Strada Per L'inferno
29 Não é mágica
Notas iniciais
Ouvi risos e vozes ecoando da sala. Apareci ao topo das escadas e encontrei todos no primeiro ambiente da casa. A TV estava ligada em um jogo de basquete e os meninos vibravam com cada lance. Caitlin estava de lado, sentada na poltrona de couro com as pernas em cima do braço. Sua atenção estava no celular e ela sorria feita boba. Dylan, ora ou outra, olhava-a com uma expressão nada boa. Meus pés contra a madeira da escada chamaram suas atenções e vi cabeças virarem em minha direção em sincronia. Dylan assobiou alto para mim e mais uma vez recebeu um tapa de Aaron. Sorri ironicamente a meu marido, o único com qual mantinha fixa troca de olhares. Seus olhos negros brilhavam e seu lábio fora levemente puxado para dentro por seus dentes.
– Demorou amore mio. Estava lamentando-se no chuveiro por não ter aceitado minha proposta? – perguntou em voz alta, voltando-se novamente a TV.
– Na verdade, estava deleitando meu tempo sem você.
Os garotos riram e Aaron aumentou o volume da TV com o controle remoto. Ri pelo nariz e caminhei para a cozinha, sendo seguida por Caitlin após terminar de teclar uma mensagem alegremente.
– Fui a única a reparar no jeito que Dylan a olhava? – sorri de lado, enchendo um copo de água.
– Foi. – sentou-se em fronte a bancada, olhando-me com a mão apoiada ao queixo. Balancei a cabeça, lavando o copo. – Falando em reparar, o que foi aquela cena sua e do Aaron antes de você subir?
– Nada de mais. – suspirei. Encostei-me ao balcão e passei os dedos pelos cabelos, desembaraçando-o novamente. – Ele só estava me provocando.
– Provocando? – suas sobrancelhas levantaram-se e um ar de riso tomou sua expressão. – "Quer companhia?" "Prefiro que a água vire veneno e queime minha pele!".
Mordi o lábio inferior, encolhendo os ombros. Caitlin abriu um enorme sorriso.
– Sabe, há tempos eu não vejo Aaron de bom humor assim...
– Isso é bom humor? – apontei a sala, arregalando os olhos. Caitlin assentiu rindo.
– Nos termos dele, sim.
Suspirei e ouvi o barulho da campainha. Afastei-me um pouco para posicionar-me em frente ao corredor e ver o movimento da sala: Aaron saltava do sofá e ia atender a porta.
– Acho que a pizza chegou. – comentei a Caitlin, virando-me ao armário para pegar a louça.
– O que você está fazendo?
– Pegando os pratos.
– Lane, para! – ela apareceu ao meu lado e impediu-me de continuar. Olhei-a confusa. – Na Itália vocês comiam pizza no prato?
– Eu não comia muita pizza na Itália. Meus pais não achavam saudável. Mas nas poucas vezes que comi, sim, era no prato com talheres.
– Meu Deus! Vou ter que te ensinar mais do que imaginei... – revirou os olhos pegando os pratos de minha mão e guardando-os de volta.
– Caitlin, como iremos comer sem os pratos?
– Com as mãos. Ninguém come pizza de talher, Lane.
Entortei o nariz, vendo-a fechar o armário. Ela virou-se a mim com as mãos na cintura e riu de minha expressão.
– Vamos fresca. Vou te ensinar um pouco mais do melhor jeito americano de ser. – puxou-me pela mão à sala.
Aaron já havia pagado a pizza e as cinco caixas que pedira estavam espalhadas pelo tapete. Os garotos estavam espalhados pelo sofá e chão, cada qual com um pedaço de pizza nas mãos e os olhos grudados na TV.
– Eles vão manchar meu sofá! – virei desesperada a Caitlin. Ela riu gostoso.
– Relaxa. Pra isso você tem vários empregados. – deu de ombros e passou na frente da televisão comigo, despertando várias reclamações dos garotos.
– Vocês estão atrapalhando, porra! – Aaron manifestou-se de boca cheia.
– Pensasse nisso antes de não nos avisar que a comida chegou. – ela estalou a língua no céu da boca.
