Stella

4 Morfeu


Notas iniciais
Bom dia! Para o dia começar melhor (ou não), tá aqui mais um capítulo. Espero que gostem! OBSERVAÇÃO: O título do capítulo é uma referência ao deus do sono na mitologia grega. Boa leitura! CAPÍTULO REVISADO

A situação não era fácil para ninguém, mas Stella era quem mais estava sofrendo. O sentimento de culpa pesava no peito como uma notícia ruim recebida de última hora. Will levou Lily para as enfermeiras assim que notaram o machucado no ouvido dela. A mãe ficou prostrada na cama, deprimida com a possibilidade da filha também ser soropositiva; lutou tanto para evitar que ela passasse por isso... e agora ela estava em perigo por sua causa. O pai voltou para o quarto uma meia hora depois; a filha ficou fazendo alguns exames e testes, e em breve eles descobririam se ela era mesmo soropositiva ou não.

— Ei, onde ela está?

Ele foi até ela com passos lentos, toda aquela serenidade irritando a mulher. Como ele podia estar tão calmo diante da possibilidade do bebê deles ser HIV+?

— Estão testando os reflexos dela. Eles são perfeitos. – O orgulho transparecendo em sua voz. – Ela é tão forte. Ela... ela é perfeita.

— Tudo bem. – Segurou o braço dele com força. – Mas ela foi infectada ou não?

— Eles nos dirão em breve, tenha paciência.

— E por que você está tão calmo? – Balançou a cabeça, contrariada com toda aquela tranquilidade da parte dele. Parecia até que ele não tinha consciência do que realmente estava acontecendo. – A nossa filha pode ter sido infectada...

O homem abriu um sorriso sereno e ela respirou fundo, queria ter o poder de controlar os próprios pensamentos.

— Eu entendo perfeitamente o seu medo, mas ela fará alguns exames de sangue e saberemos a verdade essa noite.

— Eu sabia que ela poderia correr esse risco... era exatamente por isso que eu queria a adoção. Eu não achei que isso realmente fosse acontecer... – Abaixou a cabeça, segurando o choro. – Mas está acontecendo...

— Stella, eu acho que ela não foi infectada. Aquele sangue pode não ser seu, ou talvez ela tenha se machucado...

— Mas... e se ela...

— Então iremos lidar com isso. – Abaixou o tom de voz. – Somos os pais dela.

— Eu lidei com isso durante todos esses meses... o preconceito, os protocolos. Mas eu sou adulta, consigo lidar com isso... mas uma garotinha...

Ele abriu um sorriso compreensivo.

— Eu não acredito no quão preconceituosas as pessoas ainda podem ser em pleno 2008. Você é uma ótima mãe, não importa o que aconteça.

— Nós temos mesmo uma filha. – O rosto dela se iluminou ao pensar na menina. – Dá para acreditar? Eu sei que você não queria um filho agora.

Ele coçou a nuca, seu rosto se enchendo de ternura ao pensar naquele serzinho.

— É... quando senti o coração dela batendo... e a aconcheguei no meu colo, pensei: agora ela está aqui e eu a amo mais do que tudo nesse mundo.

Stella simplesmente abaixou a cabeça.

— Eu também. – Abriu um sorriso triste. – Só que parte o meu coração quando penso que ela está sofrendo... por minha causa.

Ele segurou o queixo dela, obrigando-a a olhar para ele.

— Ei...

As palavras simplesmente se perderam; toda a atenção deles se voltou para a mulher que entrou com a criança no colo.

— Aqui estão a mamãe e o papai.

Os pais da menininha deram as mãos, sorrindo para a filha, que ainda se encontrava nos braços da enfermeira. Lily resmungou, como se realmente soubesse que estava na presença dos pais.

— Ela deu um grito tão alto. – Olhou com carinho para ela. – Ela é um bebê saudável e tem um belo pulmão também. – Apertou uma das perninhas dela. – Eu acho que ela sabe que é muito amada, não sabe, pequena?

Stella abriu um sorriso agradecido.

— Muito obrigada por cuidar dela.

— O prazer foi todo meu. Essa coisinha aqui conquistou o coração de todo mundo nesse hospital. – A menina começou a chorar e ela começou a procurar algo na própria roupa. – É hora da primeira mamadeira dela. – Entregou o bebê para o pai e a mamadeira para a mãe. – Não se preocupem caso ela não beba tudo. – Eles assentiram. – Acho que é hora de dar um pouquinho de espaço para vocês. – Saiu.

— Ei, querida. – Aconchegou a filha. – Está com fome?

Stella riu.

— Ela fica tão pequena nos seus braços.

Ela entregou a mamadeira para ele, que pegou e colocou na boca do bebê.

— É, mas logo, logo ela estará mais alta do que eu.

— Ou mais alta do que eu.

Ele riu, passando Lily para a mãe.

— Com certeza.

