Strada Per L'inferno
77 Vida nova, fantasmas velhos
Notas iniciais
Dois meses depois
Meu coração batia mais forte conforme o avião descia e a pista de pouso ficava nítida. Foram dois meses, dois longos e árduos meses longe de casa.
O plano funcionou, e meu pai realmente acreditava que estava desequilibrada emocionalmente. Com um novo império para gerenciar e um sogro totalmente possesso, e inflexível quanto à ideia de que a filha tinha de ser tratada perto da “família de sangue”, foi acordado que eu passaria dois meses com meus pais antes de voltar para Aaron, com quem eu realmente queria ficar. Eu não tive opção e isso me assustava, ainda que soubesse que amenizar meu pai com algum “agrado” era o mais indicado. Somente a palavra de meu pai não me confortava, e no entanto, era tudo que tínhamos e podíamos pedir.
Fingir o tempo todo ataques, choros e momentos introspectivos e depressivos era difícil e exaustivo. Encenar uma melhora progressiva conforme os dias passavam também. Tive vergonha de mim mesma muitas vezes ao me deparar com o esforço, paciência e dedicação de minha mãe. E somente a certeza de que fora por um bem maior, para salvar aos outros que amava, que me impedia de largar a mentira. Grace ajudava muito também, sendo a minha única confidente e ciente de toda farsa. Poder relaxar por algum tempo, na presença de alguém, e não só da mobília, era essencial para não passar a acreditar em minha atuação, o que por vezes quase ocorreu.
Fazer passeios e voltar a interagir com outras pessoas além daquelas que viviam em casa só passou a acontecer depois que Caitlin veio me visitar. De surpresa, ela passou uma semana comigo, sendo de ajuda real e fictícia. Eu falava com ela e mantinha contato regular com os outros antes, estando por dentro de alguns assuntos. Tê-la em carne e osso em minha frente, no entanto, era incomparavelmente melhor. Ouvir do seu jeitinho como todos estavam com as mudanças que estavam havendo era mais reconfortante do que informações dadas através de bucais de telefone. Matava parte das minhas saudades assim como aumentava minha ansiedade de voltar logo para junto de todos.
Aaron, obviamente, era de quem mais sentia falta. Ele não podia se dar o luxo de ir me visitar, o que nos dava contato só através de ligações e chamadas de vídeo. Falávamo-nos todos os dias no começo, mas depois concordamos que um intervalo de alguns dias ou troca de mensagens seria mais convincente para minha melhora. Minha dependência era um fruto da minha desestabilização e à medida que a mesma era curada, a dependência diminuía até um nível saudável de um relacionamento. Fingir uma recuperação com a pessoa que mais precisava acreditar nela ausente era difícil, porém babbo tinha longos períodos fora de casa e longe de mim, principalmente. E nos poucos membros em que ele parecia disposto a me encarar, não conseguia lê-lo. O homem doce e carinhoso de minha infância estava de transformando na pedra fria e dura que todos falavam.
Não sabia dizer se ele considerava me manter embaixo de sua asa ou me liberar para seguir o combinado. A dúvida crescente e latejante de que considerava mesmo deixar-me voltar para junto de Aaron só cessou quando achei a passagem no criado mudo na semana anterior. Aaron e eu concordamos que era muito estranho ele ter cedido tão facilmente, o que, ao invés de nos aliviar, só nos colocava mais em alerta.
Como se o silêncio de Callum, a nova rotina e o já antes declarado ódio de babbo não fossem o suficiente.
O avião pousou e minhas mãos tremiam, o nervoso queimava em meu estômago, e meus pés não paravam de cutucar o chão. Levantei do assento e tentei alcançar minha bolsa, parecendo patética ao esticar os braços e pular nos saltos agulha. O homem do assento da frente me ajudou e soltei um sorriso constrangido e aliviado em agradecimento. Desci do avião após uma abordagem de uma das comissárias, perguntando se estava bem, passando na frente de uma família com duas crianças pequenas. Eles foram gentis ao me dar passagem, e eu, verdadeira ao sorrir agradecida. Teria de ter muita paciência e autocontrole para não bufar ou cruzar em sua frente de modo mal educado caso ficasse para trás.
A fila do controle migratório parecia não andar e os dez minutos que levei pareceram uma eternidade. Tentei controlar a ansiedade quando fui liberada, cruzando o corredor para dentro do aeroporto em passos relativamente calmos. Os saltos não eram o problema, mas sim o fluxo que me impedia de correr como queria. Uma vez dentro do prédio, minha cabeça não parava de girar. Era um mar de pessoas andando em todas as direções com todos os tipos de bagagem, roupa, acompanhantes para poluir meu campo visual e dificultar a minha procura por ele.
