Stella

14 Não me esqueça


Notas iniciais
Bom dia! A partir daqui iniciamos a fase mais tensa da história, preparem-se. Boa leitura! CAPÍTULO REVISADO

— Oi. – A porta aberta revelou um homem completamente esgotado. As olheiras estavam mais escuras do que nos outros dias, o cabelo estava uma verdadeira bagunça, e nem precisava mencionar aquela camiseta cheia de manchas do que parecia ser leite.

— Muito obrigado. – Abriu espaço para que uma Lindsay muito chocada entrasse na casa. – Muito obrigado mesmo por ter vindo. – Fechou a porta, usando as mãos para segurar as da amiga. – Eu sei que te chamei em cima da hora, e também sei que você tem a sua própria filha para cuidar e várias outras coisas para fazer...

Ela abriu um sorriso piedoso e acariciou a bochecha dele com a mão dominante.

— Não, está tudo bem. A Luz está com a minha avó. E realmente não vai me atrapalhar. – Cruzou os dedos, dando um beijinho neles. – Eu juro.

— Eu só... só estava pensando se você não poderia ficar um pouquinho com a Lily para mim. – A mão foi direto para a nuca, e seus olhos evitaram os dela. – Eu queria ver se consigo encontrar a Stella.

— Ela ainda não deu nenhuma notícia?

O rosto dele se entristeceu, e ele deu um longo suspiro.

— Não. Ainda não. – Massageou as pálpebras com as pontas dos dedos. – Eu quero registrar o desaparecimento, mas ela é adulta, então a primeira coisa que eles vão pensar é que ela foi embora por vontade própria e com as próprias pernas.

— Eu odeio essa burocracia. – Resmungou, fechando o semblante. – Mas temos motivos concretos para nos preocuparmos.

— Mas me disseram que nenhum acidente foi reportado. Isso é bom.

Ela colocou a mão no ombro dele.

— É maravilhoso.

— É... – Acariciou a mão que estava em seu ombro. – Eu acho que sim. – Os seus olhos estavam fixados na paisagem do lado de fora da janela; esperava ver a esposa no horizonte, mas só encontrou o mesmo nada. Lindsay o seguiu com os olhos quando ele foi até lá. – Liguei para todos os hospitais próximos daqui, para unidades de atendimento de emergência e...

O celular tocando espantou os seus pensamentos sobre o que poderia ter acontecido com a mãe de sua filha.

— Stella? – A expectativa de escutar a voz da esposa era alta, mas foi desaparecendo gradativamente. A pessoa do outro lado da linha não era ela. – Oi, Danny... – Os seus lábios se comprimiram numa expressão de desgosto. – Mas como assim ela deixou uma mensagem para você? Mas está tudo bem com ela? – As pernas ficaram nervosas, o fazendo andar de um lado para o outro no meio da sala. – Onde ela está? O que exatamente ela te disse nessa mensagem? O que diabos está acontecendo? E por que ela te ligou? Eu sou o marido dela.

— Eu não acredito nisso. – As mãos foram para o rosto quando ele jogou o celular em cima da mesinha. – Ela simplesmente... simplesmente sumiu. Ela só... – Lindsay estava o encarando com uma expressão tão angustiada quanto a dele. – Ela simplesmente se levantou e foi embora. – Apontou para a porta. – Ela saiu por aquela porta e foi embora. E, quando ela decide contar para alguém que resolveu sumir da minha vida, esse alguém nem sou eu. Esse alguém é o Danny.

— Eu... acho que é só força do hábito.

— Hábito? Lindsay, ela é uma mulher adulta. Não estamos falando de uma adolescente que está encrencada porque desrespeitou o horário de chegar em casa. – Voltou para perto da janela. – Eu fiquei acordado a noite toda, com o celular numa mão e a mamadeira da Lily na outra, preocupado com a possibilidade dela estar numa vala em algum lugar. E ela não teve a humanidade de me ligar e avisar que está bem?

