Stella
36 Como salvar uma vida?
Notas iniciais
Ouso dizer que você nunca passou pela experiência repulsiva de usar drogas. E se estou certo, então você também não sabe como é estar deitado no chão imundo de um lugar completamente desconhecido, vendo e ouvindo coisas que não existem. Entretanto, Danny sabia exatamente como era passar por isso... havia passado tantas noites orando para que nunca mais passasse por nada disso...
— Eu disse para relaxar, irmão. É só tentar aproveitar e pronto. Nós dois sabemos que você queria muito isso. – A imagem distorcida de Evan se agachou ao lado dele, analisando muito bem o seu rosto, enquanto deixava uma risada carregada de maldade escapar. – É incrível, não é?
O outro ainda tentou focar na imagem dele ao seu lado, mas absolutamente tudo ao seu redor parecia ter saído direto de um filme antigo, transformando o rosto de Evan em só mais um borrão colorido acima do seu. Ele gemeu, segurando o braço onde a agulha havia sido inserida e começou a se arrastar na direção da parede mais próxima.
— O que... – Lutava para manter os olhos abertos. – O que... – Os seus pensamentos estavam tão bagunçados que era praticamente um martírio tentar formular uma única frase. – O que você me deu?
— Só o que eu tinha de melhor. – Outra risada igualmente maldosa ecoou pelo beco, enquanto ele tirava um frasco do bolso e sacudia na frente dele. – Essa nossa brincadeirinha está só começando. – Exibiu os dentes, fazendo aquele pózinho se agitar dentro daquele frasco. – E eu acabaria com toda a diversão se eu te contasse, não concorda comigo? – Mordeu os lábios. – E isso aqui tudo é tão divertido, irmão!
— Minha... – Apertou os olhos, levando as mãos à cabeça. – Mas... por quê?
— Não se faça de besta. – Arrancou as mãos dele da cabeça. – Você estava perdido e eu te trouxe de volta. – Usou o dedo médio para dar um peteleco no frasco, fazendo o pó se agitar ainda mais. – E como é que você me agradece? – Apertou os dentes, deixando o seu tom mais raivoso. – Roubando as minhas coisas! – Segurou o rosto dele, apertando as suas bochechas com tanta força que ele jurou que doeu. – Mas está tudo certo... porque você vai me dizer exatamente onde é que elas estão!
Danny negou, sacudindo a cabeça freneticamente, mas não adiantou, o outro homem começou a apertar as suas bochechas com mais força.
— Não... não... – Empurrou as mãos dele, tentando escapar do seu domínio, enquanto ele terminava de abrir o frasco e a sua boca para jogar um pouco da droga lá dentro. Ele tentou cuspir, mas Evan o obrigou a ficar com a boca fechada. – Não...
— Anda! – Usou toda a força que tinha no braço para forçá-lo a ficar com a boca fechada. – Engole essa merda logo! – Danny engasgou, tossindo um pouco, e acabou engolindo, não tinha outra alternativa. – Bom menino. – Largou o rosto dele. – Escuta... – O outro olhou para ele. – Eu sei que essa apreensão tem que constar nos relatórios policiais... então acho que ainda podemos atacar a polícia.
O detetive negava com a cabeça o tempo todo, enquanto tentava desesperadamente se afastar dele.
— Não, não.
— Você pode até achar que não queria, mas nós dois sabemos que você queria. Então considere isso como um presente de um velho amigo. – Sorriu. – Irmão. – A voz dele ecoou por cada cantinho daquele beco enquanto a sua imagem simplesmente se desfazia.
A sua mente estava tão caótica, que era ruim até para manter os olhos abertos. As coisas estavam tão ruins para o seu lado, que em alguns momentos parecia que absolutamente qualquer coisa era como se fosse um castigo.
— Mas é mesmo muita arrogância da sua parte, não acha? – Ele conhecia muito bem aquela voz, então olhou para cima, dando de cara com o irmão. – Eu acho que pegar um caso desses é muito arriscado. – Abriu um sorriso melancólico. – Eu te avisei, irmão. Mas não, não. Você nunca me escuta. – Agachou ao lado dele. – Você não tem sorte mesmo, não é, irmãozinho? Está sempre se autodestruindo. – Aquela frase ecoou como se estivesse vindo de todos os cantos do beco. – E você sabe que quem paga por isso são os inocentes, não sabe? – Encarou o irmão mais de perto. – Assim como pagamos pelos pecados do nosso pai. – Aproximou mais o rosto do dele, quase colando os dois. – Quer mais? – Abriu um sorriso maldoso enquanto sacudia aquele maldito frasco diante dos seus olhos.
Ele virou a cabeça, recusando-se a olhar para o frasco nas mãos dele.
— Não, não.
