Still Into You
1 1. Primeiras Borboletas
Notas iniciais
“Não consigo contar só com uma mão os anos
que estivemos juntas
Preciso da outra pra te abraçar
Te fazer sentir, te fazer sentir melhor”
Borboletas no estômago. Eu achava que isso era uma grande besteira, até eu mesma senti-las. Eu que nunca achei que fosse me sentir desestabilizada. E foram essas tais borboletas que me fizeram perceber que alguma coisa não estava normal. Achei que com o tempo superaria, mas muito pelo contrário, aquela sensação estranha no meu ventre se tornou cada vez mais frequente e mesmo hoje, depois de tanto tempo, eu ainda as sinto.
Sete anos. Eu mesma, às vezes, não consigo acreditar que já se passou tanto tempo desde a primeira vez eu as senti. Lembro até hoje de como esse dia foi uma grande mudança na minha vida, porém lembro ainda mais de como era a relação entre eu e a responsável de tudo isso anteriormente. Hoje, aos 23 anos, eu ainda sinto apertos no coração ao me lembrar disso e imediatamente me alivio pelas coisas terem mudado. É até bizarro imaginar que a pessoa que eu mais odiei durante grande parte da minha vida, agora é a que eu mais amo.
Mirajane. Eu conheci essa peste ainda criança, estudávamos juntas e, se não bastasse isso, morávamos perto. Foram incontáveis as vezes que nos engalfinhamos no colégio. Qualquer coisa era motivo pra eu cair em cima dela na porrada. Se na época eu soubesse o significado da palavra eu diria até que ela era masoquista, parecia gostar de apanhar. Ela era bem durona, mas não tanto quanto eu, sempre apanhava mais, se machucava mais e ainda assim fazia de tudo para me irritar das maneiras mais inimagináveis. Se eu soubesse que era possível também, eu diria que desde aquela época já era apaixonada por mim.
Ela comia minha sobremesa, principalmente quando era bolo de morango, que ela sabia que era minha favorita e uma das coisas que eu mais amava. Ela roubava minhas lições de casa, que ela sabia que eu me dedicava muito para fazê-las. E com o passar do tempo, quanto mais velhas ficávamos, mais pesado ela pegava, como o fato de espalhar todos os tipos de boatos sobre mim.
Lembro quando ela descobriu que eu era amiga de um rapaz que havia sido preso, o Jellal, e disse a todos que eu tinha um namorado que estava na cadeia. Ele realmente estava, mas não era um criminoso, havia sido vítima de pessoas que armaram pra ele, e de qualquer forma não vinha ao caso porque ele não era meu namorado, era só um grande amigo de infância. Custou muito tempo para que eu conseguisse desmentir toda a história, mas ela não deixava por menos: “Como eu fui idiota, é óbvio que a Erza machona não namoraria um homem!”
Pois é, “Erza machona”, era assim que ela se referia a mim. E o boato seguinte foi que na verdade eu era sapatão. Começou a dizer que eu era a fim de todas as minhas amigas, uma após outra, fazendo eu, aos poucos, ir perdendo a amizade delas. Eu sempre havia sido uma pessoa um tanto hostil, e depois de tantos boatos eu estava praticamente sozinha naquele colégio. Não que eu realmente me importasse, isso fez com que eu me dedicasse mais em qualquer coisa, me deixava cada vez mais forte. Eu continuava sendo a Erza machona, eu nunca me relacionava com ninguém, eu quase não tinha mais sentimentos bons pelas pessoas e com o passar do tempo acabei por gostar de ser assim.
Até que, aos nossos 16 anos, uma tragédia ocorreu. Lisanna, a irmã de Mirajane, sofreu um grave acidente e pela primeira vez eu a vi ser sensível. Sua irmã havia entrado em estado de coma e todos os dias ela temia perdê-la. Foi então que ela mudou. Era como se a “Mirajane demônia”, como eu costumava chamá-la, tivesse desaparecido, dando lugar a uma garota totalmente diferente. Uma garota gentil, uma garota que não fazia mais nada contra mim.