Ela entendia a revolta que o amigo estava sentindo, mas também sabia que aquela situação exigia cautela.

— Eu sei que você está chateado, Will. Mas não tire conclusões precipitadas sem saber o que aconteceu.

— O fato é que a Stella é a minha esposa... – Ele se aproximou mais dela. – E ela também é a mãe da Lily. As prioridades dela deveriam ser as pessoas que estão sob esse teto. Mas, obviamente, esse não é o caso. Ou ela acordou ontem e simplesmente decidiu que não queria mais saber nem de mim, nem da Lily. Ou, então, ela tem um problema muito sério.

— É exatamente essa a questão. – Finalmente sentou no sofá. – Na cabeça da Stella, você é o problema. – Vem aqui, senta. – Abriu um sorrisinho, dando duas palmadinhas no lugar vazio ao seu lado. Ele abriu o mesmo sorrisinho e sentou ao lado dela. – Vamos supor que ela realmente tenha depressão pós-parto. – As mãos dele cobriram o rosto. – Ela está se recuperando de um parto muito delicado, após meses de muito estresse por estar grávida e ser HIV+. É muita coisa para uma cabeça, entende? Consequentemente, são muitas coisas que estão totalmente fora do controle dela. Eu não acho que ela esteja fugindo de você. Mas acho que você representa uma fase muito complicada da vida dela, e ela não consegue lidar com isso agora.

Os ombros dele estavam tensos, e as mãos apertavam o tecido da calça com muita força.

— Mas eu quero ajudar ela, Lindsay. – As palavras quase não saíram. – Eu realmente quero... mas, não consigo parar de pensar que isso começou em algum outro lugar, em algum momento. Eu só queria saber quando foi que ela ficou tão infeliz. Foi quando a Lily nasceu? Ou quando nos casamos?

— Eu acho que nada disso realmente importa agora. – Will voltou a andar de um lado para o outro. – Há muitos fatores psicológicos em jogo. – Os olhos deles se encontraram. – A Stella não está sendo tão racional quanto você queria, isso levando em consideração que ela esteja mesmo com depressão pós-parto. E quanto mais isso dura, mais grave fica, e eu tenho certeza de que esse é o caso dela.

— Ótimo. – Mordeu os lábios. – Mas ela me abandonou e abandonou a Lily também. Então, é muito complicado não levar para o lado pessoal.

A resposta dela ficou na ponta da língua, pois ele nem esperou; apenas vestiu o sobretudo e saiu da casa. O barzinho não estava tão cheio quando ele chegou; havia meia dúzia de caras bebendo cerveja nas mesas do fundo, e ele pretendia ser um deles.

— Cara! Eu não acredito que estou recebendo um autógrafo do Jordan Donahue. Eu... meu Deus do céu! É uma foto maravilhosa! É um lindo carro, um lindo carro! – O barman conversava alegremente com o único homem que estava sentado perto do balcão, dando tapinhas em suas costas. Will se sentou ao lado dele e abaixou a cabeça. – Ei, cara. Ei, cara. – Cutucou Will com o cotovelo, apontando para a foto que tinha nas mãos. – Me deixa te apresentar...

— Olha... – Ergueu a mão, cortando a alegria do outro. – Eu posso só ficar na minha aqui? Me dê uma cerveja e uma tequila. Ele rapidamente entendeu o recado, voltando para trás do balcão para preparar o pedido. O outro homem foi cutucado pelo cotovelo de Will, que apontou para a bebida dele. – É por causa de mulher também? – Ele não respondeu. – Eu... nem sei se preciso mesmo disso. Ainda acho que só tenho que pegar meu carro e me mandar para o sul.

A testa de Jake se franziu.

— E por que o sul?

— É Atlanta. Tem um autódromo lá, e eu tenho alguns amigos por lá também. Eu só queria andar numa pista aberta e dar uma relaxada.