— Do que está rindo? – Arqueou a sobrancelha. – Eu sou só uns dez centímetros mais baixa que você. E você é um verdadeiro milagre, princesinha. O papai nem está acreditando. – Apertou o narizinho dela com o indicador. – Você é tão perfeita, com os seus dez dedinhos nas mãos e nos pés.

— O mundo mudou tanto... – Abriu um sorriso sincero. – Agora ele tem muito mais cor.

Ela sussurrou:

— Eu quero que você termine essa mamadeira e vá dormir.

O homem se aproximou mais delas e os dois ficaram contemplando o rosto da criança, que não demorou muito para terminar a mamadeira e começar a fechar os olhos. Lily estava dormindo quando algo no rosto de sua mãe mudou e ela a ofereceu para o pai, que recusou, sentando ao lado delas na cama.

— Eu ainda tenho uma coisa para falar para ela. – Lily voltou a ser aconchegada nos braços da mãe. – Lily, a mamãe passou por um momento muito ruim alguns meses atrás, e ela ficou com muito, muito medo, porque estava triste e sozinha. Mas ela sempre estará aqui para você. – O restante foi dito olhando para Stella. – Ela é a pessoa mais forte que eu conheço. Ela convive com o HIV há alguns meses e agora está tentando ser forte e ter fé. Algum dia ela mesma irá te contar toda essa história.

Os olhos dela lacrimejaram, e ela respirou fundo.

— Lily, eu não sou tão forte quanto o seu pai imagina. Eu também vacilo e piso muito na bola, mas você é a minha inspiração agora. Você é o melhor presente que eu poderia ganhar. – Limpou as próprias lágrimas. – Eu sei que a vida com os seus pais não vai ser das mais fáceis, mas prometemos que, não importa o que aconteça, iremos te dar uma vida cheia de amor e alegria.

Era quase noite quando Stella conseguiu dormir. Ao acordar, notou que nem Lily e nem o pai dela estavam ao seu lado. Então, se virou na cama, tentando se levantar para ir atrás deles, mas nem foi necessário. A porta se abriu naquele exato momento e os dois entraram.

— Aonde você estava indo?

Ela se aconchegou na cama mais uma vez enquanto ele se sentava próximo aos seus pés.

— Estava indo procurar vocês, oras.

— Só fomos dar uma voltinha.

O silêncio imperava no local quando Lindsay chegou falando alto:

— Onde está a minha afilhadinha linda?

— Lindsay! Não precisa gritar. – Stella a repreendeu, usando um tom mais baixo. – O que está fazendo aqui?

— Foi mal. – Ergueu os braços. – Minha querida Stella, ainda são 18h, o horário de visita é até às 19h. – Sentou perto do amigo. – Eu acabei de sair de um plantão infernal. Eu só queria saber por que as pessoas morrem tanto.

A outra mulher revirou os olhos.

— Elas não têm muita escolha...

— As pessoas são tão inconvenientes. – Voltou a atenção para o embrulhinho nos braços do pai. – Oi, meu amor. Eu sou a sua madrinha e prometo que terei soluções para todos os seus problemas. Eu sou tão jovem quanto você, sabia?

Os pais da menina caíram na risada.

— Deixa de palhaçada, Lindsay. – A amiga abafou a risada. – Você tem vinte e três anos.

— E você quer segurar ela um pouquinho? – Ele passou a menina para o colo dela.

Stella observou a amiga brincando com sua filha e sorriu.

— Será que você pode me dar um pouco de água, Will?

O homem simplesmente se levantou e saiu do quarto, indo atrás da água.

— Ela é tão linda. – Acariciou o nariz da afilhada. – Eu acho que estamos em desvantagem aqui.

— Eu concordo.

Lindsay mudou a posição do bebê para que pudesse olhar melhor para o seu rosto. O restante do tempo foi gasto com a amiga fazendo piadas e conversando com a garotinha, enquanto a mãe desabafava sobre a sua mais recente crise de consciência e era devidamente amparada por ela. O horário de visita estava quase chegando ao fim quando o restante dos amigos dela chegou.

— É aqui que está a menininha mais linda desse mundo? – Jas e Dante disseram.

— Ela não é a coisinha mais perfeita desse mundo? – Lindsay mostrou a criança para a amiga. – Não quer segurar ela um pouquinho? – Estendeu a pequena na direção dela.

— Oh! Mas o que é isso? – O pai da menina colocou a cabeça para dentro do quarto. – Será que tem alguma celebridade ficando nesse quarto? – Os outros riram. – Esse hospital é enorme. – Entregou a garrafa para Stella, que imediatamente bebeu uns três goles.

Jas continuava parada ao lado do marido.

— Vai lá.

— Eu não. – Negou com a cabeça. – Eu não sou muito boa com bebês. Mas você é ótimo, querido. – Bateu no ombro do marido, lançando um olhar aflito para Lily. – Eu não quero deixá-la cair e nem fazê-la chorar.

