Stella

15 Destino


Notas iniciais
Bom dia! Então, meio que estou perdendo a criatividade, mas o importante é que continuo tentando. Boa leitura! CAPÍTULO REVISADO

— Olha só quem acordou, papai. – A menina, amorosamente aninhada em seus braços, mordia um brinquedo como se estivesse tentando arrancar um pedaço, mas a falta de dentes inviabilizava a tarefa. – Ela estava com os olhinhos arregalados no berço.

— Ei, meu amorzinho. – Os olhos dele saíram dos papéis e foram direto para o rostinho animado da menininha. O sorriso que surgiu em seu rosto foi automático; a filha tinha aquele poder sobre ele. – E eu acho que está com muita fome também. – Lindsay diminuiu a distância entre eles, sentando ao seu lado e acomodando a afilhada igualmente sentada em suas pernas. – Escuta, muito obrigado por ter reunido tudo isso aqui para mim. Estou conseguindo praticamente enxergar a Stella nisso aqui.

Lily choramingou, puxando a blusa da madrinha para baixo, e foi erguida para apoiar o peso nas próprias perninhas.

— Os especialistas recomendam que ambos os pais procurem ajuda especializada.

Ele abriu um sorrisinho melancólico, esticando a mão para tocar o rostinho da filha.

— Eu sei, mas é muito complicado fazer isso sem ela aqui. – A menina começou a espernear, fazendo cara de quem cairia no choro. O primeiro reflexo do pai foi tirar a pequena do colo da madrinha e começar a caminhar pela sala. Ela gostava de ser carregada daquela forma. – Eu sei que ela deve estar sofrendo muito com tudo isso e que deve estar muito confusa também, mas... não sei como ajudar.

— Com muito amor e muita paciência.

Os braços dele ninaram a menininha resmungona, mas ela não se calou até que o pai voltasse a caminhar.

— É, mas eu tentei fazer isso...

Lindsay se levantou, colocando as mãos nos bolsos da calça e mordiscando os lábios.

— Eu sei, mas isso foi antes de realmente ter certeza de que ela está com depressão pós-parto.

— É tudo culpa minha. – A mão livre segurou o pezinho agitado da filha. – Eu fiquei inventando desculpas para aquele comportamento esquisito dela. Eu fui um facilitador clássico.

— Não seja tão duro consigo mesmo. – A mão dela pousou no ombro dele, apertando com delicadeza. – A Stella está em negação.

— O mais engraçado é que ela sempre tem uma desculpa para tudo. Ela está sempre achando um jeito de dizer que não tem nada de errado. – Lily choramingou outra vez, e seu pai a colocou deitada sobre seu antebraço, passando uma perninha para cada lado e tomando um cuidado extra com sua cabecinha. As palmadinhas nas costas vieram quando ela estava bem acomodada. Os olhos da madrinha acompanharam o movimento, e ela sorriu. – Eu sei que ela vai voltar para casa, e sei que, quando ela voltar, teremos que encarar a realidade... mas ainda não sei como ajudar. Porque... porque sempre que falo alguma coisa sobre depressão pós-parto, ela cria uma barreira entre nós.

— Eu acho que a terapia vai te ajudar muito com isso.

O remorso se instalou na forma de um nó na garganta dele, que olhou para a filha com tristeza. Ela ainda era tão pequenininha e tão inocente, não merecia estar passando por nada daquilo.

— Eu vou ser muito honesto com você, Lindsay. – Lily resmungou, e as pernas de seu pai voltaram a explorar a sala. – Eu sabia que não seria nada fácil, mas estou muito chateado com tudo isso. – Os olhos deles se encontraram. – A Stella é a mãe da Lily e, querendo ou não, ela tem que arcar com as responsabilidades da maternidade.

Ela segurou a mãozinha da afilhada.

— Eu entendo que esteja chateado, mas tente se colocar no lugar dela. Ela acha que é uma péssima mãe. Na cabeça dela, ela está fazendo um favor ficando longe da Lily.

— Eu sei, mas, para ser honesto... eu acho que ela está sendo egoísta, e isso é péssimo para o nosso casamento.

Ela abriu um sorriso desgostoso.

— Então agora você sabe por que a depressão pós-parto separa tantas famílias...

A conversa se estendeu por metade da tarde; eles tocaram numa variedade de assuntos, mas sempre retornavam para o mais importante. Lily não estava mesmo com vontade de dormir, então seu pai a carregou até o cercadinho, colocando-a lá dentro de barriga para cima e ficou observando a pequena brincar com os próprios pezinhos.

