Stella
35 Lucas 12:2
Notas iniciais
— Mas como assim? – Danny praticamente arrancou o celular das mãos da mulher, dando uma boa olhada no conteúdo da mensagem. – Ele tem mesmo certeza disso?
Lindsay começou a massagear o braço como se realmente estivesse doendo.
— Era exatamente isso que eu queria saber, mas você decidiu que seria muito melhor arrancar o meu braço fora.
— Eu também quero ver. – Jas praticamente pulou da cadeira e arrancou o celular das mãos do amigo. – Mentira! – Usou a mão livre para cobrir a boca quando terminou de ler a mensagem.
— É verdade. – A outra mulher ainda estava massageando o braço quando o usou para apontar para a tela do celular. – Está escrito bem aqui.
— Meu Deus, Danny! – Jas estava tentando não rir da desgraça do amigo enquanto voltava para a sua mesa. – Você está muito ferrado.
O homem revirou os olhos, tentando ignorar aquela pontada que estava começando a sentir no estômago.
— E você acha que eu não sei disso, Jasmin? – Abriu os braços. – Isso só pode ser mentira mesmo...
Enquanto ele encarava aquele dilema com a sensação de que tudo pioraria muito em breve, os seus amigos estavam vivendo uma das melhores fases no seu casamento. Os dois se sentiam tão bem na presença um do outro, que poderiam jurar que estavam literalmente andando nas nuvens, quem os visse naquele clima de romance jamais imaginaria que eles tinham acabado de passar por uma fase muito complicada nesse curto espaço de tempo como marido e mulher. O passeio no parque foi rápido, mas muito revigorante para todos, inclusive para a pequena Lily, que dormiu durante todo o trajeto de volta para a creche.
— Eu estou realmente muito impressionada. – Stella parou no meio do corredor e fechou os olhos, admirando todo aquele silêncio. – Está tudo tão organizado por aqui, mesmo sem estar aqui, você ainda consegue colocar ordem nas coisas. – Abriu os olhos e sorriu para ele enquanto olhava em volta. – Meus parabéns.
— Eu acho que o pessoal tem muito medo de perder o emprego. – Brincou, rindo da própria piada. – Será que está tudo bem com o Danny? – Olhou para o celular, estranhando a ausência de mensagens ou ligações.
— Eu acho que se tivesse acontecido alguma coisa, já estaríamos sabendo. – O sorriso acolhedor que ela abriu o tranquilizou muito mais. – Uau! Olha só para isso! – Ainda estava muito admirada com todo aquele silêncio. – Todo mundo tão comportadinho.
— E isso tudo é graças ao meu brilhante trabalho como chefe. – O orgulho estava estampado no seu rosto. – Eu não sou demais?
A mulher riu enquanto eles continuavam passando de sala em sala para supervisionar todo o trabalho.
— Olha... eu acho que está ficando meio apertado aqui. Não tem espaço suficiente para nós três.
— Três?
— Você, eu e o seu ego.
— Está com ciúmes? – Brincou. – Saudades de participar da ação?
— Oh... não. – Negou com a cabeça enquanto ria. – Eu prefiro ver o meu maridinho em ação. – Colocou a mão no peito dele, que acompanhou o gesto com os olhos. – Com todo esse estilo, toda essa confiança... – Mordeu os lábios, abrindo um sorriso sedutor. – Você é um cara muito sexy.
— Ah, é mesmo? – Entrou na brincadeira, segurando a mão dela, mantendo-a no seu peito. – Está tentando me seduzir, detetive?
— Eu não... – O sorriso que ela tinha nos lábios ficou ainda mais travesso e o seu tom de voz ainda mais baixo e provocante. – Não no seu trabalho... – Lambeu lentamente o lábio superior com a ponta da língua. – Mas bem que você podia me seduzir... – Aquilo foi dito usando um tom ainda mais sussurrado. – Não estou aqui a serviço. – Abriu um sorriso provocante, vendo o homem abrindo outro e mantendo uma distância segura enquanto olhava em volta. – Acha que alguém se incomodaria se eu te desse um beijo agora?
— Eu não estou nem aí.