Fui puxada pela cintura, e o grito que soltaria foi abafado por uma manzorra. Meu corpo foi girado e mal tive tempo de encará-lo antes de nossos lábios se chocarem. O grito de surpresa em minha garganta transformou-se no mais profundo suspiro de prazer. A sensação de beijá-lo depois de tanto tempo era indescritível. Meu coração disparava contra o seu, e minhas mãos subiram por suas costas para tocar em seu cabelo e nuca para sentí-los de novo, para confirmar que a textura ainda era a mesma que estava gravada em minha memória. Ele me puxou para cima e entrelacei minhas pernas em seu tronco, gemendo com seu aperto em minhas coxas. Não ligava para o ambiente ao redor, para as famílias que passavam por nós, para as crianças pequenas e os idosos que achavam fofo e indecente. Embora soubesse que coraria se minha desinibição fosse mencionada depois do calor do momento.
Afastei meu rosto do seu, encarando-o. O maxilar definido, o formato oval do rosto, as sobrancelhas grossas, a barba feita, os olhos negros. Mesmo tocando, não acreditava que era de verdade. Um riso inocente, espontâneo, nasceu na lateral esquerda de seu rosto. Seus sorrisos, esses sorrisos, me contagiavam e persuadiam. Sorri de volta e o abracei com mais força, escondendo meu rosto em seu pescoço, sentindo cheiro de que tanto senti falta. As lágrimas, que pensei que não voltaria a derrubar tão cedo depois desses meses, começaram a escorrer. Senti seus beijos em meu pescoço e seu aperto mais forte, o qual retribuí com igual intensidade.
— Oh, casal, estamos no meio do aeroporto!
Afastei-me e olhei por cima de seus ombros, junto com ele. Caitlin nos encarava com um sorriso no rosto, de braços cruzados a alguns passos de nós. Pulei do colo de Aaron e agarrei-a forte, ainda que a tivesse visto há um mês. Rimos juntas, e ela me apertou também.
— Senti sua falta. Não consigo lidar com esses garotos sem você.
— Também senti sua falta — sorri, me afastando. Ela fez uma careta e se afastou para pegar algo na bolsa, me entregando um lenço de papel.
— Não vai querer estar um panda para o Aaron depois de todo esse tempo — concordei, rindo e secando as lágrimas.
Começamos a conversar como se tivesse passado muito mais tempo de separação e, no meio da conversa, notei que Aaron não estava atrás de mim. Caitlin disse que ele foi procurar minha mala e dois minutos depois, ele apareceu com ela em mãos. Sorri aliviada. Ele tocou em minha cintura, passando o braço pela mesma antes de nos conduzir para a saída. Notei os homens se locomovendo de diferentes partes do aeroporto junto a nós.
— São os seguranças — explicou depois de meu olhar preocupado.
— Por que eles não se parecem mais com os homens de preto?
— Porque as coisas mudaram — foi sua resposta.
— Onde estão os meninos? Riley? Pensei que viriam me buscar no aeroporto — olhei ao redor, no lado de fora. Cacei meus óculos na bolsa e me protegi do sol, passando a combinar com os outros dois.
— Estão ocupados. Ainda estamos nos instalando. À noite, vão estar todos em casa.
Ele se aproximou do Porsche, o mais novo bebê de sua coleção. Estreitei as sobrancelhas e parei ao lado do passageiro.
— Onde Caitlin vai?
— Com os seguranças — deu de ombros. Cruzei os braços e o olhei feio, fazendo-o bufar. — O que quer que eu faça? Não consigo materializar um banco pra ela.
— Se você tivesse vindo com um carro menos extravagante e mais prático, não precisava.
— Meu Deus, nem parece que ficaram afastados! Eu vou com os seguranças. Sem problemas. Vejo vocês em casa — me deu um abraço e saiu acompanhada dos guardas.
Lancei um último olhar feio que Aaron ignorou e entrei no carro. Coloquei o cinto, não me esquecendo do pequeno problema de velocidade do motorista.
— Onde fica a casa? — quebrei o silêncio e o possível clima assim que deu a partida civilizadamente.
— Miami Beach.
— Vamos ficar por lá?
— Não. Nick achou uma casa essa semana em Coral Gables. Precisa de umas reformas. Dois meses é o prazo.
— Você já comprou?
— Não podia te esperar, Lane. Quanto antes nos mudarmos, melhor.
— Mas você podia me mandar fotos. Perguntar o que achava.
— E se você não gostasse, eu iria comprar mesmo assim. A localização é ótima e fica dentro de um condomínio fechado.
— Tá, mas eu podia ao menos saber como ela é!
— Te levo lá um dia desses — dobrou a esquerda, fazendo pouco caso e encerrando a conversa.
— E o estúdio?
— Não sei. Caitlin e Riley que estão encarregadas disso — concordei com a cabeça e me virei para a janela.