Sentou-se apoiada à poltrona que antes ocupava. Olhei ao redor e o único lugar vago era aos pés de Aaron. Entortei o nariz e Caitlin me empurrou naquela direção, fazendo-me acomodar ali, o que o fiz mantendo uma distância segura de meu marido.
– Pra que tantas pizzas? – perguntei observando o conteúdo de cada uma.
– Porque estamos com fome e não comemos pensando nas horas de academia no dia seguinte. – Aaron respondeu novamente de boca cheia.
– Será que dá para você parar de falar de boca cheia? Isso é horrível. – virei-me a ele, olhando-o calma.
– Não. – respondeu mastigando, olhos presos a TV. Bufei, me voltando aos conteúdos das caixas.
Peguei um pedaço de mozarela com as mãos e senti o óleo escorrer por meus dedos. Mordi o lábio inferior, trazendo-o para a boca e constatando que era de fato bom. Caitlin ria ao meu lado observando-me comer.
– Você é cheia de manias, Lane.
– Concordo. – Aaron manifestou-se. Olhei-o de sobrancelha arqueada.
– Com licença, a conversa ainda não chegou aos mal educados.
– Aí! Essa doeu! – Dylan riu junto aos demais. Aaron fuzilou-me com os olhos.
– Já está abusando, Lane.
– Eu só estou começando, amore mio. – sorri falsa.
Ouvi-o bufar enquanto sorria vitoriosa a Caitlin, que balançava a cabeça e voltava os olhos ao jogo também. Comi dois pedaços de pizza em meio a gritos e vaias dos garotos. Embora prestasse atenção à tela, pouco entedia e interessava-me, portanto assim que acabei, levantei-me do chão.
– Saí da frente, Lane. – Aaron mandou afobado.
– O termo correto é "dá licença". – corrigi-o dando-lhe visão. Ele balançou a cabeça de qualquer jeito e revirei os olhos, indo à cozinha.
Lavei minhas mãos engorduradas na pia e sequei-as a tempo de virar-me ao ouvir passos atrás de mim. Nick sorria-me brando com uma garrafa vazia de cerveja nas mãos.
– Te assustei? – perguntou pousando a garrafa no balcão. Sorri de lado, negando com um aceno de cabeça.
– E então? Como está o jogo? O time de você está ganhando?
– Você não entende nada de basquete, entende? – riu pelo nariz, abrindo a geladeira.
– Não. Nada mesmo.
– Bem que eu desconfiei. – sorriu abrindo a garrafa e dando um gole. Desviei meus olhos aos meus pés, mexendo-os contra o piso frio. – Você está se saindo bem.
– Como? – olhei-o num sobressalto. Nick sorriu apoiado de lado a bancada.
–Você está se saindo bem com Aaron. Sabe, não se abala mais tanto com o que ele fala; devolve na mesma moeda... Acho que essa troca de farpas está animando-o, porque ele está de bom humor.
– Essa é a segunda vez hoje que ouço que ele está de bom humor e estou começando a temer que seja mesmo verdade. – ri pelo nariz, alisando meu braço. Nick riu também.
– Tema então. Porque isso é realmente o bom humor do Aaron. Desde que... – interrompeu-se subitamente. Tombei a cabeça, observando-o desconfiada enquanto tomava sua bebida para disfarçar.
– Desde que Sienna morreu? – perguntei lentamente. Nick engasgou-se com o líquido, abaixando a garrafa. Olhou-me surpreso, de olhos arregalados e sobrancelhas arqueadas antes de suavizar a expressão e assentir rindo sem humor.
– Claro que a essa altura você já descobriu sobre Sienna. – revirou os olhos, falando a si antes de focar em mim novamente. – É. Desde que ela morreu, esse é o bom humor do Aaron. O máximo que ele consegue se alegrar.
– E como era antes?
– Antes de ela morrer? – questionou e assenti. Ele suspirou, olhando perdidamente para a janela. Um sorriso distante surgiu em seus lábios. – Ele era uma pessoa animada. Era como um Dylan, só que mais... Aaron. – ri de sua comparação e sorriu fraco para mim. – Ele era um cara animado com muito sarcasmo. Mas quando ele estava com ela... Ele era outra pessoa. Ele poderia pisar em todos, mas ela era a única ilesa. Ele a tratava bem e sempre pareciam um casal de bobos apaixonados juntos. Ele era um cara normal e legal.
