Strada Per L'inferno
30 Por prazer
Notas iniciais
Levantei-me e caminhei ao banheiro, derrotada após uma noite de insônia. Lavei meu rosto encontrando olheiras profundas que não existiam há um mês. A pele branca e pálida e os lábios rachados não ajudavam. Prendi o cabelo em um rabo de cavalo alto e voltei ao quarto. Peguei o roupão de seda e vesti-o sobre a camisola de mesmo tecido. Olhei ao relógio brevemente: seis e quatro da manhã. Suspirei e abri a porta.
O corredor estava silêncio. A casa estava silenciosa. Desci pelos fundos até parar na cozinha. Por ser sábado e os empregados só começarem a trabalhar a partir das oito, a meu pedido, decidi fazer o café sozinha. Fui à sala enquanto a cafeteira fazia sua parte do trabalho. Peguei o telefone e voltei à cozinha, sentando na bancada. Encarei o aparelho em minhas mãos.
Por toda a noite ruminara a ideia. Virava-me e revira-me na cama só pensando nisso. Desde que Aaron revelara-me toda a verdade, passara a conversar por e-mail e sempre que ligavam, inventava alguma ocupação que me impedisse de atender. Mas desde que Caitlin deixou-me ontem pela noite e Miranda deu-me boa noite alegando estar cansada demais, fiquei a pensar sobre eles; em como sentia saudades de ouvir suas vozes, de seus atos carinhosos e de seus ombros amigos, apesar de tudo.
Suspirei e digitei o número. Aproximei o telefone da orelha e ouvi a música avisando tratar-se de uma ligação internacional. Tamborilei as unhas no mármore e senti o cheiro do café pronto inundar minhas narinas. Fechei os olhos, deixando-me levar pelas lembranças do que pareciam décadas atrás.
– Alô? – ouvi a voz doce e simpática de minha mãe cortar a música do outro lado da linha. Abri os olhos, sentindo-os levemente marejados.
– Oi, mãe.
– Lane? – perguntou retorica e incrédula. –Mio Dio! Lane! Querida, que saudades sentia de ouvir sua voz! Que saudades sinto de você!
– Eu também sinto saudades, mãe.
– Eu, sua irmã e até seu pai chegamos a ligar incansavelmente nesse último mês e você vivia ocupada. Sempre prometia ligar pelos e-mails e nunca ligava!
– Eu sei. Me desculpe. Eu andava mesmo muito ocupada...
– Ah, tudo bem, querida. Henry nos contou que vocês mudaram-se de volta para a cidade e você devia estar muito ocupada com a mudança.
– Henry contou a vocês? – levantei as sobrancelhas, surpresa.
– Sim. Ele ligou para nós há mais ou menos duas semanas. Ele pediu desculpas por você não ter tempo de contatar-nos e explicou que era devido à mudança; que ele teve de voltar à cidade por conta dos negócios, mas vocês compraram uma nova casa por receio de voltar à outra.
Abri a boca, incrédula. Aaron não mencionara em momento algum que ligara a meus pais e falara com eles. Minha mãe explicara tão alegremente e falara dele tão ternamente que não tinha dúvidas que seu alter ego Henry, o doce e carismático que enganara todos desde o princípio, com exceção de mim, fez seu trabalho corretamente de novo. Agora, o porquê de ter feito isso me intrigava.
– Conte-me tudo, Lane, sobre a casa nova. Ele disse que vocês visitaram diversas, mas só animou-se com esta.
Inventei uma grande mentira a minha mãe para encobertar o que Aaron começara. Imaginava mamma do outro lado da linha, suas expressões empolgadas a cada novo detalhe meu.
– Ah, querida! Parece uma casa fantástica! Irei de querer conhecê-la!
– Claro mamma. Ficaria felicíssima se viesse vê-la. – murmurei passando a unha no mármore e controlando a tristeza que me apossara.
– Perguntei tanto de sua nova casa que me esqueci do mais importante: como vai seu casamento? Henry está bem? Ele é um menino tão bom...! Espero que estejam se dando bem.
– Sim. Nós estamos nos dando bem. – engoli em seco, mordendo o lábio inferior. – Ele é um ótimo marido.
