Storm Owls
3 Catherine
Andando com passos ferozes e enfurecidos, ela chega à porta da mansão, um elevador expresso que a levará até o térreo, o cassino.
Catherine Williams, 78 anos. Inglesa, nascida em Brighton. Com apenas 13 anos, efetuou sua primeira troca, por acidente. Concentrou-se de mais no garoto de sua escola que ela gostava e, de repente, estava em seu corpo. Junto disso, experienciou sua habilidade — ou maldição pela primeira vez: a Vicious Switch.
O elevador expresso desce em uma velocidade alarmante, mas ela nunca se assusta. E o corpo desse homem, provavelmente seu nome era Roger, pensou, estava começando a incomodar. Mas, não é por isso que ela quer roubar mais um corpo.
Com um delicado bling, em contraste à bruta decida, a porta do elevador se abre. A vista é a de sempre: máquinas de caça níqueis e inúmeros outros jogos de azar, a estrutura interna com detalhes de tinta dourada e outros metais nobres, bebida e drogas por tudo quanto é lado, strippers andando livremente, etc. Mais um dia de rotina. Mais uma terça-feira. Não é à toa que algumas pessoas de Neo Atlantis se referem a Neo Arcadia como Sodoma.
Como uma predadora — uma coruja na noite, porém em meio a luzes douradas, ela sai à procura de alguém. Alguma mulher que cairia na lábia e no charme do garanhão que ela havia tomado o corpo.
Seus alvos são específicos. Ela observa o comportamento de pessoas em diferentes jogos. Ela sabe dizer quando a pessoa é turista, se tem família ou não, se tem amigos, se está acompanhada, se está esperando alguém, se está embriagada, etc. Tudo isso sem falar com a pessoa, somente observando e escutando atentamente. Mas, isso não são habilidades de um prodígio, e sim de uma caçadora experiente.
...
— De onde você é? — A mulher chega de repente e tenta chamar a atenção de Catherine, em meio à danceteria.
— Brighton. — Respondeu alto, para tentar competir com o volume da música.
— Brighton? O que uma garota de uma cidade certinha está fazendo em uma discoteca aqui em Edimburgo?
— Nem eu sei. Digamos que eu... err... eu fugi de casa com 15 anos. Sou da vida, entende? — Falou alto e deu um sorriso para a mulher.
— Bom, prazer, Clara.
— E eu me chamo Catherine.
— Quer ir pra um lugar mais privado? Sabe, pra conversar direito?
— Por que não, né?
As duas saem da danceteria e vão ao apartamento de Clara. E, de novo, Vicious Switch. Mas, dessa vez foi diferente.
...
— Com dificuldade nessa máquina aí? — o homem forte de camisa de gola v apertada e cabelo endireitado se apoiou com o braço direito na máquina de caça-níquel ao lado e dirigiu-se a uma jovem que não aparentava ter muita sorte em sua própria máquina.
— É. Uma droga. Sou completamente azarada — Disse a jovem, sentada no banco em frente à máquina, mas quase não conseguindo se manter sentada direito, por estar bastante alcoolizada.
— Sabe, eu trabalho aqui. Posso te ajudar. — disse ele, jogando sua lábia.
— Você e todos os outros homens aqui. — a jovem ironizou.
— Não, sério. Olha. — ele mostrou seu crachá rapidamente, sem dar tempo da jovem perceber o nome que estava escrito ali. — Acredita agora?
— Uau. Então, eu preciso de uma ajudinha aqui, sabe... — falou a jovem, colocando seu dedo no peito do homem.
— Que tipo de ajuda com a máquina? — ele perguntou, sorrindo.
— Ah, não é com a máquina... — insinuou que poderia ser outra coisa.
...
Chorando em cima de seu antigo corpo, ela não aguenta mais sua maldição. Mais uma vítima: Clara. Mais uma vítima de algo que ela não entendia. Que ela pensava ser bruxaria. Ela não aguentava mais.
Subiu no parapeito da varanda do apartamento, que se localizava no vigésimo andar e planejava se jogar lá de cima, já que suas tentativas de cortar suas veias e artérias do braço não dão certo, devido a uma estranha regeneração repentina.
...
— Então... senhor funcionário... aonde vamos? — A jovem embriagada pergunta para o homem.
— Sabe, ninguém supervisa os banheiros aqui. Política da casa. Então, você escolhe.
— Acho que... no feminino. Se isso não for ferir sua masculinidade, é claro. — disse ela, com uma voz boba.
— Nem um pouco, querida.
...
Aquele era seu momento final. Um último grito de ódio ao mundo que a amaldiçoou e ela pularia.
— Adeus a todos vocês, seus escrotos! — disse com todo o ar em seus pulmões, ou nos pulmões de Clara. Morreria de vestido, salto alto e maquiagem borrada. Mas, seria ela quem morreria ou Clara?
...
A mulher sem nome pegou o homem pela mão e o levou até o banheiro feminino. Os dois se beijaram apaixonadamente e entraram em uma cabine. Trancaram a porta. O homem sentou-se no vaso sanitário e a mulher ficou em seu colo.
