Storm Owls
5 Ninho
Uma sala cinza enorme feita de concreto absurdamente reforçado e fibras de carbono especiais. Lá dentro estava Richard, batendo em seu saco de pancada, apenas de shorts e fitas em seus pés e mãos.
Chute com a perna esquerda, com a perna direita. Dois jabs, um direto, dois cruzados, gancho, três joelhadas em sequência, uma cotovelada e por fim, uma cabeçada que explodiu o saco de pancadas feito de um material especial.
Balançou sua cabeça e seu desarrumado cabelo castanho escuro para tirar o conteúdo em forma de pó dentro do saco que havia explodido.
Subitamente, uma katana é arremessada em direção a ele. Virou-se 180 graus e pegou-a com as duas mãos, como se estivesse batendo palmas.
— Ei, irritadinho, quer um match? — Anna perguntou, adentrando na sala somente com seu top preto, short azul e cabelo preso.
— Com a switcher mais fraca do clã? Não, valeu. — debochou.
— Pode se surpreender desta vez.
— Já ouvi várias vezes isso...
Os dois estavam a 10 metros de distância um do outro. Richard com a katana — sua arma favorita — que Anna o arremessou e ela com uma espata romana, que é uma gladius um pouco maior e mais reta.
Estavam prontos.
Correram em direção um ao outro e quando estavam perto de se encontrarem, Richard jogou sua katana na direção de Anna, que refletiu com a sua arma.
No mesmo instante ela disse:
— Isso não é uma kunai, idiot. —
Ao golpear a katana com sua espata para refleti-la, ela perdeu a concentração por um segundo e assim levou um murro na cara. O que a fez voar e rolar um pouco, assim que atingiu o solo.
— Você é muito lenta, Anna. — provocou, pegando sua espata do chão. — Claro, lenta para os padrões Storm Owls. De resto, você é uma boa switcher.
— Desde quando você é do tipo que elogia? — perguntou, levantando-se do chão.
— Você vai levar uma surra. Um elogio ao menos é um peso do outro lado da balança. — olhou para arma em sua mão direita — espatas são muito boas. Vão direto ao ponto. Mas eu prefiro aquele ótimo design japonês das katan —
Quatro facas de arremesso atingiram Richard pelas costas. Uma em cada membro. Era Jesse, que também queria participar.
— E você é muito desatento aos seus redores. — caçoou, jogando uma de suas facas de arremesso para cima e pegando-a, em ciclo. Estava com uma calça lagging e uma regata cinzas claras da mesma cor que as paredes, o chão e o teto. Por isso passou despercebida.
Richard caiu de joelhos com as facas o perfurando. Tirou-as de seu corpo e ficou em pé de novo.
— Então você também quer participar, huh? Vai ser divertido. — disse, batendo seu punho direito em sua mão esquerda, pois já havia largado a arma com o ataque.
...
Uma biblioteca antiquada. Prateleiras de livros altíssimas e incontáveis. Mesas. Algumas circulares e outras retangulares. Todos os móveis, incluindo o chão, feitos das mais caras madeiras.
Aquele cheiro peculiar de livros era vívido no lugar. De velhos, novos, raros, comuns. Havia de tudo.
Em uma pequena mesa redonda, debruçado em um livro, estava Jonathan, ao lado de uma pilha de livros já lidos. Estava exausto, mas isso o acalmava.
Camila de mansinho entrou na enorme biblioteca. Seus grandes e cabelos marrons avermelhados presos por um rabo de cavalo balançavam enquanto ela andava sorrateiramente pelo labirinto de livros. Seus olhos cor de mel tinham um alvo claro: seu líder.
Lia impaciente. Tentado se acalmar, mas se estressando mais. Fechava seus olhos e passava seus dedos por cima deles, por debaixo de seus óculos, mostrando cansaço em sua visão.
Por trás, como um gesto de carinho, Camila o abraçou. Foi uma surpresa.