— Não se preocupe. – Stella abriu um sorriso divertido. – Eles são muito resistentes.

Ela empurrou o marido para que ele pegasse a menina no seu lugar.

— Isso é o que você está dizendo.

— Ela ficará muito feliz sabendo que você não quer segurar ela. – Dante segurou a menina no colo com a ajuda da madrinha dela. – Eu não sou como a sua tia Jas, querida. – Estudou o rostinho dela. – Eu não tenho medo de segurar você no colo.

Jas se aproximou dos dois.

— Oi, querida. É a sua tia Jas, e eu não tenho medo de segurar você no colo. Eu só não gosto muito de segurar os bebês de outras pessoas, mas acho que posso abrir uma exceção para você. Nós te amamos desde o comecinho, acompanhamos a sua mãe em quase todas as fases da gravidez, e agora você está aqui... e é tão perfeita. Todo mundo ficou muito surpreso quando você nasceu, mas também ficamos muito felizes. Eu comprei umas roupinhas lindas para você, é tão bom te ter aqui.

— Ela está ouvindo você e ela adora você. – Beijou a bochecha da esposa. – Olha! Ela está tentando abrir os olhos. – O bebê mexeu a boca, formando um sorrisinho que encantou todos que estavam naquele quarto. – Oh! Ela está sorrindo.

— Ela é um verdadeiro anjinho. – O rosto da mulher também se iluminou. – Ela terá o próprio anjo da guarda. A sua tia Alyssa teria amado te conhecer. – Engasgou, sentindo a voz embargar. – Ela sempre estará com você, porque também te ama muito. – Concluiu, dando um beijo na testa dela.

O amor deles pela menina preencheu o ambiente, e Axton conseguia ver isso enquanto permanecia parado a um passo da porta. Não se achava íntimo o suficiente para participar daquele momento. O rapaz estava quase indo embora, quando Lindsay o viu e foi em sua direção, agarrando-o pelo braço e puxando-o para dentro do quarto.

— A pequeninha tem mais uma visita.

Ele estava muito tímido, mas com ela por perto, isso não duraria muito.

— Oi, Axton. – Stella se inclinou para olhar melhor para ele.

— Eu não quero me intrometer numa reunião familiar...

— Nada disso. – Negou com a cabeça. – Eu quero que todos participem. Eu quero que todo mundo faça parte desse momento maravilhoso da vida da minha filha.

Jas correu até ele, segurando seu outro braço e o puxando para mais perto.

— Vem!

Dante também encorajou o amigo.

— Olha só como ela é fofinha.

Ele lentamente chegou mais perto dela, olhando para o seu rosto com muita atenção.

— Eu quero que você saiba que você é muito bem-vinda, Lily. – Sorriu. – Eu vou te ensinar tudo o que eu sei sobre computadores e todas aquelas outras coisinhas brilhantes que você ainda nem sabe o que são.

— Essa é uma ideia maravilhosa. – Dante sorriu para ele. – O Axton pode ser o professor de informática dela.

Jas colocou a mão no ombro do marido.

— Mas você também pode ensinar isso para ela, Dante.

— Eu sei. – Piscou para o amigo. – Mas é o Axton que tem que fazer isso.

O rapaz abriu um sorriso agradecido.

— Obrigado.

— Mas você sabe como fazer uma boa pirataria. – Encarou o outro com um olhar mais sério. – Eu não quero que ensine isso para ela.

O pai da menina soltou uma risadinha baixa.

— Eu acho que alguém aqui será muito protetor.

A mãe dela assentiu com a cabeça.

— Com toda a certeza.

— É isso mesmo. – Dante afirmou. – Eu não quero que nada de ruim aconteça com ela.

O restante da equipe também começou a rir, engatando numa conversa descontraída e repleta de piadas. Ainda estavam rindo quando uma enfermeira colocou a cabeça para dentro do quarto e perguntou:

— Como ela está?

A mãe respondeu:

— Ela está ótima.

O pai reparou que ela estava segurando um papel, então respirou fundo e apertou a filha mais forte contra o peito.

— Você está com o resultado?

— Estou. – Entregou o papel para ele. – O seu bebê é HIV-. O sangue era dela.

O respiro aliviado veio da parte de todos que estavam naquele quarto, mas Stella era a única que estava tremendo. Will a abraçou, dando um beijo em seu rosto.

— Ouviu isso? Você é invencível. – Lindsay brincou com o bebê. – Meus parabéns. – Abraçou pai e filha.

— Muito obrigado.

Os outros também o abraçaram. O clima de festa era enorme, quando Stella começou a se sentir tonta outra vez. Morfeu não demorou muito para retomar o controle sobre o corpo dela, e em questão de segundos ela estava nos braços dele. O monitor cardíaco começou a apitar, e a última coisa que ela ouviu foi Lindsay dizendo:

— A Stella desmaiou!

Notas finais
Sempre terminando com uma tensão... Até o próximo!