Os dois sorriam enquanto aproximavam os seus rostos um do outro, os seus lábios estavam quase se tocando, quando avistaram Danny saindo de uma das salas com a cara fechada. O homem encarou os amigos com uma expressão de derrota estampada no rosto e foi ao encontro de uma das jovens estagiárias.
— Alguém da família apareceu?
— Ainda não.
— Então me avise se alguém vier procurar por ela.
A confusão nos rostos dos dois era evidente, mas nenhum deles teve coragem de perguntar o porquê daquela expressão de completa derrota no rosto dele. Stella esperou mais um pouco para descobrir o que estava acontecendo, e quando descobriu também não soube exatamente o que dizer ou fazer. Então ficou o observando andar de um lado para o outro, até que encheu o peito de coragem e foi falar com ele.
— Ei. – O sorriso carinhoso que ela tinha nos lábios não foi capaz de abrandar o nervosismo dele, que continuou verificando a papelada do caso com as mãos trêmulas. – Eu posso te ajudar com isso?
— E por que a pergunta?
— É isso que fazemos... – Soltou uma risadinha sem graça. – Ajudamos uns aos outros. – O homem continuou calado. – Essa papelada vai te dar uma dor de cabeça daquelas.
Ele resmungou baixinho:
— Isso é ainda pior quando sei que acabei com o caso...
A mulher estranhou todo aquele silêncio da parte dele, mas mesmo assim tentou pegar um dos papéis que ele tinha nas mãos, vendo-o colocar a outra mão por cima, impossibilitando o seu acesso ao documento.
— Eu sei exatamente como é errar um teste, Danny... – Começou, mas ele não estava prestando atenção nela. – Eu sei que é muito ruim ficar repassando tudo o que você fez... cada movimento, cada procedimento... eu te entendo.
— Eu dou conta...
Ela o encarou com um olhar de censura.
— É sério? – Cruzou os braços, esperando uma resposta que não veio. – É sério mesmo que você não quer falar sobre nada disso?
O homem levantou a cabeça, dando um longo suspiro.
— Eu tenho certeza que realizei o procedimento do jeito certo... mas acabei recebendo uma mensagem que dizia que as amostras estavam contaminadas com as amostras de outro caso. E eu nem posso mais refazer essas amostras, porque a cadeia de custódia já foi quebrada e o corpo também já foi preparado para ser retirado pela família. – Passou as mãos no rosto enquanto soltava outro longo suspiro. – É uma merda... mas acontece. – Os amigos se encararam em silêncio. – Então você quer mesmo me consolar, não quer? – Ela assentiu e ele entregou a papelada que tinha nas mãos para ela. – Então vê o que você consegue encontrar nisso aqui.
— Beleza...
O clima na sala onde Jas estava era de velório, os semblantes de todos ao redor eram de derrota. Os olhares constrangidos e os suspiros de frustração deixavam bem claro a possibilidade daquele caso estar mesmo perdido.
— Não era para outra pessoa estar cuidando disso? – Will perguntou quando viu a amiga fazendo algumas anotações sobre a vítima.
A mulher levantou a cabeça, abrindo um sorriso simpático.
— Era, mas eu faço isso sempre que algum amigo meu mete os pés pelas mãos. – Voltou a escrever. – É o meu jeitinho de apoiar a pessoa, sabe?
Ele sorriu, abaixou a cabeça e respirou fundo.
— Esse caso era responsabilidade minha...
— Não tente carregar o mundo nas costas, Will.
— Eu acho que fui um egoísta. – Sentou na cadeira de frente para ela. – Eu gostei muito da ideia de poder passar um tempinho com a minha família...
Jas deu um longo suspiro, voltando a encarar o amigo.
— Mas foi ele mesmo que te convenceu a fazer isso... – Colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha. – Foi ele que disse que estava mais do que pronto para fazer isso. Eu sei disso porque eu mesma o ouvi dizendo isso. – O homem apenas balançou a cabeça enquanto comprimia os lábios. – E você também não é nem um super-homem... tudo bem ser só um cara normal para variar. – Abriu um sorriso acolhedor para ele. – Você só estava tentando ter uma vida...
