Strangers
1 Carry on my Wayward son
Eles tem 7 e 9 anos, Frank estava vivendo ha um ano na casa dos Way. O menino, com o cabelo castanho escuro cheio de sonhos e os olhos ainda baixos, desce de uma vez da cama quando se lembra de que tem que alimentar seu peixe.
Pensa que Zombie deve estar irritada porque essa manhã ele levantou muito, muito tarde.
O chão está gelado, e faz frio, mas não se importa, coloca as mãozinhas por baixo das mangas do pijama e desce as escadas. Tropeça no degrau de sempre e enquanto vai até a cozinha se lembra da primeira vez que viu essa casa.
Quando Donna lhe deu Zombie de presente.
"Será seu mascote, certo? Tem que cuidar dele para que não aconteça nada"
Frank assentiu com força, porque um menino que sabe o que é que lhe falam põem todo seu empenho em não romper a confiança de seus entes queridos. Ainda que seja a de um peixe.
"Será o peixe mais feliz do mundo, te prometo" ele prometeu a Donna e a si mesmo.
Donna lhe sorriu como se houvesse sido a resposta esperada e lhe bagunçou o cabelo.
****
(8 anos depois)
O despertador soa e você dá uma volta na cama para desligá-lo com um tapa.
Despertador desgraçado.
Afunda a cabeça no travesseiro porque a luz entra no quarto (sempre se esquece de baixar as persianas antes de dormir, desastre) e grunhe quando ouve Donna gritar lá de baixo.
"FRANK! Levante-se ou se atrasará"
O mesmo de sempre.
Grunhe um pouco mais e volta a dar voltas, mas no final sabe que não tem outro remédio a não ser levantar e ir para o colégio.
Porque não pode perder mais aulas.
Porque não pode continuar sendo suspenso ou repetirá e, um garoto mau ou não, não quer dar esse desgosto a Donna. Ela não merece.
Desce da cama, e as costas doem um pouco pela má posição e por passar horas demais curvado sobre a guitarra, mas não importa. Tocar essas seis cordas é a única coisa que te faz dormir e não vai parar de fazer só por uma dorzinha idiota nas costas de vez em quando.
Toma banho e se veste, lento mas rápido. Não querendo chegar tarde, mas sem nenhuma vontade de ir a alguma parte.
Ainda sim quando desce, mochila no ombro, converse nos pés e moicano feito, o ônibus já foi.
"Eu te disse!" é a única coisa que Donna lhe disse, que não sabe se sorri ou está decepcionada "Terá que ir andando querido, hoje tenho uma reunião importante e seu pai já foi"
Donald. Não pai, Donald.
Grunhe outra vez (sim, nos levantamos com o pé direito, não?) e entra na cozinha. Já que vai perder o primeiro tempo ao menos irá com o estomago cheio.
Deixa a mochila (quase vazia, não pesa muito) em uma das mesas e vai até a maquina de café. Pega a xícara, coloca o açúcar, vai colocar o café e...
Nada.
Não tinha mais café.
Puta merda. Assim é que é começar o dia.
Ainda mais como se não fosse suficiente Gerard aparece da despensa com um donut em uma mão e uma xícara de café fumegante na outra.
Café. A ultima xícara. SUA xícara.
Estreitou os olhos quando o vê passar, com seu movimento gracioso, e seu cabelo preto e grande de super estrela. E se irrita mais ainda ao se dar conta de que o odeia. Nem sequer o olha. Evita todo contato humano contigo.
Gerard Way pode ser seu irmão adotivo, mas era um babaca.
Um babaca perfeito que tirava notas perfeitas, fazia os desenhos perfeitos e enganava todo mundo com seu sorriso de menino bonzinho e olhos bonitos.
Mas você sabe a verdade.
No fundo não era mais do que outro adolescente (três anos mais velho que você, mas adolescente no final das contas, e ponto final) que só se interessava por peitos, cervejas e um porre de vez em quando.
Na verdade, você poderia ser como ele se quisesse. Poderia esconder tudo que gostava de verdade e comportar-se como esperavam que se comporte, ser o que querem que seja... Mas não consegue.
Não é assim que quer ser, e se para isso tem que ficar como uma bala perdida aos olhos dos demais, você o fará.
Ele pode fingir tudo o que quiser, mas você sabe da verdade. No fundo ele não é melhor que você.
É igual. Ou pior.
Decide que, vá a merda, você vai sem tomar café. Vai pegar sua mochila, sua raiva, sua vida, e vai ir andando para o colégio fazer nada, fantasiar sobre o rock com descaso com Toro e voltar para o almoço.