O outro cliente terminou a bebida e disse:

— Entendo. Mas Atlanta tem umas curvas complicadas.

— Eu sei. – Recebeu a garrafa de cerveja das mãos de Jake. – Mas consigo fazer isso de olhos fechados. – O sorriso confiante exalou ego quando ele bebeu o primeiro gole direto da garrafa. Jordan riu, negando com a cabeça. – O que foi? Você não tem nenhuma ligação com algum caso antigo, não é?

— Não. É claro que não.

— Então não ficará ofendido de me ver bebendo isso. – O gole agora foi direto do copinho com tequila. – Tem muitas curvas, mas a pista é excelente. É basicamente só manter a velocidade nas curvas.

Jordan abriu um sorriso franco.

— Mas nada disso importa se você não mantiver o controle do acelerador.

— Eu não sei quem você pensa que é, cara. Mas é óbvio que não entende nada de corridas. – Os outros dois homens caíram na risada. – Olha, eu já dirigi no circuito de Atlanta um milhão de vezes.

— Eu acredito.

— Não, eu acho que você não entendeu. Eu não estou falando de um desses lugares onde esses riquinhos pagam os olhos da cara para dar umas voltinhas na pista no fim de semana. – Bebeu outro gole de tequila. – É... quando digo que dirigi, estou querendo dizer que competi como semiprofissional.

— Isso é fantástico mesmo. – O piloto tentou não rir, mas era mais forte do que ele. – Então quer dizer que você é um piloto de verdade?

— Essa não é a minha profissão, mas fui perfeito no meu circuito.

— Então, acho que talvez possamos correr juntos no próximo circuito de inverno. – Eles sorriram um para o outro quando o piloto se levantou para cumprimentar o mais novo conhecido. – E qual é o seu nome?

— Will. – Apertou a mão que estava estendida para ele. – Will Taylor.

— Eu sou o Jordan. – O sorriso dele se voltou para Jake. – Ei, quanto eu te devo?

— Nada, cara. – O barman abriu um sorriso cheio de dentes e apertou a mão dele. – É uma honra te receber aqui, JD.

Jordan pendurou o sobretudo no braço e foi para a saída.

— Então, tenha uma boa noite.

— Você também, cara! – Acenou com a alegria de uma criança. – Pé no acelerador e borracha na estrada!

— Não é qualquer um que ganha bebida grátis. O que esse cara tem de especial? Quem é ele?

Jake riu.

— Então você competiu como semi e não sabe quem era ele?

Will se debruçou sobre o balcão.

— É óbvio que eu não sei quem era.

O barman pegou a foto autografada e entregou para ele.

— Meu Deus! – Estava de boca aberta. – Esse cara era o Jordan Donahue? Então eu estava dizendo para o Jordan Donahue como correr em Atlanta? – Abaixou a cabeça, passando as mãos no rosto. – Eu sou um idiota, Jake.

A mão de Jake apertou o braço esquerdo dele.

— Está tudo bem, cara?

— Não.

A tarde estava se apresentando quando Will voltou para casa. O cansaço ainda estava estampado em seu semblante, mas pelo menos estava mais relaxado, e isso deixou Lindsay mais tranquila. Ela acabara de checar Lily no segundo andar.

— Oi.

— Oi. – Ele não olhou diretamente para ela. – Escuta, eu sinto muito por ter ido embora daquela forma. – As mãos cobriram o rosto envergonhado. – É que antes...

— Não precisa me pedir desculpas.

Ele abriu um sorriso tímido.

— E como a Lily está?

— Ela é um anjinho.

— É mesmo. – O sorriso ficou mais terno e paterno. – Ela deu trabalho?

— Não. Ela é um amorzinho.

— E ela não choraminga quando você a segura?

— Não.

O suspiro veio quando ele abaixou a cabeça.

— Esse é mais um sinal de que tem alguma coisa errada com a Stella.

