthur, esperando a sua aceitação. O punk revirou os olhos antes de se desarmar:

– Tá, pode sentar. — Ele soltou num suspiro.

Ficaram sem assunto nos primeiros instantes, mas Alfred acabou por balbuciar nervosamente as primeiras palavras:

–... Olha, Matt, foi mal pelo que eu disse, eu não queria te ofender...

– Tá tudo bem — ele sorriu de modo simpático. — Eu não me importei muito, na verdade... Foi o Arthur quem ficou meio chateado. — Confessou, com as íris arroxeadas agora fixas no punk.

Ao notar, Arthur desviou o olhar dos dois e começou a brincar com a comida, procurando algo para manter-se ocupado. Mas Alfred não se deu por vencido.

– Desculpa, Arthur. — Ele disse, sério, embora estivesse secretamente suprimindo o riso.

– Hum. — Foi o que o punk emitiu, sem abrir a boca.

Alfred olhou para Matthew e aproveitou para fazer uma piadinha:

– Acho que isso é um sim, na linguagem dele.

Os dois riram — mesmo que Matthew se sentisse mal por caçoar do seu amigo -, mas Arthur continuou os ignorando. Alguns minutos depois, a conversa já tinha tomado inúmeros assuntos e agora estavam em altos papos sobre games e heróis, como se o de cabelos verdes não estivesse ali. Mas ele estava prestando toda a atenção em tudo que Alfred falava sobre o seu herói favorito, o Capitão América — patriota que só ele -, e em todo monossílabo que Matthew murmurava, concordando com todas as sílabas do nerd.

Arthur não teve mais chances de falar com Matthew até o final da aula. Saiu rumo ao armário para pegar as coisas, e inconscientemente vestia uma careta abusada no rosto. Não era ciúmes. Ele apenas não queria que Matthew virasse amigo dele. Ele era um incompetente e estúpido, e alguém que não valia a amizade. Arthur só achava que era um amigo bem melhor para Matthew do que ele.

Estava emburrado em seus pensamentos quando uma mão lhe puxou rapidamente. De relance, viu os cabelos loiros de Matthew, então não reagiu e apenas o seguiu até um canto do corredor onde eles não poderiam ser ouvidos.

– O que foi? — Indagou o punk.

O loirinho parecia estar sem-jeito do que falar. — Eh... Eu só queria me desculpar por hoje... Por ter te ignorado. Ele é muito empolgado, eu não tive chance de pará-lo...

– Ah, sem problemas.

– Não tá chateado, né?

– Não. — Arthur deu de ombros para disfarçar a mentira.

Matthew não precisava pedir desculpas por aquilo, afinal, ele mesmo tinha concordado com a suposta ingressão de Alfred naquele grupinho. Arthur estava chateado, é claro, mas se fosse Matthew quem lhe pedisse, ele quase sempre faria. Não sabia se era por pena, mas tinha o instinto de protegê-lo. Ele era fraco, mas mesmo assim foi corajoso o bastante para ter puxado assunto com o cara mas temido e anti-social da classe — que na verdade, era só um solitário e orgulhoso. Esse cara imediatamente simpatizou com ele e com sua coragem, e Matthew passou a ser a única pessoa com quem ele agia gentilmente. Passou a ser seu amigo.

– Eu só não quero que ele se meta comigo. E nem com você. — Completou, sincero.

– Ah...! — Matthew ficou sutilmente vermelho, e manteve-se puxando a manga do casaco. — Mas o Alfred nunca faria nada comigo... Eu acho.

– De qualquer jeito, vou ficar de olho nele. — Arthur sorriu, para assegurar a promessa, e o loirinho sorriu de volta, meio sem-graça.

– M-mas você não vai contar nada pra ele... Daquilo, né? – Disse Matthew, meio receoso. – A gente não pode falar ainda.

– Eu sei disso. Não vou contar nada.

– Ah... Obrigado, Art. Isso ainda é segredo.

Arthur não soube mais o que dizer, então sorriu sem mostrar os dentes. Uma troca de sorrisos era a prova da cumplicidade.

–-

Aquela manhã não estava nem quente, nem fria — a temperatura mantinha-se amena e agradável, e não haviam previsões de chuva ou calor extremo. Arthur adorava aqueles dias, pois ele podia usar qualquer uma das suas jaquetas favoritas sem que sentisse calor ou frio.