– Ah, fico tão feliz em ouvir isso, Lane! Meno Male! Lembro-me de sua expressão no dia do casamento e temia tanto por você, querida. Mas no fim, sabia que seu pai tinha razão: vocês seriam felizes juntos.
– É... Babbo sempre tem razão. – murmurei sarcástica ao fundo.
– Está usando de ironia, Lane? – perguntou séria, adotando o tom de voz mandão associado às figuras maternas.
– Não, mamma. É impressão. Estou só cansada e minha voz oscila...
–Oh, sim. Aí deve ser cedo! – concordou amolecendo, acreditando no que dissera. – Ainda cultiva o costume de acordar cedo? Achei que depois de tanto vivendo entre americanos, se tornaria uma preguiçosa também.
– Não. – neguei forçando um sorriso de lado a seu tom brincalhão. – Algumas coisas estão enraizadas em mim.
– E 'bene sapere.
– E como anda todos aí? Estão todos bem? Babbo, Grace...
– Estão todos bem sim. Com muitas saudades de você, é claro.
– Eles estão aí?
– Não. Seu pai, claro, está trabalhando. E Grace está na casa de Eliza. Ela anda muito por lá desde que você mudou-se...
– Bem, então diga a eles que estou com saudades também.
– Direi. – afirmou antes de suspirar. – Ah, Lane, você não sabe quanto sinto sua falta!
– Eu também sinto muito, mamma. Sou tão só, às vezes.
– Henry parece ser igual a seu pai: mergulhado no trabalho.
– Sim. Ele é bem... Dedicado ao trabalho.
– Ah, sei que é difícil, querida. Mas ele só está tentando dar um futuro bom a você e a família que construirão. – disse afetivamente, com sua paciência que sempre invejara. – E o importante é que se amam e o tempo que passam juntos é de qualidade, independente da quantidade.
– É... A senhora está certa.
– Seu pai sempre foi assim também. E lembro-me que no começo do casamento, quando ainda não era acostumada a isso, sofria de solidão também. Mas sempre que ele chegava em casa, tudo desaparecia e eu só tinha em mente que possuía alguém que me amava e voltava toda a noite para mim, independente se passara ou não o dia comigo.
Molhei os lábios, fechando os olhos ao senti uma lágrima aleivosa escorrer. Limpei-a rapidamente e soltei uma onomatopeia de concordância.
– Você está certa, mamma.
– Espero que sim, querida.
Ouvi a porta da frente ser aberta e voltei para trás por impulso. Era Aaron. Respirei fundo e abaixei os olhos ao balcão de novo.
– Eu tenho que ir, mamma. Depois eu ligo de novo.
– Tudo bem, querida. Fique bem. Estou feliz em ouvir sua voz de novo.
– Eu também.
Despedimo-nos de vez e abaixei o aparelho, finalizando a ligação. Coloquei-o sobre a bancada e apoiei a cabeça às mãos, respirando fundo. Senti minha garganta fechando, mas sem o típico nó de choro. Meus olhos secos, apesar da lágrima que acabara de derrubar. Os passos fortes de Aaron ecoaram pelo piso de madeira e pelas paredes frias e levantei minha cabeça no momento em que entrava na cozinha. Ele parou a porta quando me viu, parecendo surpreso, e encarei-o dos pés a cabeça. Ele vestia as mesmas roupas da noite anterior, porém mais amarrotadas. Os cabelos estavam desgrenhados e olheiras fundas faziam contraste aos olhos avermelhados. Um cheiro forte de bebida, cigarro e outros entorpecentes emanavam dele. Comprimi os lábios, virando a cabeça. Levantei-me da banqueta, caminhando para a cafeteira ciente de seu olhar sobre mim.
– Pensei que estivesse dormindo. – comentou sem emoção; mais como uma observação.
– Não consegui dormir. Por isso levantei. – abri o armário e peguei duas xícaras, servindo uma até metade de café. Virei-me encontrando-o sentado na banqueta antes ocupada por mim. Parei em sua frente, empurrando a xícara em sua direção.
– Vai precisar. Ajuda com a ressaca.
– Você não sabe se estou de ressaca. – respondeu petulante. Ri pelo nariz, pegando a caixa de leite na geladeira e repetindo o que fiz com a xícara de Aaron na segunda, porém com leite.