Em um dia durante a aula de Educação Física ela jogou uma bola com força que acabou acertando bem no meu rosto. Como em qualquer outra vez que ela já havia me dado uma bolada eu parti pra cima dela, socando-a. Mas o que era de costume — ela revidar, me socar de volta, me xingar, agarrar o meu cabelo — não aconteceu, muito pelo contrário, ela encolheu-se no chão e começou a chorar compulsivamente.
Normalmente eu adorava socá-la, e adorava posteriormente ver as marcas que eu mesma deixava naquela pele branquela. Mas daquela vez eu me senti mal, tanto que não consegui continuar agredindo-a. Foi então que ela disse uma palavra que eu nunca havia escutado sair de sua boca: “Desculpa”.
Ela soluçava e se desculpava, por tudo que havia feito, não parava nem de chorar nem de se desculpar, e eu por tamanho choque permaneci estática sentada em suas pernas, com as minhas uma de cada lado do seu corpo. Todos os alunos olhavam espantados, mas talvez não tanto quanto eu, e foi preciso o professor me tirar dali, porque eu havia travado. Fomos ambas liberadas das aulas restantes daquele dia e a lembrança de seus soluços suplicantes de desculpa, à noite, me fez custar a dormir.
“Você me odeia?” Foi um bilhetinho que eu recebi durante a aula de História no dia seguinte e não tive duvidas de quem me teria escrito. Não fazia ideais do que ela estava pretendendo com aquilo, mas sabia que não resolveria as coisas por bilhete, eu tinha certeza. Não me lembrava de ter tido uma conversa decente se quer com ela, mas isso teria que acontecer. “Fala comigo na saída” foi minha resposta.
E, então, na saída ela veio até mim, toda tímida, ou talvez envergonhada. Eu queria sentir raiva dela, queria sentir a vontade de socá-la, mas naquele momento foi a primeira vez que senti as borboletas. Eu nunca havia sentido aquilo, eu não sabia o que era e fiquei assustada.
– Oi. – Disse ela timidamente.
– O-oi. – Minha voz falhou.
Mas que diabos era aquilo? A minha voz não falhava, nunca! É por isso que eu era representante de classe, é por isso que ninguém tinha medo de mim, é por isso que eu botava medo até em professor, é por um dos motivos que eu era a “Erza machona”. O que aquela albina maldita estava fazendo comigo?
– Nee-chan, está indo pra casa? Quer que eu te espere? – O irmão um ano mais novo dela, que beirava a dois metros de altura e tinha tanto músculo que parecia um armário, mesmo ainda sendo tão jovem, perguntou ao se deparar com ela na saída.
– Obrigada Elfman. – Ela sorriu abertamente, o sorriso mais bonito que eu já havia visto. – Mas não precisa, eu preciso conversar com a Erza.
– Tem certeza? – Seus olhos me percorreram dos pés a cabeça e depois fitou nos meus como se me avaliasse e ao mesmo tempo quisesse que eu sentisse medo dele. Coitado, como se tamanho fosse documento! Talvez ele tivesse medo que fizesse algo contra a irmã dele, que ultimamente parecia até frágil.
– Claro Elf. – Ela sorriu novamente a ele e então pegou em meu braço e começou a andar, me levando junto com ela para a rua lateral da escola, menos movimentada.
Parou deixando-me com as costas voltadas para o muro, eu estava quase tremendo por aquilo, tentava não parecer tão desestabilizada para com ela, mas estava assustada por meu estômago parecer gelado, por estar me sentindo tão estranha por causa dela.
– O-o que você está fazendo? – Perguntei.
– Eu me odeio, Erza. Eu me odeio tanto que você não faz ideia! Eu nunca estive tão arrependida, e sinto como se nunca irei conseguir reparar tudo que fiz. Eu agi tão errada com você durante todos esses anos, e apenas o acidente da minha irmã me fez pensar nos meus atos.
– Você está querendo se desculpar comigo? – Perguntei conseguindo vencer as sensações estranhas de momentos anteriores. – Você tem noção de tudo que você fez? Tem noção de tudo que disse sobre mim? Você acabou com a minha vida social, você acabou com a vontade que eu tinha de ser legal com os outros, de tentar fazer amigos, você acabou com qualquer sentimento bom que eu tinha com as pessoas. Eu sinto muito pela sua irmã, fico feliz que tenha parado pra pensar nessas coisas, mas eu não posso te perdoar.
