Stella

16 Um fardo pesado demais


Notas iniciais
Bom dia! Estive doente esses últimos dias... então tô tentando retomar as rédeas da história. Boa leitura! CAPÍTULO REVISADO

O homem estava muito ansioso para partir rumo a Redfield, mas tinha dois problemas. Ele ainda não sabia o que dizer para a esposa e o seu corpo sofria com uma intensa crise de ansiedade. A dor na barriga era tamanha que ele começou a pensar se não era assim que um réu se sentia ao entrar no tribunal para ser julgado.

O vento fresco da madrugada foi um verdadeiro presente para a mente de Will, que endireitou a postura e respirou fundo antes de abrir a porta. O sorriso de Lindsay o saudou como habitualmente, mas ele só conseguiu retribuir com um leve aceno de cabeça. A boca se encontrava travada para aquele tipo de interação. Ao perceber a inércia do amigo, ela passou pelo espaço entre ele e a porta e entrou na casa. A primeira coisa que ouviu dele foi uma tentativa mirrada de agradecimento:

— Muito obrigado por ter voltado.

— Sem problemas. Eu não tinha nada para fazer essa noite em casa mesmo. – O sobretudo foi desabotoado e deixado no sofá. – E, além disso, eu amo esmagar aquela coisinha linda!

Os lábios dele formaram um sorriso involuntário quando ela reproduziu o movimento que fazia para apertar as bochechinhas da menininha.

— Você está me fazendo um enorme favor... – O sorriso dele se alargou enquanto olhava para aquele semblante animado. – E, mesmo assim, ainda faz parecer que sou eu quem está te fazendo um.

Ela segurou a mão dele.

— E eu não disse que faria qualquer coisa para ajudar? – Apertou aquela mão gelada, mantendo o sorrisinho empático. – Vai me contar o que está acontecendo ou não?

— É a Stella... – Umedeceu os lábios, soltando a mão da amiga. – Ela está em Redfield.

O rosto dela foi tomado pela curiosidade, enquanto eles se sentavam lado a lado no sofá.

— E você conseguiu falar com ela?

— Não. – As mãos foram para o rosto, e ele deu um longo suspiro. – Foi o seu marido quem descobriu onde ela está...

— E por que você ainda não está lá? – A cabeça dele se escondeu entre as mãos. A sua ficha foi caindo lentamente e, com receio, ela procurou os olhos dele. – Você vai buscar ela, não vai?

— É claro que vou. – Esfregou os olhos cansados. – O Danny queria ir atrás dela, mas eu o convenci de que temos que resolver isso sozinhos. Eu e ela somos casados e também somos os pais da Lily.

Lindsay concordou com um sorriso singelo. Ela também havia enfrentado problemas dessa natureza com o marido e lembrava de como foi horroroso ter a filha envolvida nesses problemas conjugais.

— Eu... ainda não sei o que dizer para ela. – Foi até a lareira e pegou a babá eletrônica, encarando-a como se encarasse a filha. – Estou furioso e muito frustrado, mas não quero descontar isso nela. Eu... só queria que isso acabasse logo.

— Eu tenho certeza de que ela também...

— Eu repassei isso na minha mente um milhão de vezes. Fico pensando em como falar com ela e, mesmo assim, ainda não sei por onde começar e nem o que ela vai dizer. E não importa o que digamos um para o outro, não existe garantia de que ela vai querer voltar para casa comigo.

A empatia nos olhos dela encheu o peito dele, mas não fez aquele frio na barriga ir embora. Ainda assim, sentiu-se agraciado com o apoio da amiga. O monólogo continuou por mais algum tempo, com Lindsay apenas concordando com leves acenos de cabeça. O processo de arrancar a casca de uma ferida é sempre assim, e ela não queria ser a pessoa que o silenciaria.

A casca da ferida da esposa dele ainda estava intacta, mas algo em suas mãos trêmulas entregava a vontade de colocar tudo o que estava carregando no peito para fora. Ela olhou para Scott com olhos de quem sabe que está atravessando uma linha que não deveria, mas entregou a taça para ele mesmo assim, pedindo desculpas pela falta de exemplares de vidro.

