Strada Per L'inferno
76 Assassina
Notas iniciais
Meus olhos imediatamente procurarem pelos de Aaron. Via, muito bem mascarado atrás de sua arrogância e confiança, o pânico que também me tomava.
Sabíamos que babbo daria as caras assim que Aaron o fizesse. Porém, não contávamos que fosse tão cedo e tão rápido. Enganamos a nós mesmos ao deixar de lado um detalhe importantíssimo: meu pai era simplesmente um dos homens mais poderosos da máfia, ele tinha olhos e ouvidos em todos os lugares.
— Antenore não estava na Itália? — sabia que Aaron estava tentando controlar a raiva e se manter calmo, pois sua mão não parava de abrir e fechar.
— Não. Ele estava em Nova York. O meu contato no Centro de Controle Aéreo disse que um jatinho igual ao de Antenore acaba de decolar de um campo no interior de Nova York com destino a Miami.
— Se esse cara estava de olho, por que não avisou quando o jatinho entrou no país? Pode ser só coincidência — Dylan tentou ser positivo.
— Eu também não sei, mas tem as mesmas características. O mesmo código também, ele me confirmou.
— Pode ser uma pegadinha — Colin sugeriu, a voz calma não combinando com o corpo tenso também. — Ele pode saber se estamos de olho nisso e quer que a gente pire e faça dar errado.
— Ou ele pode ter uma carta na manga e está se fodendo para se descobrimos que ele está vindo ou não — trincou os dentes, deixando a calma ter uma influência consideravelmente menor sobre si. — Nick, checa o galpão. Vê se tá limpo.
— Fizemos isso antes de sair. Nós mesmos fomos lá e conferimos tudo.
— Checa. Fala com os caras que estão lá.
Dois minutos de tensão se passaram até a voz de Nick soar de novo.
— Ninguém responde. Eu tentei a câmera escondida e está quebrada.
Meu corpo todo tremeu junto com a parede quando Aaron a socou. Levantei os olhos, assustada, encontrando sua figura respirando pesadamente, de olhos fechados com a testa contra a lataria. Queria me levantar e tentar acalmá-lo, mas ainda tinha medo de suas reações e, no momento, estava tão desestabilizada quanto ele para lidar também com sua grosseria grátis.
— Quanto tempo temos até ele pousar em Miami?
— Três horas, mais ou menos.
— Não podemos ir pro galpão.
— Eu sei. Mandei o motorista desviar. Pegar uma outra rota. Não sei pra onde ainda. Estamos vendo hotéis na estrada para…
— Não podemos ir para um hotel. Não sem um plano.
— Tá. Mas eu preciso dar uma rota pro motorista. Pensei em um hotel por…
— A gente não vai parar num hotel — sua voz se elevou, assim como sua cólera, e fechei os olhos antes de achar um fiapo de voz.
— Nick, cria uma rota qualquer. Por favor — ele o fez, ainda que perdido.
— O que vamos fazer com ele? — Dylan cutucou com o pé o homem inconsciente, por pouco tempo segundo as previsões e a maré de azar.
— Nick, você têm mais sedativo aí, não? — Colin interrompeu positivamente meus pensamentos. O outro confirmou a pergunta.
— Você consegue algum documento com a assinatura do Mike?
— Você não tá pensando…
— Eu tô, Dylan. Você consegue, Nick?
— Colin, isso é loucura. Nós já tínhamos discutido isso. Se Antenore descobrir, estamos fodidos. E ainda tem Mike. O que vamos fazer com ele?
— Loucura é esse plano! Mike não iria assinar isso, e se acontecesse, assim que o liberássemos ele iria armar contra nós. Vocês sabem disso. Só fizemos toda essa merda por desespero. Já estávamos fodidos antes.
Um silêncio torturante e amargo tomou a carroceria. A voz de Nick do outro lado era um sussurro; ele falava com Zack, informando-o de toda a mudança e do problema. Observava Aaron e sua respiração pesada. Ele ainda estava com os olhos fechados, tentando pensar na solução que aguardava ansiosamente. Não queria acreditar nas palavras de Colin, ninguém queria, porém a prorrogação do silêncio só confirmavam que, de fato, ele falava a verdade. Era difícil, entretanto, aceitar que o tempo todo agimos por desespero, por medo, arriscando-nos por um plano com chances quase nulas de dar certo. Não consegui admitir que, consciente e inconscientemente, esses garotos, eu, todos só fizemos o que fizemos para simplesmente não esperamos a ruína de braços cruzados.