Virei-me de costas a ela, prestes a sair, mas ela segurou meu braço, tão firme que não consegui me soltar. Não olhei para seu rosto, mas ouvi o som de seu choro.
– Não, por favor! Por favor, me perdoe. Eu fui uma idiota, eu fiz tudo isso pra ver se conseguia fazer coisas que eu sentia desaparecerem, mas elas permaneceram. Eu fiz tudo errado, eu neguei os meus sentimentos, eu os condenei, eu odiei você e tentei fazer você infeliz, mas o problema sempre esteve comigo.
– Você é maluca garota, o que você está falando? – Perguntei agora olhando pra ela, ainda tentando soltar sua mão do meu braço.
– Meu orgulho não importa mais agora, eu não posso deixar você sair sem ouvir a verdade: Quando éramos bem novinhas eu só te achava irritante mesmo, mas era coisa de criança, porém depois comecei a me sentir diferente em relação a você, eu achei que estivesse enlouquecendo, eu não podia estar sentindo aquilo por uma garota. Fiquei num nível de frustração tão alto que decidi que infernizaria sua vida. Hoje eu vejo o quanto isso foi ridículo, e estou me sentindo mal, tão mal que chega e doer. Nada do que eu fiz fez o que eu sentia ir embora, só deixou tudo mais forte. Eu ainda sinto, eu tenho uma paixão doentia por você.
Depois de alguns segundos digerindo aquilo, fiquei perplexa. Acabei descobrindo que meu estômago reagia muito aquele tipo de coisa. Achei que estivesse prestes a vomitar, mas na verdade eu nunca entendi direito aquela reação, se eram borboletas, elas eram gigantes. Acabei me encostando na parede. A respiração descompassada. Um turbilhão de coisas invadindo meu pobre cérebro tão inabitado de coisas relacionadas a situações como aquela, relacionamentos, sentimentos amorosos e paixão, que achei que ele explodiria. Eu duvidada da existência de boa parte dessas coisas até aquele momento.
Ela olhava pra mim interrogativa enquanto suas lágrimas cessavam gradativamente. Desceu a mão que segurava meu braço até a minha e levou até seu peito. Seu coração batia acelerado.
– Consegue sentir? – Perguntou. Engoli em seco e assenti apenas com um leve movimento de cabeça.
Ela, então, se aproximou, levava meu braço para em torno do seu pescoço. Pegou a minha outra mão, levando-a para sua cintura. Eu estava tão espantada que mal reagia, deixava bobamente ela me guiar e fiquei ainda mais espantada ao perceber isso.
– Jura pra mim que não vai me bater? – Ela agora falava quase num sussurro. Um tom de voz tão doce que só me fazia ficar ainda mais inebriada. – Eu não vou fazer nada de mal a você. – Se aproximou ainda mais. – Nunca mais. – Dessa vez sussurrou bem próximo ao meu ouvido, podia sentir seu hálito quente fazendo minha pele arrepiar.
Engoli em seco de novo, estava estática, as borboletas quase saindo pela minha boca, mas seus lábios as impediram. Meus olhos imediatamente se arregalaram. O que aquela garota estava pensando? Eu nunca tinha beijado alguém antes, eu se quer já havia me imaginado beijando alguém e então do nada ela faz aquilo, logo após toda aquela declaração. Naquele momento eu percebi que não era tão machona quanto diziam que eu era, pois se eu fosse, eu teria virado um soco na cara dela em vez de ficar ali paralisada. Ou talvez eu fosse machona por estar gostando de ser beijada por outra garota?
Eu tinha que admirar a sua coragem, mas talvez ela tivesse percebido que eu estava assustada de mais pra fazer algo contra ela. Eu estava morrendo de medo de que alguém visse aquilo, afinal, mesmo sendo uma rua que quase não passava ninguém, ainda era um local totalmente aberto. Entretanto, por um segundo eu tentei não pensar nisso, quem levaria a pior se fosse pega seria ela, eu já tinha fama de machona e sapatão mesmo, não ia fazer diferença. Coisa estranha, eu pouco me importei de acabar me descobrindo mesmo “sapatão”.