Mas então, para seu azar, ouve quando Gerard diz pra sua mãe "não se preocupe mamãe, eu o levo" e sai para a sala no momento certo para ver como Donna sorri e lhe da um beijo na bochecha "Obrigada, querido, você é o melhor"
Gerard lhe devolve com seu sorriso de comepollas** e você sente como se fosse um chute no traseiro.
Não é até que Donna termine de subir as escadas e desaparecer que Gerard te olha com a cara de poucos amigos, mais indiferente do que chateado e te diz:
"Vamos, não quero chegar tarde por sua culpa"
Vai mandá-lo para a merda nesse mesmo momento, porque é uma coisa que te faz bem, mas tem que entregar uns exercícios no primeiro horário e você não quer ficar em matemática, então para o bem de todos, se controla, e segue as costas bonitas do babaca do seu irmão adotivo mais velho até o carro.
*****
"Vai contá-los? Tem certeza?" Toro franze o cenho enquanto te olha.
Está deitado na grama, do lado de fora, comendo no sol porque a cantina é um lugar que você nunca gostou. Olhos demais olhando o que faz e o que diz.
"Sim" você deu uma mordida em seu sandwich e olha para Toro como se perguntasse "O que é?" porque ele ficou calado e isso é muito raro com ele.
"Não me interprete mal Frank. Estou feliz que tenha as coisas tão claras e que aceite a si mesmo e toda essa merda... Mas acho que talvez, só talvez... Eles vão ficar um pouco pirados"
Sorri de canto. Esse é o lado bom de Toro, sempre preocupado com todo mundo.
Não é que não se preocupe com seus "pais" nem quer fazê-los sofrer. Pelo contrario, sempre te trataram tão bem e quer fazer o maximo possível para que estes se orgulhem de ti.
Mas não às custa de ninguém. Não à custa dos outros e muito menos de você.
Você quer agradá-los, mas eles tem que aceitar como és primeiro. E vá a merda com o resto.
"Vamos Toro, não é para tanto. Não é como se eu tivesse matado alguém. Só vou dizer que gosto de pau... Mais do que vaginas"
E você ri quando Ray se engasga com a coca-cola e sabe o que vai dizer, antes que ele diga.
"Deus, tem que falar assim? Poderia dizer 'bissexual', iriam entender igualmente"
"É o que é, Ray. Não é para tanto"
E Ray encolhe os ombros enquanto ambos voltam ao que sobraram de seus lanches. Pode ser que se preocupe demais com as coisas, mas Ray é o melhor amigo que tem e o único que sabe tudo sobre ti, então ele é o único de quem agüenta verdade. Mesmo que às vezes você não goste.
******
No caminho para a sala o vê.
Está pegando uns livros de seu armário, quando uma morena se aproxima rodeando-lhe a cintura com um de seus braços delgados, a saia de animadora de torcida ondulando-se um pouco pelo movimento e se encosta do seu lado.
"Como foi sua manhã, amor?"
Gerard sorri — ele não sorri assim para você desde que tinha doze anos — e a rodeia com o braço que tem livre.
"Melhor agora que está aqui" revira os olhos tão forte que até dói.
Gerard se abaixa para dar um beijo na morena bonita — Ash — e quando vai dar a volta e ir, seus olhos e os dele fazem contato.
É apenas um segundo, menos, mas Gerard desfaz o sorriso do rosto e para quando seus lábios roçam no dela, você tem que deixar de olhar porque a expressão que ele colocou revirou seu estomago, e o sandwich que você comeu a um tempo reclama pedindo para voltar a superfície, por onde havia entrado.
Não é o que precisa.
É que às vezes, só as vezes, você acha que perdeu seu irmão mais velho.
Irmão adotivo.
O que seja.
Não sabe quando se perdeu, nem porque te odeia tanto, mas não pode te ver e não suporta está muito tempo onde você está.
No começo doía.
Agora você aprendeu a ver o outro lado e perceber que não é tão ruim, e que ele faz muitas coisas só para chateá-lo.
Você da a volta por onde veio, mesmo que sua aula seja no lado contrario, mas você não quer passar diante dele, enquanto beija a capitã das animadoras de torcida contra os armários.
(Ele gostava de esfregar em sua cara quando pode que é melhor em tudo. Notas, garotas, amigos, festas.)
(Exceto esporte. Você é bom com isso. Você gosta de natação. É membro da equipe de Waterpolo)
(Claro que ninguém se importa muito, porque você ainda tem 15 míseros anos, e ele está em seu ultimo ano no colegial. Pode ser um esportista, mas a animadora se mataria para que Gerard a desenhe só com a saia do uniforme, não porque você se dedica tanto a uma coisa.)
