Still Into You
15 15. Coragem
Notas iniciais
No intervalo das aulas daquele dia, eu e Mira ficamos com Cana e Lucy em umas mesinhas que havia no pátio.
– Ai, por que o Gray tá me mandando mensagem? – Cana perguntou assim que seu celular havia vibrado.
– O Gray? – Perguntei, não sabia nem que eles tinham contato.
– É sério, Mira? – Cana perguntou animada, me ignorando. – Você vai entrar na nossa banda?
– O quê? – Mira perguntou. – Que banda? Nem sabia que vocês tinham uma.
– Mas que filho da puta! – Exclamei.
– O que foi, Erza? – Cana perguntou.
– Mira, eu acabei esquecendo de te falar, sobre algo que conversamos na reunião ontem, porque... acabamos fazendo outras coisas. – Corei e Mira riu.
– Se foi por isso, sem problemas, mas me fala. – Pediu ela.
– Bem, primeiro, vamos fazer uma festa à fantasia...
– O Gray falou, adorei a ideia! – Cana comentou me interrompendo.
– Sério, uma festa a fantasia? – Lucy perguntou. – Isso é bem legal!
– Hm, sim. – Respondi. – Aí o Gray sugeriu que a banda deles tocasse por um tempo, mas ele não falou nada que você tava na banda, Cana.
– Não? – Perguntou ela. – Que filho da puta, eu sou a vocalista daquela merda!
Eu e Mira a encaramos, espantadas.
– Você é a vocalista? – Mira perguntou um tanto incrédula.
– Sim. – Cana respondeu.
– Nossa, gente, não olhem assim, ela canta muito bem. – Lucy defendeu.
– Obrigada, amor.
– Er... – Tentei voltar a atenção a mim. – Então... Mas ele disse que talvez precisem de um guitarrista porque não sabem se o Gajeel vai poder tocar por já ter se formado e ter as coisas da faculdade e tal... aí ele me perguntou de você, lembrando de quando você tocava, e eu disse que ia te perguntar, mas não dei certeza alguma, posso ir lá xingá-lo por ter falado de você sem nem...
– Calma Erza! – Mira riu me interrompendo. – Faz muito tempo que eu não toco, dei uma treinada no violão, mas sei lá... acho que eu ia gostar de tocar de novo.
– Sério? – Cana perguntou animada. – Nossa, ia ser muito legal, muito legal mesmo!
– É, mas eu vou começar a trabalhar, então não sei se vou ter tempo pra ensaio e essas coisas...
– Relaxa, a gente dá um jeito...
– Hm, então tá, acho que posso tentar. – Concluiu Mira.
– Eu achei que você não fosse topar... – Falei. – Mas ainda assim vou xingar o Gray depois.
– E xingue-o também por não avisar da vocalista maravilhosa que eles têm. – Cana sugeriu fingindo estar irritada. – Ah, vai ser tão legal ter mais uma menina na banda! Podemos falar sobre coisas femininas e deixá-los constrangidos! – Comentou animada.
– Cana, tenha limites, por favor! – Lucy pediu.
– Eu não sei o que essa palavra significa. – Brincou ela.
– Ah, a música que a gente decorou, tá tocando na rádio. – Lucy que estava com os fones de ouvido no celular, colocou um no ouvido da namorada.
– Vocês decoraram uma música? – Perguntei.
– Sim! A gente decorou Fancy inteira, ela é a Iggy Azalea, eu sou a Charli XCX, vocês não acham parecidas conosco? – Cana perguntou enquanto balançava a cabeça ouvindo a música.
– Nossa, sim! – Mira exclamou.
– Eu não faço ideia que quem vocês estão falando... – Respondi.
– I’m so fancy, you already know... – Cana cantarolou. – Não conhece?
– Hmmm, acho que já ouvi. – Respondi, lembrando-me vagamente.
– Só é injusto porque minhas partes são muito mais difíceis. – Lucy comentou tristonha.
– Mas você sabe pronunciar inglês melhor do que eu, fez 353 anos de curso aí, enquanto eu nunca fiz nada, e além do que eu te ajudei. – Cana disse.