As aulas, entediantes como sempre. No horário do almoço, ele sentou-se com o seu amigo e tinha a pretensão de conversar com ele, como não fazia há um tempo. Mas esqueceu-se de que agora existia um empecilho. Um empecilho realmente irritante.

Alfred já estava lá, tomando o seu espaço. Armou uma careta de amargura e sentou-se sem ser notado. Matthew parecia estar tentando fazer o outro parar de falar para cumprimentar Arthur, mas ele não tinha coragem de simplesmente cortá-lo, e apenas mandou um olhar de "desculpa" para o punk, ao vê-lo se sentar.

– Mas que bandas você curte? — Sibilou Alfred.

– Ah... Green Day é bem legal.

– Green Day? Ah…! São mesmo legais.

– Sim! O Arthur tá me mostrando as músicas deles. Ele é que é fã de carteirinha! — Riu o canadense. — Ele quer montar uma banda também... — Ele disse, mas logo mordeu o lábio como se se arrependesse de ter feito aquilo.

– Ah é, Arthur? — Perguntou o nerd, ao notar que os olhos verdes do punk tinham se erguido para prestar mais atenção na conversa.

O inglês sabia que ele queria fazer alguma gracinha, mas respondeu mesmo assim, com uma voz abusada: — É.

– Que bacana! — Empolgou-se ele. — Você devia montar! Sabe tocar alguma coisa?

O punk ficou perplexo com o fato de que não conseguiu enxergar nem um pouco de ironia naquela frase. Ele parecia realmente interessado.

– Eu toco guitarra. — Ele disse, depois de um pigarro.

– Eu sabia! Um cara como você tem que saber tocar guitarra. É tipo uma regra entre vocês, né? — Arthur abriu a boca, mas ele não lhe deu chance: — Toca bem? Bem mesmo? Queria ouvir você tocar. Queria tocar. Eu nunca toquei guitarra antes, só no Guitar Hero. Ah, me ensina a tocar? Por favor, cara, eu te pago, vai!

– Puta que pariu, para de falar por um segundo! — O punk quase gritou. Ele ficava impaciente muito rápido, e algo que realmente lhe estressava eram tagarelas.

Alfred juntou as sobrancelhas e ficou na defensiva. — Calma!

Arthur rosnou para ele, mas não falou nada. Matthew assistia àquilo com uma expressão assustada.

– Eu tô sendo tão bacana contigo, me interessando pela sua banda e tal, e você vem com essa antipatia? — Ele reclamou, com uma expressão de desgosto. — Sinceramente!, acho que você devia tratar melhor as pessoas.

Arthur não esperava por aquela. Levantou-se do banco do nada e gritou na cara dele.

– Quem é você pra falar assim de mim, hein, seu merdinha?

– Arthur, para! — Matthew interferiu.

A voz do canadense imediatamente fez o punk congelar e se sentar no mesmo instante. Abaixou a cabeça para não ter que encará-los e não disse mais nada. Internamente, ele estava apitando de raiva, e tudo o que queria era esganar aquele garoto ali mesmo. Mas Matthew estava ali. E parecia realmente gostar de Alfred. Ele simplesmente não podia fazer nada com aquele nerd intrometido até que Matthew estivesse longe.

E foi isso que resolveu fazer — outra vez — assim que o sinal tocou. Iria resolver aquilo, só ele e o nerd. Quando o sinal tocou, ele escorregou sorrateiramente até a carteira detrás de Alfred, sem ser visto. Quando ele se levantou, o punk levantou-se também e bloqueou o seu caminho.

– Whoa! — O nerd não parecia estar assustado, mas sim confuso. — Que foi?

Arthur já tinha preparado as falas para aquele momento. Já tinha decidido os palavrões, contra argumentos e foras que planejara durante toda a aula. Dessa vez ele iria lhe deixar em paz. Ah, iria...

– Uh... Escuta aqui, seu viadinho. — Começou, já se sentindo patético por ter dito "uh". — Eu... Eu queria saber se você, er...

– Se eu o quê?

–... Se você quer entrar na minha banda. E-eu vou te ensinar a tocar aquela guitarra, tá?

O quê? Convidar Alfred para a banda? De onde ele tinha tirado isso? Meu Deus, como era idiota! Teve uma vontade imensa de bater em si mesmo, mas apenas mordeu o lábio com tanta força que sentiu gosto de sangue.

