Storm Owls
2 Reunião emergencial
Menos de uma semana depois da abertura dos jogos olímpicos de 2032, as coisas começaram a ficar agitadas em Neo Arcadia.
Neo Arcadia é uma cidade-estado “filha bastarda” de Neo Atlantis. Surgiu inspirada na própria, a grande primeira nação autossuficiente do mundo.
A ideia original era dar aos cidadãos uma qualidade de vida tão boa quanto em Neo Atlantis, mas com leis bem menos rígidas e paraísos fiscais. Ou seja, tentar ser mais utópico que uma já estabelecida quase-utopia.
Mas, algumas coisas não saíram do papel. Em alguns pontos, Neo Arcadia é mais desenvolvida e rica que Neo Atlantis, mas possui um contraste social enorme. Ou você é muito rico, ou você é bem pobre.
No lado pobre da cidade, as pessoas vivem em edifícios colados uns aos outros, quase como “favelas mais civilizadas”, sendo disfarçada a pobreza com extravagantes anúncios em neon e hologramas.
Dentre os inúmeros ricaços lá, destaca-se que 6 das 10 famílias mais ricas e influentes do planeta vivem lá e usufruem do luxo em prédios e mansões reluzentes, de arquitetura extremamente extravagante.
A cidade-estado também é flutuante no mar e fica a menos de 100 quilômetros de Neo Atlantis. Ou seja, fizeram de tudo para copia-la. Mas diferencia-se o grande e cruel vão no meio da cidade, do lado rico para o lado pobre, conectado por diversas pontes. E, entre esse vão, existem pequenas ilhas que servem de parques para lazer.
Na parte rica da cidade, um clã de switchers conseguiu muito dinheiro e influência, os Storm Owls. Liderados por Jonathan, quieto e respeitado líder e o homem que fundou o maior, mais caro e luxuoso cassino da cidade. Sendo um dos maiores cassinos do mundo e atração turística. O grande Coruja de Ouro.
Porém, por trás da cortina do cassino e no submundo switcher, o clã é mal visto por diversos outros clãs da cidade, pelo rumor de que só existe uma regra dentro do clã: a ausência de regras.
...
— Okay, é melhor isso ser importante. — Anna reclamou, adentrando a sala a de conferências, com suas mãos no bolso de sua jaqueta de couro, na qual ela usa quase o tempo todo.
— Sabe, ninguém te interrompe quando você tá roubando corpos, Cat. Por que interromper o nosso lance? — Jesse entrou esbravejando, seguindo Anna.
— SILÊNCIO! — o líder do clã disse, imponente. Graças a sua aparência de guerreiro medieval escocês, Jonathan, apesar de ser normalmente uma pessoa calma e quieta, é um tanto temido. O que, graças a isso, fez-se um silêncio em que parecia que até o ar-condicionado da sala estava obedecendo. — Acomodem-se. Isto é importante. — disse, com sua voz calma normal. — E me desculpe por me exaltar. É que a situação é... preocupante.
Anna e Jesse se acomodaram em suas devidas poltronas. Das dez poltronas organizadas em um círculo e feitas de detalhes dourados e acolchoado tão rubro quanto o cabelo e barba do líder do clã, dois lugares estavam vazios, em frente à mesa redonda feita de jacarandá e com detalhes de platina.
— Onde estão os moleques? — Jesse perguntou a seu líder.
— Hoje é o dia deles de ficarem de chefes de segurança no cassino. — Respondeu, Jeff. Considerado membro do clã mais “certinho” e arrumado, sempre com seu terno cinza e gravata borboleta amarela.
— Para isso servem hologramas. — Ouviu-se a frase saindo de um dos microfones embutidos na mesa.
A imagem dos dois switchers foi projetada nas duas poltronas vintage vazias que restavam.
— Agora que estamos todos aqui, eu preciso falar com vocês. — Disse Jonathan em um tom apreensivo e tirando seus óculos. — Vocês certamente sabem que a existência dos switchers foi revelada ao mundo há menos de uma semana, na nossa querida cidade vizinha.
Todos os membros do clã assentiram e prestaram toda a atenção no sábio líder do clã falar, enquanto gesticulava com as mãos.
— Mark, o líder do clã que estava no duelo é um antigo conhecido meu e amigo de correspondência. Ele disse que as coisas vão ficar feias lá e que tendem a ficar aqui também. — Fez uma breve pausa e fitou seu olhar no livro que deixara na mesa. — Alguns clãs podem sair em uma onda de terror pela cidade, para afirmarem sua “superioridade” sobre os regulares. Mas, isso é o de menos... — mais uma pausa e esfregou sua mão onde deveria estar seu queixo, coberto pela espessa barba rubra. — Temo que os falcões estejam planejando um ataque.
— Um ataque? Pensar nisso é absurdo. Acalme-se, John. Nosso QG fica no septuagésimo andar de um prédio que nos pertence e que o térreo é um cassino extremamente frequentado e ponto turístico da cidade. Fazer isso seria estupidez. — Camila tentou confortar seu preocupado líder, como sempre, por ser a que mais se importa com todos os membros de seu clã, sua família.