– Não consigo imaginar muito bem a Lucy cantando rap, mas espera... Por que vocês fizeram isso? – Mira perguntou. – Vocês não transam, não? Tirando ontem que foi reconciliação...
Cana riu, Lucy ficou envergonhada, mas acabou rindo também.
– Mira! – Adverti.
– Ué... – Ela comentou.
As duas se entreolharam.
– Primeiro, tem muita coisa que a Lucy faz que com certeza você não imaginaria... Segundo, a gente transa sim, mas não fazemos só isso, né, pelo amor, ninguém aguenta. – Cana respondeu.
Foi a vez de eu e Mira nos entreolharmos, um tanto espantadas.
– Ué gente, eu a Cana estamos a mais de um ano juntas, tem uma hora que o fogo gigantesco do começo dá uma abaixada. – Comentou a loira. – E você, para de falar de mim! – Exclamou dando um tapa no ombro de Cana.
– Ai... – Resmungou. – Ah sim, vocês ainda estão no começo do namoro... Não fiquem tão espantadas, vocês também vão cansar um pouco.
Eu e Mira nos olhamos mais uma vez, ainda espantadas. Não conseguia imaginar como poderia me cansar.
– Acho melhor calarmos a boca, vamos acabar desanimando as duas. – Lucy disse.
– Ah, que nada, elas têm que saber... – Cana afirmou. – Por isso aproveitem agora que estão com muito fogo e transem pra caralho, porque sim, vocês vão cansar. – Aconselhou, e nisso sentia minhas bochechas começarem a esquentar.
– Mas isso não vai fazê-las cansarem mais rápido? – Lucy perguntou.
– Ah, sei lá... – Cana respondeu dando de ombros. – Mas começo de namoro é engraçado mesmo, tipo: “Tem 15 minutos pro meu pai chegar em casa, acho que...” aí rola aquela troca de olhares e...
– Transamos. – Lucy completou e riu. – Ou então, a pessoa suspira e... “nossa, esse suspiro me lembra quando você suspira pra mim enquanto...”, aí troca de olhares...
– E transamos. – Cana completou rindo. – E nossa, a pior é “vou tomar banho”.
As duas se entreolharam e riram.
– Puta que pariu, transamos muitas vezes... – Lucy riu. – Lembra na banheira da minha casa, você quase se afogou... Eu disse pra você me esperar sair, mas não dava, né?
– Realmente não dava pra esperar.
As duas riram, gargalharam na verdade, enquanto eu e Mira ficamos as encarando, até que Lucy percebeu primeiro como as olhávamos e parou, Cana parando logo em seguida.
– Foi mal. – Disse a loira.
Cana suspirou.
– Pois é, e depois de um ano, as coisas mudam um pouco... Tipo, você chama ela pra jantar na sua casa... – Cana comentou.
– E vocês realmente jantam... – Lucy continuou.
– Aí depois bate aquela depressão e uma vontade de não fazer absolutamente nada...
– E aí vocês resolvem ver TV...
– Mas tudo na TV tá uma merda...
– Aí ela suspira...
– E vocês se olham...
– E dão um beijo...
– Uma bitoquinha...
– E se olham de novo...
– E se beijam de novo, com mais vontade...
– E o beijo evolui...
– Começa ficar quente...
– Vocês começam a querer a tirar as roupas...
– Mas ela tá com um vestido cheio de coiseras e bate aquela preguiça...
– E ela tá de calça, você vai abrir e o zíper emperra e as duas ficam com preguiça de fazer a coisa abaixar...
– Aí vocês se olham...
– Suspiram...
– Voltam pra posição inicial...
– E dormem, porque a TV tá uma merda.
Mira soltou um gritinho de terror.
– Isso é um pesadelo! Eu não quero ficar assim! – Exclamou.
Cana e Lucy caíram na gargalhada. Eu devia estar com uma expressão um pouco horrorizada também.
– Acho que estamos as traumatizando. – Lucy disse entre as risadas.
– Isso é mentira, ok? Não aconteceu... – Cana afirmou.
– Não aconteceu ainda, né? – Lucy sugeriu.
– Para, assim elas vão achar que somos duas mortas...