— É... – Fechou os olhos. – Igual Hannah Knox... – Ambos suspiraram. – Eu sei que nem deveria te perguntar isso... mas o que foi que aconteceu aqui?
Ela umedeceu os lábios enquanto desviava o olhar, focando no papel que tinha nas mãos.
— Eu acho que o Danny realmente fez um bom trabalho... e qualquer um aqui pode confirmar o que estou te dizendo...
— Mas ele quebrou mesmo a cadeia de custódia?
— Sim... mas essas coisas acontecem o tempo todo... – Encolheu os ombros, ainda evitando olhar para ele. – Mas é como a minha avó costumava dizer... existem pintores e existem artistas. Um cara pode pintar casas para sobreviver e as pessoas o respeitarão por isso, mas não o confundirão com van Gogh ou com o Picasso. – Voltou a olhar para ele. – Todo mundo aqui sabe que você é um verdadeiro artista nessa área... e não estou dizendo que o Danny não é bom no que faz, ele é um detetive ótimo, mas é um pintor.
O supervisor ainda passou algum tempo conversando com alguns membros da equipe que haviam estado naquela sala no momento em que a cadeia de custódia foi quebrada, mas todos foram categóricos ao afirmar que ele tinha mesmo seguido todos os protocolos.
— Eu conversei com todo mundo e todos me disseram a mesma coisa. – Pegou a garrafinha de água de dentro da máquina e abriu para beber um gole. – O Danny fez tudo exatamente como manda o figurino.
Stella o acompanhou.
— Então como foi que a cadeia de custódia foi quebrada?
— O meu palpite é que alguém pode ter misturado as amostras por acidente, ou... – Encarou a mulher enquanto a coragem para completar aquela frase morria no seu peito e eles se sentavam. – Eu realmente devia ter ficado para ajudar... ou pelo menos devia ter ficado supervisionando tudo. Mas simplesmente o deixei me convencer de que ele daria conta de tudo e agora... e agora deu tudo errado. – O silêncio tomou conta da sala. – Ele vai precisar muito da gente.
— Então... – Coçou a nuca, cruzando as pernas. – Eu acho que ele ainda não descobriu isso... e simplesmente está agindo como se nada disso tivesse o abalado.
— É... – Umedeceu os lábios. – Eu ainda me lembro da primeira cadeia de custódia que quebrei...
— Mas foi ele mesmo que te convenceu a fazer isso. – Ensaiou um sorriso compreensivo enquanto segurava uma das mãos dele. – Ele queria provar que dava conta de fazer tudo sozinho e acabou se prejudicando, e agora ele só precisa de alguém para lembrá-lo de que isso não é culpa de ninguém.
O homem estava passando pela sala naquele exato momento e acabou escutando tudo.
— Não é necessário. – Eles trocaram um olhar de pura cumplicidade e se levantaram, indo ao encontro dele. – Mas algum de vocês tem alguma coisa para dizer a respeito do meu trabalho?
Stella limpou a garganta enquanto o seu marido colocava as mãos na cintura e abaixava a cabeça.
— Eu vou deixar vocês conversarem sozinho.
Os homens a acompanharam com os olhos enquanto ela saía, e ambos respiraram fundo antes de retornarem ao assunto.
— Eu só estava pensando se ainda posso te ajudar de algum jeito...
— Mas é claro. – O seu semblante se fechou ainda mais. – Porque eu sou mesmo um incompetente que não consegue fazer nada sozinho. – O outro coçou a orelha enquanto dava um longo suspiro. – Mais alguma coisa?
— Me conta o que foi que aconteceu, cara.
— Eu matei o caso.
— Certo... – Mordeu os lábios. – Então eu acho que ainda posso descobrir o que realmente aconteceu...
Danny soltou uma risada, levando a mão à nuca.
— Claro, claro. – Encarou o amigo. – O super-homem está sempre preparado para salvar os pobres e oprimidos, não é? – Os seus lábios tremeram enquanto ele os mordia com força. – Qual é, cara? Eu sei exatamente como o seu ego funciona. Eu sei que você acha que se você tivesse conduzido esse caso as coisas seriam diferentes. – Recuou, dando uns dois passos para trás. – Então muito obrigado, mas eu não preciso da merda da sua ajuda.