Só olhou para o irmão, quando este estava desaparecendo no fim do corredor. O seu coração estava quase se acalmando, quando ouviu o som de um salto alto tomando conta do ambiente. E lá estava Lindsay, vindo na sua direção, vestindo uma lingerie preta rendada até mais ou menos a altura das coxas, trazendo consigo aquele mesmo maldito frasco.
— Ei. – A mulher tinha um sorriso simpático desenhado nos lábios. – Você não me parece nada bem. – Agachou na frente dele, que semicerrou os olhos, tentando olhar melhor para o seu rosto. – Mas eu acho que é porque deve ser muito cedo. – Abriu um sorriso sedutor. – Eu acho que você precisa de mais um pouquinho. – Abriu o frasco, derramando um pouco da substância na palma da mão. – Eu sei que precisa... porque você sempre precisa. É isso aqui que te livra de toda a sua dor. – O homem ainda estava tentando focar no rosto da esposa, mas ele estava estranhamente distorcido. – Você sempre tem medo de tudo, não é? Da dor, das responsabilidades, de ter uma esposa, de ter filhos, das contas... – Aquilo ecoou na sua mente como se ela estivesse falando de algum lugar dentro da sua cabeça. – Mas eu sei exatamente do que você precisa. Eu sei que você não sente a minha falta, você sente falta é disso aqui. – Soprou o pó no rosto dele. – É todo seu, sempre que quiser. – Colocou mais um pouco da droga na palma da mão, repetindo o gesto de soprar no rosto do marido. – Mas tudo tem um preço. Você pode pagar? – A mulher repetiu a última palavra como se fosse um disco arranhado, enquanto terminava de derramar o restante da substância nos pés dele, desaparecendo junto com ela.
Ele olhou para os próprios pés, notando que um dos seus cadarços estava desamarrado, então colocou toda a sua mente em realizar aquela simples tarefa. Um sentimento de alívio tomou conta do seu peito, mas isso se evanesceu na mesma velocidade que a figura de Evan reapareceu diante dos seus olhos.
— As coisas simples da vida não são maravilhosas? – Murmurou nos seus ouvidos, o eco na sua mente entorpecida causou-lhe um calafrio na espinha. – É como amarrar o cadarço, ou visitar um lugar novo. – Olhou para o sapato que o outro tentava desesperadamente alcançar. – Cuidado onde pisa. O espaço entre a luz e as trevas é muito pequeno. – Soltou uma risada. – Mas você atravessou a fronteira, então agora não tem mais como voltar atrás. – Sussurrou no ouvido dele. – E eu te garanto que você nunca mais conseguirá voltar. – Concluiu, levantando e sumindo.
Danny tornou a olhar para o sapato, ainda tentando dar um nó no cadarço, mas a sua coordenação motora acabou atrapalhando tudo, então ele simplesmente o arrancou do pé e jogou para longe. Acabou deitando no chão, não tinha mais forças nem para se manter sentado.
— Então aqui está você. – Stella abriu um sorriso carinhoso para o amigo. – E não me parece estar nada bem também... exatamente como eu temia. – A expressão no rosto dela ficou mais triste. – Do que você precisa? De dinheiro? – Jogou o dinheiro que tinha tirado de dentro da bolsa em cima dele. – Mas eu acho que isso não vai te ajudar muito, porque é tudo falso. Como as suas promessas. – Aquilo ecoou na sua cabeça, fazendo-o apertar os olhos. – Você é um bom amigo, Danny Messer. – Elogiou, se agachando para olhar diretamente no fundo dos seus olhos. – Então tem certeza de que é isso mesmo que você quer? Mesmo sabendo que vai acabar partindo o seu próprio coração? – A palavra coração ecoou pelo beco e na sua mente. – Você é um bom irmão e também é um bom amigo. – Abriu um sorriso, vendo-o se apoiar no próprio cotovelo. – Você me ajudou no momento mais difícil da minha vida... e aquilo nem era problema seu. Eu sempre serei grata por tudo que você fez por mim.
Stella também desapareceu bem diante dos seus olhos, então ele olhou para o sapato, que estava há uma pequena distância dos seus pés. O seu rosto foi banhado por lágrimas, mas nem isso o fez desistir do sapato. Com muito esforço, ele se arrastou até o calçado, mas ainda não tinha forças para alcançá-lo.