– Você chega às seis da manhã, desgrenhado, cheirando a bebida e cigarro, com olheiras e olhos avermelhados. – observei colocando a xícara para esquentar no micro-ondas e me virando a ele. Apoiei minhas costas ao mármore da pia e cruzei os braços, fitando-o séria. – Eu não sou boba, Aaron. Apesar de costumar ser ingênua.
– Costumar? – Repetiu debochadamente, tomando a bebida com os olhos fixos em mim.
– É impossível viver com você sem perder a inocência.
– Em todos os sentidos. – murmurou sarcástico. Respirei fundo, passando as mãos em meu rosto.
– Com quem falava? – perguntou subitamente. Parei de misturar o açúcar, colocando a colher na pia.
– Com minha mãe.
– Finalmente tomou coragem para ligar aos seus pais farsantes...
– Lave a boca para falar de meus pais, Aaron. – olhei-o irritada e ele sorriu de lado. – Você não é em nada melhor do que eles. Mentiu para mim igualmente.
– Não. Eles mentiram por dezoito anos e continuam mentindo. Eu menti por oito meses.
– Grande diferença. Machucou-me do mesmo jeito. – murmurei a mim mesma, segurando a xícara com ambas as mãos ao voltar a apoiar-me de costas a pia; de fronte a Aaron.
– Não existe guerra sem feridos. – deu de ombros, pousando a xícara no mármore ao fitar-me.
– Se é tão indiferente assim a mim, porque ligou para mamma há duas semanas para justificar-se por mim? – arqueei as sobrancelhas.
– Seus pais estranhariam se ficasse muito tempo sem contata-los sem uma boa desculpa. Seu pai, em especial, poderia desconfiar. E a última coisa que preciso é da máfia italiana no meu cangote ao invés de comigo.
– Eu sou muito estúpida por pensar, ainda mais depois de ontem, que você queria salvar minha pele. – ri pelo nariz, deixando a xícara de lado. Cruzei os braços, encarando-o irada. – Mas por falar em ontem, Aaron, diga-me: como foi a sua após sair dessa casa como um furacão? A garota era loira, morena ou ruiva? Aposto que tinha silicone...
– Ciúmes, Lane? – perguntou debochado. Levantou-se e espreguiçou-se sem pressa.
– Jamais. Só quero saber mais sobre aquela que o ajudou a aumentar minha galhada.
– Entendi. Dor de corna. – olhou-me com um sorrisinho de lado.
– Chifre cruzado não dói.
Os olhos de Aaron estreitaram-se em minha direção e no momento seguinte ele prensava-me contra a pia, segurando forte em meu braço. Seus olhos estavam raivosos sobre mim e seus dentes cerrados. Sua respiração estava pesada batendo sobre meu rosto.
– Você nunca mais ouse repetir isso.
– Por quê? Acha que é o único aqui que tem coragem de trair, Aaron?
– Acho.
– Pois não é. – silabei, deixando nossos lábios a milímetros de distância.
Surpreendendo-me, ele juntou nossos lábios. Antes que pudesse reagir, ele segurava minha cintura firme e pedia passagem com a língua. Cedi, entorpecida pelo momento e pela sensação. Meus braços enroscaram-se em seu pescoço e minhas unhas arranharam a pele macia da nuca. O senti estremecer e intensificar o beijo, como uma punição pela sensação que provoquei. Suas mãos intensificaram o aperto e trouxeram meu corpo mais junto do seu. Meu nariz era inundado pelos odores já antes detectados mais o cheiro de Aaron. Apoie a mão em seu ombro e apertei-o quando meu lábio inferior foi sugado. Comecei a aclamar por ar e estava criando coragem para apartar aquele beijo quando ele o fez. Ofeguei de olhos fechados, ouvindo-o e sentindo-o fazer o mesmo com o rosto contra meu pescoço. Seus lábios molhados depositaram um beijo ali e me arrepiarem.
– Vou tomar um banho para livrar-me dos resquícios da loira de ontem. – sussurrou em meu ouvido antes de chupar meu lóbulo e me soltar.