— Eu poderia falar com meu pai — sugeri, hesitante. Os olhos de Colin e Dylan se ergueram para mim e eu continuei. — Poderia pedir para ele poupá-los. Vocês são importantes para mim e…
— Não vai dar certo — Aaron me interrompeu. Engoli em seco e o olhei.
— Antenore me odeia. Ele nos odeia. Não vai nos poupar só porque a filha pediu. Ele não arriscaria a reputação dele e nem perderia uma oportunidade de se livrar de uma ameaça por pedido nenhum.
— Aaron, ele pode ser um homem completamente diferente do que eu pensei que era, mas ele não mataria as pessoas que eu amo se eu implorasse. Eu sei que ele me ama…
— Ele te ama, mas me odeia. Acredite, Lane, eu conheço seu pai melhor do que você. Já atrapalhei demais os planos dele. Ele só concordou com esse contrato porque pensou que não íamos conseguir e então poderia nos matar com uma justificativa plausível.
— Por que ele te odeia tanto? Por que ele quer te matar tanto assim?
Ele não me respondeu. Em vez disso, endireitou as costas e pediu para Nick incluir Zack na ligação. Assim que a voz do único que faltava ali soou, Aaron levantou a cabeça, deixando visível a expressão em seu rosto: maxilar travado, olhos frios e determinados, respiração calma e ombros levemente tensos. Ele pensara em algo, e, mesmo que fosse defender a ideia até o fim como sabia que faria, não gostava nem um pouco dela.
— Vamos falsificar a assinatura de Mike e vamos matá-lo.
— Aaron… — ele me ignorou, continuando a falar.
— Vamos parar em algum hotel e marcar um encontro com Antenore. Quando ele chegar lá, mostramos o papel e o corpo. Ele vai acreditar porque todos vão agir como se o morto tivesse assinado os documentos.
— Você não tá pensando direito. Se matarmos o cara, as chances de os aliados deles se voltarem contra nós são grandes.
— Zack tá certo.
— E Colin também quando disse que, assim que virássemos as costas, Mike iria nos apunhalar. Com a ajuda desses aliados.
— Essa é a única saída. Eu disse, e vocês sabem.
— Não podemos fazer isso. Vocês sabem que não. Está no contrato. Se matarmos Mike, já era. Antenore não vai considerar e vai matar todo mundo.
— Merda! — Dylan imitou o que o amigo fez minutos atrás, me surpreendendo e assustando. Dylan era quem que quebrava a tensão com piadas, não o que explodia. Sua reação era como um convite para o terror completo.
— No contrato diz que nós não podemos matar. Nada diz sobre terceiros matando — o tom calmo de Aaron chamou as atenções para ele.
Contudo, não esperava que as suas atenções estivessem em mim.
— Você tá louco?! — Colin aumentou a voz, protestando por mim, que estava petrificada. — Cara, você só pode estar fora de si. Essa é a Lane, sua mulher. A mesma que você não queria que participasse disso tudo. Você não pode estar falando sério que agora quer que ela mate um cara.
— Lane… — ignorando os amigos, ele se aproximou. Foi o que precisava para acordar do torpor e me afastar. Ele parou.
— Você quer que eu mate um homem? — murmurei. Não sentia nada, não transmitia nada. Nem raiva, nem tristeza, nem espanto, nem asco.
Eu faria tudo por ele, por nós. Mas talvez nossa concepção de tudo fosse diferente. Matar talvez nunca tivesse sido um empecilho, porque nunca esteve em pauta antes. Ele insinuava que eu o fizesse, mas somente em casos de despreparo, onde meu dedo fosse mais rápido do que meu cérebro. Agora, ali, sem nenhuma ameaça instigando meus instintos de sobrevivência, seu pedido era insano, absurdo. Logo ele, que sempre dissera que me protegeria de ser corrompida pelas sujeiras que me cercavam, queria que eu mergulhasse na única sem volta.
— Não — negou com um aceno. — Eu quero que você finja que matou um homem.
