Still Into You
8 8. Primeiro Encontro Com o Medo
Notas iniciais
Enquanto eu tentava normalizar meu ritmo respiratório, a única coisa que via a minha frente eram aqueles cabelos platinados. Os fios extremamente claros estendiam-se como uma cortina pelas suas costas nuas e uma parte deles caia sobre o lençol. Eu os afagava enquanto sentia a respiração da dona deles no meu peito.
– Obrigada... – Disse ela levantando levemente a cabeça, eu sorri.
– Já falei que não quero que me agradeça...
– Não... Obrigada por ainda estar comigo, por mais uma vez ter me perdoado, acho que nenhuma outra pessoa faria isso, você é boa de mais pra mim.
– Mirajane, não começa...
– Eu tenho medo... de que você encontre alguém melhor do que eu e me deixe...
– Eu não vou fazer isso! – Exclamei. Ela continuou me encarando, os olhinhos tristes. – Porque isso agora? Não se lembra do que te disse antes de virmos pra cá? Você não acredita que eu realmente te amo?
Ela me abraçou com bastante força me surpreendendo. Eu envolvi meus braços nela também.
– Mira, não fique se torturando... Isso te faz mal e faz mal a mim também... Eu não vou te deixar! – Afaguei seus cabelos. – Eu te amo, branquela! – Lhe dei um leve selinho e ela sorriu.
– Também te amo, ruiva! Demais! – Beijou a pontinha do meu nariz e depois meus lábios, levemente.
Ficou um tempo me encarando, acariciando meus cabelos, até que pareceu se lembrar de algo e arregalou os olhos.
– Erza! Seu aniversário! – Exclamou.
– O que tem? – Perguntei despreocupada, nunca liguei muito pra aniversários.
– Tá chegando! Tem algo que você queira ganhar? – Perguntou ficando de quatro sobre mim, seus cabelos tocando meu corpo.
Pensei por um momento, mas não me veio nada à cabeça.
– Hmmm... que tal, você! – Respondi num sorriso malicioso.
– Err... mas isso você já tem! – Riu, um pouquinho envergonhada.
– Então, use sua criatividade, me surpreenda! – Eu não queria parecer maliciosa nessa parte, mas pela reação dela, acho que acabei sendo.
– Ah é assim? Então se prepara para as consequências, Erzão!
Na segunda-feira que seguiu aquele final de semana, Lucy havia melhorado um pouco e pode ir à escola, Mirajane havia resolvido que ia desculpar-se com ela. No intervalo, fomos atrás dela, achando-a no pátio do colégio, junto de Cana.
– Oi meninas! – Cana nos cumprimentou, animada com sempre.
Lucy cumprimentou logo em seguida e eu e Mirajane respondemos.
– Eu... queria me desculpar. – Mirajane disse. – Eu não deveria ter agido daquela forma, espero que não fiquem com raiva de mim, eu prometo que não serei tão estúpida de novo.
Lucy soltou uma risadinha.
– Tudo bem, eu mal me lembro do que você falou, meus neurônios estavam fritando a uns 39 graus. – Respondeu ela. – Desculpe pelo o que eu disse também.
– Está tudo bem. – Sorriu Mirajane.
– E você Erza, perdoou a Lucy? – Cana perguntou.
– Não, ela ainda não deu meu doce de morango! – Cruzei os braços fingindo estar zangada e todas olharam pra mim um tanto incrédulas. – É brincadeira, claro que perdoei! – Puxei Lucy pelo ombro fazendo-a se chocar contra mim, uma tentativa de abraço que a fez soltar um murmúrio de dor. – Mas ela ainda me deve um doce. – Completei sorrindo e rapidamente soltando-a.
– Calma, formiguinha, assim que eu não estiver mais cheia de vírus, eu faço. – Respondeu ela. – A não ser que queira ficar doente também!
– Lucy é muito chata com essas coisas, nem me beijar direito ela quer. – Cana fez um biquinho triste.
– Sou chata por me preocupar com sua saúde? Nossa, que ingrata você! – Respondeu brincando.
– É, você se preocupa mais do que eu mesma... – Respondeu a morena subitamente entristecida, mas logo sorriu, talvez forçadamente. – Bem, o importante é que todas estão de bem, e eu fico muito feliz com isso! Mas... – Fez uma pausa. – Temos outro problema: Nosso outro componente das sessões de terapia está querendo pular fora, o motivo é que é muita sapatão e só ele de viadinho. A gente podia ir lá agora e tentar fisgar ele!
– Viadinho? – Perguntou Mirajane. – É quem eu estou pensando?
– Provavelmente... – Respondeu Cana. – Ele deve estar na biblioteca, vocês vêm comigo procurá-lo?