Olhei-o incrédula por alguns segundos antes de adotar a raiva. Limpei minha boca enquanto Aaron ria e subia as escadas dos fundos.
(...)
Meus dedos contra as teclas do controle da TV ecoavam como passos pesados pelas paredes do quarto. Ouvia o vento assobiar ao emprenhar-se nos vãos das janelas devidamente fechadas. Procurava desesperadamente por uma programação descente na televisão para diminuir meu sentimento de solidão e para casar perfeitamente com o balde de pipocas ao meu lado.
Os empregados foram dispensados horas antes e Miranda fora para a casa de campo buscar seus pertences que ficaram para trás; logo, também, não teria sua presença sempre, pois adquirira um apartamento em Nova Orleans. Já Aaron, quanto menos soubesse de seu paradeiro, melhor. Preferi-o longe, especialmente por estar irritada com ele e cansada de trocarmos farpas incessantemente ao dividirmos o mesmo espaço.
Parei imediatamente ao ver um filme em preto e branco. Em pouco, identifiquei como "A Princesa e o Plebeu", com Audrey Hepburn e Gregory Perk. Um dos meus favoritos. Abri um sorriso e acomodei-me melhor na cama, não temendo na hora de encher minha mão com pipoca. Consegui concentrar-me no filme e ignorar o mundo externo por muito tempo. Até um estrondo alto vir do andar inferior. Sobressaltei-me, levando a mão ao peito e respirando acelerada para perceber no instante seguinte que o som me era familiar. Respirei fundo, a fim de estabilizar a respiração e me preparar para o que vinha a seguir. Em partes, meu susto se deu por lembranças da fatídica noite do assalto. Mesmo que o som de porta batendo não se assemelhasse ao de vidro partindo. Em pouco, a escuridão do quarto, quebrada somente pela iluminação da tela da TV, foi ofuscada pela luz forte do corredor. Não me dei ao trabalho de virar-me para a porta ou olhar a silhueta formada de sombras no chão. Infelizmente já conhecia o dono dela muito bem. Continuei desfrutando de meu programa tranquilamente enquanto a porta voltava a ser fechada e passos no assoalho riscavam o quase silêncio. Não houve troca de palavras. Pelo contrário: ele passou direto para o closet, ignorando-me como eu fazia consigo. Porém, a curiosidade humana foi maior e de rabo de olho, espiei-o.
Aaron despia-se. Já não possuía mais a camiseta, que jazia no chão. Os sapatos e meias também não habitavam mais seu corpo e a jeans estava indo para o mesmo caminho. Quando ela ganhou lugar ao chão também, vi sua cueca boxer preta tampar sua polpa proeminente demais para um homem. E desviei o olhar imediatamente assim que virou a cabeça para trás. No entanto, não fui rápida o suficiente para escapar de sua percepção, já que ouvi seu riso fraco e imaginei ter visto um sorrisinho brotar em seus lábios.
Quando voltei a concentrar-me no filme, Aaron andou até a cama, abrindo a janela escancaradamente e jogando-se ao meu lado no colchão. Só de cueca. Mordi o lábio inferior, a fim de controlar meus impulsos de olhar e comentar algo. Enfiei a mão no balde no momento em que ele fazia o mesmo, provocando contato. Olhei-o e retirei a mão instintivamente; ele, do contrário, pegou a pipoca e encheu a boca sem nem demonstrar ter notado.
– Que filme é esse? – perguntou de boca cheia, apontando a tela.
– Modos, Aaron. Não se fala de boca cheia. – repreendi-o ganhando uma revirada de olhos. – É "A Princesa e o Plebeu". Com Audrey Hepburn e Gregory Perk. Sabe?
– Não e parece ser chato.
– Não é chato. Você que é um bruto e não sabe apreciar o filme e sua história. É um clássico.
– Um clássico pé no saco. – pegou mais pipoca e rolou os olhos pela cama, como se a procura de algo. – Cadê o controle? Mal vi cinco minutos desta bosta e já estou com sono...
– Ótimo. Vire para o lado e durma, consequentemente calando a boca e parando de me amolar.
– Cala a boca você. Me passa logo a merda do controle.
– Não. Eu estou assistindo. Os incomodados que se mudem. Não é assim o ditado?