O homem sorriu, pouco se importando com uma bobagem daquelas; estava encantado por ter sido convidado para o quarto de uma mulher tão bonita como ela. O sorriso no rosto da companheira foi forçado, mas ele não percebeu, porque estava muito ocupado pensando em como era sortudo por estar naquele cômodo. Por outro lado, aquele personagem estava começando a cansar Stella, e ser chamada por aquele nome que não era o seu era como estar brincando de espiões.

O personagem dela também estava provocando muita turbulência em sua casa, especialmente para seu marido. A única pessoa que permanecia tranquila em tudo aquilo era a filha deles, que era muito inocente para entender o que os pais estavam vivenciando.

— Ei. – Lindsay agarrou uma almofada que estava quase caindo do sofá e se sentou, usando o objeto como apoio para as mãos nervosas. – O que está fazendo aqui? – Esticou o pescoço para espiar o que ele estava vendo no computador. – E por que ainda não está em Redfield?

— Oi. – Virou para ela, ensaiando um sorriso, mas a cara que estava fazendo não sustentou o teatro. – E como está a Lily?

Lindsay abriu um sorriso maternal, listando as atividades nos dedos como se estivesse falando da própria filha:

— Aquela coisinha mamou, trocou de roupa e agora está dormindo como um anjinho.

O rosto dele se iluminou com a memória do rostinho da filha.

— Eu nem sei se algum dia conseguirei te agradecer por tudo o que está fazendo por mim...

Ela fez beicinho, erguendo a mão e afinando a voz para dizer:

— Eu tenho uma ideia. – Apoiou o queixo na palma da mão e fingiu estar pensando. – Eu acho que você pode começar indo buscar a minha amiga.

Ele riu.

— E eu vou. Só estava dando uma última pesquisada para conseguir mais informações antes de ir atrás da minha mulher. – Engoliu em seco, pegando as folhas e folheando. – E mesmo com tudo o que li, todos os sites e panfletos... ainda não sei como falar com ela.

— Eu também não sei, mas sei que sentado aqui é que não é. – Arrancou as folhas das mãos dele, recebendo um olhar quase ofendido. – Eu sei que você sabe que ela ainda é a mesma mulher por quem você se apaixonou. – Ele concordou com a cabeça. – E se... – O seu corpo se projetou para frente. – E se essa fosse só mais uma briguinha? Como você resolveria?

A mão colada ao peito revelou o desconforto causado pela pergunta.

— Mas essa não é mais uma briguinha, Lindsay. – Umedeceu os lábios, abaixando a cabeça. – Ela entrou naquele carro. Ela escolheu me abandonar. Ela abandonou o emprego, a casa dela... tudo.

— Eu sei disso, não estou dizendo que ela é uma santa, não é isso. – Agarrou uma das mãos dele, colocando-a entre as suas na almofada. – E eu sei que você tem uma listinha cheinha das coisas que você está louco para esfregar na cara da Stella, mas não esqueça que ela também está sofrendo muito com tudo isso.

O ressentimento doeu em seu peito, como se tivesse sido hediondamente ferido.

— Ah... – A boca amargou e ele puxou a mão. – Então acho que é só ignorar o fato dela ter virado o meu mundo de cabeça para baixo, ou então ignorar o fato dela ter virado o mundo da nossa filha de cabeça para baixo. – Aquele sentimento cresceu em seu peito como uma erva daninha, e era tarde demais para mitigar seus efeitos. – Eu vou só a deixar me convencer de que não foi nada demais... como sempre...

— O mais importante agora é você ir até ela. Ou as coisas entre vocês vão piorar...

O sentimento de inadequação constante também fazia seu peso no subconsciente de Stella, que, mesmo com tudo dizendo para recuar, ainda insistia no pecado da carne. A mão de Scott agarrou a dela quando terminaram toda aquela garrafa de vinho. Ela não sentia mais a necessidade de manter um braço de distância dele; muito pelo contrário, estavam cada vez mais próximos.