— Como? — cruzei os braços, confusa, tentando conter a tremedeira em meus dedos.
— Eu vou matá-lo. Vou usar a sua arma, com um lenço ou alguma coisa, e atirar nele. Depois eu só preciso que você atire em algum canto qualquer, para os resíduos de pólvora ficarem em sua mão. As digitais já estão nela. Nós iremos para um hotel para nos encontrarmos com Antenore. Você vai ter que fingir que o matou, Lane, e que está desequilibrada. Se ele comprar isso, estamos salvos.
Meu cérebro levou mais tempo do que o necessário para processar aquilo, averiguar se não era má audição ou interpretação das palavras. No fim, o que ele dissera era claro demais para haver confusões.
— Você quer que eu atue? — ele confirmou com a cabeça e suspirei, fechando meus olhos e escorrendo minhas costas pela lataria.
— Okay, isso não é loucura.
— Pode dar certo.
— Exceto pela parte de que o fardo maior cai sobre a Lane, e não é obrigação dela carregar todos nós nas costas.
Silêncio. Eles me assistiam, de novo. Esperavam minha reação, mesmo que no fundo soubessem qual seria.
— Eu faço. É claro que eu faço. Eu amo vocês. Não vou deixar que meu pai mate minha segunda família.
— Gata, eu te amo também! — e finalmente Dylan fez o que lhe era típico: quebrou o clima do momento com suas graças.
Vindo do outro lado do caminhão, ele me apertou e chacoalhou em um abraço forte e fraternal, fazendo-me rir. Zack e Nick agradeciam também, o alívio e a esperança envolvendo a todos. Colin também atravessou a carroceria para me abraçar e beijar minha testa.
— Você é muito corajosa, feiosa — ri e lhe empurrei, ouvindo um pigarreio em seguida. — Você devia deixar de ser um idiota pelo menos por um minuto, só estou agradecendo a sua mulher por salvar a pele de todos nós — Colin enfrentou Aaron.
— Paz, pessoal. Por favor.
Aaron não revidou, o que me surpreendeu. Ele, na verdade, ignorou-o para se aproximar de mim, parando de joelhos em minha frente. Afastou minhas pernas, olhando fixamente em meus olhos, e deixou-se cair sobre os calcanhares. Seus dedos subiram por minha nuca e pararem em minha mandíbula, segurando meu rosto. Sua testa se uniu a minha assim como seus lábios aos meus, num gesto tão casto e amoroso quanto seu toque delicado.
— Obrigado — era, talvez, a primeira vez que ouvia essa palavra saindo de seus lábios, e eu sabia o quão difícil e significativo era. Por isso, sorri.
— Eu sempre acabo com os amassos deles. Quem vai ter a honra dessa vez?
Três horas depois
POV Aaron
Bateram na porta do quarto e assim que disse “entre”, duas armas foram apontadas em nossa direção. Revirei os olhos diante da dramatização.
— Seu patrão é realmente neurótico a ponto de achar que eu vou matá-lo aqui, agora?
— Não se pode confiar nos outros — sua voz emergiu do corredor. Sua figura apareceu na porta, a arrogância e a superioridade que me tiravam do sério já irritando minhas mãos. — Ainda mais nos inimigos.
— Acho uma palavra um pouco forte, considerando que somos parentes.
— Não somos parentes. Nunca fomos e nem seremos.
Os homens enfim baixaram as armas e outros dois preencheram a porta no corredor antes de Nick fechá-la. Os paus mandados ao seu lado permaneceram assim, em pé, ao lado da poltrona que ele ocupou após um aceno. Os que vasculharam o quarto se postaram em pontos diferentes do quarto.
— Me parte o coração sua negação quanto a nossa ligação familiar.
— Eu não estou de brincadeira, garoto. Você sabe por que estou aqui e não vou ficar jogando com você por muito tempo antes de perder a minha pouca paciência.
— Eu também não estou a fim de brincar — imitei-o, inclinando-me sobre meus joelhos. Seus dentes rangeram antes de voltar a se endireitar.
— Onde ela está? Eu sei que ela está com você e não estou vendo-a aqui.
— Bom sinal. Seu oftalmologista fica contente em saber que ainda não precisa de óculos.