– É. Mas não na minha casa. Aqui é: eu mando nessa porra e se eu estou incomodado, você tem a obrigação de satisfazer-me.
– Que aplique essa regra estúpida aos outros, se é que aceitarão, porque até onde eu sei, sou sua esposa e essa casa também é minha.
– Enganada, amore mio. – negou estalando a língua. Olhei-o furiosa, por começar pelo apelido sarcástico que desgostava profundamente. – Você pode ser minha esposa, mas essa casa continua sendo minha porque fui eu que a comprei e eu que decido a quem ela irá pertencer. E até agora, o único dono aqui sou eu.
– Tudo bem. – molhei os lábios, jogando as cobertas para o lado e levantando-me. – Se você é o dono e eu estou a aborrecê-lo, o melhor que faço é deixar esse inferno.
– Sempre tão dramática amore mio! – riu em voz alta. – Tem certeza que não fazia teatro ao invés de balé?
– Tenho. Assim como tenho que estou indo fazer uma mala para ir embora.
Ouvi-o rir e soltar alguns palavrões. Liguei a luz do closet e caminhei ao fundo, onde malas de viagens escondiam-se atrás de casacos. Puxei uma, desenroscando-as dos casacos e trazendo-a a luz. Senti mãos pousarem em minha cintura e puxarem-me bruscamente para trás, assustando-me e fazendo-me largar a mala no chão. Antes que gritasse, uma mão tapava minha boca. Meu coração palpitou, mais uma vez com a lembrança do assalto, mesmo que meu cérebro soubesse bem que se tratava de Aaron. Ele segurava firmemente meu corpo contra o seu, permitindo sentir cada centímetro dele: desde o tórax e abdômen definidos às pernas contra as minhas. Sua mão em minha boca passou a minha nuca, jogando os cabelos que a cobriam por cima de um dos ombros e acariciando a pele recém-desvendada lentamente com o polegar. Sua boca deu lugar ao carinho, beijando castamente até tornar uma chupada vigorosa que me marcaria. Fechei os olhos, arfando antes de praguejar-me mentalmente. Continua brava com ele, não podendo entregar-me tão facilmente. Empurrei sua mão em minha cintura para baixo e ele cedeu por surpresa. Deixei-o estupefato ao afastar-me para abaixar-me e pegar a mala.
– Caralho, Lane. Você é insistente mesmo. – reclamou aproximando-se e puxando-me pelo braço. Fui levantada brutalmente, esperneando irritada.
– Me deixa Aaron. Eu quero ir embora.
– Pra onde? – fez-me encara-lo. – Você não tem para onde ir, Lane.
– Tem a casa da Caitlin. Ela é minha amiga e me receberia. – respondi petulante.
– Claro. – concordou irônico. – Se ela estivesse em casa à uma da manhã e você soubesse onde ela mora.
– Como pode ter tanta certeza assim de que não sei? – levantei a sobrancelha a fim de fazê-lo ficar na dúvida quando a verdade era exatamente essa: não sabia onde ela morava.
– Não tenho. Mas tenho certeza de que de qualquer maneira, irá acabar perdendo-se pela cidade. Você conhece essa cidade tão bem quanto conhece obediência.
– Eu conheço obediência, Aaron. Por isso me casei contigo.
– Foi por isso também que transou comigo anteontem? – sorriu malicioso, com disposição a irritar-me. E conseguiu.
– Transei contigo porque sou estúpida. Me deixei levar pelo momento. Transei por pena. – as palavras jorraram antes que as peneirasse ou controlasse. E ele, que pensei que fecharia a cara e transformar-se-ia, fez o inverso ao alargar o sorriso. Meu corpo foi puxado contra o seu, colidindo sem delicadeza. Sua mão afastou meu cabelo para trás de minha orelha enquanto o encarava.
– Então agora você eu irei fazê-la transar por prazer, desejo, necessidade. – sussurrou antes de colar seus lábios ferozmente aos meus.