O sentimento de culpa estava estampado no rosto exausto dele, e nada do que ela disse abrandou aquele aperto no peito. Outro sentimento que se apoderou dele com igual intensidade foi o de gratidão. Estaria completamente perdido sem a valiosa ajuda dela. Os amigos estavam se despedindo com sorrisos constrangidos quando uma batida na porta cortou o momento. Lindsay estava mais próxima da porta, então a abriu e foi saudada pelo sorriso do marido.

— Oi, meu bem.

— Oi, querida.

Lindsay saiu, fechando a porta e deixando um clima estranho na casa.

— Oi. – A mão de Will ficou estendida enquanto ele passava direto para o cercadinho da afilhada. – Ainda estou me perguntando o motivo da minha mulher ter ligado para você e não para mim.

A primeira coisa que ele percebeu no olhar de Danny foi a raiva latente. Os dois se encararam como se fossem boxeadores no início de uma luta.

— E eu estou tentando entender qual foi a cagada que você fez para ela fugir, deixando o bebê dela aqui.

— Até onde eu sei, eu não fiz nada que justifique essa fuga dela. – O tom dele estava formal, como quando falava com o familiar de alguma vítima, mas os punhos cerrados ao lado do corpo denunciavam o seu real estado de espírito. – Eu a amo e quero ajudar, mas ela anda se comportando de um jeito muito estranho ultimamente.

O indicador de Danny foi pressionado contra o peito do outro enquanto ambos cerravam os dentes.

— E será que isso não é culpa sua? Não ouse colocar a culpa nela!

Os olhos de Will se fecharam.

— Danny... – Umedeceu os lábios. – Ela tem um problema sério, tá? – Os seus olhos encontraram os dele outra vez. – E o pior é que ela pode estar correndo perigo. Ela tem depressão pós-parto.

A expressão dele se tornou uma careta.

— Isso não é verdade. – A frase foi sussurrada enquanto sua mão se fechava em torno da camisa dele. – Estou aqui o tempo inteiro e posso garantir que a Stella é uma mãe feliz e muito bem ajustada.

— É isso! – Afrouxou o aperto da mão dele em sua camiseta. – É isso que ela faz parecer quando alguém está por perto. Mas, quando ela fica sozinha com a Lily, a história é outra.

O punho de Danny ainda estava fortemente cerrado.

— Eu disse para parar de culpar a Stella!

— Eu não... – As mãos foram ao rosto e ele deu as costas para o outro. – Eu não estou culpando ela.

Danny negou com a cabeça.

— Olha, eu saberia se ela estivesse mesmo doente, Will. Eu mesmo teria feito tudo que eu pudesse para ajudá-la, mas eu sei que ela ama a Lily. – As mãos dele foram se abrindo lentamente. – Ela queria essa menina mais do que tudo no mundo.

Will virou novamente para ele.

— Eu sei disso. – Os cabelos foram afastados do rosto pelas mãos. – Só que agora ela não consegue mais nem olhar para a filha dela.

Os olhos de Danny se estreitaram.

— Mas será que você não está tentando ser o mocinho da história? – O dedo foi pressionado contra o peito dele outra vez, e ele suspirou. – Eu a conheço muito melhor do que você, e pode ter certeza de que farei alguma coisa para ajudar.

As sobrancelhas de Will se franziram.

— Mas que merda é essa que você está dizendo?

A batida na porta trouxe Jas e uma camada extra de estresse para aquela conversa. Os homens não conseguiam entrar em acordo sobre nada, e ela sentia que era a única coisa impedindo que eles rolassem pelo chão da sala.

O padrinho informou que havia aberto um chamado para a amiga numa delegacia onde tinha muitos conhecidos e que levaria a filha dela para sua casa até que a mãe retornasse para a dela. E foi nesse momento que as coisas entre ele e o pai da menina pioraram. O rosto de Will foi estampado com a mesma determinação de um animal selvagem quando estava protegendo a cria, e ele foi categórico ao afirmar que a filha não iria para lugar nenhum. O outro homem recuou, reconhecendo o instinto paterno do amigo, também era pai e faria o mesmo.

A presença de Jas ajudou Will em sua argumentação de que Stella estava mesmo doente, com ela contando sobre uma vez em que foi obrigada a segurar a menina porque a mãe estava fingindo que não estava escutando nada. E também falou sobre as incontáveis vezes em que chegou e encontrou Lily se esgoelando no carrinho enquanto sua mãe ignorava a sua existência.

O coração de Danny estava apertado, e nem com todos aqueles relatos ele se convenceu. No entanto, todos entendiam que era mais cômodo colocar toda a culpa em Will do que admitir que a amiga não estava mesmo em seus melhores dias. Jas acabou encerrando o embate ao dizer que o carinho que ele sentia pela mulher estava distorcendo a sua visão da realidade.