Miami estava ensolarada, proporcionando o melhor de si aos turistas e moradores. Cangas coloridas, biquínis pequenos e pranchas misturando-se com arranha-céus, carros de todas as gerações e ternos pretos. Senti sua mão em minha coxa, assustando-me de novo naquele dia.
— Vou sentir falta de Nova Orleans.
— Eu também — seus poços escuros e fundos olharam diretamente para as minhas piscinas azuis. Senti um arrepio. Ele voltou a se concentrar na rua assim que o semáforo abriu e o rumo da conversa mudou.
— Gostava do seu cabelo maior.
— Estava muito comprido e eu precisava mudar… até por causa de todo o teatro. Mas não está ruim. Eu gosto. É mais prático.
— Vai ser mais difícil enrolar minha mão nele para puxar.
— Hey. Eu que fico com os puxões!
— Hm… eu sou o cara dos tapas, não? — seu sorriso safado acendeu o meu.
— Aham. E os chupões, nós dividimos.
— Tenho algo bem gostoso pra você chupar hoje.
— Sério? O que seria? — minha mão deslizou por sua perna e apertou perto de sua virilha. Ele mordeu os lábios e riu.
— Um doce grande e largo que se você se comportar muito bem, pode ter antes. Você vai gostar. É o seu favorito.
— Uhmmm… Antes quando, você diz? — curvei-me em sua direção, ronronando em seu ouvido.
— Agora. Enquanto eu dirijo.
Mordi o lábio e o encarei, vendo-o me olhar de rabo de olho. Apertei minha mão de novo e beijei sua bochecha quando achou que iria para seu pescoço.
— Mais tarde, garotão. Quero rever meus amigos antes de morrer.
Ele bufou alto e me metralhou com os olhos, fazendo-me rir.
O resto do caminho foi feito com perguntas respondidas com mau humor e risadas por isso. A casa alugada era na beira da praia, numa rua fechada cheia de mansões. Na frente, tinha um gramado enorme e uma garagem aparente com mais de sete carros de luxo estacionados. Comecei a me perguntar se caberiam o de todos ali, uma vez que Aaron disse que os outros estavam trabalhando. Saí do carro e notei que o carro em que Caitlin viera já chegara.
— Pensei que íamos chegar juntos.
— Eles pegaram um atalho. Eu não gosto daquela parte da cidade — seguiu na frente, não me saciando com a explicação estranha.
Ele abriu a porta de madeira e vidro fosco e um corredor se mostrou. Um lustre discreto decorava o teto e um quadro abstrato, a parede antes da sala. Admirei o espaço por um tempo, a tela plana enorme, os sofás em um semi quadrado e as peças de arte. Gritei quando me pegaram por trás, me colocando o ombro.
— Você não vai me provocar e sair ilesa — murmurou, seguindo para a abertura além da sala ao invés das escadas. Ri, entrando na brincadeira.
— Ah é? O que você vai fazer? Me amarrar na cama? Me amordaçar? Me…
— Wou! Corta, produção! Impróprio para menores!
Gelei e parei de falar. Estávamos do lado de fora da casa, eu só enxergava a fachada de trás da casa, com a janela da cozinha e os arbustos abaixo. Aaron me colocou em pé e quando me virei, havia vários balões ao redor e na piscina e os dizeres “Bem vinda de volta!” escritos com boias. O mais importante, no entanto, era as pessoas atrás da piscina, na frente de uma mesa enorme com comidas. Todos os garotos estavam ali, junto de Riley e Caitlin. Miranda também estava, abraçada a um homem que nunca vira antes. E todos sorriam em trajes de banho para mim.
— Não acredito! Vocês mentiram para mim!
Andei até eles, sendo agarrada no meio do caminho por Zack. Ele me pegou como um quarterback pega uma bola e corre, fazendo-me gritar. E foi assim que me senti ao ser cumprimentada por Dylan também. Embora com esse tivesse direito até a rodopios e declarações mais melosas e provocativas a Aaron. Riley veio junto com Nick, cada um me amassando em um abraço apertado. Ambos tinham um sorriso e uma áurea radiante. Quando chegou a vez de Colin, ele me sorriu sem graça antes de se abaixar e me agarrar, apertando-me contra seu peito de modo que meus pés flutuassem.
— Senti sua falta, feiosa.
— Eu também.
Quando fui solta, seus dedos foram para o topo de minha cabeça, bagunçando meu cabelo tal como um irmão mais velho.
— Ficou legal. Tá com menos cara de pirralha.
— E você está velho com essa barba. Eca.
— Lane!
Me virei e Miranda caminhava até mim com o homem desconhecido em seu encalço. Me afastei de Colin com seu incentivo e recebi outro abraço caloroso, esse como que o de mãe.