Senti sua língua querendo passagem e forçando-a quando recusei. Não estava disposta a ceder. Travei meu corpo e permaneci com meus lábios selados. Sua mão desceu por meu corpo até minha bunda, apertando-a chegando a doer. Abri a boca para exclamar dor e dei-lhe a oportunidade que precisava para explorar-me com sua língua. Seus movimentos eram precisos e urgentes, como se tivesse necessidade em fazê-los. Vendo-me sem saída, fraquejei e optei pelo caminho mais fácil e pecador. Enrosquei uma mão em seus bíceps e a outra joguei por cima de seu ombro, entretanto, ambas arranharam com veemência a carne que tocavam. Aaron gemeu, sorrindo a seguir. Suas mãos cravaram-se em minha bunda e impulsionaram-me para o alto. Entendendo-o, enrosquei minhas pernas ao redor de seu quadril. Dando alguns passos e chutando a mala impacientemente para o lado, Aaron chocou minhas costas contra a parede. Quis exclamar pela dor, mas seus lábios nos meus e a sincronia de nossas línguas me impediram. O fôlego foi esgotando-se e ele separou-se mordendo meu lábio e puxando-o. Gemi de dor antes de, enfim, ofegarmos juntos.
Minhas unhas enterraram-se mais a sua pele quando seus beijos foram direcionados a meu pescoço. Eram beijos, chupões, lambidas... Todos me faziam surrar os lábios e arfar alto. Enrosquei meus dedos na maciez de seus fios e não senti dó de puxa-los quando um chupão foi dado perto de minha clavícula. Grunhindo de dor, provou-me um sorrisinho involuntário. Seu troco foi um aperto dolorido em minhas polpas ao mesmo tempo. Permiti-me gemer pela primeira vez, sem conseguir definir se pela dor ou prazer. Sua boca ia descendo mais por meu corpo, marcando-me em vermelho e roxo. Empurrando a alça de minha camisola com a língua e lambendo o sitio intocado, provocou-me calafrio ao assoprar o local. Seu nariz enterrou-se na curvatura de meu pescoço e aspirou profundamente meu perfume, enrijecendo mais meus pelos.
– Tão cheirosa... Tão gostosa. – sussurrou ao pé de meu ouvido, mordiscando meu lóbulo. Sua voz estava rouca, baixa e sexy. A essa altura, já estava entregue a ele, ferindo meu orgulho e princípios.
Sua boca trilhou um caminho até meu queixo, subindo-o para roçar nossos lábios e provocar-me ainda mais ao somente chupar meu lábio inferior.
– Aaron. – choraminguei fazendo-o dar uma risada rouca. Meu corpo clamava por seus lábios nos meus, sem gracinhas nem enrolações. Somente língua contra língua num beijo francês quente e excitante.
Lendo meus pensamentos, fez o que tanto ansiava. O beijo foi cheio de luxúria e imediatismo. Sem espaço para movimentos lentos e pacientes. Desci as unhas por suas costas, marcando a carne macia e inexplorada. Seu corpo prensou mais o meu, fazendo-me sentir a saliência crescente abaixo de seu umbigo. Voltei a ser agarrada com força pelo bumbum e minhas costas descolaram da parede fria e agradável para um corpo em brasas.
Aaron caminhou comigo no colo pelo quarto sem apartar nosso beijo. Não fazia ideia de onde ia, mas tinha a certeza de que independente de onde fosse segui-lo-ia de bom grado. Meu corpo encontrava-se dependente do seu. Fui colocada sobre a superfície macia da cama e louvei por não ser a mais uma superfície dura. Sua boca descolou-se da minha para ele poder colocar-se de quatro em cima de mim. Uma perna de cada lado de meu corpo, prendendo-me na altura das coxas, e as mãos esparramadas no colchão ao lado de minha cabeça. Agarrei seus músculos e unhei-os quando nossas línguas voltaram a guerrilhar. Suas pernas pressionaram-me mais e sua pelve pressionou-se contra a minha. O volume dali era literalmente apalpável. Surpreendi-me, arqueando as sobrancelhas. E espantei também com minha atitude de provocar fricção entre nossos quadris. Senti-o gemer em minha boca e sorri satisfeita. Desci as unhas por seus braços, criando mais sulcos profundos. Sua mão apertou com firmeza minha coxa e subiu por baixo da camisola, apertando a pele e brincando na barra da calcinha. Quando seu dedão passou por cima do fino tecido molhado, pressionando minha intimidade, mordi seu lábio. Nosso beijo foi invadido por gosto de sangue, mas não paramos. Só apartamos diante à minha necessidade de gemer com seus movimentos circulares calmos.