Seus punhos se apertaram e uma mão de fechou em meu ombro. Dylan estava tenso, como todos ali. Disfarçávamos bem, cada um do seu modo, e eles sabiam que meu modo defensivo era o ataque. Funcionava, quando o filho da puta ameaçador não era um dos donos do mundo e pai da minha mulher.
— Baixa a bola — murmurou antes de voltar a copiar um dos homens de preto.
— Você deveria ouvir seu amigo. Onde ela está?
— Eu vou dizer onde ela está, mas antes você vai me escutar.
O ar saiu por suas narinas, como uma risada. Eu tentava “baixar a bola”, mas o vecchio abusava também.
— Adoro como vocês, jovens, acham que têm algum direito de reivindicar ou mandar quando já estão derrotados. Isso não é uma negociação.
— Não, não é. É um cumprimento de contrato.
— Você acha que eu ainda vou assinar algo com você? Mesmo que fosse, o prazo acaba amanhã.
— Quebra de contrato implica em indenização e riscos desnecessários e perigosos, lembra? E eu sei que o prazo acaba amanhã, por isso já cumpri com minha parte. Claro, sua surpresa atrapalhou um pouco, mas conseguimos nos virar.
— Não conseguiram. Está blefando. Joguinhos não me interessam mais. Você já cavou sua cova. Agora me traga Lane.
— Só porque você é um pai realmente zeloso, vou atender seu pedido. Mas antes…
Olhei para Nick e esse abriu a pasta em seu colo, me estendendo os documentos. Antenore encarou o papel com desprezo e o pegou sem delicadezas depois de insistir. A prática de anos o fez levar menos de um minuto para ler o documento e chegar até a assinatura grande e rebuscada. Era impecável a falsificação de Colin. Um dos poucos talentos que reconhecia e o permitia ainda estar vivo e na equipe era esse.
— Agora pode começar a contar seu showzinho, moleque.
— Você já sabe metade dele, já que estragou o plano A para o gran finale. Tivemos que improvisar então. Paramos em um lugar distante da estrada com o caminhão e usamos o que tínhamos para a tortura. Foi só tocar no nome da sobrinha que ele desestabilizou e assinou.
— Não acredito em você. Quero falar com ele. Só acredito vindo da boca dele.
— E a senha está correta! — levantei-me sob seu olhar irado. — Vou te levar até sua filha.
— Está desviando o assunto.
— Estou. Acho que sua filha é mais importante para você e que, por isso, ela é mais interessante do que negócios.
— Se acha que ela pode me convencer a dar a você e seus amiguinhos uma segunda chance, está errado — levantou-se, jogando os papéis para Nick, que os pegou sem cara feia, o contrário de como eu os receberia.
— Não acho — forcei um sorriso.
O velho acenou aos seguranças e dois o acompanharam para fora, deixando o resto com minha equipe. Atravessei o corredor e contei duas portas, parando no 78 e me virando para Antenore. Ele se emplumava naquele terno sob medida e em sua fama, mas isso não me intimidava e ele sabia.
— Antes que diga que não avisei, ela não está bem. Tente não começar uma briga na frente dela. Você me odeia, eu também não sou seu fã. Todos sabem, e ela também.
— O que fez a ela?
— Nada. Ela fez.
Bati na porta e, segundos depois, Riley preenchia o portal, separando a escuridão do quarto e a claridade do corredor.
— Ela não quer comer. Tentei de tudo, mas ela não quer. De resto, continua do mesmo jeito.
Assenti e passei pela abertura que me deu. Antenore me seguiu, fazendo sinal para que um capacho ficasse atrás da porta e outro o seguisse. Os três deram uma boa olhada em Riley antes de a porta voltar a ser fechada e só um abajur ao lado da cama iluminar o quarto. Lane estava de costas para a porta, deitada na cama encolhida. Era bom ver seus fios naturais espalhados pelo travesseiro, deixando-a mais ela e menos uma “peça do destino”. Olhei para Antenore e ele encarava a filha, ocupado tentando desvendar o que ela tinha. Aproximei-me devagar, chamando-a quando me sentei ao seu lado.