Os minutos silenciosos foram encarados com constrangimento; ele ainda estava muito envergonhado por ter se comportado como um verdadeiro moleque, e também por ter passado a manhã toda fora.

— Eu acho que você não a encontrou.

— Na verdade... eu nem tentei. – A risada que veio dela foi involuntária, mas o fez rir também. – Eu acabei indo parar no bar do Jake e fazendo besteira.

— Isso é bem a sua cara mesmo. – Sacudiu a cabeça, arrancando outra risada dele. – Espero que não se incomode... – Apanhou alguns papéis na mesinha de centro. – Eu pesquisei algumas coisas e fiz algumas anotações. Espero que te ajude. – Entregou as folhas para ele. – É sobre depressão pós-parto. – Eles se sentaram lado a lado. – É óbvio que não substitui as consultas com um terapeuta, mas é um começo. E também tem o número de um grupo de apoio aí.

— Muito obrigado. – Os olhos estavam fixos nos papéis. – Se eu tivesse um dólar para cada vez que pesquisei sobre isso só para tentar me convencer de que estava errado... – A sua garganta se fechou. – Eu amo a Stella, Lindsay. E realmente quero ajudar, mas... como eu vou fazer isso? Se ela nem fala comigo...

Lindsay nem sabia o que dizer para minimizar um pouco daquela dor no peito do amigo, então escolheu a coisa mais sábia: ouviu todo o seu desabafo sem pronunciar uma só palavra.

— Eu chamei a Judy. – O telefone ainda estava em suas mãos quando ele retornou do segundo andar com uma mamadeira nas mãos. – Ela só é uma ajudinha. Só até a Stella voltar para casa. Ela é ótima com crianças.

— É perfeito. – Abriu um sorrisinho, deixando a mamadeira na mesinha. – Eu nem sei mais o que dizer para te agradecer.

Ela abriu um sorriso largo.

— Amigo é para essas coisas.

— Eu acho que nunca precisei tanto de ajuda como agora. – Os olhos estavam pesados, a noite em claro começara a cobrar o seu preço. – Estou tentando manter a calma e dar o benefício da dúvida para a Stella. Estou tentando acreditar que ela está realmente doente, mas é complicado sem ela aqui. – Os pés voltaram a andar pela sala inteira. – Às vezes, acho que a Stella inventou um mundo inteiro só para ela. Com marido, bebê, casa nova... e então ela se cansou de tudo isso e foi embora.

O sorriso que iluminava o rosto de Stella quando ela entrou no bar parecia pertencer a outra pessoa; era como se realmente tivesse se livrado dos fardos do seu passado. O tempo naquela cidadezinha estava a fazendo muito bem. Ela estava muito mais feliz e muito mais leve.

— Oi.

— Oi, Georgie. – Lulu abriu um sorriso contente. – Como vai o mundo das vendas farmacêuticas?

Ela pendurou o sobretudo na cadeira e sentou.

— Eu pensei em dar uma passadinha para pegar um refrigerante entre uma reunião e outra.

Lulu saiu para levar algumas bebidas para os clientes que a esperavam em uma das mesas.

— E vai ser só isso mesmo?

— Está prontinho. – O homem que saiu debaixo do balcão abriu um sorriso caloroso para Stella. – Você é muito bonita.

— Oi. – O sorriso dela também se abriu, até que reparou no ferimento na mão direita dele. – O que houve?

— Ah. – Colocou a mão machucada no balcão. – Me machuquei aqui embaixo.

Ela segurou a mão dele e analisou o machucado.

— Não me parece tão grave.

— É. Eu sou um carpinteiro, então acontecem muitos acidentes comigo. – Riu. – É só enfaixar e voltar ao trabalho.

Ela estava muito concentrada no machucado para notar que o homem a encarava com um brilho estranho nos olhos. Lulu foi quem o trouxe de volta para a realidade, dizendo:

— Mas não quer ir ao médico? – Retornou para o balcão. – Pode ter quebrado.