Engoli em seco, vendo o sorriso e o olhar pedido de Nick em lembranças. Suas palavras, o jeito que as dizia e o modo como se encontrava quando as dizia convenceram-me mais ainda de que Aaron fora uma pessoa diferente: que não era amargo, frio e irônico a todo tempo. Que já fora capaz de amar e ser amado.
Ouvi mais passos no corredor e desta vez Aaron adentrou o cômodo. Seu olhar passou rapidamente de mim a Nick, que saíra de seu estupor e bebericava sua garrafa.
– Do que falavam? – perguntou desconfiado. Olhava em especial para mim.
– Nick me contava sobre uma pessoa que conhecia.
– Que pessoa? – silabou estreitando mais o olhar.
– Ninguém que esteja presente hoje.
Andei em direção à porta, porém, a mão de Aaron enroscou-se em meu braço. Parei, tomando fôlego de olhos fechados. Voltei-me a Aaron, encarando seu olhar desconfiado a altura.
– Que pessoa, Lane? – repetiu calmamente. Seu maxilar estava travado e sabia que sua raiva estava engatilhada para entrar em ação.
– Eu vou voltar à sala para ver o jogo... – Nick coçou a cabeça e desencostou-se da ilha.
– Não. – Aaron impediu o amigo em tom mandão. – Nenhum dos dois sairá daqui até me disseram sobre quem falavam.
– Se pensa que falávamos sobre Sienna, pode ficar sossegado. Não falávamos dela: falávamos de você.
Soltei-me de seu aperto e segui firme à sala antes que ele explodisse. Sentei-me no lugar de antes sob o olhar preocupado de Caitlin, que mexeu os lábios sem som para perguntar-me se estava bem, pergunta a qual assenti positivamente antes de concentrar-me ao esporte que não entendia. Fiquei a mirar a televisão até o fim do jogo, ignorando a volta de Aaron e Nick a sala. O primeiro sentando-se em seu lugar anterior também. Os garotos comemoraram alegremente quando, aparentemente, seu time ganhou. Limitei-me a sorrir fraco e recolher as caixas vazias, tarefa auxiliada por Caitlin.
– O que rolou aqui antes, Lane? – ela foi direta, colocando as caixas sobre a ilha assim que adentramos a cozinha. Seu olhar era preocupado e profundo. – E nem venha me dizer que foi nada porque nada não deixaria você e Aaron com cara de quem comeu e não gostou.
– Nós tivemos um pequeno desentendimento. – dei de ombros, concentrando-me em arrumar a ilha repleta de garrafas e embalagens ao invés de encara-la.
– Por...?
– Por motivos que eu não quero discutir.
– Qual é Lane? Eu sou sua amiga! Você sabe que pode confiar em mim e me contar as coisas.
– Eu sei e agradeço, mas não quero falar sobre isso agora.
– Era sobre Sienna, não era?
– Dio mio, Caitlin! Eu já disse que não quero discutir sobre isso! – irritei-me, batendo uma das garrafas com força dentro da pia. Seus cacos espalharam-se no meio das garrafas inteiras.
– Tudo bem! Não precisa irritar-se. Como sua única amiga, estava tentando te ajudar, mas se não quer ajuda, é só dizer. – protestou irritando-se também. Suspirei, jogando o pedaço de vidro que sobrara dentro da pia e apoiado minhas mãos em suas bordas.
– Tem razão. Desculpe-me. Aaron me deixa... Fora do eixo.
– Percebe-se. – ironizou, suspirando e aproximando-se. – Se machucou?
– Não. – abri os olhos, tirando as garrafas inteiras do meio dos cacos.
– Que merda tá acontecendo aqui? – a voz de Aaron ecoou pelo ambiente, dura e curiosa.
– Lane quebrou uma garrafa. – Caitlin antecipou-se, saindo para a parte de trás da casa com garrafas em mãos.
– Se cortou? – Aaron perguntou por mais bisbilhotice do que preocupação.
– Não.