O outro homem foi atrás dele.
— Ei, escuta.
— Larga do meu pé.
— Me escuta. – Apressou o passo para o acompanhar. – Eu sei exatamente como você está se sentindo...
O outro parou no meio do corredor e virou para ele com os punhos cerrados junto as laterais do corpo quando ouviu aquilo.
— Não! – Fechou os olhos, respirando fundo. – Não faça isso. – Alertou em voz baixa. – Eu sou tão bom quanto você, só que eu vivo no mundo real, onde essas coisas acontecem mesmo... isso não é o fim do mundo. – Will abaixou a cabeça. – A menos... a menos que esteja me acusando de ter feito alguma coisa errada...
Os detetives estavam tão envolvidos naquela discussão, que nem perceberam quando a mulher de terninho preto chegou pelas suas costas.
— Detetive Taylor? – Havia constrangimento naquela indagação. – Detetive Messer. – Ele abriu um sorriso desgostoso e a cumprimentou com um breve aceno. – Eu imaginei que os encontraria aqui.
— Eu posso saber o que foi dessa vez, Eileen? – Will sabia que aquela mulher era uma verdadeira pedra no seu sapato, estava sempre defendendo algum delinquente que ele tentava colocar atrás das grades. – Quem você veio defender dessa vez?
— Hannah Knox.
— Como é que é?
— Eu fui contratada pela família dela. – O supervisor se encontrava tão surpreso quanto o amigo. – Eles querem processar o detetive Messer por negligência.
— E como... – Will ainda estava processando a novidade. – E como eles ficaram sabendo?
— As notícias voam, detetive. – Explicou muito brevemente. – A família dela têm amigos aqui neste laboratório, então acabaram ficando sabendo de tudo há algumas horas. – A mulher simplesmente saiu andando em direção à saída, sendo acompanhada pelos dois. – E como o acidente aconteceu nas dependências do hotel, terei que intimar os funcionários e qualquer pessoa que possa ter testemunhado ou até mesmo ouvido alguma coisa. – Parou na frente da porta. – E isso inclui o prefeito Hubbard. – Stella estava passando, quando escutou a conversa e decidiu parar para saber do que se tratava, ficando exatamente atrás de Eileen, que no momento estava distraída olhando para os outros dois detetives. – Eu ouvi dizer que ele também pode estar envolvido nisso e...
— Me desculpa... – Will ergueu a mão. – Mas o que o prefeito tem a ver com isso?
— Essa é a pergunta mais óbvia do mundo. – Arqueou a sobrancelha. – É claro que se ele estivesse naquele quarto quando tudo aconteceu, pode ser que ele tenha algo de relevante para contar ao júri. – Apontou para Danny. – Mas o importante é que graças a incompetência do seu amigo aqui... é que agora é quase impossível solucionarmos esse caso.
Danny encolheu os ombros e os seus lábios tremiam enquanto ele dizia:
— Isso é loucura...
— Ele fez um trabalho excelente.
Stella também saiu em defesa do amigo.
— O Danny não fez nada de errado.
Eileen virou para olhar para ela.
— Mas não é o que a família dela acha. – Comprimiu os lábios numa expressão desafiadora. – Ele misturou amostras, eu sei que vocês acham que isso é normal, mas o que vocês fariam se isso acontecesse com um membro da família de vocês?
— Mas deve ter algum jeito de resolvermos isso sem termos que ir parar nos tribunais...
— E a família dela acha que esse caso seria facilmente resolvido se não fosse pela contaminação das amostras, e eu acho que eles têm toda a razão... – Virou para olhar para os dois detetives novamente. – E não é nada pessoal.
— Então tá certo, Eileen. – Will estava pensando numa maneira de contornar a situação. – Mas você é uma advogada muitíssimo ocupada, então não precisa aceitar esse caso...
— Mas a família dela não vai desistir. – Cruzou os braços. – E se eu não aceitar, eles irão atrás de outra pessoa.