– Nós ainda estamos bem ativas, ok? – Lucy tentou contornar.
– Ufa... – Mira suspirou, aliviada. – Sério, vocês me assustaram, se com um ano estivessem assim...
– Poxa, mas às vezes dá preguiça mesmo, ainda mais quando estamos cansadas. – Lucy rebateu. – É que, como a Cana disse, vocês ainda estão no começo, então aproveitam qualquer oportunidade, e não estão erradas, a gente já foi assim também.
– Entendi... – Falei. – Espero que a gente não fique muito morta com o tempo... – Abracei Mira pelo ombro.
– Relaxa, não vamos... – Ela disse segurando minha mão. – Mas nossa, como vocês fizeram isso? Vocês inventaram agora? – Perguntou para as duas.
– Sim. – Lucy riu.
– A gente pensa meio em conjunto às vezes, é estranho. – Cana comentou também.
– Pois é, é bizarro nosso nível de comunicação... – Lucy continuou. – Por isso que esconder coisas uma da outra realmente não dá certo, a gente acaba sabendo que tem algo errado, essa nossa comunicação se desestabiliza.
– Além de almas gêmeas, somos... mentes gêmeas? – Cana perguntou.
– Prefiro complementares. – Lucy respondeu.
Eu e Mira as encaramos por um tempo e então soltamos um “awnnnnnn” conjunto e depois rimos, deixando as duas, principalmente Lucy, envergonhadas. Nisso, Cana estava com a cabeça apoiada no peito de Lucy e a loira a abraçava com um dos braços pela cintura.
– Não foi ela que ontem estava beijando o Laxus e agora está de volta com a outra? – Perguntou uma garota que eu não conhecia pra uma amiga, enquanto passavam por perto da nossa mesa.
– Sim, isso que o Laxus é ex dela, se eu fosse ela não teria perdoado... – A outra respondeu.
Cana, ao escutar, levantou o corpo se separando de Lucy e virou-se para as meninas.
– Nós somos um threesome, idiotas! – Exclamou.
Todas nós arregalamos os olhos, espantadas, as duas garotas mais ainda, saindo andando sem dizerem nada.
– Cana! – Lucy exclamou enquanto a morena volta-se pra nós.
– Você realmente é maluca, né mulher? – Mira comentou.
– Vocês acham que eu realmente me importo com o que estão pensando sobre a gente? Prefiro tirar uma do que ficar tentando contornar a situação. Ninguém tem nada a ver com isso! – Exclamou.
– Ah, é por isso que eu te amo! – Lucy exclamou beijando-a no rosto. – Ah, uma coisa um pouco fora... – Voltou-se a nós. – Mudei meu número de celular, porque eu acho que o outro meu pai tinha grampeado. Depois a Cana vai me colocar no grupo que ela criou e aí vocês salvam.
– Ok... – Respondi.
– Estou pensando em me emancipar. – Falou como se fosse a coisa mais natural do universo.
– O quê? – Eu e Mira perguntamos ao mesmo tempo.
– É o único jeito de ele não mandar mais na minha vida, não vai poder me mandar pra colégio interno nenhum, aí não preciso ficar fingindo que namoro um homem. Eu tenho direito a parte do dinheiro dele e tenho dinheiro pra pagar um advogado caso necessário.
– Caramba... – Mira comentou. – Você pensou em tudo isso, é mais inteligente do que eu pensava.
– Minha loirinha é muito inteligente, ok? – Cana riu.
– Nós duas estamos com medo de tudo, é horrível. Então preciso tomar uma atitude mais drástica. – Concluiu. Cana apertou a mão dela.
– Bem, caso precise de alguma ajuda pode contar comigo. – Falei.
– Comigo também. – Completou Mira.
– Obrigada, meninas. – Sorriu.
– Mas o final do plano é o melhor... Conta pra elas. – Sugeriu a morena.
– Convencer o Laxus a dizer que na verdade é gay, que não estava aguentando mais a farsa e que está tirando um peso de suas costas.
– Socorro, é genial! – Mira exclamou.
Todas rimos tentando imaginar a cena do Laxus saindo falsamente do armário pro pai da Lucy, eu achava que ele mais que merecia pelas atitudes homofóbicas.