— Eu acho que não. – Stella observou o ferimento por todos os lados, tinha visto muitos iguais em suas vítimas. – Não está inchado e nem nada. Mas é sempre bom fazer um raio-x. – Piscou para ele. – Só para ter certeza.

— E como uma mulher tão bonita como você sabe tanto sobre machucados?

— Oh! – Os seus lábios se comprimiram, mas não largou a mão dele. – O meu irmão era atleta no colégio, e ele sempre estava com uns machucados parecidos.

— Eu também jogava futebol no colégio. – Estufou o peito, como todo homem que está tentando impressionar uma mulher. – Ah! Eu me chamo Scott Maddox. E você?

Ela estendeu a mão livre para ele.

— Georgie Samms.

Ele apertou a mão dela.

— É um lindo nome, Georgie.

— É só colocar um pouco de gelo em cima para passar a dor. E se inchar, é só tomar um ibuprofeno. Mas, mesmo que inche, a única coisa que o médico poderá fazer por você é receitar um anti-inflamatório. – Largou a mão dele quando percebeu que aquele contato estava durando tempo demais. – Vai ficar tudo bem.

— Eu acho que alguém aqui é ótima na área da saúde. – Lulu entrou na conversa, arrancando uma risada do carpinteiro e amenizando aquele clima estranho entre eles.

Notando o constrangimento crescente, Scott saiu de cena, indo organizar a caixa de ferramentas na mesa livre. Ainda estava na metade quando viu Lulu olhando para o celular com um semblante de sofrimento.

— Está tudo bem?

— A minha garotinha está espirrando muito. – Olhou novamente para a tela, em seguida para ele. – Eu queria ir até lá dar uma olhadinha nela... sei que você já fez isso duas vezes essa semana, mas será que não pode olhar o bar para mim por uma horinha?

— Sem problemas. – Scott sorriu, levando a caixa de ferramentas para a cadeira ao lado de Stella. – Mas dê um beijo nela por mim.

A mãe levou a mão ao peito, colocando um sorriso radiante no rosto e indo pegar o sobretudo e a bolsa que estavam na entrada.

— Eu sei que é bobagem. Mas sempre que ela espirra, eu gosto de ir até lá dar uma olhadinha.

Scott estava debaixo do balcão novamente quando Stella tirou os olhos de Lulu e olhou para frente.

— Ela tem é sorte de ter uma mãe tão atenciosa.

A primeira coisa que ouviu saindo da boca dele foi um grito; então ele saiu debaixo do balcão e, mostrando o dedão, disse:

— Ai! Droga!

Ela usou as mãos para abafar a risada.

— O que...

— Eu peguei o martelo, mas como meu dedão ainda está doendo, não consegui segurar direito e...

— Oh, não! Eu sinto muito. – A risada escapou. – Mas você é mesmo um carpinteiro?

A sobrancelha dele se arqueou.

— Sou.

— Então, como é que ainda se machuca tanto assim?

— É porque esse é um trabalho para dois caras, senhorita.

— É mesmo, senhor. – Arqueou a sobrancelha também, exibindo um sorriso convencido. – Então, sendo assim, estou livre.

Com as sobrancelhas erguidas, usou o dedo machucado para apontar para ela.

— Você?

— Eu. – Levou a mão ao peito. – Eu posso te dar as ferramentas, a não ser que você seja um daqueles homens das cavernas que acha que as mulheres não conseguem diferenciar uma ferramenta da outra e que deveriam ficar em casa descalças e grávidas. – Apontou a pistola de pregos para ele. – Você não é um desses caras, é?

— Nunca. – Ergueu os braços. – Agora abaixa a pistola de pregos, tá?

Com uma risada, ela colocou a pistola sobre o balcão.

— Me desculpe.

