Strada Per L'inferno

23 Esse é o resultado, você gostando ou não


Notas iniciais
Olá anjos. Tudo bem? Eu ando bem rápido, não é? Mas também com o tanto de comentários lindos que recebi no capítulo passado, como não ser? Saibam que eu fiquei super feliz e empolgada com a resposta de vocês ao capítulo anterior. Eu não esperava nem de longe que vocês iam se exaltar tanto e tomar as dores da Lane. Isso é bom, muito bom. Esse capítulo é mais uma água morna para acalmar vocês e prepara-lo para o que vem a seguir e que eu carinhosamente chamo de divisor de águas. Ou seja, coisa grande vem aí. Espero que vocês não se incomodem com este capítulo que está altamente religioso. Eu acho importante abordar isso porque a Lane é uma italiana tradicional, ou seja, ela acredita em Deus. Então nada mais justo do que mostrar ela praticando um pouco da devoção dela. E se vocês sentirem-se incomodados com o tema ou algo do tipo, não façam cerimonia para pular o capítulo. Godere

O segurança parou o carro na frente de uma igreja. Era enorme com grandes janelas escuras e uma porta dupla de madeira envernizada. Olhei para Miranda e ela sorriu-me.

–É aqui – Ela informou abrindo sua porta.

Virei-me para observar a igreja antes de pegar a vela que levara e abrir a porta do carro para sair. Miranda passou por mim e abaixou-se ao lado da janela do passageiro para falar com o segurança. Não prestei atenção à conversa. Andei em direção à entrada da igreja, observando-a melhor.

Um tapete vermelho estendia-se da entrada ao altar. Bancos de madeira dispunham-se organizadamente em fileiras ao redor do corredor principal. O teto abobado era enorme e pinturas de anjos contra demônios o enfeitavam. O altar possuía uma enorme imagem de Jesus na cruz ao fundo. A mesa de mármore em cima do altar era larga e enfeitada por uma toalha branca de linho. Caminhei lentamente pelo corredor principal, observando cada detalhe, e sentei-me no primeiro banco da fileira da direita. A porta para a sacristia, de madeira escura e fechada, ficava a minha frente.

O ambiente estava silencioso e aproveitei-me da calmaria para fechar meus olhos. A imagem da capela na Itália que costumava frequentar veio a minha cabeça. A sensação de paz veio acompanhou-a. As paredes de pedra, os poucos bancos de madeira e o altar minúsculo enfeitado pela cruz de madeira. Apertei a vela em minhas mãos. Abri os olhos e virei a cabeça para o lado esquerdo. Ali, diversas velas acessas queimavam por pedidos e orações. Uma delas, de cor preta, chamou minha atenção. Seu fogo queimava calmamente. Sua chama ia de um lado ao outro lembrando uma atuação de balé dramático.

Ouvi passos atrás de mim e assustei-me. Virei-me e era Miranda vindo pelo corredor principal. Levantei-me e andei até o começo do corredor para espera-la.

–Desculpe por assusta-la – Ela cochichou para mim quando se aproximou o suficiente.

–Não foi nada – Sorri sem mostrar os dentes.

–Eu tenho que resolver algumas coisas e vou ter de deixa-la – Ela informou abrindo a bolsa e enfiando o celular que estava em suas mãos dentro dela – Tudo bem para você ficar aqui sozinha ou você prefere que eu te deixe na mansão antes? – Ela subiu o olhar de novo a mim.

–Não, não. Eu ficarei bem aqui sozinha – Sorri apertando a vela em minhas mãos.

–Tudo bem. Eu trouxe seu celular – Ela mexeu de novo na bolsa e tirou-o de dentro dela.

Ela estendeu-me e eu aceitei-o, observando-o. Nem sabia que Miranda tinha o trazido da casa de campo.

–Eu vou precisar do motorista, mas providenciarei para que outro venha te esperar e levar para casa quando você estiver pronta – Ela avisou-me fechando a bolsa e ajeitando-a no ombro – Tem algum problema para você?

