Stolen

1 Capítulo I


Notas iniciais
Esperamos que gostem dessa capítulo, apenas uma prévia do que está por vir.
Essa história já está se aproximando do 30º capítulo e por isso vamos tentar postar com certa frequência e regularidade, mas tudo depende da resposta que recebemos ao longo da história.
Boa leitura, aproveitem!

O calor não era comum nessa época do ano. O outono pintava as ruas de vermelho e laranja, cores que para mim pouco transmitiam essa sensação de frio. Pela janela do meu apartamento, posso enxergar um grupo de jovens ainda mais novos do que eu cruzando uma avenida quase vazia. Eles fazem barulho sem ligar para o horário e atraem atenção dos moradores. Um vizinho grita obscenidades e o silêncio volta a se estender pela madrugada.

Ainda os vejo rindo baixinho enquanto entram na portaria de um prédio de poucos andares, próximo ao meu. Pareciam isentos de problemas ou preocupações, eram apenas jovens em uma noite de sexta-feira. A inveja coça minha garganta apenas por alguns segundos e logo se varre para longe.

Tenho que admitir para mim mesma a realidade dos meus problemas. Me forço a crer que a minha vida nunca poderia ser como a deles. Havia muita bagagem para deixar em casa e ir à uma festa.

Uma sombra cruza pela minha visão, marcando um ponto escuro sobre luz fraca do abajur. Percebo uma bola de pelos escuras se enroscar nas minhas pernas. Um gato vira-lata conhecido se faz de casa e pede sem mordomias por comida e meu companheiro de noites em claro me segue pelo pequeno flat no subúrbio.

Entorno um pouco de leite em um pires e abro uma latinha de atum, despejando tudo em prato e vendo meu almoço de amanhã ir direto para a barriga do bichano de pelos negros. Na rua, uma buzina alta e o som da derrapagem de pneus antecedem um acidente. Corro para a janela tentando identificar onde esse aconteceu e me perguntando se era meu trabalho ligar para uma ambulância.

Um carro preto e alto estava virado na contra mão, dando a impressão de ter girado 180º graus com a colisão de um outro automóvel, esse está estirando pela calçada, com o capô entortado pela colisão com um poste de luz. Minhas mãos rapidamente buscam pelo aparelho telefone, mas paralisam sobre as teclas do mesmo quando observo a porta do carro preto se abrir e um grupo de pessoas saltar e caminhar em boas condições.

Nenhum deles parece ferido, não seriamente pelo menos. Uma parte do meu cérebro se questiona sobre o passageiro do outro carro, mas a maior parte de mim está preocupada com o que observava se passando na rua logo abaixo da janela da cozinha.

Os homens, no total cinco deles, estão todos vestido de preto e formais. Quatro deles examinam o entorno, e um deles busca algo acima de sua cabeça. Por um único segundo, tenho a impressão de que nossos olhares se cruzaram. Ele pode me ver, através das frestas da cortina, no décimo sexto andar, sei que ele pode me ver.

Recuo no mesmo momento que acho ter vislumbrado um sorriso no seu rosto escuro. Não fico parada para ver se tenho certeza.

Não vacilo em nenhum passo. Ponho o gato no meu colo, apenas por ter algum carinho pelo bicho e logo o coloco sobre o sofá, torcendo para que ele fique bem. Minha mente calcula quanto tempo eu teria até que eles arrombassem as portas e guardassem todas as saídas.

Provavelmente nesse instante, a entrada dos fundos e da frente já estariam cercadas e três dos homens já deviam invadir meu prédio, se dividindo pelos elevadores e escadas. Eu nunca chegaria ao térreo.

Não tenho tempo de juntar nada, mas me programo para tirar um grampo de cabelo da caixinha do banheiro. Saio do meu apartamento me movendo em uma velocidade que nunca pensei ser capaz de atingir. Adrenalina é realmente algo surpreendente. Meus pés não tropeçam enquanto pulam degraus e posso ouvir o som de passos ecoando pelas escadas.