O trabalho foi todo realizado em dupla, com ela entregando as ferramentas requisitadas e ele fazendo os reparos necessários. O clima descontraído entre eles se estendeu pelo restante do bar, enquanto ele tecia elogios a respeito do conhecimento dela sobre ferramentas e aproveitava para adentrar no seu passado.

Por outro lado, Stella inventou toda uma vida para ele. As mentiras saíam da sua boca com uma facilidade assustadora, mas o que mais a incomodou foi falar sobre família e casamento. Ele contou que sua esposa o havia abandonado cerca de dois anos atrás, e ela começou a pensar se Will se sentiria assim também. Era doloroso.

Scott acabou vendo o anel em seu dedo anelar esquerdo e perguntou se ela era casada. Enquanto olhava para o anel, pensou em contar a verdade, mas acabou dizendo que era só uma herança de família. Em seguida, vieram mais perguntas sobre família e crianças, e mais mentiras foram contadas sem a menor dificuldade.

A conversa se encerrou com ele a convidando para um encontro, e aquilo mexeu com os sentimentos dela, fazendo-a se sentir inadequada e uma mentirosa de carteirinha. Os pensamentos todos se voltaram para o olhar de decepção do marido quando descobrisse que ela tinha abandonado ele e a filha para se divertir com outro homem.

Ela estava recolhendo o sobretudo quando Lulu chegou com a filha encolhida em seus braços. O pedido que fez a Stella foi uma surpresa, que ainda tentou se esquivar, mas não teve jeito; a menininha estava choramingando no seu colo em dois tempos. Ela ainda tentou conversar com a pequena como tentava com Lily, mas também não funcionou.

— Eu realmente não sou muito boa com crianças. – Entregou a criança nos braços da mãe. – Eu acho que elas não vão muito com a minha cara.

— Mas você se saiu muito bem.

— É... pelo menos ela não chorou...

Scott arrumou os braços como se estivesse segurando um bebê e começou a balançar.

— É só balançar um pouquinho.

Stella riu da demonstração.

— E qual é o nome dela?

— Lindsay. – O cérebro de Stella praticamente reiniciou; era como se sua família estivesse dizendo um sonoro “não me esqueça”. – E muitíssimo obrigada por segurar ela. – Beijou o rostinho da filha. – Algum dia você será uma ótima mãe.

Engolir foi muito trabalhoso.

— Foi um prazer. – Ensaiou um sorriso. – Eu acho que essa é minha deixa.

A surpresa dos amigos com a partida dela estava estampada em seus rostos; eles perguntariam o motivo da fuga no próximo encontro. Os planos de Stella eram outros enquanto jogava a mala em cima da cama e colocava suas poucas roupas dentro dela. A recepcionista havia acabado de atender a chamada quando ela mudou de ideia outra vez, decidindo manter a estadia e voltar para o barzinho.

Lulu não estava por lá, mas um sorriso surgiu no rosto de Stella quando avistou Scott atrás do balcão. Ele estava com as costas para a entrada, arrumando alguma coisa.

— Então você ainda tem todos os seus dedinhos?

— Eu acho que tenho nove e meio. – Ergueu o dedo machucado, e os dois riram. – Nós ficamos preocupados com você.

— Eu sei, me desculpa. – Limpou a garganta, olhando para o chão. – Eu acho que saí com muita pressa.

— E o que aconteceu?

— Uma reunião online.

— E chegou na hora?

— Sim, cheguei. – Um sorriso mais sugestivo enfeitou os seus lábios. – Mas agora, eu queria saber se aquele seu convite para sair ainda está de pé. Estava tão entediada naquele hotel.

O peito chegou a ficar apertado, sabendo que aquele poderia ser o seu pior erro, mas, no momento, parecia ser tão certo. Georgie merecia viver uma noite como aquela, e Stella poderia ficar em segundo plano por mais algum tempo.

Notas finais
É, péssima escolha... Até o próximo!