– Não brinca! Sério? — O loiro sorriu de boca aberta.

Arthur assentiu desajeitadamente. Já estava se sentindo imbecil, e a diferença de altura que tinha dele lhe deixava ainda mais desconfortável. Ele era pouco, mas relativamente mais baixo do que ele, e isso obviamente tirava-lhe parte da sua moral intimidadora.

– Pô, não sei o que falar.

– Não fala nada. É o melhor que você sabe fazer.

Ele riu. — Então... Quando e onde? Sua casa?

Aquela pergunta era a pergunta que o punk não queria responder. Se ele soubesse seu endereço, ia poder incomodá-lo até no seu único refúgio. Mas não havia opção.

– Tá. Pode ser na minha casa. — Ele disse rápido.

– Hoje à tarde?

– Sim — Suspirou de modo impaciente. — Pera, eu vou te dar o endereço — Ele completou, e ligeiramente arrancou uma folha do seu caderno do Sex Pistols. Ia procurar por uma caneta, mas o mais alto foi mais rápido, entregando-lhe uma caneta do Superman que estava convenientemente guardada em seu bolso.

– De nada — Alfred falou, irônico, com a ausência de um agradecimento vindo de Arthur.

O punk fez uma careta sarcástica sem tirar os olhos do papel em que escrevia — com a caligrafia completamente perfeita e sem erros ortográficos, que fugia do seu esteriótipo -, e em alguns segundos entregou o papel ao nerd, mostrando a língua com um piercing brilhante.

Alfred deu uma olhada no papel. Ainda bem que ele não morava longe. Mas mesmo assim, ele precisaria enganar a sua mãe com alguma desculpa para conseguir ir até aquele bairro sozinho. Ele detestava o quanto ela era superprotetora, e só tinha cedido que ele fosse para a escola sozinho por causa do pai dele. Já haviam discutido muito sobre aquilo, mas nunca dava certo. Ele nunca deixaria de ser o "filhinho de papai".

Ele abriu a boca para falar algo, mas quando tirou os olhos do papel, Arthur tinha desaparecido. Colocou a cabeça para fora da porta, mas apenas viu a silhueta dele e seus cabelos verdes brilhando no fim do corredor.

–-

Ah, o porão. Aquele porão era seu cafofo, seu refúgio, seu esconderijo. Era ali onde ele se trancava quando tinha raiva ou quando apenas queria ficar sozinho — basicamente, todos os dias. Era lá onde ele podia ouvir seus inúmeros CDs de rock — que sua família jamais lhe deixaria escutar em qualquer outro lugar -, no volume que quisesse, e tocar a sua guitarra como se não houvesse amanhã.

A guitarra sempre foi a sua melhor amiga. Ela era a única que não o deixava nos momentos em que precisava de alguém, e por meio dela ele expressava o que estava sentindo quando ninguém queria ouvir. Apenas tocá-la lhe deixava feliz.

Como o porão era seu — nem seu irmão e muito menos sua mãe desceriam ali, a não ser que precisassem pegar alguma tralha ou chamá-lo para o jantar -, ele havia decorado as paredes com vários pôsteres das suas bandas favoritas e com uma grande bandeira do Reino Unido — porque não era só Alfred que podia ser patriota. Num canto, ao lado do velho aparelho de som do seu pai, estava uma pilha de CDs, mas eles não eram nada perto do seu pen drive com cerca de novecentas músicas.

Mas mesmo se tratando de um velho porão de um punk, a organização que ele mantia ali era excepcional. Não havia uma latinha de refrigerante jogada no chão, nenhuma sujeira ficava ali por muito tempo, e todos os CDs sempre ficavam em suas devidas caixas, na pilha. Às vezes ele varria a poeira, e usava a vassoura como microfone para se tornar um rock star.

Algumas vezes pensava em como seria bom se ele entrasse em um grupo de punks, ou se pelo menos tivesse amigos que gostassem das mesmas coisas que ele. Que curtissem a mesma música, fossem do mesmo estilo, conversassem sobre os mesmos assuntos. Poderiam fazer uma festa naquele porão, ou simplesmente ficar tocando e inventando músicas o dia inteiro. Mas ele simplesmente não conseguia arranjá-los, e ficava escondido naquela toca o dia inteiro. Talvez um dia procurasse por amigos assim, ou talvez só esperasse que eles viessem até ele.