— Você não ia dormir? — ela perguntou.
— Eu planejava. Mas eu preciso estudar algumas coisas — o homem com mais ou menos o dobro do tamanho da switcher o abraçando não pôde terminar sua frase.
— Você já leu todas essas centenas de livros várias vezes. Não tem mais nada pra estudar. — o interrompe com um tom doce.
— Eu posso ter perdido alguma coisa. — olhou para trás. Para sua companheira lhe abraçando. — você não faz ideia do que os poderes de switchers podem fazer. E podem usar ser usado contra nós, Camila. — disse com um tom um pouco preocupado.
— Eu entendo... mas você assim nunca vai estar pronto para uma luta, tão cansado por, não dormir.
— Você sabe como eu sou em uma luta.
— Ah se sei...
— Eu estou falando sério. Existem habilidades que... chegam a ser assustadoras. — disse, tirando seu óculos.
— Tipo...?
— Essa não foi catalogada e não tem um nome específico, mas une um grupo de switchers em uma consciência única. Partilham pensamentos, conhecimentos, destrezas físicas, etc.
— Uau...
— Assim como uma bem sútil e assustadora, a Weiss Switch. Sempre que você entra no Weiss com alguém com essa habilidade, ela sempre instantemente vence, por vantagem natural.
— Por isso você quase nunca recomenda nós entrarmos nos Weiss?
— Sim. Às vezes o próprio switcher não tem noção que tem essa habilidade. Ou esconde por motivos óbvios.
— Fale mais. — disse abraçando-o mais forte.
— A mais assustadora se chama Nosferatu. Quando um switcher com essa habilidade entra em Weiss com outro, ele absorve a habilidade do outro. Como um vampiro.
— Já existiram switchers assim?!
— Sim... e eles eram perigosos.
— Depois de décadas nos liderando, por que você não conta a sua?
— Não acho cabível. — disse, tirando os braços de sua companheira de clã e se levantando. — Vocês precisam confiar em mim, assim como confio em vocês.
— Sim... confiamos.
— Então, sem mais tocar nesse assunto, okay? Pela milésima vez. — falou tentando não ser grosso e conseguindo.
— Certo, boss. — a pequena switcher fez uma satírica continência ao seu enorme líder.
— Agora eu vou dar uma passada em um lugar juro que vou dormir, okay?
— Eu vou ficar aqui, se não se importa.
— Nem um pouco. — disse, já tomando seu rumo.
Alguns passos depois, bateu numa porta de um dos quartos da mansão. Três batidas com seu dedo indicador e já foi entrando.
Lá dentro, um a bagunça. As únicas luzes do quarto eram as de neon da rua, que entram pelas persianas abertas. Roupas jogadas em todos os lugares, drogas dos diversos tipos, comida, pertences, fotos de pessoas, celulares, roupas de cama, travesseiros. Tudo isso no quarto de design moderno.
Como se já não bastasse, corpos. Às poucas dezenas. Alguns na cama de casal, outros no chão, em várias posições. Mortos. Mas não era como se fosse nada.
Jonathan foi entrando com delicadeza.
Em um canto do quarto, em frente a um espelho de corpo todo no guarda-roupa todo bagunçado, estava Catherine. Quase nua, somente com um dos seus lençóis cobrindo seus seios e parte de sua barriga. Estava segurando-o, se encarando e com uma mão em sua área pélvica.
— John... — ela o viu pelo espelho e não tirou os olho de si.
— Catherine... você não está bem, né? — perguntou, como um pai preocupado.
— Ei... eu estou. — virou um pouco seu pescoço para trás.
— Nós podemos conversar, filha. Você sabe que eu sempre estive aqui pra você e...
— Eu tô bem, velho. Obrigada. Mesmo.
— Então por que você estava tão pensativa?
Ela se virou para Jonathan, deixando o lençol cair, ficando completamente desnuda.