— Que saudades, querida! Que saudades!
— Também senti sua falta, Miranda.
— Que bom que voltou! Você faz falta. E está linda! Mais radiante.
— Obrigada. Eu não via a hora de voltar. Estou feliz que chegou — sorri em resposta ao seu carinho.
Senti uma presença atrás de mim seguida de um aperto ao redor de meus ombros. Olhei para cima, para Aaron e seu olhar sempre sério, até em família. Abracei-o de lado também e beijei seu braço.
— Não diga nada sobre minha profissão — murmurou, confundindo-me, antes de Miranda voltar a me chamar.
— Lane, quero que conheça Teodor. Teodor, essa é minha enteada, Lane.
— Como vai? — o homem na faixa dos quarenta estendeu a mão para mim, sorrindo.
Sorri de volta e apertei sua mão. Ele tinha o cabelo salteado de branco e uma aparência conservada. Era um homem bonito.
— Miranda me contou maravilhas sobre você.
— Ela foi muito gentil, tenho certeza.
— Não fui. Fui sincera. Lane é praticamente uma santa para aturar meu filho.
Ri e apertei mais Aaron, com a cara ainda mais fechada. Teodor sorria educado, as mãos no bolso.
— Querido, por que não mostra para Teodor a garagem? Ele é louco por carros também, e vocês tem uma coleção praticamente.
— Não precisa, Miranda. Eu já os vi quando cheguei…
— Vamos. Eu não mordo — Aaron se soltou de mim, a expressão inalterada e o tom nem um pouco mais simpático. Teodor sorriu, dessa vez com um que forçado, e se despediu de nós antes de acompanhar o outro. Observamos ambos desaparecerem para dentro da casa e Miranda suspirou quando as sombras não eram mais vistas.
— Aaron não gosta de Teodor e nem tenta fingir que sim na frente dele.
— Aaron é difícil.
— Eu sei — passou a mão nos cabelos e sorriu triste. — É que faz tanto tempo em que ele não me vê com alguém…
— Ele já é crescido e você merece alguém, Miranda. Aaron aprenderá a lidar com isso. Senão, eu posso lhe dar uns puxões de orelha.
— Ah querida! — riu, me abraçando rápida e carinhosamente. — Obrigada. Espero que esteja certa. É que… a morte do pai dele foi tão dura para nós dois e ele nunca superou isso. Me ver, mesmo depois de todos esses anos, com alguém, relembra o pai e é difícil para ele.
— Vocês nunca falaram sobre o pai dele... — comecei, jogando verde.
Um dos mistérios de Aaron que mais matutava em minha cabeça nos últimos tempos era seu pai. Nunca uma palavra foi dita sobre o mesmo e nunca procurei saber também. Meus meses longe, no entanto, fizeram-me pensar muito mais sobre seus segredos e na minha determinação em voltar e colocar um ponto final em todos eles. Ou pelo menos tentar.
Miranda manteve o sorriso, forçando a simpatia como o companheiro logo antes e me mostrando que aquele assunto não lhe agradava. E como a sorte nunca joga do meu lado, as garotas interromperam nossa conversa para me mostrar a casa. Um tanto relutante, acompanhei-as, notando o alívio na expressão de Miranda quando passei pela mesma porta que o filho e o namorado.
A casa se assemelhava muito à de Nova Orleans no tamanho e isso era tudo. A cozinha e a sala de jantar seguiam um conceito aberto e havia uma sala de jogos e um salão no andar de baixo. Os quartos e o escritório eram no andar superior. Dylan e Caitlin estavam morando provisoriamente conosco, até nossa casa ficar pronta, e a deles também. Os outros moravam junto também, em uma casa a dez minutos daqui. Os quatro quartos se dividiam em um de hóspedes, o escritório, o de Caitlin e Dylan e o meu e de Aaron, que foi apresentado por último.
— E esse é o seu ninho de amor. Espero que não seja muito barulhento — piscou para mim antes de abrir a porta.
Era um espaço enorme, com uma cama king size no meio. Esse ambiente era o que mais lembrava a casa anterior, exceto pela disposição das coisas. Do lado esquerdo, ficavam duas portas, e no direito, um enorme sofá na parede e uma televisão em frente a cama. Um divã ficava aos pés da mesma e as cortinas tinham o aspecto fluído e a cor idênticos.
— É lindo.
— Espera só então ver o quarto da outra casa. Sem nada já bate esse.
— É verdade. É coisa de filme.
— Bom, minha vida está parecendo um filme em muitos aspectos ultimamente, então… — sentei no divã e tirei os saltos.
— Nem pense em descansar. Pode ir levantando para escolher um biquíni porque eu não organizei uma festa na piscina pra você ficar de fora.