Não importa.
Sai para fumar um cigarro irritado porque está cheio de ficar na sombra do senhor Gerard Way.
"Deveria ser como seu irmão" "Seu irmão tira notas melhores, Way, deveria estudar com ele" "Desenho não é sua área" "Sempre é tão irresponsável, pirralho? Vejo que o encanto não corre em suas veias"
Ele era a estrela, apesar de ser um freak que desenha zombies e vampiros, apesar de não saber dar um chute em uma bola e ter o cabelo grande como uma garotinha. Ninguém se metia com ele, as animadoras de torcida o adoravam, estavam longe de chama-lo de "maricas", ele era considerado o garanhão do colégio.
Você, Frank Way (Iero se perdeu pelo caminho faz anos) era o coadjuvante, o irmão mais novo que não fazia nada bem, não se dava bem com as garotas, usava roupas estranhas, e o cabelo sem pentear. Um garotinho punk marginal.
Ele dá uma tragada forte ao que tirava o cigarro e retém o ar nos pulmões, deixando que queime. Que arda. O solta quando não pode mais, e pensa que já esta bem de se lamentar.
Você era todas essas coisas, menos um farsante.
E essa tarde quando chegasse em casa ia contar a todos o que era.
Mesmo que isso significasse estar mais ainda por debaixo da escala do Senhor perfeito Gerard Way.
*******
"Querido..."
É tudo o que Donna disse antes de levar uma mão para a boca.
Te olha com os olhos muito abertos, mas pela surpresa do que por rejeição, e Donald não lhe diz nada.
Estão sentados em seus sofás na sala de estar. Você está de pé, olhando-os fixamente, tentando não ignorar o garoto de preto ao fundo.
"É... Não é nada de outro mundo. Mas não queria esconder-lhes nada" e é verdade. Não é para fodê-los, é porque quer ser sincero com o que és. Contigo e com os demais "e também, não é como se eu não gostasse de garotas, né?" Tenta mudar um pouco o ambiente mas não funciona.
"Filho, está seguro de que não é só uma fase? Você sabe, talvez... Você ainda é jovem demais" Esse é Donald, sempre tentando solucionar problemas. Inclusive até os que não eram.
"Não. Não é uma fase. Tenho certeza" não quer dar-los detalhes demais, mas pelo amor de Deus não era precisamente virgem, e havia comprovado vezes suficientes que gostava de garotos. Um montão.
Vai abrir a boca e adicionar algo quando de repente, escuta um "desculpe" e vê como Gerard, pálido, mais pálido que nunca, sai da sala com a cabeça abaixada, olhando o chão, e corre escadas a cima.
Não passam nem dois segundos quando ouve a porta de seu quarto fechar-se com um estrondo.
E não sabe o porque, mas isso, e que ele não tenha te aceitado, dói mais do que a duvida entre os olhos dos Way. É como se só por uma vez houvesse tido a esperança de que ia sair em sua defesa, ia voltar a ser seu irmão mais velho que te deixava dormir com ele quando tinha pesadelos e cantava para que dormisse.
Mas não era assim.
Nunca mais ia ser.
Enquanto ouve ao fundo quando Donna te diz "Está bem pequeno. Só temos todos que nos acostumarmos, não há nada" você aperta os olhos marejados guardando para si a raiva contida.
Você não vai chorar.
Já não é mais um garotinho.
Não vai deixar se importar com uma merda do que Gerard Way pense ou não de ti, vai ser você mesmo, vai viver ali sem cruzar com ele e pronto.
Dói não estar a altura das expectativas de alguém, mas você não vai passar a vida tentando chegar a algo que não pode alcançar, porque não sabe que altura ele está.
Murmura um "Obrigado" e sorri debilmente "Posso ir para meu quarto?"
Donald assente com a cabeça com um sorriso frágil e você corre escadas acima. Pelo mesmo caminho que Gerard fez a uns instantes.
*****
O fim de semana havia passado em absoluto silêncio.
Silêncio em sua cabeça, um peso a menos sobre os ombros, e, sobretudo, silêncio na porta do outro lado de seu corredor.
Gerard quase não havia saído nesses dois dias, apenas fazendo umas aparições pontuais na hora do almoço, do jantar e voltando ao seu quarto.
Não é que se importe.
Não é que esteja preocupado.
Mas é segunda de manhã, e até ele tem que se levantar para ir ao colégio porque o Don perfeito não pode perder uma manhã de aulas.