–Não, nenhum – Afirmei.

Miranda sorriu-me e beijou minha face.

–Qualquer coisa, ligue para mim ou Aaron. Sem hesitar – Ela olhou-me séria.

Engoli em seco e forcei um sorriso, concordando com a cabeça. Miranda olhou para o altar, fez uma flexão de joelhos enquanto fazia o sinal da cruz e dirigiu-me um último sorriso antes de virar-se para ir embora. Observei-a retirar-se silenciosamente e esperei até que o carro tivesse sumido de vista para virar-me novamente as velas.

Observei a preta e a que havia em minhas mãos. Andei até as velas e acendi a minha na chama da preta. A chama acendeu quieta, dançando tão suavemente que se diria imperceptível. Deixei minha vela em um dos candelabros livres e ajoelhei-me. Fechei meus olhos e juntei minhas mãos e então os últimos oito meses da minha vida vieram num flash. Como em menos de um ano, eu passara de uma italiana devota à espera de um grande amor a uma desesperançada casada com o pior pesadelo que poderia ter?

Suspirei. O que eu fazia de errado? Tentava ser boa, a melhor esposa que podia, mas ele insistia em negar-me e debochar-me. Se não eram olhares frios dirigidos a mim, eram sacanas debochados. Incomodavam-me ambos, pois em uns ele parecia fazer completa desfeita de minha presença e em outros faltava ele despir-me com os olhos. De qualquer forma, ao fim ele sempre me negava com um sorriso sarcástico. E a questão que martelava minha cabeça era: se ele não me queria, por que não me mandava de volta para a casa do interior? Para o fim do mundo? Talvez tivesse medo que eu voltasse a fugir? Será que eu não fora a única que notara que estava mudando? Será que até esse cara frio que se dizia meu marido, mas mais passava tempo fora de casa do que comigo também notara que eu talvez não fosse mais a Lane de oito meses atrás?

Respirei fundo. Eu realmente não entendia Aaron e sua maneira de ser e agir. E sentia, por alguma razão, que ele escondia mais de mim do que falava. E se eu quisesse começar a entendê-lo, teria de começar pelo seu passado.

Cansada de lamentar-me somente em minha cabeça, e na dúvida se o padre estava ali para ouvir minha confissão, decidi desabafar em voz alta.

Dios – Limpei a garganta antes de prosseguir – Deus... Ajude-me. Eu sei que não devia fazer a primeira visita já pedindo coisas, e que também não ando sendo uma boa devota, mas Você sabe pelo que ando enfrentando. E, sinceramente, não sei se consigo mais aguentar. Nunca fui má pessoa, então por que eu mereci isso? É algum tipo de teste? Porque se for, admito desde que o perderei. Sou fraca para reagir sozinha. Preciso de ajuda. Sua ajuda. Eu não posso mais viver assim e... Ah, eu quero tanto minha vida de volta! Quero tanto de volta minha cidade pequena, minha casa aconchegante, meu quarto de menina... Não quero essa cidade enorme, aquela casa gélida e aquele quarto pior ainda. Quero minha família por perto, quero meus vizinhos que sorriam e desejavam-me "bom dia" todos os dias... E eu sei que essa é a minha chance de formar a minha família, de ter os meus vizinhos, mas eu não vejo abertura para isso. Então me diga se isso é possível? E se sim, como? Pois eu não enxergo saída neste túnel! Não vejo luz nisso tudo! Só escuridão, escuridão e-e... E eu ainda sou uma garotinha assustada com medo do escuro – Suspirei, fazendo uma pausa para retomar o fôlego – Então, se Você está ouvindo minha prece como eu realmente creio que sim, eu lhe peço de novo: ajude-me. Dê-me luz para montar esse quebra-cabeça, porque na escuridão nada é nítido. E eu só quero respostas. Eu acho que elas são as únicas que podem resolver tudo. Então eu só peço ajuda Sua.

–Só, amore mio?