Aqueles lábios tão macios, o perfume que ela exalava, a maneira como segurava levemente minhas mãos no corpo dela, tudo isso fez com que eu aos pouco relaxasse e com isso fechei os olhos para conseguir aproveitar mais. Eu não sabia nem mexer meus lábios direito, era até vergonhoso. Quando ela percebeu que eu tentava corresponder o beijo, senti seus lábios formarem um leve sorriso por alguns segundos e, então, enlaçou seus braços na minha cintura colando meu corpo ao dela. Meu coração batia muito acelerado. Nossas línguas entraram em contato e ela explorava com vontade minha boca, eu correspondia como podia, e assim ficamos por minutos até precisarmos de ar.
Eu ofegava e sentia minhas bochechas quentes, deviam estar da cor do meu cabelo. Estava com muita vergonha de olhar pra ela e ainda sentia as borboletas no meu estômago. Eu não abri meus olhos, apenas abaixei a cabeça, levando as mãos ao meu abdômen.
– Você está bem? – Ela perguntou.
Balancei a cabeça negativamente, meu coração batia muito rápido, eu respirava com dificuldade, achava que ia ter um treco. O pior é que eu não entendia todas essas reações do meu corpo. As pessoas não deveriam se sentir desse jeito todas as vezes que beijavam, porque se não elas não beijariam tanto.
– Hey Erza... – Ela levantou meu rosto com as mãos. – Não está bem mesmo? – Perguntou preocupada.
Então eu chorei. Eu não lembrava qual teria sido a última vez que lágrimas escorreram dos meus olhos. Com tudo que passei eu percebi que chorar não resolvia as coisas e só demonstrava fraqueza, então me tornei mais forte em relação a isso também. E agora eu chorava na frente dela, era mais do que vergonhoso.
– Se gostava de mim porque fez tudo aquilo? – Perguntei. – E porque fez isso agora? O que fez pensar que eu gostaria?
– Eu não sei Erza, eu já disse que me odeio por tudo aquilo. Eu arrisquei te beijando agora, você podia simplesmente ter batido em mim...
Eu não sabia direito o que estava sentindo, talvez frustração por ela não ter me beijado antes e em vez disso me provocado e feito todas as coisas horríveis que fez. Tentei parar com aquele choro idiota, secando minhas lágrimas com a mão.
– Depois disso eu não quero mais ter que bater em você.
– Isso significa que...?
– Eu apenas perdoarei você se me prometer que nunca mais vai me dar motivos pra te bater, que não vai mais me dar motivos pra te odiar. E eu não quero que fique se odiando também.
– Eu não vou dar motivos Erza, eu juro. – Toda feliz, praticamente pulou em cima de mim me abraçando e eu logo a afastei. – Não gosta de abraços? – Perguntou subitamente entristecendo.
– Desse tipo não. – Respondi.
– Então de que tipo gosta? – Perguntou.
Sorri de canto maliciosamente. Havia chegado a hora de mostrar que eu não era uma garotinha assustada quando se tratava de relacionamentos. Rapidamente a virei enlaçando meus braços na sua cintura dela e a prensando entre a parede e meu corpo. Ri de satisfação bem próximo aos seus lábios.
– O que acha desse? – Perguntei.
– Muito bom. – Ela respondeu.
– Ah é? – Mordisquei seu lábio inferior e ela pareceu gostar. Antes que eu tentasse qualquer outra coisa abocanhou meus lábios para mais um delicioso beijo.
Além das borboletas, Mirajane acabou despertando muitas outras coisas em mim aquele dia. Coisas que gostei muito. Eu ainda estava um pouco assustada com tamanha mudança, com tantas sensações novas, meu coração ainda estava acelerado enquanto eu a beijava e as malditas borboletas, ah... eu esperava que elas um dia me deixassem em paz. Mas enquanto eu estivesse com aquela pestinha da Mirajane seria difícil!
“Eu deveria ter superado todas as borboletas
Mas estou afim de você”
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