A janela bateu com força e assustou-me. Agarrei Aaron com força, puxando-o para mim fazendo-o soltar seu peso sobre mim. Enterrei minha cabeça em seu peito enquanto ele ficava imóvel, uma mão emprenhada em meus cabelos e outra sobre minha coxa. As batidas de meu coração foram voltando ao compasso normal e fui soltando-o. Soltei seus braços e joguei a cabeça no colchão, de olhos fechados.
– Que porra foi essa? – Aaron perguntou saindo de cima de mim para deitar-se ao meu lado.
– Eu me assustei. – murmurei sentindo minha respiração estabilizando.
– Com a janela? — perguntou em tom incrédulo e debochado. Levantei as pálpebras, virando o rosto em sua direção.
– Eu me assusto com essas coisas desde o dia do assalto. Não consigo controlar.
Aaron ergueu mais as sobrancelhas e começou a rir abertamente. Choquei-me com sua atitude, mesmo que não esperasse que compreendesse ou consolasse-me.
– Lane, o assalto foi falso. – ele riu para mim. Meu queixo caiu. – Eu era o assaltante.
– O-o que? — balbucie piscando. Só poderia ter escutado errado.
– Eu forjei todo o assalto para me livrar de você, Lane. Combinei com os seguranças, coloquei a roupa preta e entrei pela janela para te dar um susto e depois ter uma desculpa plausível para te mandar para longe.
Permaneci incrédula, tentando digerir e processar a informação. Aaron causara os meses de pavor de escuridão, os sustos de grandes proporções a sons como janelas batendo e vidro estilhaçando, os incontáveis sonhos e noites em claro lembrando-me daqueles olhos... Foquei melhor em seus olhos e dei-me conta da resposta que sempre estivera a minha frente: eram os mesmíssimos olhos. Sempre foram os mesmíssimos olhos. Uma raiva imensurável cresceu em meu peito e não refreei o impulso que cresceu dentro de mim. Minha mão encontrou o ombro de Aaron e quando ambos nos demos conta, eu estava em cima dele distribuindo tapas e socos por todo seu corpo. Ele surpreendeu-se com minha reação, desaparafusando o sorriso do rosto. Porém, sua agilidade e força eram superiores as minhas e meus pulsos foram presos e contidos por suas mãos.
– Para com isso. – mandou levantando meus braços e olhando-me nos olhos como um pai olharia a sua filha ao repreendê-la por alguma travessura.
Fechei os olhos, ofegando derrotada. A cólera foi gradativamente diminuindo e outros sentimentos foram aflorando. Tristeza, indignação, culpa, vergonha. Estava indignada com a ação de Aaron, pois, na época, mesmo vivendo em uma farsa e frieza, eu era inocente e estava disposta a acreditar nele e fazer o matrimonio dar certo; sentia culpa e vergonha por minha desatenção e estupidez em não ter resolvido o mistério antes; e tristeza por ver até que ponto ele era capaz de ir. Lágrimas da irritação escorreram de meus olhos.
– Você está chorando? — perguntou surpreso, abaixando meus braços. Engoli em seco, virando o rosto para fungar deliberadamente.
– Me solta, Aaron. – pedi sem delongas, da maneira mais seca possível.
– Não. – negou duramente. Nada de surpresas mais: somente a velha grosseria. – Quero saber primeiro o porquê da palhaçada.
– Palhaçada? – rosnei olhando-o furiosa. – Palhaçada é o que você fez; palhaçada foi eu não ter notado antes; palhaçada é eu ainda ceder a você mesmo depois de tudo que você me fez; palhaçada é esse casamento.
Desvencilhei-me de Aaron, saindo de cima dele e caminhando para a porta. Abri-a, sendo cegada brevemente pela luz ofuscante do corredor. Entrei no quarto de hóspedes, fechando a porta à chave atrás de mim. Fechei novamente os olhos, encostando-me a madeira maciça e deslizando até sentar-me ao chão. As lágrimas continuaram correndo num silêncio contrário a confusão barulhenta de minha cabeça.
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