Virei-me para trás, pulando assustada com a mão no peito. Aaron andava em minha direção com um sorriso sarcástico nos lábios e uma postura relaxada de mãos nos bolsos. A última vez que o vira em solo sagrado, ele aparentava maior respeito ao menos. Levantei-me do chão, virei-me ao altar e imitei Miranda antes de voltar-me de novo a Aaron.

–O que faz aqui? – Perguntei confusa.

–Aparentemente minha mãe precisava resolver algumas coisas do interesse dela que eram urgentíssimas o suficiente para ela precisar de um motorista e deixa-la para trás sozinha – Ele retirou um das mãos do bolso e passou em um dos bancos de madeira – E como você não conhece nada da cidade a não ser os aposentos da mansão, alguém tinha de vir busca-la. E eu, que estava indo para casa, decidi fazer minha boa ação do dia e vim busca-la – Ele levantou seu rosto e sorriu-me friamente.

–Gentil de sua parte – Comentei friamente estudando-o enquanto permanecia parada – Mas você poderia ter mandando um motorista buscar-me em vez de gastar seu tempo comigo.

–Acho que você está com um pequeno problema de audição Lane, pois creio não prestou atenção quando disse que estava aqui perto – Ele comentou sarcástico com as mãos nos bolsos, aproximando-se sem pressa de mim.

–Não tenho problema de audição. Eu ouvi – Dei de ombros – Mas ainda assim acho que gastou demais seu precioso tempo comigo – Sorri imitando-o.

–Do que custa? Afinal, quase não o gasto com você... – Ele sorriu presunçoso e eu engoli em seco – Além do que, fiquei bastante intrigado para saber o que minha esposa está achando das igrejas de Nova Orleans.

–Mais interessantes do que aquela mansão gélida – Respondi-o passando meus olhos por toda igreja.

Quando voltei a olhar Aaron, ele tinha um sorriso debochado. Sua mão saiu de seu bolso e tocou suavemente meu queixo, encaixando-o entre seu polegar e dedo indicador. Subindo ligeiramente meu rosto, ele observava-me enquanto dava um passo a frente.

Amore mio, amore mio... Cada dia mais afiada – Ele abriu de novo seu sorriso.

Quando ele soltou meu queixo, institivamente andei para trás e pude notar seu sorriso alargar.

–Você acha que eu irei machuca-la, Lane? Em pleno solo sagrado? – Ele estendeu os braços, perguntando debochadamente.

–Acho – Não hesitei em responder – Assim como acho que você não acredita em Deus. E sendo assim, você não vê necessidade em respeitar um lugar que para os outros é sagrado.

–Ah, amore mio, você está enganada – Aaron puxou o sorriso para o lado e abriu os braços, contemplando todo o espaço – Eu respeito tudo isso. Respeito esse lugar tão sagrado para os outros e para minha esposa – Ele deu alguns passos a frente, abaixando as mãos e parando com o rosto a centímetros do meu – E eu acredito em Deus.

Contraí meus lábios e ele sorriu outra vez com presunção antes de dar-me as costas.

–Mas, eu só acho que ele está ocupado demais com orações de pobres, endividados, doentes e virgenzinhas tolas que ainda acreditam no amor para poder me ouvir – Ele comentou em voz alta, passando seus dedos por cada banco que passava ao lado.

–Está errado – Contradisse-o em voz alta.

Aaron girou-se, apoiando-se ao banco que antes analisava. Ele tinha uma expressão clara de divertimento sarcástico.

–Estou, amore mio? – Ele perguntou lentamente.

–Está. Está completamente errado – Dei alguns passos para frente – Deus ouve a todos. Não importa se sejam mais necessitados ou mais abastados. Se sejam orações que peçam algo ou orações que agradeçam algo. Ele ouve a todas. E ajuda a todos. Somente não da maneira que desejamos.

Aaron levantou as sobrancelhas. Seus dedos encontrou a madeira novamente e ele voltou a traçar linhas imaginárias enquanto a olhava fixamente.