O clima estava horroroso para a família e amigos de Stella; em contrapartida, ela estava vivendo momentos que levaria na memória enquanto jogava conversa fora com o charmoso carpinteiro que havia conhecido cerca de um dia atrás. O sorriso que ela ostentava no rosto estava mais puxado para um flerte quando disse:

— O meu chefe me pediu para passar mais alguns dias em Redfield.

Ele abriu um sorriso maravilhado para ela.

— Isso é maravilhoso.

— É, sim. – Umedeceu os lábios, aproveitando para desviar o olhar e colocar uma mecha do cabelo atrás da orelha. – E já que fui embora daquela forma tão rude, pensei em voltar aqui pelo menos para me desculpar com você e, de quebra, ver se aquele seu convite para sair ainda está de pé.

— É claro. – O sorriso dele se alargou. – É... só me deixa fazer algumas ligações.

— Oh! – Usou a mão para cobrir a boca. – Então você já tem planos. – Sacudiu a cabeça. – Me senti a pior pessoa do mundo agora.

— Não, você está me fazendo um favor. – A testa dele se franziu. – Eu não quero passar mais uma noite no bar com um monte de caras. – Ela riu, e ele também. – Você fica linda quando sorri.

O rosto dela se contraiu numa careta, mas o sorriso permaneceu enquanto ela abaixava a cabeça.

— Eu não quero estragar a sua noite com os meninos.

— Mas eles vão entender. – Segurou a mão direita dela, procurando seus olhos. – Agora vamos começar do zero. Georgie, você quer sair comigo essa noite?

Ela assentiu.

— Eu quero sim.

O momento era mais do que descontraído para ela e para o charmoso pretendente, enquanto, na casa dela, o marido e os amigos ainda estavam traçando uma linha do tempo para tentar descobrir o seu paradeiro.

As estrelas adornavam o céu da cidade que nunca dorme enquanto os dois homens as observavam pela janela. O conflito entre eles ainda não estava completamente encerrado, agora era motivado pela discordância sobre quem deveria ir buscar Stella quando fosse localizada. O marido protestou com afinco, dizendo que aquele era um assunto de marido e mulher, e o outro discordou, afirmando que ele era o motivo da fuga de Stella. Olhando para a filhinha inocentemente adormecida, conseguiu convencer seu padrinho de que, para o bem dela, seria melhor que seus pais se entendessem sozinhos, sem a ajuda de terceiros, como dois adultos maduros.

A noite estava muito tranquila para Stella, que estava adorando toda aquela adrenalina de sair com outro homem que não fosse aquele com quem ela se casou. As imagens dos rostos de sua família a assombravam enquanto ela assistia a uma trama parecida se desenrolando no filme que Scott a convidara para ver. O debate sobre o filme se arrastou até o bar.

— Eu só não entendi o motivo deles continuarem voltando no tempo.

Stella bebeu outro gole da cerveja e deu de ombros.

— Eu acho que era para mostrar como ela costumava ser feliz.

— É... as coisas mudam... – Abriu um sorriso entristecido, e ela apoiou o queixo na palma da mão e o encarou com um sorriso igualmente triste. – O marido mudou, e ela não conseguiu acompanhar todas essas mudanças...

— Mas e se fosse ao contrário? E se eles tivessem permanecido os mesmos?

Ele riu.

— Aí o filme teria acabado em cinco minutos.

A risada foi compartilhada entre os dois, mas a dela foi desaparecendo aos poucos quando encarou a aliança em seu dedo, e seus pensamentos voaram para o marido. Os dedos ainda envolviam a aliança quando ensaiou um sorriso, e, olhando para ele, perguntou:

— Então, acha que ela está errada por ir embora?

— Eu acho que ela estava infeliz, porque dependia de outra pessoa para ser feliz.

O sorriso nervoso dela se fechou, e ela engoliu em seco.

— Mas por que temos sempre que estar agradando alguém? – O sussurro veio com um brilho misterioso em seus belos olhos. – Por que não podemos simplesmente viver o momento e nos arriscar de vez em quando?

Ele sorriu, encarando a boca dela.

— É isso que você quer?

Ela murmurou:

— Exatamente.

Ela mordeu os lábios, olhou para os dele e se inclinou para um beijo. Stella era do tipo de mulher que acreditava que tudo acontecia por um motivo. Então, de algum modo, estava destinada a ir para Redfield e também estava destinada a beijar um carpinteiro naquela noite.

Notas finais
É bomba atrás de tiro aaaa. Até o próximo!