— Estupidez? E não foi estupidez montar a abertura do maior evento esportivo do planeta como um coliseu? Esses tais de Hounds eram deliquentes para os padrões de lá. Vocês sabem muito bem que se não fosse por nós e outros clãs, os falcões já teriam revelado a existência dos switchers ao mundo muito antes dessa palhaçada que esse clãzinho aí quis armar. — Retrucou, tentando manter a compostura, mas estando visivelmente alterado.
— Eu não havia pensado nisso... — Falou cabisbaixa.
— Não, tudo bem. — Jonathan tentou amenizar a grosseria que havia feito, enquanto massageava suas têmporas, para aliviar sua dor de cabeça. — Eu fiquei a noite toda acordado paranoico com isso. Fiquei interceptando sinais de rádio e olhando câmera de segurança. Desculpa meu mau humor.
— Você só tá preocupado com a gente, velho. Relaxa — Marcus tentou consolar o respeitado switcher. Marcus, que é o mais novo membro do clã. “Novo” para padrões switchers, significa que ele entrou para o clã há “apenas” umas duas décadas. Ele era um dos dois falando através da transmissão holográfica.
— Agora todos vocês vão tentar me animar. Eu realmente não quero isso. Então, acho que eu deveria dormir. Só tomem mais cuidado daqui em diante. Isso é tudo. — Reforçou sua preocupação enquanto se levantava da poltrona. Dirigiu-se para fora da sala. — Tirarei um cochilo. Não queimem a mansão, enquanto isso. — Brincou, entre bocejos.
— Sorte a sua que não estou na mansão. Senão, eu a queimaria mesmo. — Arthur brincou de volta. Ele também estava na transmissão holográfica e, assim como Marcus é um dos “caçulas” do clã, e foi o penúltimo membro a entrar. Mas, diferente de Marcus, que sabe equilibrar bem momentos de seriedade e brincadeira, não é incomum alguém dar um soco nele, para dar um fim a brincadeiras.
— Hahaha! Não duvido que você consiga botar fogo nela mesmo à distância. — Ouviu-se a voz de Jonathan ecoar do corredor.
O silêncio invadiu a sala, junto de um clima pesado. Mas Anna quis quebra-lo.
— Ei, Callie, Richard. — Anna chamou a atenção dos dois switchers. — Por que ficaram calados?
— É estranho ver o Jojo daquele jeito. Eu não sabia o que dizer ou fazer. — Calliope explicou. — E se ele estiver certo? — ponderou.
— Você passa tanto tempo com ele na biblioteca que até contraiu as paranoias. Calma, garota. Estamos todos seguros e temos uns aos outros para nos protegermos.
— Acho que você está certa... — concordou, mas relutante.
— E você, Richard? Algum falcão comeu sua língua? — Anna brincou.
— Eu fiquei pensando em como meter a porrada naqueles desgraçados. — Respondeu, com um olhar claro de ânsia para violência.
— Que linguajar. E você sabe muito bem que não os enfrentamos até agora porque iria causar muito problema. Quer mesmo destruir um enorme tempo de dedicação para manter a paz? — Argumentou.
— Se tudo tá indo pro inferno, de que adianta? — Retrucou.
— Whatever, cara. Você e seu temperamento explosivo nunca vão mudar. — Disse, soltando um suspiro. — Só não faça bobagens.
— Só farei com as ordens do chefe. — Ao terminar a frase, levantou-se da poltrona e dirigiu-se à porta. — Vocês sabem aonde me encontrar, caso qualquer coisa.
— Sala de treinamento, como sempre. — Anna respondeu-o.
— Cat, você que nos perturbou, também nem fez nenhuma colocação. — Jesse fez uma observação.
— Não achei necessário. E, agora, se me dão licença, tenho mais vítimas para caçar. — Levantou-se da cadeira. E foi em direção à porta, mas, antes de atravessar a futurística porta que abre automaticamente, Anna se levantou rapidamente e agarrou-a pelo braço. Braço no momento de um musculoso homem, que fora sua última vítima.
— Para com isso, Cat. Ou ao menos diminui. Tá ficando fora de controle. — Advertiu.
— Você não faz ideia de como é ter a Vicious Switch, garota. Melhor ficar quietinha. E, desde quando você ou alguém aqui tem código ou consciência moral?
— Não é isso. Você está chamando atenção, graças aos desaparecimentos. Sem contar que parece estar piorando. Você está ficando mais viciada. O Jonathan pode tentar te ajudar e todo mundo aqui também está dispost — Anna não pode terminar sua frase, pois Catherine balançou bruscamente o braço, fazendo-a soltar e pôs-se a andar de novo.
— Não vou ouvir mais baboseira de você. — Catherine falou hostilmente.
— Tá bem. Mas, você não pode esquecer... — respondeu com voz grossa, fazendo Catherine virar-se e olhar para trás. Ela fitou nos olhos de Anna, agora completamente séria. — O clã sempre vem primeiro. E isso pode prejudica-lo. — Completou.
— Hump. — Respondeu, bufando e voltou a seguir seu rumo.
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