Notas iniciais
I'll Be - Edwin McCain

Foquei as letras pequenas suspirando enquanto a voz do pastor ecoava do microfone para o domingo pacífico.

Tamborilei os dedos no banco, piscando para o relógio de meu celular no silencioso.

Que fome..., pensei, mas logo balancei a cabeça com a distração tentado me concentrar nas palavras.

Virei a pagina delicada na bíblia quando o texto de Davi começou.

O Senhor é meu pastor: nada me faltara.

Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente pelas águas tranqui...

- Bom dia. – assustei-me ao ouvir o sussurro perto demais. – Calma, sou eu.

Meus olhos paralisaram na figura sorridente.

- O que... o que você esta fazendo aqui? – sussurrei sem reação, arrancando uma risada baixa sua.

- Eu descobri porque não aceitou meu encontro. – comentou parecendo ignorar minha pergunta.

- Você não pode ficar aqui. – olhei ao redor ao perceber que todos por sorte ainda encaravam o pastor. – Não do meu lado.

- Sua mãe pode ver? – ergueu a sobrancelha, ameaçando virar a cabeça para trás. – Ela esta aqui?

Sentia sua coriosidade em encontrar minha família.

- Não, mas tenho conhecidos. – segurei seu queixo impedindo o movimento. – Vá embora.

- Não até tirar essa idéia errada que tem de mim. – falou rígida.

- Idéia errada? – questionei confusa. – Não te conheço nem para julgá-la de algo.

- Mas parece que todos fazem. – continuou. – Vamos lá Selena, saia comigo hoje. Esqueça o fato de mim ser gay por um segundo.

- Esta me chamando de preconceituosa? – perguntei desafiadoramente.

- Não, ainda. – encarou-me. – Mas, desculpe, estou sim chamando tua mãe disso. Ela não me conhece.

- Nem você a ela, então não a chame de uma coisa que não é. – fechei minha bíblia com delicadeza ao ameaçar me levantar.

Como pode ofender minha mãe? Ainda mais em sua ausência?

E agora ainda queria sair comigo.

- Selena. – senti o timbre calmo ao perceber a pele, por algum motivo, fria demais sobre meus dedos. – Não retiro o que disse sobre sua mãe, desculpe. Mas vamos sair.

- Não posso. – disse evitando seu toque estranho.

- Você não quer. – olhou em meus olhos quando sua mão deixou a minha, dando-me espaço suficiente para sair.

Virou-se de frente para o regedor de culto tendo o olhar sem foco, encostando as costas de madeira do banco envernizado. Seu olhar duro e bravo me fez vacilar.

Podia estar brava com ela, mas ainda me sentia ferida a fazer uma pessoa triste.

- Não vai embora? – perguntou retórica, cruzando os braços.

A igreja clamou alto diante a algo que não sabia.

- Você esta triste? – abaixei mais minha voz, uma insegurança estranha.

- Claro que não. – deu de ombros ainda não me encarando. – Só com raiva.

- Porque? – ajeitei-me ao seu lado.

- Porque pensei que fosse diferente, na festa. – respondeu dando de ombros. – Mas me enganei.

- Sou diferente. – afirmei com concerteza.

- Não, você é exatamente igual a todas as pessoas aqui sentadas. – virou o rosto bonito em minha direção, os olhos nervosos. – Só sai julgando todos que não freqüentam aqui.

- Não sou assim. – franzi o cenho.

- Então porque se recusa a sair comigo? – perguntou-me determinada a tirar uma mentira que não enxergava em mim. – Porque pensa que uma garota gay é como um garoto pervertido? Que querermos agarrar qualquer menina que vemos?

- Eu não...

- Aposto que quando falei sobre um encontro pensou em algo romântico. – me interrompeu. – A única coisa que queria fazer era tirar essa idéia estúpida de sua cabeça que não existe amor na outra sexualidade.

Franzi a testa em confusão.