Para variar essa manhã Ashley está na cozinha, com seu super traje de animadora bem arrumado e seu rabo de cavalo tão perfeito que dava medo.
"Olá Frank" ela o cumprimenta, só porque Donna estava ali.
"Hmmmm" responde por entre os dentes.
Você vai para seu lugar, bebe o café, come uma torrada, dá um beijo em Donna e vai. Esta manha não quer perder o ônibus e também não quer ter que agüentar todo o ritual de "Você está com uma mancha, deixa que eu limpo com a língua" de Ash e Gerard.
Não sabe se vai ou não para a sala, mas você tampouco presta atenção. Você sobe e Ray está lá dentro, com um lugar vazio ao lado para ti.
O mundo continua girando.
*****
O segundo tempo chega e você nem percebe.
Enquanto Ray está escrevendo acordes de guitarra em um livros, tocando mentalmente sem que a professora escute a musica que você quase pode ouvir, você se dá conta de que estragou tudo.
Foi um erro sem tamanho contar para seus pais que era bissexual na frente de Gerard.
Porque sem duvida alguma ele vai tirar proveito disso.
Se dá conta de que é mais provável que ele tenha passado todo o fim de semana desenhando banners que mostrariam o quão viado você era e que, em algumas horas, até o porteiro do colégio vai saber que você gostar de chupar pênis mais que a Paris Hilton.
Você fica um pouco pálido, porque porra, uma coisa é que saibam em casa, que seu melhor amigo saiba e outra coisa é que TODO O COLÉGIO saiba.
É a ultima coisa que você quer, mas a essa altura sabe que não pode fazer nada para evitar.
E quando o sinal tocar e saia para o intervalo haverá cartazes com sua foto até nos carros do estacionamento e garotos rindo de você por todos os lados.
"É, você está bem?" Toro sussurra, para que a professora não ouça.
"Emmm, que? Sim, sim. Bem. Perfeitamente."
E essa perfeitamente foi alto demais ou a professora que tem um ouvido mais fino que o Spiderman, porque ela se vira (escrevia fórmulas na louça) e te olha.
Uma batalha de olhares e no final ela diz "Senhor Way, corredor" com esse tom cantado dela.
Você revira os olhos porque a frígida tem essa mania sempre, e se levanta com lentidão, abaixando um pouco as calças, despenteando-se com a mão, pegando os livros em seu ritmo.
"Mova-se senhor Way, isso não é uma passarela"
Você vai dizer "Não reconheceria um aqui nem que tivesse, linda" mas você morde a língua porque a ultima vez você teve duas semanas limpando os vestiários da equipe de Waterpolo só porque insinuou que ela precisava de um namorado.
Não é que tivesse mentido.
Sai sem mais respostas e quando ouve que a porta se fecha em suas costas e que está só no corredor você se encolhe.
Faltam dez minutos para que o sinal soe e comece o espetáculo.
Mas, surpreendente, quando passo o tempo e toca o sinal e todo mundo está no corredor nada acontece.
Todo mundo fica na sua, saindo em grupos para comer na cantina, as garotas falando sobre o novo corte de cabelo do Jared Leto, os garotos sobre o futebol desse fim de semana.
Todos lhe ignoram como de costume, como se não fosse mais do que uma mancha na parede.
E pela primeira vez, foi um alivio.
Ray sai e passa um braço por seus ombros "Posso saber o que acontece contigo essa manha, colega? Está em outro mundo" e o diz quando Gerard passa grudado a Ash e mais duas animadoras.
Ela fala com ele, mas ele fica te olhando por um instante e essa vez o olhar é diferente.
Está querendo te dizer algo com os olhos, mas você não entende.
Faz tanto tem que deixou de decifrar sua linguagem corporal, que já perdeu a pratica, é como um estranho para ti.
Assume que ele quer dizer "Me deve uma, anão. Me deve uma bem grande" mas parece algo mais importante, um SOS ainda que não faça sentido.
A morena fala mais insistente e pode ouvir um "Gerard? Você estava me escutando?" e nesse momento ele deixa de te olhar e volta a prestar total atenção em sua namorada perfeita.
"Fraaaaaank? Está ai amigo?"
Olha para Toro, que está observando, te avaliando e decidindo se terá que te levar para a enfermaria.
"Sim, sim, aqui. Estou perfeitamente. Anda, vamos, que estou morrendo de fome"
E lhe sorri, ainda com o olhar horrorizado de Gerard cravado na memória.
Notas finais
Seilá.
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