Irrompo no decimo andar. Entreouvira uma conversa do porteiro e o sindico sobre as visitas ao apartamento 1003, que estava desocupado. Era sempre bom ter uma rota de fuga alternativa. Meus dedos tremem um pouco enquanto entortam o grampo e buscam o encaixe na maçaneta. Entro apressada no apartamento desocupado. Sua planta ainda era a mesma que o meu e por isso sei que as janelas dos quartos dariam para a cobertura de um prédio próximo. A pior parte não era o vão entre os dois prédio, esse era pequeno e facilmente ultrapassável. O pior era a diferença de altura entre os oito andares vizinho e os dez o meu prédio. Um nó se forma no meu estômago e eu preciso ignora-lo firmemente para manter a coragem.

Tomo fôlego e corro pegando impulso. Ouço a porta romper atrás de mim, mas já estou no ar. Minha queda não é suave. Um rangido de dor rasga minha garganta e vejo meu tornozelo ferido em um ângulo nada natural. Sangue começa a manchar minha blusa de um corte que surgiu perto do meu ombro, mas adrenalina nas minhas veias me impede de reagir à dor.

Meus olhos conseguem visualizar, mesmo na madrugada escura, a sombra de um homem na janela. Eu sabia que ele não pularia, ninguém era tão desesperado quanto eu. Ou tão livre de qualquer razão, para se jogar de uma janela em busca da fuga. Me ponho de pé e lhe aceno em um gesto minimamente rude e obsceno, que me renderia semanas lavando a louça e uma longa confissão com o Padre caso qualquer Irmã visse.

E pensar que eu tive minha adolescência em um convento.

O homem na janela não parece em todo irritado. Isso me estressa tanto quanto me preocupa. Se seu alvo escapa, isso não significa que você deve se amargurar profundamente e sentir a desesperada ânsia por atirar uma bala pela sua testa? Como explica aquele desconhecido sorrir, como se estivesse até mesmo satisfeito?

E em um estalar de dedos eu posso ver o que ele vê e entender sua satisfação.

Dois grandes homens me cercam. Eles estão tão próximos e nem ao menos os vi chegando. Pertos até demais, sinto o aroma de erva doce afundar todo o cheiro de orvalho que antes existia no ar. Posso perceber o suor escorrendo na nuca de apenas um deles e noto a respiração controlada do outro.

Eles me tem sob controle deles em questão de segundos. O ataque pelas costas, junto à minha distração e o fato de tê-los subjugados me põe em papel de presa.

Tento de alguma forma afastá-los. Recuo alguns passos, mas me vejo divida entre enfrentar meus agressores ou pular da cobertura de um prédio de oito andares. Decido que não tenho absolutamente mais nada à perder e eu não iria me render sem qualquer tipo de luta. Achando que me tinham encurralada, eu os surpreendo e jogo todo o peso do meu corpo contra um deles.

O homem a minha direita está mais perto, e o escolho primeiro. Ele vacila alguns passos e torço minhas pernas ao redor do seu pescoço em uma manobra que nunca achei ser capaz de executar. Ele tenta me tira dos seus ombros, mas tudo que consegue e perder o equilíbrio e tombar no chão. Ele roda, e então me tem embaixo do seu corpo. Deixo que ele exerça seu peso sobre mim, mas não espero para que ele venha me atacar. Bato minha cabeça contra a sua, em um golpe que o deixa tonto e aéreo por alguns instantes. Antes que ele recobre suas forças, seguro com força sua face e a golpeio contra o chão de cimento. Seus olhos se fecham no segundo golpe.

Estou me pondo de pé quando o segundo oponente me ataca. Ele é mais forte que o primeiro e já parece muito mais experiente do que aquele que agora está desacordado — e muito provavelmente com uma concussão. Esse outro decide por usar sua força bruta como vantagem. Ele vem para cima de mim com tal intensidade que escorrego alguns metros para trás e apenas não caio graças ao aperto intenso dele sobre minha cintura. Seus dedos me seguram de forma dolorosa, queimando sobre minha pele.

Tento golpeá-lo e consigo atingir seu rosto com uma cotovelada que sei que deixara uma marca roxa. Infelizmente não acho que ele tenha sentido tanta dor assim, talvez os piores danos tenham sido causados ao meu cotovelo e não ao seu rosto.