- “Queria”? Não quer mais? – repeti, olhando para baixo.

- Você não vale a pena. Ninguém o faz. — sua voz estava tão baixa, como se fosse seu segredo mais precioso.

Ela não queria um encontro de casal comigo?

E porque isso me incomodou?

- Eu sou diferente. – falei.

- Não, não é. – contrapôs novamente. – Pensa que é a primeira garota religiosa que converso? Me poupe Selena, olha o jeito que olha para mim. Você tem tanto medo de algo.

Limpei minha garganta.

- N-não tenho medo de nada. – continuei com o olhar preso.

- Tem sim. – falou. – E ainda diz ser diferente se nem admite uma coisa obvia.

Abri a boca na tentativa de tentar convencê-la de um contrario, mas não tinha como inventar algo agora.

- Boa sorte. – percebi um movimento pela visão periférica, fazendo-me virar a cabeça ao encarar Demi se ajeitando para levantar. – Com toda essa negação vai precisar na vida.

Demorou alguns segundos ao perceber o que havia acontecido e estava acontecendo dentro de mim. Ela esta indo embora; desistindo talvez.

Como ela simplesmente me olhou para dizer sobre meu medo?

Levantei-me ao correr disfarçadamente para fora da igreja.

Os degraus da entrada atrapalhariam meu percurso se estivesse de salto, coisa que a simples sapatilha me poupava.

— Demi! Demi! – chamei impedindo-a de andar quando agarrei o braço pálido. – Como você sabe...

- Hm, desculpe se ocupei seu tempo Selena. – falou com um suspiro de cansaço. – Volte para dentro e fique em paz.

- Como sabe que tenho medo? – ignorei a frase anterior com um balançar leve de cabeça.

- É obvio. – deu de ombros numa coisa tão simples.

— Não, não é. Amber não notou isso. – falei.

- Provavelmente já sim, só esta esperando você vim conversar.

- Acredite em mim, ninguém sabe. – assegurei com firmeza. – Cuido pessoalmente disso. E como você fez?

- Eu... eu não sei. – estreitou os olhos parecendo pensar. – Só é, sei lá, muito claro pra mim.

Era impossível.

Ninguém seria capaz de ver o que sou por dentro. Minha melhor amiga de infância não percebeu ainda, nem minha mãe!

Senti novamente os dedos gelados nos meus, soltando gentilmente o braço.

- Até mais. – despediu-se.

Porque ela sempre ia embora?

Sempre dava um jeito de ter uma saída com um drama que fazia sua personagem boa na história.

Sendo que não é.

- Me leva pra casa? – perguntei timidamente enquanto ainda vi não ser tarde demais.

- Sua mãe não vai gostar. – zombou ironicamente ao parar de andar, mas se recusando a me encarar.

- Preciso conversar com alguém. – admiti. – Com você, mas especificamente.

- Porque? – questionou levantando as mãos no ar ao virar-se em minha direção. – Até agora queria que...

- Eu sei o que queria. – falei pausadamente, ao fechar os olhos. – Só esqueça.

- Desculpe Selena, mas agora sou eu que não tenho certeza.

- Certeza do que? – suspirei.

- Se quero ter um “encontro” contigo. – respondeu.

Peguei ar, me surpreendendo como sempre dava um jeito de me calar.

Era isso que queria?

- Você queria conversar comigo também? – perguntei com a pontada de remorso aflorando.

- Talvez assuntos diferentes mas sim. – respondeu calmamente ao balançar a cabeça em positivo enquanto falava.

- Desculpe. – pedi.

- Tudo bem. – aceitou num sorriso leve.

- Você... hm, ainda pode me levar pra casa? – tornei a perguntar.

- Se não se importar de andar. – deu de ombros, suspirando divertidamente.

Sorri, quando caminhei lentamente a seu lado.

Notas finais
Esse capitulo provavelmente tem muitos erros, até poder escrevi ele agora.
Review ?