–Pode ser que você esteja certa, amore mio, mas me deixe lhe dizer algo – Ele subiu o olhar para mim e dessa vez não havia deboche ou frieza, somente um vazio enorme e escuro – Eu acredito que haja um Deus, mas não acredito que Ele realmente se importe conosco. Não acredito que Ele realmente perca seu tempo ajudando os moribundos que somos quando nossas ações em nada o afetarão. Não acredito que Ele esteja por nós assim como muitos estão por ele. Acredito que seja cada um por isso aqui em baixo – Ele molhou os lábios, desviando os olhos de mim e fixando-o no altar.

Engoli em seco, não sabendo como reagir. Seu olhar oco. Completamente oco. Pareciam que lá no fundo, foram abatidos pela dor e sofrimento, o que me deixou ainda mais sem reação. Endireitando-se, Aaron desviou os olhos do altar e deu-me as costas, sem passar seu olhar por mim.

–Vamos. Está ficando tarde e tenho um compromisso – Aaron chamou-me caminhando a porta da igreja.

–Você sempre tem... – Murmurei.

Felizmente, Aaron ignorou-me ou não escutou. Virei-me ao altar uma última vez e fiz o sinal da cruz com os joelhos flexionados levemente. Olhei para as velas e vi a minha, flamejando preguiçosamente. Suspirei e segui Aaron. Ele se encontrava apoiado ao carro, de costas a igreja, no lado do motorista. Um óculos de sol, surgido de não sei onde, escondia seus olhos que miravam o horizonte. Aproximei-me, abrindo a porta do passageiro e entrando no carro. Aaron acordou de seus pensamentos e imitou-me. Ignorando a existência de um cinto de segurança, ele arrancou o carro dali em alta velocidade. Segurei-me na porta, assustada.

–Você poderia dirigir mais devagar? – Perguntei colocando a mão na boca, sentindo meu almoço revirar-se em meu estômago.

–Com medo, Lane? – Ele perguntou friamente.

–Não, mas se você não diminuir, acho que vomito.

Aaron diminui bruscamente e minha cabeça bateu no encosto do banco com força. Massageei-a enquanto rogava algumas palavras feias em italiano.

–Melhor assim? – Aaron perguntou debochado.

Dirigi-lhe um olhar feio, mas ele ignorou-o. Passei a concentrar-me janela e na cidade que passava por ela. Nova Orleans era o que se poderia chamar de um contraste de personalidade. Totalmente modernizada e glamorosa com torres de vidro enormes e reluzentes a luz do sol por um lado. Antiga e charmosa com prédios e construções centenárias do French Quarter do outro.

–Essa cidade é realmente muito grande – Murmurei.

–Falando assim faz parecer que você nunca saiu daquele fim de mundo na Itália – Aaron comentou ao meu lado.

–Não era o fim do mundo – Protestei sem olha-lo – E eu nunca passava mais de duas semanas longe de casa.

–Porque perto do papai, os inimigos dificilmente conseguiriam colocar as mãos na doce e frágil Lane – Aaron riu irônico.

–Você poderia ser menos sarcástico – Me virei a ele – É realmente cansativo e irritante você sempre ter uma resposta debochada para cada frase minha.

–Desculpe-me querida. Tentarei ser um melhor marido daqui para frente – Ele respondeu debochado, sem incomodar-se com minha fala.

–Esquece – Suspirei me voltando a janela de novo – Você não tenta Aaron. Você nunca vai mudar.

–Eu já mudei uma vez, Lane – Ele manifestou-se sem sarcasmo ou frieza na voz, mas sim com um tom sincero – E esse é o resultado, você gostando ou não.

Notas finais
Nada de mais. Nada muito chocante, porque o coração de vocês precisa dar uma acalmada para o capítulo que vem. Esse sim será de deixa-los de queixo caído. Eu espero, porque eu como leitora, ficaria. Afinal, ações e reações virão. Ações erradas que provoquem reações corretas. Ou o contrário. Xoxo