– Duvido ele aceitar isso, mas seria engraçado ver a cara do seu pai. – Comentei.
– Pois é, nós sabemos, mas vamos tentar. – Cana respondeu.
Pouco tempo depois, voltamos para as aulas. Eu passei a tarde com a Mira na casa dela, e assim os dias foram passando. Aquela semana que eu queria que passasse o mais lentamente possível, parecia que estava voando e logo já era sexta-feira.
– Não fizemos mais sessões de terapia, né? – Perguntei a Cana após o final das aulas antes de me despedir de todas.
– Mas o pior é que agora nós estamos bem amigas, estamos sempre “fazendo terapia”. – Cana comentou. – Apesar de que, pasmem, o Freed veio me perguntar outro dia sobre as sessões.
– Sério? – Mira perguntou.
– Sim, acho que devíamos chamá-lo pra andar um pouco com a gente, apesar de tudo acho que ele está se sentindo sozinho. E além do mais, na segunda-feira ele ficou sabendo da Lucy e do Laxus, ele ficou meio arrasado, mas não chegamos a conversar sobre isso.
– Droga, eu acabei esquecendo completamente do Freed, acho que eu devia conversar com ele depois. – Lucy comentou com pesar.
– Hoje vocês têm o jantar na casa da Erza, né? – Cana perguntou. – Amanhã à tarde, marcamos ensaio da banda pra Mira conhecer... O que acha de fazermos alguma coisa a noite e chamá-lo?
– Por mim pode ser. – Respondi.
– Por mim também. – Mira e Lucy responderam.
– Beleza, vamos pensando em algum coisa, até depois!
Todas nos despedimos e fui pra casa almoçar, enquanto Mira foi conhecer o futuro emprego dela. Era estranho não almoçar com ela, eu já estava tão acostumada, tanto com a comida dela que era maravilhosa, quanto com a companhia, mas agora teria que me desacostumar. Eu tinha que admitir que a achava corajosa por decidir sair de sua zona de conforto e começar a trabalhar. Comecei a refletir que minhas amigas também estavam tendo atitudes corajosas em querer enfrentar o pai da Lucy, enquanto eu meio que ficava na mesma, estagnada, sendo que havia coisas que eu gostaria de mudar. Talvez não mudar, mas procurar por respostas, enfrentar os medos que eu tinha.
Por ironia do destino, ao ir para o meu treino de handball, eu deparei com a pessoa que remetia muito ao que eu estava refletido. Meus músculos congelaram.
– Até que enfim você chegou! – Exclamou. – Se bem que eu pude suspeitar, escutei o barulho de um caminhão estacionando.
Inspirei, tentando me acalmar. Parecia perseguição, parecia que ele estava cada vez mais presente, como se fosse um sinal, para que eu enfrentasse aquele que representava o que eu temia.
– O que você tá fazendo aqui, Laxus? – Perguntei, ignorando sua piadinha impertinente.
– Eu agora sou o treinador de vocês. Se vocês querem ganhar alguma coisa precisam de alguém que saiba de algo botando ordem nessa zona, e eu fiz Educação Física.
Revirei os olhos.
– Pelo que eu saiba, foi um ano e você largou. – Informações que eu havia conseguido com a Cana.
– Tranquei, na verdade, e pretendo voltar, mas isso não vem ao caso, com a faculdade ou não eu ainda sei mais que qualquer uma aqui. – Afirmou. – Tem um torneio que estou pensando em inscrever vocês, mas eu só entro se for pra ganhar! Você quer ou não fazer parte?
Não respondi. Achava absurdo ele chegar do nada e ir impondo as coisas, mas eu sabia que talvez o avô dele tivesse o mandado, mas ele não admitiria e mascarava isso com suas atitudes grosseiras.
– Vamos começar. Aquecimento! – Sua voz de trovão ressoou. As outras meninas pareciam amedrontadas, mas dessa vez, não causou nenhum efeito em mim, talvez por ter visto um pouco do outro lado dele nos últimos dias, mesmo que não de grande vontade, ajudando a Lucy e tudo mais.