— Lane…
Ela não me respondeu e levei minha mão até seu rosto, afastando o seu cabelo do mesmo. Tinha que admitir, só de olhar já era assustador. Ela estava pálida, branca, com o único contraste sendo os olhos vermelhos. Nem os lábios fugiam da falta de cor. Lágrimas silenciosas rolavam dos olhos fixos na parede.
— Você tá me ouvindo? — ela não me responde nem deu qualquer sinal. Suspirei e parti pra outra pergunta.
— Você tem que comer. Riley disse que não quer.
De novo, sem resposta.
— Seu pai está aqui — e então tive sua primeira reação: fechou os olhos com força.
Virei a cabeça para o velho e ele me encarou de volta, irritado. Aproximando-se do pé da cama, chamou-a.
— Sono venuto per portarti a casa, belle.
Foi o estopim de que precisávamos.
Sua cabeça balançou de um lado ao outro e ela fungou, se arrastando até a cabeceira e sentando-se. Olhando para o pai pela primeira vez, o assustou com seu estado, ainda que, de novo, ele ocultasse com seus dons de interpretação, dons esses que Lane adquirira e usava contra o mesmo.
— Eu não vou a lugar nenhum — sua voz era um fiapo que balançava com o vento, mas não cedia.
— Mia belle, você não está bem. Ele te faz mal. Vou te levar para casa, onde será cuidada.
— Não vou — balançou a cabeça com veemência. Ele suspirou e se aproximou mais.
— Você estava indo embora, lembra? Estava o deixando porque ele te faz mal. Estava voltando pra casa. Para mim, sua mãe e Grace. As duas, aliás, estão preocupadíssimas. Volte para casa comigo.
— Não. Eu tenho que ficar com Aaron. Eu quero ficar com ele — suas mãos se fecharam em meu braço e seu corpo se colocou atrás de mim. Abracei-a, deixando-a ainda mais perto e o pai ainda mais irritado.
— Lane, olhe seu estado. O que ele fez a você. O que diabos você fez a ela? — rangeu entredentes.
— Eu já disse. Não fiz nada.
— Então como minha filha, perfeitamente sã e saudável antes de você, está nesse estado agora? Não negue os fatos. Você só a prejudica. Olhe, olhe para ela! Acha mesmo que tem condições de cuidar, ser responsável por alguém? Você...
— Ele não fez nada! — Lane interrompeu-o com um berro, assustando a todos. Com os olhos mais cheios d’água, a voz antes potente voltou a ser um sussurro.
— Eu fiz. Eu o matei — e o choro recomeçou, fazendo-a tremer toda entre soluços. Abracei-a, realmente impressionado com o quão real parecia seu desespero.
Antenore encarou a filha, perplexo por alguns segundos antes de voltar a fechar a cara para mim pela enésima vez.
— Matou quem?
— Mike — Riley respondeu por mim, suspirando na poltrona do lado oposto. Lane chorou mais alto à menção do nome e a abracei mais forte, esfregando suas costas.
Antenore rangeu os dentes e quebrou a distância entre nós, puxando-me pelas costas da camiseta. Soltei de Lane e caí no chão, surpreso com seu ato. Tão surpreso que não previ o chute certeiro no estômago. E aqueles sapatos de couro não eram nada inofensivos.
— Maledetto! Ha pianificato questa merda, non è vero, figlio di putana? — recebi mais um chute no estômago, ainda mais forte. Dessa vez teve direito até a sangue.
— Babbo!
Lane pulou da cama e se abaixou ao meu lado, se colocando na frente. Seu movimento foi tão rápido que o próximo chute atingiu sua perna. Ela gritou, surpresa, e isso foi o fim para toda a minha contenção e o teatro. Antenore recuou, tão consumido por sua raiva que ainda mostrava os dentes ao observar a filha segurar a perna e chorar de verdade. Riley veio correndo até nós, encarando os dois sem saber quem ajudar. Apontei para Lane e ela não hesitou mais. Meu estômago doía e mal conseguia respirar e me erguer. Nada, no entanto, me impediria de vingar o sangue borbulhando em minhas veias. Ganhei a atenção do velho assim que me coloquei em pé. A expressão assassina agora era minha. Dei três passos para frente e seus seguranças surgiram, segurando-me e criando uma barreira entre nós.
— Covarde! — gritei o mais alto que pude, conseguindo só um ataque de tosse.