Gemi e fechei os olhos, me deitando com uma almofada no rosto. Riley riu enquanto a outra maluca continuou a tagarelar dentro do closet, escolhendo para mim o bendito biquíni que segundos atrás eu ia escolher.
— Você está bem? — Riley sentou na ponta da cama e me encarou. Sorri e confirmei com um aceno.
— Estou feliz de estar de volta.
— Você faz falta. Todos sentiram muito isso. O clima era outro até.
— Eu também senti falta de tudo e todos. Essa se tornou minha rotina, minha família, e foi estranho e torturante estar afastada.
— Aaron foi o que mais sentiu sua falta. Ele era outra pessoa. Calado, na dele…
— Seu marido nem parecia ele mesmo — Caitlin voltou do closet com algumas peças na mão.
Engoli em seco, pensando pela primeira vez desde o embarque no que ela disse. Aaron não era mais meu marido. Nem sabia se um dia ele foi mesmo. O contrato era cheio de pormenores que nunca cheguei a saber, apesar de estar louca para perguntar. De qualquer modo, o que temos não tem mais um rótulo. Ele era o homem que eu amava e com quem vou morar. Simplesmente isso, o que, para mim, não era o suficiente, mas era o que tinha.
— Ele não é mais meu marido — murmurei com um sorriso murcho.
— Ah… é verdade. Me esqueci. Desculpa.
— Tudo bem. Nós estamos juntos e isso que importa — meu sorriso forçado me entregou. Ela suspirou e se sentou na cama também.
— Você não me engana. Isso te chateia, né?
— É estranho — admiti arranhando o estofado. — Nossa relação não tem mais uma definição. Eu sei que isso não significa nada, porque eu ainda o amo igual, e ele também, mas… não sei. Isso me incomoda mesmo.
— Você se sente insegura.
— Sim. Um pouco.
— Lane, isso é besteira. Eu entendo, mas como você mesma disse, vocês se amam. Nesses dois meses em que vocês não eram nada um do outro e ficaram afastados, ele foi mais “marido” do que nos primeiros meses do casamento de vocês. Tudo bem, vocês eram desconhecidos um para o outro praticamente, mas o que une vocês não é um pedaço de papel.
— Eu sei. Eu sei que é besteira minha, mas não consigo evitar. Talvez porque seja tudo muito recente.
— Acho que é isso. O fato de vocês não serem “nada” te incomoda por ser novo. Mas você vai se acostumar. Também acho que essa “falta de rótulo” vai ser temporária. Aaron deve te pedir em namoro ou algo assim logo.
— Concordo com a Riley. Ele vai te pedir logo, tenho certeza. Apesar se que, se isso acontecer, eu ainda vou ver o que vocês têm como algo a mais. Namorados é pouco para os dois.
— Nós somos mais. Eu sinto isso. Mas me sentiria melhor com um rótulo. Assim, sem nada, parece que será mais fácil rompermos.
— Meu Deus! Você está na TPM ou delirando de cansaço. O Dylan me engravida antes de você largar o Aaron e ele deixar, ou o contrário! E como não está nos meus planos atuais fazer meu útero de piscina olímpica para os nadadores do meu namorado, vocês vão durar muito ainda.
Riley e eu gargalhamos e fui obrigada a concordar que estava exagerando. Não seria uma mera nomenclatura que nos enfraqueceria.
— Como estou? — apareci minutos depois na porta do banheiro com um dos biquínis. Preto, com tiras abaixo do seio e nas laterais da calcinha. Ele era um comportado, básico com um toque a mais.
— Ficou ótimo. Aaron vai gostar, com certeza.
— Gostar? Ele vai ter uma puta ereção. Depois de dois meses sem sexo, se ele já não ficou de pau duro com ela, vai ficar agora.
Corei e ignorei Caitlin com um riso. Terminamos de nos arrumar e vesti uma das camisetas de Aaron antes de descer. Seu perfume me abraçou e rodeou enquanto redescobria a casa nova.
— Finamente! Venho pra ter ver e você some — Zack me parou na porta com um cerveja em mãos. As meninas se afastaram e Caitlin logo se grudou com o namorado.
— Fui colocar um biquíni, afinal isso é uma festa na piscina, não?
— Tá perdoada, então.
Olhei ao redor, e Miranda e Teodor conversavam com Colin, enquanto Aaron estava mais afastado com Nick. Eles conversavam em cadeiras de sol diferentes, e ele estava com um cigarro entre os dedos. Estreitei os olhos e Zack riu atrás de mim quando caminhei até os dois.
— Já vai levar uma dura da patroa…
— Aaron.
Ele levantou os olhos e parei ao seu lado, cruzando os braços. Nick riu e se levantou, batendo em seu ombro com um “boa sorte”. Ele passou os olhos por desde meus dedos do pé até meu cabelo preso no alto da cabeça. Por alguns segundo, ele pareceu enfeitiçado.