— As suas mãos são tão fortes. – Alisou as mãos dele. – Eu adoro homens que sabem trabalhar com as mãos. – O lábio mordiscado e o vinho entorpecendo seus sentidos adicionaram uma camada de excitação. – O meu pai construiu uma casinha na árvore para mim e para o meu irmão quando eu era mais nova, e ela era o meu esconderijo secreto. – Exibiu um sorriso tranquilo, nem parecia que estava mentindo descaradamente. – Era maravilhoso ficar fingindo ser quem eu quisesse.

Ele se aproximou mais, deixando sua perna encostar na dela.

— É mesmo? E quem você quer ser agora?

— A Georgie da Grécia.

— Isso é perfeito. – O braço dele encostou no dela, causando um arrepio em ambos. – E essa sua casa na árvore era exclusiva para meninas, ou os meninos também podiam brincar?

— Eu diria que dependia muito de quem era o menino. – Os olhos dela estavam fixos na boca dele. – Mas eu era a chefe, então eu decidia quem podia entrar.

— Uau! Eu acho que temos uma maníaca por controle aqui.

Os metros entre eles foram se transformando em centímetros, até que a boca dele se chocou contra a sua com tanta intensidade que ela sentiu o mundo quase saindo de órbita. O beijo se aprofundou e, quando se deu conta, estava sendo empurrada contra a cama, enquanto a mão dele vagava por debaixo de sua blusa. Aquele foi o seu limite, e, com um empurrão forte, ela o afastou para longe.

As mãos foram automaticamente para a boca, e o choque cobriu o seu rosto como se tivesse acabado de cometer o pior dos pecados. As pernas ainda estavam tremendo quando se colocou entre a cama e a cômoda. Inicialmente, Scott não disse nada, mas logo em seguida colocou um sorriso calmo no rosto e guardou as mãos para si.

— Eu acho que essa sua casinha era para meninas.

— Eu não estou sendo justa... – Ela se encolheu como se fosse uma menininha assustada, colocando as mãos na cabeça. – Não estou sendo justa com ninguém... e isso inclui você.

— Está tudo bem, Georgie. – Virou para olhar para ela, mas não ousou tocá-la. – Eu gosto de você.

Ela balançou a cabeça freneticamente.

— Você... nem me conhece direito. Mas isso não é sua culpa.

— Escuta... – O primeiro movimento que fez para tentar se aproximar foi recebido com um olhar ainda mais alarmado, então ele recolheu a mão para perto do próprio corpo. – Eu... eu... eu não queria te deixar chateada. Eu entendo se esse encontro acabar agora. Só fiquei meio confuso com tudo que aconteceu. Mas eu nem deveria estar confuso com nada...

— Mas isso não é justo. E você não é obrigado a lidar com as minhas crises. Você merece muito mais do que isso.

As mãos deles se encontraram quando ela também se sentou na cama.

— Escuta... – As palavras saíram da boca dele com uma delicadeza desmedida, enquanto os ombros dela tremiam como os de uma presa em iminente perigo. – Eu acho que essa separação que você está enfrentando é muito mais séria do que você está disposta a admitir.

As unhas foram inconscientemente cravadas na palma da mão dele, que ficou de boca fechada e lutou contra a dor como o legítimo carpinteiro que era. A respiração dela veio em lufadas esforçadas; o medo de que a voz vacilasse era quase maior do que a vontade de colocar tudo aquilo para fora.

— Eu... achei que tivesse encontrado o cara certo. E até acho que realmente encontrei. – Os olhos fechados trouxeram a imagem do rosto do marido, e aquilo doeu como se realmente o tivesse traído. – A verdade é que tenho a carreira dos meus sonhos, uma família que me ama... decorei a minha casa do jeitinho que eu sempre sonhei, mas me sinto a pior pessoa do mundo. Um dia simplesmente acordei e vi que nada disso importava... tudo o que eu conseguia pensar era: Então é essa a minha vida? E parecia que todas as escolhas que fiz na minha vida eram erradas. – As lágrimas vieram acompanhadas por um soluço que ela fez questão de abafar com as mãos. Era vergonhoso se desmontar dessa forma na frente de um completo desconhecido que nem sabia o seu verdadeiro nome, e seria ainda pior deixar que ele notasse a sua fraqueza. – E agora eu não consigo mais fazer nada. Estou simplesmente me afogando e sei que ninguém virá me salvar.