– Eu vou fazer parte. – Respondi indo me aquecer.
Laxus era exigente, mas de toda forma, não achei ruim, me surpreendeu ele ser um bom treinador, o nosso time realmente estava precisando, e eu tentei não levar nenhuma atitude dele pro lado pessoal. Ao fim do treino ele fez eu e as garotas guardarem os equipamentos utilizados, elas deixaram as bolas na salinha e saíram correndo, então eu as peguei e coloquei na devida caixa que deveriam ficar.
– Tem alguém aí ainda? – Laxus perguntou da quadra, enquanto eu ainda estava na sala de equipamentos.
– Sim, mas já terminei. – Respondi.
– Ótimo. – Respondeu. – Vamos, eu vou trancar as portas.
– Ok, só vou tomar água. – Respondi enquanto saía da sala e ia em direção ao bebedouro. Tomei água e quando me virei, Laxus estava lá, atrás de mim, me encarando. Dessa vez eu realmente me assustei.
– Para de me perseguir, por favor. Eu não te fiz nada. – Desabafei.
– Mas eu não estou te perseguindo, eu não tenho motivos pra isso. – Respondeu.
– Então... – Comecei, pensando no dia que ele quase tinha me sufocado contra a parede, mas parei, porque aquilo já fazia tempo. – Deixa pra lá.
– Eu só vim tomar água.
Enquanto ele tomava, me veio à mente as visões que eu tinha tido, e a minha intuição de que Laxus estava cada vez mais presente na minha vida pra que eu falasse sobre aquilo.
– Tem uma coisa realmente me incomodando que preciso falar com você. – Soltei.
– Er... o que foi? – Ele me perguntou, confuso.
– Você já participou de algum acidente de carro? – Perguntei. Ele pareceu congelar por alguns segundos, o que o denunciou. – Em que... duas pessoas morreram? – Completei abaixando meu tom de voz.
– Como você sabe disso, Scarlet? – Perguntou aumentando o tom de voz, fiquei surpresa em ele não ter negado.
– Porque eu não teria esse sobrenome se não fosse por ele. – Respondi. – O tom de voz cada vez mais baixo, era estranho falar sobre aquilo, eu não havia falado com ninguém, mas era estranho também a tamanha naturalidade com que eu estava lidando com o assunto.
– Como assim? – Ele perguntou abaixando o tom de voz também, agora realmente tentando compreender, e não parecendo irritado.
– Eram meus pais... biológicos. – Respondi. – Então foi mesmo você?
Ele engoliu em seco, pude notar que começou a tremer.
– Do que você está falando? Por que isso do nada?
– Porque isso está me atormentando. Porque eu não lembrava de nada, mas depois que você bateu a minha cabeça na parede, essas visões começaram a aparecer, eu vejo a cena do acidente certinha e depois um garoto loiro saindo da caminhonete que chocou com o carro, eu não posso estar ficando louca, meu cérebro não ia inventar isso. – Finalmente contei.
Laxus levou a mão trêmula à cicatriz que tinha no rosto.
– A garotinha! V-você era ela... – Disse com a voz trêmula. – É impossível...
– Não, é possível, eu estou bem aqui na sua frente. – Respondia calma. – A cicatriz, foi pelo acidente? – Perguntei.
– Sim. – Ele respondeu tirando a mão. Respirou fundo. – Eu tinha 10 anos, eu estava querendo ir atrás do meu pai que tinha abandonado eu e minha mãe, ele tinha me mostrado como se dirigia, mas era óbvio que eu não tinha tamanho e nem coordenação pra aquilo. E-eu não sei o que te dizer, eu não achei que fosse passar por essa situação, eu não achei que tivesse que resgatar essas memórias... – Ele parecia começar a desesperar-se. – Eu fiz muita coisa errada e estúpida a partir daí, mas eu nunca, jamais tive a intenção te matar alguém, eu... Você não sabe o que é viver com esse peso, e agora você está aqui na minha frente, eu não sei o que fazer, não sei mesmo...