— Acho que esse corpo me serve bem, não acha? — perguntou a jovem de cabelos loiros escuros e olhos castanhos.
— Sim, filha. Lhe cai bem. Está pensando em ficar com ele?
— Estou. Eu... eu quero controlar minhas trocas. Quero dizer, a frequência. A Anna me colocou um troço na cabeça e eu quero dar uma desacelerada. — disse, olhando para baixo.
— Isso é muito bom. — disse com um tom um pouco apreensivo e animado ao mesmo tempo.
— ...Você tem vergonha de mim? — perguntou, com pesar.
— Claro que não! Por que eu teria?
— A Vicious Switch... olhe ao seu redor. Olhe quantas pessoas mortas.
— Você é assim e eu te aceito. Você nunca prejudicou nosso clã, nossa família por conta da sua habilidade. Então, eu não tenho vergonha de você. Você honra ser uma coruja assim como qualquer um de nós aqui. — respondeu, sério.
Ela olhou para baixo e seus olhos começaram a dar indícios de lágrimas.
— Obrigada, velho. Mas eu quero ficar com esse corpo mesmo. Ele me serve bem, e eu não me sinto bem saindo nessa cruzada por corpos.
Foi até ela e deu um forte abraço.
— Descanse — ele disse, compreensivo.
Quando ia sair do quarto, completou:
— Mas limpe essa bagunça!
Saiu do quarto e perambulou pela mansão. Mansão no qual sempre mantém o mínimo de luz possível, assim como o barulho. Pinturas e esculturas caras adicionam à aparência do lugar de arquitetura modernista clean.
Finalmente se acomodou no lounge. Um enorme sofá de cor entre cinza e azul em forma de U estendido, em frente a uma enorme janela, dando para ver toda a cidade de cima e suas luzes. Em frente, uma mesinha de vidro com bebidas e copos.
Sentou-se ao lado de Calliope, que já estava lá. Seus cabelos roxos na altura do pescoço são inconfundíveis.
— Você não sossega, né? — Calliope perguntou a Jonathan, que acabara de se sentar.
— Hehe. Jamais.
— Você não precisa ser o paizão o tempo todo, John. — disse bebendo seu conhaque e olhando para ele com o canto de seu olho esquerdo.
— Heh. E quem vai ser? — disse olhando para a paisagem noturna a sua frente.
— O Jeff poderia. — respondeu assim que deu seu gole na bebida etílica com gelo.
— Ele é incrível, mas não pra essas coisas. Eu reuni vocês. Eu tenho que cuidar de vocês. — se soltou um pouco e se acomodou mais um pouco.
— Nunca sossega... — mais um gole.
— Principalmente agora... — falou baixo, com olhar sério.
— Falcões?
— Falcões.
— Eles são tão perigosos assim?
— Eles em si, por aí. O líder deles, sim.
— Longa história, né? — deu mais um gole e pôs sua bebida na mesa de vidro. E agora, pegou o cigarro que estava em seu cinzeiro.
— Longa história...
— Fica pra próxima. — tragou e soltou a fumaça de seu cigarro. — E ainda nada sobre a condição da Anna? — perguntou apreensiva, virando eu pescoço e olhando nos olhos dele.
— Há décadas eu pesquiso. Nada. É muito triste... — respondeu, também olhando nos olhos dela.
— Com certeza...
Um silêncio ficou no chique lounge por uns segundos.
— Esta semana eu tenho uma reunião. — comentou, olhando para a cidade.
— Reunião? Com quem? — pareceu interessada, soprando sua fumaça.
— Digamos que eles são felinos. — deu um sutil riso.
— Ah, não! Esse povo?! Depois de tudo que eles fizeram?! — pôs o cigarro no cinzeiro, inclinou seu corpo para frente e voltou a olhar para Jonathan, agora séria.