— Você não vai fumar na minha frente no dia da minha volta, vai?
Voltando ao normal, bufou e esfregou o olhar com o dorso da mão.
— Se você continuar irritada e seminua na minha frente, vou — molhou os lábios. Revirei os olhos, contento o pequeno sorriso que queria despontar.
Me aproximei e peguei o tal cigarro, notando que nem cigarro normal era.
— Sério? Maconha? Sua mãe está ali do lado! — apaguei-o e joguei dentro de um copo vazio no chão.
— Me relaxa, okay? Já que alguém mal chega, me deixa de pau duro e me recusa um boquete.
— Que drama — me aproximei e sentei-me em seu colo, vendo sua cara feia ao passar os braços por seu pescoço.
— Mais tarde, eu faço o que quiser. Mas não faz mais isso, por favor. Sua mãe está do lado com o namorado dela… — ele me interrompeu com um riso de escárnio.
— Um quarentão esnobe pra quem ela mente para poder ficar.
— Ei! Ela gosta dele, e ele parece legal.
— Ele é um otário.
— Sua mãe gosta dele. Você só está implicando porque tá com ciúmes.
— Eu não…
— Está sim. É normal e fofo ficar com ciúmes e querer protegê-la, mas precisa saber quando parar. Eu falei com ela. Ela está feliz, mas você estraga isso sendo um babaca. Dá uma chance pra ele, vai. Por sua mãe.
— Você não entende, né? Isso não vai dar em nada. Ela mente pra ele, e se ele descobrir a verdade, além de magoá-la, pode se tornar uma ameaça pra gente. Só pode acabar em merda isso.
— Você não sabe. Pode acabar com eles juntos.
— Lane, não…
— De qualquer modo, essa é a vida dela. Ela sabe o que faz. Não arriscaria trazer um cara qualquer para cá. Ela te ama antes de tudo e não seria imprudente a esse ponto.
— Não sei. Depois de tantos anos…
— Nem termina essa frase. Para com isso. Se continuar, quem vai ficar anos sem será você.
— Você não ousaria — estreitou os olhos.
— Ah é? Se continuar tratando o Teodor dessa maneira, você vai ver.
— Você não conseguiria — seu rosto chegou mais perto do meu, nossas respirações se enroscando enquanto sua mão subia por minhas costas, dentro da camiseta. Seus dedos pegaram o nó do biquíni e eu sussurrei ao pé de seu ouvido.
— Não sou que já estou excitada por mera troca de palavras — me remexi em seu colo, sentindo seu membro já petrificado.
Ri baixo de seu rosnado, escondendo o rosto em seu pescoço e tentando levantar sem sucesso. Decidi provocar mais, beijando sua pele, dando leves chupões e levantando o sorriso sacana para encarar de frente seu martírio. Claro que Aaron não ia deixar barato e ele roubou-me um beijo ardente e bruto, cortando o meu barato quando comecei a interagir. Chupando a pele perto da orelha, devolveu na mesma moeda:
— A gente vai pro quarto agora e eu vou te foder sem me preocupar se a minha mãe ou a porra do…
— O CANAL PORNÔ TÁ ABERTO, GALERA!
Aaron bateu a mão na cadeira e virou o rosto para o amigo com os olhos assassinos. Antes que dissesse algo estúpido, ou comprometedor na frente de Teodor, peguei o seu rosto e virei para mim, lhe dando selinhos entre risos.
— Vamos parando com a putaria que agora a Lane é nossa. À noite, eu e Caitlin até vazamos para vocês batizarem a casa toda — me puxou do colo de Aaron, fazendo-me rir, e o outro fechar a cara e se ajeitar no banco. Isso causou mais brincadeiras entre os amigos.
— Lane! — Miranda veio em minha direção com o namorado atrás.
— Temos que ir. Teodor tem um jantar mais tarde e vou acompanhá-lo.
— Tudo bem. Vocês virão outro dia para almoçar conosco, não? Não pude matar minhas saudades e conhecê-lo bem.
— Adoraríamos — ele respondeu e ela assentiu, sorrindo ao abraçá-lo.
Depois de se despedir e insistir que não precisa de cerimônias para sair, a piscina virou uma zona jovem.
— AGORA A FESTA VAI COMEÇAR, CAMBADA!
O som foi ligado, e Zack e Dylan começaram a fazer uma dança de comemoração ridícula e hilária. Gargalhei, sendo abraçada pelos ombros logo em seguida e achando Colin com um copo estendido para mim.
— Bebe. Você vai gostar.
— Querendo me embebedar, idoso?
— Respeita os mais velhos e bebe logo.
O gosto era doce, com a típica queimação do álcool no final. Ele estava certo: era bom.