— Tem alguém aí? – Jas perguntou da entrada do beco. – Tem alguém aí? – O homem parou tudo o que estava fazendo para olhar naquela direção. A mulher chegou tão rápido e tão fantasmagórica quanto os outros, mas para a sua sorte, ela era feita de carne e osso. Ele se encontrava tão perdido na própria mente, que nem conseguiu registrar a expressão que a amiga carregava em seu rosto, mas ao contrário dele, ela nunca esqueceria do choque que levou ao vê-lo naquele estado. A arma que estava empunhando caiu com um estampido surdo no chão, e ela correu na sua direção. – O que aconteceu? Você está bem? – Escondeu o medo que estava sentindo, ajudando o amigo a se reerguer. – Danny! – Afastou os cabelos do rosto dele, sentindo a sua voz embargando. – Está tudo bem? – Ele gemeu, agarrando a blusa dela. – Você consegue pelo menos ficar em pé? – Colocou o braço dele ao redor do seu pescoço. – Vem. – Ela começou a fazer força. – Vamos ficar em pé. – O esforço não surtiu o efeito esperado, mas pelo menos agora ele estava sentado. A policial segurou o rosto dele entre as mãos. – O que aconteceu com você?
— O meu sapato... o meu sapato está estragado. – Ofegou. – Eu não consigo...
Ela pegou o sapato que estava no chão.
— Está tudo bem.
Ele levou um susto, protegendo-se com as mãos quando ela fez menção de se aproximar.
— Não... não...
— Está tudo bem. – Continuou insistindo na aproximação, mesmo sabendo que certamente precisaria ter muita paciência. – Olha para mim, Danny. Eu juro que está tudo bem. – Acariciou o rosto dele com os polegares. – Eu conserto o seu sapato. – Ensaiou um sorriso. – Eu conserto tudo. – Colocou o sapato no pé dele, tentando dar um nó, mas ele ainda estava muito agitado e dificultava muito uma coisa que deveria ser muito simples. O homem ficava empurrando os seus ombros e gritando com ela como se ela fosse o próprio Evan. – Danny.
— Não! – Ele mesmo tentou dar o nó, mas ela tomou a frente. – Não!
— Danny... – O outro continuava a empurrando. – Chega... para, para, para! – Segurou os braços dele, mas ele não se aquietou. – Me escuta. Me escuta. – Ele olhou para ela. – Eu preciso saber o que você usou.
O homem arfou, esquadrinhando tudo ao seu redor como se estivesse rastreando um inimigo.
— O que eu usei? – Resmungou, mas não estava falando com ela. – O que eu usei?
— Então tá bom. – Segurou o rosto dele com as duas mãos, tentando chamar a sua atenção. – Olha para mim. Eu preciso te levar para o hospital, entendeu?
Ele negou freneticamente com a cabeça.
— Não, não, não.
— Sim. – O rosto dela se contorceu em agonia. – É muito sério...
— Não...
— Mas você precisa de ajuda...
— Eu não preciso. – Colocou as mãos no rosto dela. – Eu não preciso... porque eu tenho você.
Aquele momento tocou o coração da jovem, que não estava esperando ouvir nada daquilo, mas também ajudou o homem a se acalmar o suficiente para que ela conseguisse terminar de dar um único nó em seu cadarço. Com um gemido, Danny deitou de barriga para baixo, sendo amparado pela amiga, que segurava o seu braço esquerdo.
— O que aconteceu, Danny? – Ele gemeu. – Eu preciso que você me diga exatamente o que aconteceu.
O homem ofegava tanto entre uma palavra e outra, que ela quase não conseguiu entender o que ele estava tentando dizer.
— Eles... eles me encontraram...
— Eles? – Encostou o amigo numa das caixas de madeira. – Quem são eles?
— Ele. – Um mero sussurro escapou dos seus lábios enquanto ele olhava para os lados. – Ele.
— Tudo bem. – O desespero estava quase a consumindo. – Danny, foca. – Puxou o rosto dele, mas ele não olhou para ela. – Foca, pelo amor de Deus. – Ele resistiu, segurando o braço onde inseriram a agulha. – Eu preciso muito que você me diga o que aconteceu para que eu consiga te ajudar. – Mesmo com toda a sua insistência, ele não estava ajudando muito, mas foi nesse exato momento que ela percebeu que ele estava segurando com força um dos braços. – Me deixa ver o seu braço. – Puxou a mão dele de cima, mas ele colocou mais força. – Eu prometo que vai ficar tudo bem. – O seu truque funcionou perfeitamente, em questão de segundos ele relaxou os músculos, deixando a mulher esticar o seu braço para dar uma boa olhada.
— Eles estão vindo me pegar... – Os seus olhos estavam vidrados na entrada do beco. – Meu Deus...
O coração dela acelerou, quase que uma onda de pânico toma conta.
— Danny... – Engoliu em seco, colocando as duas mãos no rosto dele. – O que aconteceu?
A respiração dele ficou muito mais irregular, enquanto ele tentava organizar os acontecimentos no seu cérebro entorpecido.
— Eles me encontraram...
A mulher umedeceu os lábios, colocando as duas mãos na cabeça e olhando para todos os lados.