— O Danny é um excelente profissional, e eu tenho certeza que ele fez um trabalho ótimo com aquelas amostras.
— E se o júri concordar com o que o senhor está dizendo... – Deu de ombros. – Então não se fala mais nisso.
— Mas nem todos os casos são um sucesso...
Eileen fez uma careta para ele.
— E nem todos os casos têm a cadeia de custódia quebrada. A cadeia de custódia do caso da Hannah foi quebrada, e tudo aponta para uma falha do detetive Messer. – Respirou fundo, olhando para o homem que pretendia processar. – Em outras palavras, negligência. – Abriu um sorriso quase cínico antes de dar as costas para eles e seguir para a saída. – Entrarei em contato.
Stella mordeu os lábios, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha e dizendo:
— Eu sinto muito, Danny.
— Mas iremos lutar. – O marido dela afirmou. – Não vamos nos dar por vencidos.
— Sim. – Danny assentiu meio a contragosto. – Claro... mas você tem certeza que confia mesmo em mim? Tem certeza de que não acredita mesmo na possibilidade de eu ter quebrado essa maldita cadeia de custódia?
Ele não respondeu nenhuma das perguntas, então o outro simplesmente engoliu em seco, assentiu e se retirou. Will respirou fundo, olhando para a esposa, que tinha a mesma expressão de alguém que havia acabado de perder uma batalha. Stella resolveu esperar o amigo se acalma para tentar conversar com ele mais uma vez.
— Ei. – Tocou no ombro dele, abrindo um sorriso repleto de gentileza. – Não quer mesmo falar com um advogado? Eu acho que situações como essa exigem medidas drásticas.
— Muito obrigado pela dica jurídica. – Nem se deu o trabalho de olhar para ela. – Mas por que você não vai na frente?
O marido dela estava só observando, mas nesse momento decidiu intervir e sair em defesa da esposa.
— Ela só está tentando te ajudar, cara.
— É mesmo? – Largou o que estava fazendo e se virou para encarar o outro. – Então por que simplesmente não me dizem que eu sou um bom detetive?
— É porque nem é preciso dizer nada disso.
— Não é?
— Ela está certa, cara. – Respondeu em voz baixa. – Esses casos são delicados mesmo...
— Sim. – Assentiu com ironia. – Mas como é que você sabe disso, Will Taylor? – Cruzou os braços, estufando o peito. – Você foi processado por negligência alguma vez nessa sua gloriosa carreira?
O homem respirou fundo, soltando o ar aos poucos enquanto lutava para encontrar as palavras certas.
— Olha... – Fechou os olhos. – O importante é que irei fazer tudo o que for preciso para te ajudar...
— Ótimo. – Abriu um sorriso cínico. – Mas só para você saber... – Usou o indicador para apontar para ele, dando as costas para os dois. – Eu não preciso da sua ajuda. Não precisei antes e também não vou precisar agora
Stella encarou o marido quando o amigo deles se retirou, realmente não seria nada fácil tentar ajudar alguém tão cabeça dura.
A situação dele parecia estar piorando cada vez mais com o passar dos dias, os amigos ainda tentavam ajudar, mas ele era muito orgulhoso e não queria nenhum deles metido nos seus problemas. O orgulho dele também refletia de forma muito negativa no comportamento da esposa, que andava sempre muito nervosa e muito angustiada.
— Lindsay. – A mulher levou um susto ao ouvir a voz do chefe e com uma expressão de medo, virou para ouvir o que ele tinha a dizer. – Ei, calma. – Esticou a mão para tocar o ombro da amiga, fazendo uma caricia. – Eu só queria saber se você pode interrogar o Nicholas, estamos com pouca gente hoje, quase todo mundo está fazendo trabalhos externos.
— Não... – Sacudiu a cabeça. – É claro, Will. – Ensaiou um sorriso, mas aquilo não o convenceu. – Já estou indo. – Ele deu um tapinha no ombro dela e foi embora.
Mesmo com Danny fazendo de tudo para esconder a fase ruim que estava vivendo dos colegas, eles percebiam, e também não sentiam nem um pouco de remorso ao fazer comentários a respeito da sua falta de sorte.