Os paus mandados me seguraram, não se incomodando com o sangue que voava em suas roupas. Tentava me soltar, mas a crise só piorava.
— Soltem ele. Faça com que eles o soltem, pai — Lane pedia ao fundo, em prantos. Isso me revoltava mais do que acalmava.
— Larguem-no.
Caí no chão e deitei-me de costas, tentando recuperar o fôlego. Me sentia de novo como um merda de quinze anos depois de alguns socos. Ouvi alguém rastejando para perto de mim e senti quando Lane se pôs sobre mim.
— Aaron, fala comigo. Por favor — ela me chacoalhava e batia em meu rosto, começando a fazer daquilo um filme hollywoodiano. Achei melhor intervir.
— Eu tô bem — abri os olhos. Seu rosto estava todo molhado e sua aflição não era fingida, apesar dos exageros.
Ela se deitou sobre mim, me abraçando forte e continuando a chorar. Passei o braço ao seu redor e a apertei, segurando-a no lugar quando fez menção de sair quando voltei a tossir.
A porta do quarto foi aberta e ouvi as vozes da minha equipe no cômodo. Houve agitação entre ajudar e entender o que acontecia. Lane estava se saindo melhor do que imaginava, chegando a preocupar. Ela não parava de chorar e não queria me largar. Quando Antenore tentou intervir, gritou e se agarrou com mais força. E no meio da confusão, consegui gravar bem suas expressões verdadeiras de confusão e horror. E isso era tudo que precisava para confirmar que ele estava já na rede.
Lane tomou um calmante e o quarto foi esvaziado. Antenore se recusou a sair e ficou sentado na poltrona enquanto eu colocava sua filha para dormir. A perna não doía depois de um pouco de gelo, apesar de um hematoma roxo começar a surgir. Ela segurava em meu braço e recebia meus carinhos em seu cabelo.
— Não vai deixar meu pai me levar, vai? — seus olhos já piscavam com mais frequência. Ela não chorava mais, porém ainda tinha o rosto inchado.
— Não.
— Eu quero ficar com você. Eu te amo.
— Ho anche, il mio amore.
Seus olhos fecharam e, dois minutos depois, sua respiração estava pesada.
Velei seu sono por mais dez minutos antes de cobrí-la com a coberta do hotel e me levantar silenciosamente. Lane tinha o sono pesado, ainda mais dopada. Andei até o frigobar, ignorando Antenore, e o mais forte que consegui foi água gelada. Virei a garrafinha ainda assim.
— Você conseguiu, moleque.
Fechei a garrafinha e a larguei na mesa, me apoiando sobre a mesma para voltar a encarar as feições serenas da minha mulher.
— Eu disse que iria.
— Eu te subestimei. Você joga sujo. Pior que seu pai.
— Não pior que você — saiu entredentes. Ele riu, irônico.
— A diferença é que tenho experiência e poder. Mas você é igual. Podre do mesmo jeito.
— Não me compare com você — já agarrava a mesa com força, respirando em grandes e espaçadas lufadas.
— Negar não torna a verdade mentira. Somos iguais. Você vai fazer as mesmas merdas, se não piores.
— A coroa te cai bem. Não vejo ninguém a usando melhor.
Ele riu, de novo, levantando-se e se virando para mim.
— Eu sei do que falo, rapaz. E por isso que não pretendo te deixar levar a melhor de novo. Você pode ter conseguido dessa vez, feito minha filha de boba em suas mãos. Mas esse foi seu gostinho único da vitória, então aproveite. Não pretendo deixá-lo saborear por muito tempo.
Abaixou-se perto da filha e lhe deu um beijo na testa, sendo este o primeiro gesto genuíno de carinho para com Lane desde que me casei com ela.
— Você não serve pra ela. E eu lamento amargamente por ela ter se apaixonado por você. Mas como disse antes, eu vou te esmagar, garoto. Como fiz com seu pai. E o sentimentos que minha filha tem por você não vão me impedir de fazer isso. Mas até lá, espero que você já tenha feito o que faz de melhor: merda. Destruído tudo e a afastando do garotinho medroso, confuso, fraco e obstinado que você é de verdade,
E saiu do quarto, deixando minha mão mais uma vez formigando por vingança.
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