Concordamos e fomos até a biblioteca do colégio. Não era uma sala muito grande, porém as prateleiras eram abarrotadas de livros e havia algumas mesas. Ao entrarmos, o local, que não era preferencialmente frequentado pelos alunos, estava deserto com exceção de uma única pessoa presente ali, e ao ver quem se tratava percebi que era justamente quem Cana gostaria de falar.
Ela foi até a mesa onde ele estava sentado absorto em seu livro, sentou na cadeira a sua frente, sendo perseguida por nós três que permanecemos em pé ao seu redor. O rapaz tímido, magro e de cabelos compridos ergueu minimamente o olhar para encará-la, aparentemente incomodado pela intromissão à sua leitura.
– Sua persistência seria admirável se não estivesse sendo irritante. – Disse ele, a voz soando extremamente fria. – Eu já sei o que vai me falar e enquanto eu for o único homem a minha resposta continuará sendo “não”.
– Saiba que isso é ridículo! – Respondeu ela.
– É uma questão de conveniência, Cana. Eu não me sinto bem no meio de tantas garotas, muito mais no tipo de atividade que está propondo. – Ele então levantou um pouco mais o olhar direcionado a quem estava em pé. – Não é nada pessoal. – Passou seu olhar por cada uma de nós, talvez pela primeira vez observando quem realmente estava ali e ao cruzar com Mirajane sua expressão levemente se alterou. – Quer dizer...
– Talvez tenha algo pessoal... – Murmurou ela.
– Por que teria? – Perguntei.
– Você não foi a única que sofreu com as atitudes homofóbicas dela. – Respondeu ele. – Mas isso realmente não teve nada a ver com a minha decisão de não querer participar das sessões.
– Você fez alguma coisa a ele? – Perguntei a Mirajane.
– Apenas piadinhas homofóbicas. – Respondeu ele, antes que ela se pronunciasse. – É claro que eu sempre escuto tais coisas, mas no caso o que realmente me aflige é quanto ela foi hipócrita, e eu detesto atitudes desse tipo! Eu não sou de guardar rancor, mas... é difícil!
– Bom, poderíamos discutir isso nas reuniões... – Cana disse. – Freed, eu tenho certeza que sua presença vai ser boa pra todo mundo.
– Cana, não adianta, eu já me decidi!– Respondeu ele. – Agora, poderiam me deixar em paz, por favor?
Cana percebeu que insistir no momento seria perda de tempo e, dessa forma, deixamos a biblioteca.
– Ele vai ser difícil de convencer... – Comentou Cana. – Se eu ainda conseguisse dar uma de cupido pra ele e o Laxus, mas isso é ainda mais impossível!
– Laxus? – Perguntei.
– Sim, você não sabia? O Freed é perdidamente apaixonado por ele! É uma pena que o loiro seja um escroto, machista e homofóbico. E depois da maneira que ele me tratou eu não desejo qualquer tipo de relacionamento com ele a ninguém, mesmo que a pessoa esteja perdidamente apaixonada.
– Mas o que foi que ele te fez? – Mirajane perguntou.
– Um dia eu conto tudo com calma, agora está quase na hora de voltar pra sala. – Respondeu ela.
– Olha só o que embeleza minha visão nessa manhã! O grupinho das cola-velcro!
Eu percebi os olhos de Cana se arregalarem ao ouvir aquela voz que soava semelhante a um trovão. Subitamente, todos se viraram na direção que ela vinha e o loiro em questão caminhava em nossa direção, com um sorriso malicioso estampado em seu rosto. Eu sabia muito por cima que Laxus sempre fora problemático, era cerca de cinco anos mais velho do que nós, já havia se formado e ainda perambulava pela escola apenas porque o seu avô era o diretor e antes ter o seu neto problemático debaixo de suas assas do que longe delas fazendo merda por aí.
Ele era uma espécie de inspetor no colégio, ou pelo menos devia ser. Na verdade ele só descontava sua raiva de ter que trabalhar ali em violência contra os alunos.
– O que você quer, Laxus? – Cana perguntou utilizando um tom de voz que demonstrava sua insatisfação.
Ele não respondeu, continuou caminhando até nós. Ficando entre Cana e Mirajane, segurou no ombro das duas. Eu subitamente fiquei com raiva, mas me segurei apenas esperando se diria alguma coisa.
– Eu estou tentando entender o que faz vocês serem assim... Acho que é falta de um pinto mesmo!
– Se está tão incomodado acho que é você que está precisando de um nesse seu rabo! – Exclamei empurrando-o para trás, a fim de afastá-lo das garotas.