— Lindsay.
— Danny? – Virou para olhar para ele, estranhando a sua presença no laboratório. – O que você veio fazer aqui? – Andou até ele. – Eu pensei que hoje fosse o seu dia de folga.
— Mas é mesmo. – Cumprimentou-a com um beijo. – Eu só passei para te ver. – Tentou sorrir. – Estava com saudades.
— Que fofo. – Abriu um sorriso. – Eu sinto muito, mas não posso ficar com você, tenho que ir interrogar um cara agora.
— Tudo bem, eu não quero te atrapalhar. – Beijou a sua testa. – Te vejo mais tarde.
— Até mais.
Lindsay não sabia, mas seu marido estava mentindo, o seu destino era completamente desconhecido até por ele mesmo, que dirigia pela cidade como se fosse só mais um turista perdido no meio daquela multidão. Ele só parou o carro quando estava tão cansado que não conseguia mais enxergar nem um palmo à frente do próprio nariz. O local não era dos mais agradáveis, mas ainda assim era muito melhor do que acabar sofrendo um acidente. Aquele maldito beco emanava um cheiro de coisa podre misturado com bebida, era realmente horrível e chegava a arder os olhos, mas mesmo assim ele saiu do carro e entrou no beco deserto.
Danny ainda não sabia exatamente o que fazer, porque era muito difícil fazer escolhas daquela natureza sabendo que muito provavelmente estaria magoando as pessoas que o amavam. Ele apertou o frasco com força e passou alguns minutos olhando para ele, como se esperasse que ele lhe desse algum tipo de resposta, então acabou o largando para trás e seguiu em frente, foi quando escutou uma voz vindo das suas costas.
— Eu acho que você deixou alguma coisa cair.
Danny lentamente se virou para olhar para ele, dando de cara com um homem que devia ter cerca de um metro e noventa de altura e segurava o mesmo frasco que ele havia jogado fora entre as duas mãos. O seu sangue chegou a gelar dentro do seu corpo, pois ele conhecia muito bem aquele homem.
— Evan? – Indagou com a boca seca. – Ei, cara. – Abriu um sorriso amigável, que não convenceu nem um pouco o outro homem. – É... eu não sei como foi que isso aconteceu...
Evan abriu um sorriso que o deixou ainda mais intimidado.
— Eu acho que você não gostou muito do meu produto, irmão.
— Eu sou um cliente muito satisfeito.
O outro soltou uma risada desdenhosa.
— Eu até acreditaria em você, irmão. – Observou o frasco com mais atenção. – Mas estou vendo que você ainda não usou nadinha, então será que você pode me dizer qual é o problema?
Ele engoliu em seco.
— Não tem problema nenhum...
— Então prove. – Destampou o frasco, derramando um pouco do pó na mão. – Eu vou pegar um pouquinho e você vai usar agora, na minha frente. – Abriu a mão, oferecendo a droga para ele. O nervosismo de Danny era evidente, ele não queria fazer aquilo, mas no momento estava sem saída. – Vamos nessa.
— Eu não posso, cara. – Passou as mãos no rosto. – Vou me ferrar muito se fizer isso.
— Então por que comprou? – Começou a diminuir aquela distância que havia entre eles. – Por que comprou se não queria usar? – O homem agora estava a poucos centímetros dele. – Eu sei que você quer... você gostava tanto.
— É, mas as coisas mudaram. – Umedeceu os lábios, tentando conter o próprio nervosismo. – Eu tenho que ser mais cuidadoso agora.
— Mas você quer, não quer? – Aproximou mais o rosto do dele. – Eu consigo ver isso na sua cara. Então por que lutar tanto contra si mesmo?
Danny esticou a mão, sustentando o olhar dele.
— Me dá e prometo que usarei quando estiver pronto.
— Ah, mas você vai usar sim, Danny. – Murmurou no ouvido dele. – Querendo ou não. – Olhou para trás, dando uma espécie de sinal para os dois homens que estavam escondidos atrás das lixeiras.