– Está nervosinha? – debochou. Ouvi o barulho da geladeira abrindo, deduzindo que pegava outra bebida.
– Estou Aaron. – voltei-me a ele, irritada. Suas sobrancelhas arquearam-se enquanto abria calmamente a cerveja. – Você me deixa assim. Até em quem não tem culpa de nada eu acabo descontando. Feliz em ouvir isso?
– Na verdade, continuo na mesma. – deu de ombros, bebendo da garrafa.
– Você é um idiota. Pensei que depois de ontem você ia melhorar, mas você continua o mesmo babaca.
– Quantos xingamentos, amore mio. – sorriu sarcástico. Comprimi os lábios, a fim de controlar um rosnado em minha garganta. – E o que aconteceu ontem de tão especial para eu querer mudar? Ah, claro, a gente transou! Mas me deixa te dizer uma coisa sobre isso, Lane: sexo não é mágica. Pra você pode ter parecido, mas para mim é algo que eu faço toda semana com uma mulher diferente. Então não vejo motivos aí para eu subitamente querer ser uma pessoa diferente.
– Claro. Esqueci-me de que tratamos de mim e não de Sienna... – revirei os olhos, rindo sem humor. Sua expressão mudou em segundos, passando à raivosa. – Porque aposto que se fosse com ela que você tivesse transado, as coisas seriam bem diferentes agora. Você estaria beijando o chão que ela pisa ao invés de soltar farpas. Mas como ela morreu e sou eu com quem você dormiu ontem, então você continua sendo o mesmo ogro de sempre.
Seus olhos transbordaram de cólera e seus pés o levaram automaticamente a minha frente. Seus punhos estavam cerrados e o vi fazer menção de levantar um deles.
– Vamos, Aaron. Me bata. Não é isso que você quer? Bata. Vai ver isso faça sua raiva passar. Só me deixe fazer uma observação antes: me bater não vai traze-la de volta e muito menos mudar o fato de que agora sou eu sua esposa.
Suas narinas incharam e suas pupilas engoliram as íris. Mas sua mão travou-se ao lado do corpo. Levantei o queixo, encarando-o com bravura. Porém, não era Aaron em minha frente. Era o mesmo monstro da noite anterior. Não havia humanidade em seu olhar, só um ódio incontrolável que o tornava um animal descontrolado. Por fim, molhou os lábios e deu-me as costas, retirando-se batendo os pés. Ouvi os meninos chamarem por Aaron e falarem com ele assim como ouvi o estrondo da porta batendo. No instante seguinte, Caitlin e Nick entravam afobados na cozinha, questionando-me sobre o que acontecera. Respirei profundamente, fechando os olhos.
– Aaron se lembrou de que eu sou a esposa dele e não a Sienna. – respondi tentando controlar minha voz trêmula. Funguei involuntariamente.
Senti a presença de um dos dois aproximando-se e deduzi que fosse Caitlin. Abri os olhos lentamente, sentindo lágrimas recheando-os, e vi que me enganara: era Nick. Seu olhar era de tristeza e pena. Ele rodeou-me com os braços e por impulso afundei minha cabeça em seu peito. Fechei os olhos e senti as lágrimas transbordando de meus olhos. Não soluçava ou fungava. Só chorava em silêncio.
– Calma. – pediu baixo, beijando o topo de minha cabeça.
– Nick. – ouvi a voz de Dylan e abri os olhos para vê-lo nos encarar da porta. Ele tinha olhos cheios de pena ao fitar-me chorando apoiada a seu amigo. – Nós estamos indo atrás dele antes que faça alguma besteira. Você vem junto?
– Pode ir. – Caitlin tomou à frente, quando o viu confuso. – Eu fico com ela.
– Eu vou ficar bem. – Endossei sua fala, afastando-me dele. – Vá atrás dele. Sabemos que ele pode fazer uma besteira a qualquer momento.
Nick sorriu triste e aproximou-se para dar-me um beijo na testa. Vi-o afastar-se para junto de Dylan, que trocava olhares sérios com Caitlin.
– Nós vamos trazê-lo de volta, Lane. – Dylan garantiu-me. Repuxei o lábio para cima, sentindo meus lábios salgarem-se ao vê-los deixarem a cozinha.
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