O meu empurrão não surtiu muito efeito, fazendo-o permanecer praticamente no lugar. Cana olhou-me assustada, como se eu fosse louca. A questão era que eu odiava aquele tipo de discurso e não importava se Laxus era homem e tinha 10 vezes mais massa muscular do que eu, eu não tinha medo. Por um momento me aliviei um pouco ao vê-lo tirar a mão do ombro das meninas, mas logo em seguida perdi o ar ao vê-las pararem em mim.
Estávamos extremamente próximas a uma parede e eu estava de costas para ela. Suas grandes mãos apertaram meus braços com força e antes que eu percebesse, senti minhas costas se chocaram contra a parede. Pude sentir todas minhas costelas doerem e provavelmente perdi o restante do ar que havia em meus pulmões. Logo em seguida minha cabeça também se chocou contra a parede e eu senti minha visão se escurecer enquanto a dor lacerante me tomou.
Então eu tive uma pequena visão, apesar de nenhum pouco nítida, de um garoto loiro saindo de dentro de um carro pela porta do motorista. Seria Laxus mais jovem? Não entendi nenhum pouco porque aquela cena surgiu na minha cabeça, mas quando a dor diminuiu um pouco, ela sumiu. Abri os meus olhos e o loiro me encarava com os seus olhos frios e lascivos.
– Não importa o quão forte você seja, o quão machona você é e quantas vezes você coma a Mirajane, você não passa de uma garota e eu sou mais forte que você! Então tenha cuidado com o que você fala!
Ele largou os meus braços e agarrou o colarinho da minha camisa numa velocidade extremamente alta. Puxou o tecido sufocando-me, quase me tirando do chão e eu por estar com metade do corpo dolorido e a mente confusa, não conseguia fazer nada. Pela primeira vez em muito tempo uma pessoa havia realmente me amedrontado, aquele cara era um monstro!
– Larga ela, idiota! – Mirajane gritou e pude ver tentando tirá-lo de cima de mim. – LARGA AGORA! – Ela chutava sua perna e socava suas costas, mas isso provavelmente só fazia cócegas nele.
Foi então que algo conseguiu fazê-lo afrouxar o apertão na minha camisa e isso fez com que ar voltasse para os meus pulmões, chegando a doer. Uma voz vinda da porta da biblioteca, logo após o barulho de livros que foram deixados caírem.
– O que está fazendo? – O rapaz parado a porta perguntou.
– F-freed? – Laxus questionou virando a cabeça em direção a ele.
Freed viu o rosto para o lado.
– Você quer ter problemas de novo Laxus? – Cana perguntou. – Em dois minutos eu consigo ferrar você contando isso para o meu pai.
– Acha mesmo que eu serei o prejudicado se fizer isso? Tem muita coisa que eu também poderia contar ao seu papaizinho que você não ia gostar.
O loiro não tirava as mãos de mim, mas me sentindo um pouco melhor, eu chutei seu joelho, porém em vez de me soltar, ele apertou novamente o tecido em meu pescoço com ainda mais força.
– Maldita! – Grunhiu ele, seus olhos expressando extrema raiva.
– Eu vou chamar alguém! – Lucy que até agora apenas olhava horrorizada, saiu correndo. Laxus aparentemente não se importou, talvez ele já tivesse em mente como se safar da situação.
– Pare com isso! – Freed gritou. Laxus não se moveu, continuava a me sufocar e encarar-me como se fosse me matar. – Eu odeio pessoas como você! Eu te odeio, Laxus! – Ele cuspiu as palavras e instantaneamente o loiro me soltou.
Eu caí de joelhos no chão, tossindo. Senti alguém me abraçar desesperadamente, meus olhos estavam fechados, mas pelo perfume soube que era Mirajane.
– Você está bem? – Me perguntou, parecia estar prestes a chorar.
Eu não respondi. É claro que não estava, mas não queria que ela ficasse preocupada comigo. Eu deixei de ver o que acontecia, minha cabeça ainda doía e eu queria normalizar minha respiração.
– Eu devia denunciar você! – Pude ouvir Freed dizer.
– Você não vai sair impune, não importa se eu acabe prejudicada também! – Cana afirmou.
Não ouvi Laxus dizer nada, parecia ter se assustado por Freed estar, aparentemente, do nosso lado.
– O que está acontecendo? – Pude ouvir a voz de Gildarts se aproximando de nós.
O pai de Cana era zelador da escola, mas também cumpria funções de inspetor quando necessário, já que não havia alguém devidamente responsável pelo cargo e Laxus só estava ali por causa do avô, não podia ser considerado um. Lucy não estava junto dele, aparentemente se desencontraram e ele havia ido até ali por conta própria.