Vejo a irritação e descontentamento brilhar em seus olhos. Suas mãos prendem meus pulsos e ele se move de forma que em um momento estou presa junto à ele, e no seguinte prensada entre uma parede e seu corpo.

- Pare de lutar, você já perdeu essa.

Sua voz é profunda e rouca, um sotaque diferente brinca em seu timbre. Com a mente focada em algo além da luta, percebo uma leve queimação onde suas mãos seguram minha pele e uma fraca sensação de leveza se apossando de mim. Não sei do que se trata, mas não gosto nem um pouco.

Levanto meu olhar, tentando alcançar seus olhos.

Não consigo distinguir suas íris de sua pupila. A cor negra e profunda que os envolvia me deixou hipnotizada. Traços fortes pareciam ter sido esculpidos em seu rosto. Sua boca se contraia em uma fina linha reta e repuxada nos cantos, um sorriso mínimo enfeitava sua face. Mesmo assim, eu duvidava da sua alegria.

- A gente só perde quando para de tentar. — retruco como se partilhasse de um segredo.

Seu rosto se contrai em desgosto pela minha audácia e teimosia ao desafia-lo, mesmo estando encurralada.

Em outras circunstâncias — como por exemplo, se ele não estivesse tentando me capturar — eu o teria classificado como lindo. Cabelos escuros e bagunçados pela luta caiam pelo seu rosto. Uma jaqueta preta de couro que exalava um cheiro de ervas e folhas. Contrapartida, o fato que o sujeito era verdadeiramente atraente, me era irrelevante agora. Ele queria me prender e eu queria fugir. Era isso que importava.

Usei minhas últimas reservas de forças para me manter de pé e acerta-lo. Meu joelho se elava até acerta-lo no centro do estomago, mas seja a minha fraqueza ou sua força, meu golpe não lhe machuca. Ele segura minha perna e exerce ainda maior força sobre mim. Como ainda estou de pé é algo que não sei. Já não sinto dor, mas isso não significa que sinto qualquer coisa. Meu corpo parece inteiramente anestesiado e eu dúvido que a ausência de dor seja algo bom.

- Parou de tentar agora?

Não me vejo em posição de responder sua pequena provocação. Pelo canto dos olhos, enxergo o outro homem de pondo de pé aos poucos e rugindo na minha direção como um animal raivoso. Tenho certeza que o deixaria com uma completa dor de cabeça como recordação.

Ele se aproxima do meu agressor atual e os dois se postam estrategicamente dominando meu corpo e meus movimentos. Aqueles homens de preto me prendem rudemente, acabando com qualquer esperança minha de escapar. Ainda assim, algo em seus olhos parece ter medo que eu os eletrocute ou algo do gênero. Antes que possa usar isso à meu favor, eles imobilizam minhas palmas nas costas e itens gelados passam a envolver minhas mãos, das unhas até meus cotovelos. Meu corpo pesa, sinto-me desestabilizada.

Tento me mover, mas seja o que for que eles usaram para me segurar, funcionava. Ainda os enxergo retirando todo tipo de artefato desconhecido de maletas que levavam consigo e nem ao menos havia percebido. Um deles, aquele quem me prendeu, se aproxima de mim com o que acho ser um frasco de perfume.

Sei bem demais que ele não estava incomodado com meu cheiro agora, apenas com o fato de que meus olhos ainda estavam abertos.

- Bons sonhos, Lauren.

Um sentimento que me era estranho e incomum contrai meu peito, ele nota o choque no meu rosto assim que seu olhar fixa ao meu.

- Como você sabe meu nome?

- Nós sabemos muitas coisas além do seu nome.

Eu não ganho resposta além dessa e de um sorriso de presunçoso em conjunto. Um arrepio se passa pela minha espinha e ele aperta a tampa do perfume. A nuvem do aroma adocicado envolve minha face, o respiro mesmo a contragosto.

É a última coisa que me lembro.

Notas finais
Quem chegou até aqui espero que tenham gostado, comentem, critiquem, só assim podemos saber como melhorar!
Próximo capítulo prometemos mais emoções e cada vez mais perto de um novo - irresistível - personagem!
Beijoss, até o próximo capítulo! ;)