— Então, quem tira primeiro? — perguntou.
— Não vai ser necessário. — respondeu, colocando suas duas mãos no pescoço da jovem.
— C-como assim? — ela gaguejou, com medo.
— Troca!
...
Ela se jogou no ar, mas um braço misterioso a agarrou e a trouxe de volta para o apartamento.
Atordoada e no chão, olhou para cima e viu o homem em pé, olhando para ela e usando um terno deselegante.
— Eu sei que você pensa que está amaldiçoada. Eu sei que você está muito perdida, minha pobre garota. Mas eu posso te ajudar. Você não é a única. Você não é a única que pode trocar de corpos. — as palavras saíram da boca do homem de cabelo castanho escuro.
A escolha de palavras, o timbre e até a velocidade das frases formaram a coisa mais reconfortante que ela já ouviu em toda a sua vida. E sua maquiagem, já borrada de tantas lágrimas, borrou-se mais ainda, de lágrimas de felicidade, salvação.
— Eu sei que você tem muitas perguntas. Eu vou te ajudar a responde-las. Eu me chamo Jonathan. Venha. — Estendeu seu braço para ela, que estava no chão. — Segure na minha mão.
...
Livros, livros e mais livros. Foi esse o lugar no qual Jonathan levou Catherine após salva-la: uma das bibliotecas de Edimburgo. No caminho, ele contou tudo sobre switchers. Porém, ele esperou para dar as más notícias em um lugar quieto, que fosse dele.
Sentaram-se nas cadeiras da mesa no meio da biblioteca vazia e encararam-se. O rosto de Jonathan a trazia conforto.
— Catherine... — ele disse, segurando na mão direita dela e olhando bem no fundo de seus olhos, com toda a sinceridade.
— S-s-sim. — balbuciou.
— Eu te contei tudo sobre nós switchers na nossa vinda até aqui. Mas, eu quero te dar as más notícias aqui, em um lugar que você possa se sentir segura.
— Do que você tá falando?
— Eu mencionei que switchers podem ter habilidades especiais, não?
— Sim, mencionou.
— A sua é infelizmente uma das mais comuns, e às vezes é até classificada como doença, ao invés de habilidade. Chama-se Vicious Switch. Durante a troca, você sente coisas que nenhum ser humano ou switcher sem essa habilidade poderá conseguir sentir. É melhor que qualquer droga, mais saboroso que qualquer comida, cheira melhor que o melhor dos perfumes e por aí vai. E a atinge o ápice das sensações quando acaba o tempo de troca. Assim, roubando o corpo.
Catherine ficou sem reação.
— Mas, em contraparte, a parte “boa” é que você nunca perderá suas memórias ou senso de identidade, não importa quantas trocas fizer. E ainda obterá mais destreza física que um switcher normal roubando um corpo.
— E-eu não entendo...
— Vai demorar um tempo até você entender e aceitar. Mas, você precisa saber que isso causa um vício. Você precisa controlar as suas trocas.
...
Ao ter trocado, viu-se no colo do homem que há um instante era. Desacordado devido à troca, é claro.
Entre suspiros e leve gemidos, ela repete de novo o processo, como se fosse seu ritual pessoal. Contando cada segundo até o seu tempo de troca acabar: 15 minutos.
...
— Eu posso cuidar de você, Cat. Os seus pais eram switchers amigos meus, mas depois do que eles fizeram com você, eu não posso mais voltar a falar com eles, por terem sido tão cruéis.
— Então... eles sabiam? Eles são switchers também? — Ela perguntou, em choque e voltando a chorar, mais uma vez.
— Eles... eles te colocaram para fora de casa por causa da sua habilidade. Porque há um imenso preconceito no mundo switcher em relação a isso. E, me desculpa, eu sei que são seus pais, mas eu senti nojo deles. Fazer isso com a própria fil— Jonathan não terminou a frase, pois Catherine havia dado a volta na mesa e o abraçado com toda sua força.
— Eu não... danem-se eles. Por favor, senhor Jonathan, eu quero ser da sua família.
— Você... você será sim do nosso clã... Bem-vinda. — Jonathan a abraçou de volta e escorreu uma lágrima de seu olho esquerdo.
...
— 900! — Ela terminou sua contagem. Mas, desta vez, ela lembrou-se do que Anna havia dito antes de ela sair da mansão.
“O clã sempre vem primeiro.”
As palavras e o olhar sério de Anna naquele momento ecoaram em sua mente, gerando um fortíssimo sentimento de culpa. E a lembrando do dia em que conheceu Jonathan.
Será que, depois de todos esses anos se esforçando para não se viciar, finalmente aconteceu? Será que ela é uma decepção para seu líder, chefe, mentor, instrutor, tutor e pai postiço, Jonathan?
Mas, não era o suficiente. Esses pensamentos não eram imediatos. O imediato era apenas: “Aonde eu escondo o corpo desse cara?”
Fale com o autor