– Não estou me sentindo muito bem, apenas isso. – Respondi.
– Erza... – Mira tentou dizer algo, mas eu a impedi.
Era óbvio que eu estava com ódio mortal de Laxus, mas era óbvio também que se eu tentasse dizer o que realmente aconteceu, aquilo ia dar uma confusão sem tamanhos, e eu não estava com cabeça para isso no momento.
– Na verdade... – Senti que Freed também queria dizer algo contra Laxus.
– Eu posso sair um pouco? Estou com falta de ar. – Disse tentando contornar a situação, e eu realmente estava com dificuldades para respirar.
– Apenas isso? – Perguntou Gildarts. – Laxus, essas garotas não estavam brigando novamente, estavam?
Oh shit!
– Pai, não! Laxus é quem... – Cana começou a dizer.
– Não, só Erza que começou a passar mal mesmo. – Respondeu o loiro, sendo um verdadeiro ator.
Gildarts olhou para todos, desconfiado. Era só o que me faltava: Eu e Mirajane sairmos como as culpadas da história, mas eu não o culpava por isso.
– Venha! – Disse ele a mim, oferecendo a mão. – O restante, vá para as devidas salas, e você... – Apontou para Laxus. – Fique longe deles.
Depois disso, Gildarts me acompanhou para fora do prédio e fiquei sentada num banquinho apenas tentando normalizar minha respiração, na verdade eu não estava assim tão mal, mas foi a saída mais sensata que encontrei. Um pouco depois voltei para minha sala e o restante do período passou normalmente, exceto que eu continuava com uma leve dor de cabeça.
– Você devia ter falado a verdade! – Mira me advertiu, enquanto caminhávamos até a minha casa depois das aulas terem acabado.
– Por favor, Mira, esquece isso... – Respondi. – Eu só quero fingir que não aconteceu, ok?
Ela me encarou por um tempo.
– Tudo bem, se é assim que você quer.
Depois de andar apenas mais um pouco chegamos a minha casa.
– Vem comigo, eu quero deitar um pouco. – Respondi a puxando pela mão até o meu quarto.
– Erza, tá tudo bem? – Ela perguntou preocupada.
– Tá, é só que desde que Laxus bateu a minha cabeça na parede, ela não parou de doer e eu não sei por quê. – Respondi retirando meus tênis.
Mira fez o mesmo e então deitei a puxando pra cima de mim.
– Ah, coitadinha. – Ela acariciou o meu rosto. – Pra te deixar assim ele deve ser muito forte... Erza, você ficou com medo? É por isso que não quis contar a verdade?
Eu corei, eu não gostaria de admitir aquilo, mas Mira já havia percebido antes mesmo que eu falasse.
– Não é bem por isso, mas sim... eu... fiquei com medo. – Virei o rosto, envergonhada.
Ela selou levemente meus lábios e pude ver que sorria.
– Eu vou te deixar melhor...
Ficou de quatro sobre mim, com uma perna de cada lado do meu corpo e abocanhou meus lábios com vontade, e enquanto me beijava explorando cada canto da minha boca com a sua língua, agarrou um dos meus seios com uma mão e outra adentrou a minha saia.
– Mira... – Gemi em sua boca. Só aquilo já estava me fazendo perder o fôlego.
Ela passou a língua próximo a minha orelha.
– O que foi? – Sussurrou.
– N-nada... – Respondi com dificuldade.
Ela, então, abocanhou meu pescoço, percorrendo todo ele com sucções enquanto sua mão adentrava minha calcinha. Começou a estimular o meu clitóris e voltou a beijar minha boca, eu segurei sua cintura, a apertava coforme as ondas de prazer me tomavam e deixei meus gemidos escaparem em sua boca. Dessa forma não demorou muito pra que eu chegasse ao orgasmo. Ela, então, me beijou mais lentamente, tirando sua mão da minha intimidade e finalizou com um selinho.
– Como se sente? – Perguntou.
– Melhor... – Respondi provavelmente corada. Ela sorriu.
– Fica aí descansando, vou fazer algo para comermos. – Selou rapidamente meus lábios e saiu do quarto. Gostaria de poder retribuir, mas ela nem me deu oportunidade.
No decorrer do dia minha dor de cabeça foi passando, e eu apenas me questionava o que havia sido aquela visão do garoto loiro, mas não contei esse fato a Mirajane. No dia seguinte descobrimos que Laxus havia sido afastado e Freed voltado a fazer parte do grupo de terapia, mas quando eu perguntei a Cana ela disse que não havia feito nada, o que eu duvidava muito, mas eu não insisti em contestar, era bom sentir um pouco de paz.
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