— Nada mal.
— É como dizem: os mais velhos são sábios.
— Está se achando com essa barba aí. Você não é nem dez anos mais velho.
— Mas eu já escrevia e lia quando você nasceu.
— Nem espera mais as amigas para encher a cara — Caitlin fez biquinho, porém segurava um copo também.
— Hipócrita. Você já está bebendo!
— Mas eu sempre bebo. Você não, o que torna esses momentos especiais e dignos de compartilhamento.
— Sem briga, gatas. Agora é o momento de exporem suas belezas pro titio aqui na água — Dylan passou os braços por meu pescoço e de Caitlin. Ela lhe deu um soco no ombro.
— Não dê em cima da minha amiga e mulher do seu amigo, galinha.
— Não estou. No meu coração só existe uma, e é você. Mas meu campo visual é grande e tem espaço para mais… — gargalhei e olhei ao redor, enchendo a boca com a doce queimação novamente.
— Onde está Aaron?
— Ele subiu agora a pouco — Colin apontou para o segundo andar. — Foi resolver o problema que criaram…
Sorri maliciosa e ele riu, entendo o que faria. Me soltei de Dylan e andei para dentro da casa, tentando me lembrar a porta exata do quarto. Depois de mais dois goles e um palpite errado, encontrei a suíte vazia. O som do chuveiro era o único barulho além da música alta no andar de baixo. Terminei o copo e deixei-o no criado mudo, tirando a camiseta e caminhando até o banheiro.
O vidro estava embaçado, mas a forma de seu corpo era visível. Conseguia distinguir também seus movimentos e os sons que fazia. Parece que nem sempre o orgulho leva a melhor…
— Quer uma ajuda? — abri o box com um sorriso safado.
Aaron pareceu genuinamente surpreso, me olhando de olhos arregalados com “a mão na botija”. Claro que isso não durou muito, pois logo ele me fuzilou e trincou os dentes. Ignorei e entrei no box.
— Quem diria que o cara que sempre se vangloriou nunca precisar disso estava fazendo exatamente isso.
— Você é uma filha da puta. Me deixa assim e depois vem tripudiar — prendeu meu corpo contra a parede, seus braços servindo de barra.
— Eu não vim tripudiar. Eu vim ajudar. É só pedir com gentileza.
— Que tal essa gentileza? — encostou seu corpo no meu, pressionando, enquanto sua mão descia até minha bunda, apertando-a sem gentileza. Gemi, provocando-o.
— Não. Muito rude ainda — riu, descendo a boca em seguida para meu pescoço, voltando a marcar o local como bem entendia.
O resultado da brincadeira foi vários gemidos altos e deliciosos e meu corpo todo molhado e marcado.
— Nunca pensei que ia sentir falta de alguém roubando minhas roupas.
Aaron saiu do closet com outra bermuda e cueca, o tanquinho à mostra brilhando com algumas gotas d’água. Sorri e abaixei o pente.
— Elas tem seu cheiro — abracei-me. Ele se aproximou e me segurou pelas ancas.
— Prefiro depois que você as usa. Ficam com o seu cheiro — e me beijou delicadamente pela primeira vez depois de minha volta.
— Acho melhor voltarmos. Senão eles aparecem aí.
Quando voltamos de mãos dadas e molhados, foi inevitável as piadas e as insinuações que me deixavam feito pimentão. Ri junto a eles, vendo Aaron se render também algumas vezes. Dei alguns beijos para acalmá-lo diante das brincadeiras sobre meu corpo e fui jogada na piscina pelos paspalhos que defendi. Mais copos foram me dados e, dessa vez, não fiz tanta vista grossa em relação ao baseado que passava de mão em mão. Riley, Caitlin e eu improvisamos uma dança, o que rendeu algumas caras feias, elogios, mãos bobas e muitas risadas. Quando o sol se pôs, já estávamos levemente bêbados e com planos de continuar a festa em alguma boate da cidade.
— Eu vou pegar mais bebida lá dentro — levantei do colo de Aaron lhe dando um selinho.
— Já não bebeu demais? — segurou meu braço, me olhando e falando com seu jeito mandão. Revirei os olhos.
— Não. Eu sei me cuidar, okay? — me abaixei e sussurrei em seu ouvido. — E quanto mais bêbada eu estiver também, melhor será sua noite.
Ele me olhou feio, mas me soltou. Soprei um beijo e entrei na casa. Não sabia bem onde ficavam as coisas, por isso me atrapalhei e quase deixei cair uma travessa do armário. Fui salva por Alfredo, que passava no corredor bem naquele instante.
— Obrigada.
— Não há de que, senhora — colocou a travessa de volta no armário.
— Como vai, Alfredo? Não te vi quando cheguei.