–-

Alfred alinhou os seus grandes e grossos óculos antes de tocar a campainha de Arthur, exatamente às três da tarde. Tinha conseguido fazer a sua mãe acreditar de que ia "só estudar com um amigo". Aquilo era tão raro para ele — um amigo, não os estudos — que a sua mãe lhe encorajou e ainda lhe entregou uma fornada quentinha de biscoitos para essa bendita pessoa, que na verdade Alfred achava que ele não era nem um colega. O punk iria chiar com aquilo dos biscoitos, mas o nerd levou-os mesmo assim. "Qualquer coisa, sobra mais pra mim."

A suposta mãe de Arthur demorou um pouco a atender, mas quando o fez, mostrava um sorriso surpreendentemente simpático — completamente diferente do seu filho. A primeira coisa que ele notou nela foram os olhos: Os mesmos olhos de esmeralda que o punk tinha. Os cabelos, loiros de um tom bem claro e presos num coque, fizeram Alfred pensar se aquela era a cor que o punk escondia sob aquela tinta verde vibrante. Por que ele desprezaria um cabelo tão bonito?

– Ah, você deve ser o tal de Alfred! — Ela sorriu.

– É. — Ele assentiu, também com um sorriso de simpatia. "Quer dizer que Arthur falou de mim pra ela?"

– Sou a Elizabeth, a mãe do Arthur. Entra! — Ela convidou, dando passagem para que o loiro limpasse os pés no tapete e em seguida adentrasse a casa da família, meio sem-graça.

Olhou ao redor rapidamente, para que a mãe de Arthur — Elizabeth!, há, por que será que Alfred não se impressionou com o nome? — não notasse que ele estava avaliando o lugar. Era tudo bem organizado, e a mobília e os papéis de parede tinham um estilo clássico e meio rústico. Haviam estantes de livros e alguns quadros bonitos e elaborados na parede, perto da lareira. Uma escada com o corrimão lustrado dava no primeiro andar, e havia um corredor com portas que provavelmente davam nos quartos.

– O Arthur tá no porão, lá embaixo — Ela apontou para uma portinha no fim do corredor, mas Alfred não se moveu. Quando notou que ele estava envergonhado, ela explicou: — Não, você não vai atrapalhar. Ele é chato mesmo, mas existe uma lógica: Tudo que ele diz tem o sentido contrário do que ele quer dizer. — Elizabeth riu.

– Ah... Entendi — Ele engasgou, sem saber o que dizer.

Ainda meio relutante, foi até o fim do corredor e abriu a porta, que dava numa escada. À medida que foi a descendo, uma música ia aumentando de volume. Quando chegou no último degrau e se viu diante de outra porta, notou que ele conhecia aquela voz. Era a voz do punk. Ele estava cantando... E bem.

Ficou desesperadamente sem saber o que fazer: Entraria, e seguia o conselho da mãe dele, ou o esperaria terminar e bateria na porta?

Tentou a segunda opção, visivelmente mais segura, e bateu uma três vezes na porta. Ele continuou cantando, e a música extremamente alta engolia qualquer outro som. Então Alfred não resistiu, e sorrateiramente abriu a porta, sem fazer nenhum ruído.

Ufa!, ele não notou. Estava de costas, segurando uma guitarra e fazendo a sua performance como se estivesse num palco e diante de milhares de pessoas. Porém, não parecia se vestir como uma estrela do rock: Usava uma camisa preta que aparentemente lhe era grande demais, e escorregava do seu ombro, deixando-o à mostra, uma calça xadrez vermelha e apenas um par de meias nos pés.

Alfred conteve o riso quando ele saltou e quase se desequilibrou, na tentativa de terminar com uma pose. Mas os acordes finais da música deixaram Alfred sinceramente boquiaberto. Ele sabia mesmo tocar!

O punk ficou ali parado e arfando por um minuto, e em seguida se virou por algum motivo. Só que ele não esperava dar de cara com alguém lhe assistindo. E muito menos Alfred.

– Alfre...!!

Notas finais
Eu tentei criar um suspensezinho aqui, mas sei que não deu certo. *leva pedradas* Então, espero que tenha ficado pelo menos ok. E prometo que posto em dia na próxima semana, se vocês mandarem os seus lindinhos e perfumados reviews que eu adoro