Os olhos de Danny correram desesperadamente pelo beco enquanto ele tentava encontrar uma saída, mas para o seu azar, ele estava totalmente encurralado enquanto os homens partiam para cima dele e o seguravam contra a parede.
— Mas que porra é essa, cara? – Esperneou, tentando se livrar das mãos dos seus algozes, enquanto um deles segurava o seu braço e começava a subir a manga da sua camiseta. – Eu sei que você não quer fazer isso.
— Não, isso não é verdade. – Evan se aproximou mais deles. – Então facilite as coisas.
O rosto de Danny se encontrava completamente vermelho quando ele finalmente desistiu de lutar.
— Me escuta, escuta. Eu juro que não vou contar para ninguém, eu juro! – Começou a implorar. – Só vai embora e eu prometo que não vou contar nada! Eu prometo!
Os homens o seguraram com mais força, o obrigando a expor o braço enquanto ele ainda esperneava.
— Não vai rolar, irmão. – Riu ao mostrar a seringa para ele. – Você vai usar isso, querendo ou não. Então tenta relaxar.
— Não! – Tentou puxar o braço numa última tentativa de escapar do domínio deles, mas foi em vão. – Merda!
O homem que estava do seu lado direito segurou o braço dele com mais força, amarrando o garrote uns dois dedos acima da curva do seu braço enquanto Evan exibia os dentes num sorriso insano e aproximava a agulha do local.
— Aproveita a viagem, irmão.
— Espera, espera! – Tentou puxar o braço mais uma vez. – Qual é, cara? Qual é? – Arfou em completo desespero. – Você não precisa fazer isso! Por favor! Por favor! – O outro apenas riu do desespero dele. – Qual é, cara?
Evan simplesmente enfiou a agulha no braço dele, pressionando o êmbolo enquanto ele esperneava e implorava aos gritos para que ele parasse.
— Soltem ele. – Ordenou assim que percebeu que a droga estava começando a fazer efeito.
Danny foi ao chão assim que eles o soltaram. Os seus olhos ainda estavam abertos e o seu peito subia e descia numa velocidade assustadora. As alucinações estavam apenas começando e ficariam muito piores
— Relaxa, irmão. – Evan desamarrou o garrote do braço dele antes de ir embora. – Você vai adorar a viagem.
— Olha... – Lindsay passou as mãos pelos cabelos e pelo rosto. – Eu vou te perguntar só mais uma vezinha. – Puxou a cadeira, sentando de frente para ele. – Me diz por que você fez essa barbaridade?
Os dentes do homem rangeram.
— Ela estava me traindo!
Lindsay aproximou bem o rosto do dele.
— Ela estava grávida!
Nicholas contorceu o rosto numa careta.
— Aquela... criança não era minha.
— E foi por isso que você a arrancou do útero da mãe? Sabe qual é o problema de gente da sua laia? É que vocês só leem os versículos que convêm a vocês... – Pegou as fotos que estavam sobre a mesa e esfregou na cara dele. – Olha! – Parou de esfregar as fotos no rosto dele, mas continuou o obrigando a olhar para elas. – Olha o que você fez! Você acha que Deus desse tipo de monstruosidade? – Deixou as fotos sobre a mesa. – E por que você tem tanta certeza de que essa criança não era sua?
Nicholas desviou o olhar das fotos.
— Eu fiz vasectomia.
— Você é um idiota! – Apontou o dedo na cara dele. – Você não sabia que vasectomia não deixa ninguém estéril, imbecil? Mas temos uma surpresinha para você. – Entregou outro papel para ele. – O DNA saiu e descobrimos que você era o pai de um lindo garotinho que você... – Apontou para ele. – Isso, você mesmo... matou com as suas próprias mãos. – O homem estava pálido quando ela concluiu. – Então meus parabéns, papai.
— Eu... eu...
Lindsay ficou de pé e se aproximou do ouvido dele para sussurrar:
— Mas me diz só mais uma coisinha... o seu filho chorou muito quando você o matou?
— Só... só... – A voz dele embargou. – Só um pouquinho.
“Não há nada escondido que não venha
a ser descoberto, ou oculto que
não venha a ser conhecido.”
— Lucas 12:2
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