— Estava fazendo alguns trabalhos para o patrão. Estou bem. Espero que a senhora também.
— Depois desse senhora, não muito. Mas já desisti de tentar te fazer largar esse hábito — abanei a mão e peguei a garrafa de vodca. — Está indo procurar o Aaron?
— Sim.
— Se for sobre trabalho, será que tem como esperar? Sei que andam muito ocupados, mas ele estava precisando relaxar um pouco e não quero que volte tão depressa a se estressar.
— Não, não é sobre trabalho, senhora. Tem uma mulher na porta desejando falar com o patrão.
— Uma mulher? — arqueei a sobrancelha. Abracei a garrafa e observei-o confirmar com a cabeça na cozinha que caminhava para a escuridão total.
Levantei as costas e coloquei a garrafa de volta na bancada. Estava ébria o suficiente para deixar o ciúmes fluir junto a autoconfiança, destronando a sensatez.
— Eu a atendo, então.
— Acho melhor eu chamá-lo, senhora. Ela pediu expressamente para…
— Eu vejo quem é, resolvo o problema se puder e o chamo caso seja necessário. Vamos.
Ele hesitou, mas meu tom e olhar o fizeram recuar e me acompanhar até a porta e a tal mulher.
POV Aaron
Assisti Lane desaparecer pela porta rebolando inconscientemente, provocando uma reação nada involuntária no meu pau. Ela já estava alta e desinibida, vestindo só aquela camiseta molhada para piorar. A rapidinha do chuveiro não fora o suficiente para matar as saudades e o fato de a ver desfilar a tarde toda com pouca roupa na minha frente só me deixou mais desejoso.
— Tá amarradão, né? — Zack me passou o copo, sorrindo malicioso. Ignorei-o.
— Nosso marinheiro se encantou pela sereia e pulou no mar — Dylan passou o braço por meu pescoço, rindo com os outros.
— Que tal cuidarem das suas vidas?
— Grosso. Não sei o que a minha amiga viu em você.
— Meu pau — sorri sem dentes.
— O gravetinho dele. Relaxa amor, você está melhor servida — puxou-a para seu lado.
— Lane te ama bastante para fazer tudo que fez e faria — Riley soltou do nada, me chamando a atenção.
Não a respondi. Tomei um grande gole de bebida no lugar.
— Você tem sorte, Aaron. Só não a reconhece.
— Grande sorte a vida de merda que tive — ri de escárnio. Nick balançou a cabeça, antes de acrescentar com simplicidade.
— Então alguém lá em cima decidiu te recompensar por tudo.
Não respondi, mas Colin sim, me irritando.
— E eles pediram para você não cagar com tudo de novo porque do tipo devota está em falta.
— Ei, qual é, pessoal? A Lane voltou, estamos bêbados e em festa! Sem papo sentimental. Hoje só encher a cara por todos esses dias de trabalho!
— Acho que a Lane foi engolida pelo armário — Caitlin riu e se virou para a cozinha, gritando pela amiga. Não houve resposta.
Ela riu mais e começou a murmurar um monte de coisas sobre estar bêbada e entrou na casa também. Dylan voltou a apertar meu pescoço, sorrindo.
— Hoje a casa será de vocês, irmão. Podem transar em todos os cômodos. Menos na minha cama e na cozinha, de preferência. Não quero comer sua porra.
— Pode deixar. O seu quarto será o primeiro lugar.
Começamos a discutir besteiras e quando, de canto de olho, vi as duas retornarem, encarei-as. Mas não achei a garrafa de vodca e o sorriso fácil e contagiante. Lane estava séria, parecendo assustada. Ela se aproximou e parou em minha frente, engolindo em seco.
— Tem uma mulher na sala querendo falar com você — murmurou. Arqueei a sobrancelha e deixei a bebida de lado.
— Ei, tá tudo bem? — a puxei e a deixei entre minhas pernas. Segurei-a pelos quadris e comecei a acariciar a base de sua coluna. Sua expressão continuou inalterada.
— Gata, cadê a bebida? Eita, aconteceu alguma coisa?
— Ela tá bem?
— Ela tá com cara assustada. Será que foi a maconha?
Lane ignorou todos os questionamentos, e eu também, continuando a encará-la atrás de uma resposta. Fechando os olhos, ela inspirou fundo e apertou os lábios, que começavam a tremer.
— Acho melhor você ir ver… — tentou se soltar. Me levantei e a segurei pelo rosto, impedindo-a de fugir.
— Olha pra mim. Lane, agora — seus olhos azuis me obedeceram e estavam marejados. — O que foi? O que aconteceu? Tem a ver com essa mulher? Se ela for uma puta dizendo que ficou comigo, você sabe que é merda….
— Ela é da assistência social. Ela diz estar com seu filho e da Sienna.
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