– Você não tem que fazer nada, não dá pra se trazer alguém de volta à vida, além de já fazer tempo e eu nem ter memórias anteriores ao acidente. – Falei. – A única coisa é que você tem que parar de descontar sua raiva nos outros, você tem coisas boas dentro de você, não são as manchas negras do teu passado que te constroem. Eu sei do que eu estou falando.
– Não tente fazer nenhuma comparação entre nós, você foi a vítima.
– E você não foi? Do seu pai, de toda a situação? Você era uma criança. Use as experiências ruins que você teve para construir em você uma pessoa melhor, e não fazer com que elas te tornem pior ainda.
Ele apenas me encarou por alguns segundos.
– Olha só, eu recebendo conselhos de você...
– É sério, Laxus, você precisa amar mais.
Ele soltou um riso sem humor.
– Já deu, Erza...
– Não. – Eu respondi.
Engoli em seco, aquela seria uma atitude muito corajosa da minha parte, porque ele podia me empurrar e depois quebrar as minhas costelas, mas mesmo assim, eu me arrisquei. Dei um passo à frente e envolvi meus braços no seu enorme corpo.
– O-o que você tá fazendo? – Perguntou tentando se desvencilhar de mim.
– Sente o meu abraço, idiota, eu não tenho nenhuma doença contagiante. – Falei.
Ele permaneceu estático por alguns segundos, e me surpreendi quando seus braços levemente tocaram meu corpo, retribuindo de uma maneira um tanto tímida. O orgulho ainda era grande de mais pra um abraço decente, não que eu realmente quisesse, daquela maneira já estava mais que suficiente.
– Ok, chega. – Ele me afastou depois de um tempo, eu senti o mesmo, muito tempo abraçando um homem era uma coisa estranha.
E foi só aí que me senti envergonhada por tudo aquilo que disse e pelo abraço.
– Er... eu já vou indo, não posso me atrasar hoje... – Falei me lembrando do jantar da Mira com os meus pais e saí correndo, o deixando na quadra.
Enquanto eu corria, eu me sentia mais leve, como se ter falado com ele tivesse me tirando um peso imenso, aquelas visões realmente estavam me atormentando e eu esperava que agora desaparecessem, e mais ainda, esperava que após aquilo, ao menos um pouquinho ele mudasse.
Chegando em casa tomei banho e depois ajudei minha mãe com algumas coisas do jantar. No horário que havia combinado, Mira chegou e eu fui recebê-la na porta.
– Erza, cadê seu celular? – Ela me perguntou logo após nos cumprimentarmos.
– Hm, tá em um canto, estava ajudando minha mãe, por isso não to com ele, você mandou algo?
– Eu não, mas você precisa ver isso.
Entrou no grupo que a Cana havia criado e me mostrou as últimas mensagens.
“AH”
“MEU”
“DEUS”
“ERZAAAAA, O QUE FOI QUE VOCÊ FALOU PRO LAXUS???”
“ERZA, CADÊ VOCÊ?” – Essa de alguns minutos depois.
“O que houve?” – Mira havia mandado.
“O LAXUS BEIJOU O FREED”
“O QUEEEE?” – Mira mandou.
“O”
“LAXUS”
“BEIJOU”
“O”
“FREED”
E então mandou um print de uma conversa com mensagens do Freed.
“CANA, SOCORRO”
“O Laxus me beijou”
“NA BOCA!!”
“EU TO MORRENDO”
“Ele disse ‘culpe a Erza por isso’”
“E FOI EMBORA!!!”
“Eu não sei o que ela disse, mas acho que devo minha eterna gratidão”
“MAS QUE DIABOS ELA DISSE????”
Eu olhava espantada para a tela do celular, mal sabia que reação tinha, não conseguia acreditar no que lia.
– Erza, o que foi que você disse? – Mira perguntou.
– T-tem um contexto maior que eu explico depois, mas eu só disse que ele precisava amar mais. – Respondi ainda espantada.
Então Mira riu, muito.
– Parabéns, você sem querer tirou ele do armário! – Disse ainda rindo, depois deu uma controlada, respirando fundo, e foi cumprimentar os meus pais.
Fiquei olhando o nada com cara de boba até voltar a mim, depois de ter esquecido por alguns segundos que eu tinha o primeiro jantar da minha namorada com meus pais pela frente.
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