O restante do desabafo veio com um choro silenciosamente sofrido, mas Scott ouviu cada palavra calado, como um bom homem faria, tomando o cuidado de não encostar nela em nenhum momento. A vergonha que estava sentindo pelo conjunto da obra não a deixaria se enfiar nos braços de outro homem que não fosse aquele que ela aceitou como marido.

Os braços de Will estavam ansiosos para receber a amada de volta, mesmo que sua mente fervilhasse com a possibilidade dela não querer esse tipo de aconchego. Os ouvidos de Lindsay também eram ótimos para aquele tipo de desabafo, ela o entendia perfeitamente, pois sabia exatamente como era ter a vida inteira revirada.

— Eu sei o que você está sentindo, Will. – A mão foi carinhosamente colocada no ombro dele. – Eu sei como é assistir alguém que você ama lidar com uma coisa que você simplesmente não entende. Eu sei que é desesperador. Eu sei como é isso... também já passei por isso.

O rosto de um espelhou a dor do outro, como se estivessem olhando para o próprio reflexo.

— Então... você acha que é o mesmo que você passou com o Danny?

— Eu sei que não é o mesmo... – As mãos foram para os bolsos. – Mas é parecido. Eu também me convenci de que estava ajudando o Danny e também achei que estava fazendo a coisa certa.

Os ombros dele caíram.

— É um fardo pesado demais, não é?

Os ombros dela se enrijeceram, e ela sussurrou:

— É sim. – A vergonha cruzou o rosto dos dois. – Mas eu sabia que ele estava confuso, que estava mentindo... – A boca dela amargou. – E que estava me traindo. Mas quanto mais irritada eu ficava com isso, mais machucada e ressentida eu me sentia. – Os lábios dela se comprimiram. – Odeio ver isso acontecendo com vocês.

— Eu não quero culpar ela por uma coisa que ela nem consegue enxergar.

— Então não faça isso. – Um sorriso esperançoso iluminou o rosto dela. – Só seja honesto com ela, porque eu e você sabemos que não adianta nada ficar brigando. – A mão dela foi diretamente para o peito dele, dando uma palmadinha carinhosa. – E tente se lembrar do que você realmente quer.

— Eu só quero que a Stella volte. Eu quero a minha família de volta.

— Então vá buscar a sua mulher. – Apontou para a porta, recebendo a babá eletrônica em suas mãos e um caloroso beijo na bochecha. Ele agarrou o sobretudo e saiu pela porta.

Em Redfield, Stella também estava se despedindo do carpinteiro, que fora um excelente ouvinte para ela nas últimas horas.

— Eu sei que dei muitos sinais confusos... – Abriu um sorriso desajeitado. – Mas quero que saiba que me sinto péssima por isso.

— Eu acho que você não precisa de mais um problema na sua vida, Georgie. – O sorriso que ele abriu foi tão despreocupado que os ombros dela perderam um pouco da rigidez. – Mas eu sempre quis ser um problema na vida de alguém. – A risada foi sincronizada enquanto ele se aproximava lentamente dela, testando os seus limites. – E você tem sido um verdadeiro sonho na minha vida.

O marido dela estava no corredor quando a viu compartilhando um caloroso beijo com outro homem. A barriga voltou a doer quase no mesmo instante e as mãos foram direto para ela enquanto ele se curvava para frente. A dificuldade para respirar era tanta que ele se encostou na primeira parede que alcançou, tomando o cuidado de permanecer fora do campo de visão dela. Os dedos agarraram o estômago como se fosse o seu coração. A boca não emitiu um único som; ele sabia que aquilo era um fardo pesado demais até para alguém como ele.

Notas finais
É... complicado. Até o próximo!