— Ei, melhor amigos do que inimigos. E ainda, eu disse que o líder era um velho conhecido meu. Vai dar tudo certo, relaxa.
— Queria ter essa sua paciência de santo... — pensou, olhando para seu copo de conhaque. Pegou a garrafa, pôs em um copo vazio que ali estava, estendeu seu braço e ofereceu a Jonathan. — Aceita?
— Por que não, né? — disse, pegando o copo.
— Um brinde.
— A quê?
— Ao Coruja de Ouro, oras. Tanto tempo aqui em paz. E a você, por ser um grande líder.
— Você não devia me elogiar, Callie. — disse, encostando seu copo de vidro no do dela.
— Às vezes eu concordo. Mas hoje, não.
— Heh.
— Acha que os garotos estão dando conta da segurança do cassino?
— Claro. Eles são bons, só inexperientes. Deve estar tudo em paz.
...
Richard estava suado e cansado. Jesse deu um chute vindo de cima e ele defendeu com o antebraço esquerdo. Mas à sua direita, um soco direto em sua cara vindo de Anna o fez rolar no chão.
Riu, se levantou, limpou seu corpo e ficou em frente as duas mulheres — ou uma mulher e um homem, no caso.
— Tive uma ideia. Vocês duas, corram até mim ao mesmo tempo na mesma velocidade e me ataquem de maneiras diferentes. — Ele sugeriu.
— Vocês DOIS. Eu sou homem, caramba. — Jesse o corrigiu.
— Okay, okay. Andem logo.
Os dois que estavam um ao lado do outro correram em direção a Richard, que estava a mais ou menos dez metros de distância.
Quando já estavam a centímetros, Anna, que estava à direita, direcionou um soco cruzado com sua mão esquerda. E Jesse, um chute no abdômen.
Richard defendeu o chute com o joelho, abaixou-se por um mísero segundo e deu um uppercut que fez Anna sair voando.
Jesse se distraiu com sua amiga indo pelos ares e não percebeu que Richard havia dado um pulo e, girando, acertou-lhe um chute na face. Quando aterrissou de joelhos curvados do pulo, enquanto Jesse estava cambaleando para trás, investiu e deu dois ganhos na área de seu estômago. Por fim, um pulo com uma joelhada que fez o amigo voar para trás.
— ISSO FOI DIVERTIDO! — exclamou.
— Pra você... — Anna disse, se levantando à distância.
— Vai ter troco... — Jesse disse pulando do chão, já ficando em pé e dando um chute no pescoço de Richard, que cambaleou para trás.
Enquanto cambaleava, inúmeros socos diretos na cara de Richard vindo de Jesse, até que Richard conseguiu se manter firme, segurou um soco com sua mão direita e depois outro com sua mão esquerda.
Cara a cara, ele confrontou a mulher não-tão-mulher.
— Foi um troco bom. Mas eu ainda não tô cansado ao ponto de não conseguir mais me mover. — Richard provocou.
— Nem eu. — Jesse respondeu.
Correndo, Anna deu um soco nas costas de Richard, que o fez soltar as mãos de Jesse e curvar seu corpo para frente, dando a abertura perfeita para Jesse dar um pulo e com brilho nos olhos, um soco de direita com toda sua força na cara do debochado companheiro.
...
Deitados no chão, lado a lado, os três estavam exaustos.
— Você tá melhorando, Anna. — Richard disse, olhando para ela, à sua direita. — Já superou o seu último pico de força.
— Não mencione! — Jesse bateu nele, o advertindo.
— Não... tudo bem. — ela disse, se levantando. — Se me dão licença, eu vou pro meu quarto. Queria adicionar isso ao meu videolog. — falou se espreguiçando e indo em direção à porta.
— Viu? Você fez ela ir embora, retardado. — Jesse deu um esporro em Richard, se levantando e indo atrás de Anna.
— Foi sem querer! — também se levantou e foi atrás dela.
Fale com o autor