— Mas o que eles te deram? – Obrigou o amigo a olhar para ela. – Você sabe o que eles te deram?
Os olhos dele estudaram o rosto dela como se estivesse saindo direto de uma outra dimensão, reconhecendo a amiga pela primeira vez.
— Jas? – Colocou as mãos no rosto dela. – Você está bem? – Segurou as mãos dela. – Você está bem?
— Claro...
— Eu sinto muito. – Colocou as mãos nos ombros dela. – Eu só queria saber se você está bem.
— Não. – Empurrou as mãos dele. – Eu estou bem.
— Eu só queria saber se você está bem...
— Meu bem... – Segurou as mãos dele, tirando-as dos seus ombros. – Para. – Arfou. – Eu estou ótima. – Danny a abraçou com tanta força, que ela sentiu um certo incômodo. No fundo, ele tinha medo de que ela fizesse como os outros. No fim, ela o arrumou no seu colo, deitando a sua cabeça nas suas pernas. – O único aqui que não está nada bem é você.
O homem se esforçou para respirar fundo, aceitando de bom grado o colo que ela estava oferecendo.
— Eu estou muito cansado.
— Eu sei... – Acariciou os cabelos dele. – Mas não durma, por favor. – Levantou, sentindo a mão dele agarrar a barra da sua calça. – Vamos. – O esforço que fez para levantar o amigo não adiantou, mas agora ele se encontrava sentado ao seu lado. – Você precisa ficar acordado.
— Eu não consigo... – Confessou em voz baixa, encarando a entrada do beco. – Você tem que ir. – Apertou a barra da calça dela com mais força. – Eles ainda podem estar por aqui. – Ela também olhou ao redor, mas não viu nada e nem ninguém. – Eles não podem te pegar também...
— Eu preciso que você fique bem aqui. – Tirou a mão dele da sua calça e se afastou. – Eu vou dar uma olhadinha e volto já.
— Não... – Implorou, arrastando-se pelo chão. – Não.
A mulher foi até a sua arma, recolhendo-a do chão e então voltou a se sentar ao lado dele.
— Danny. – Agachou para segurar o rosto dele. – Danny. Eu estou bem aqui, tá? – Abriu um sorriso carinhoso. – E eu prometo que não vou sumir. – Ajudou o amigo a se sentar mais uma vez. – Entendeu?
Ele agarrou o seu braço.
— Não... não...
— Me deixa... – O seu lábio inferior tremeu. – Me deixa te levar para casa?
— Não. – Colocou a cabeça no colo dela. – Não.
Ela começou a passar a mão nas costas dele.
— Então eu posso te levar para a minha casa?
— Não.
— Mas temos que ir para a delegacia...
— Não, não, não, não, não...
— Mas temos que pedir ajuda...
— Não. – Negou com a cabeça. – Não! – Encarou ela. – Não, não.
A mulher acabou entregando os pontos e arrumando a sua posição, encostando-se na caixa de madeira e deixando-o deitar a cabeça nas suas pernas outra vez. O tempo correu tão lentamente, que ela estava começando a ficar sem ideias para mantê-lo acordado.
— Como se sente?
Ele tremeu, esfregando os braços.
— Frio.
Ela colocou a mão na testa dele.
— Está meio quente. – Ele gemeu. – Temos que sair daqui, tá? – Usou o seu tom mais sereno, não queria que ele ficasse ainda mais agitado. – Me entendeu? – Olhou para o rosto dele, procurando algum sinal de concordância. – Temos que ir. – Passou o braço dele ao redor do próprio pescoço. – Você consegue ficar de pé?
Ele assentiu.
— Uhum.
— Ótimo. Então vamos no três. – Começou a fazer força para aguentar o peso. – Um, dois, três! – Largou o amigo ao vê-lo de pé. – Conseguimos.
— Eu não consigo sentir as minhas pernas.
— É só esticar bem as pernas. – Orientou, voltando a servir de apoio para ele. – Vamos. Você consegue...
Os dois foram ao chão antes mesmo que ela terminasse a frase.
— Me desculpa.
— Tudo bem. – Ofegou. – Está tudo bem, não precisa pedir desculpas. – Arrumou o próprio cabelo. – Tudo bem.
Ele levantou a cabeça para olhar para ela.
— Eu não queria te machucar. – Acariciou o braço dela quando ela segurou o seu rosto entre as mãos. – Eu sinto muito...
Ela aproveitou toda aquela vulnerabilidade da parte dele e o aninhou em seu colo, apoiando o queixo na sua cabeça e acariciando os seus cabelos.
— Tudo bem. – Abriu um sorriso simpático. – Eu sei que você não queria fazer nada disso.
Os dois suspiraram de alívio e ela fechou os olhos, aproveitando toda aquela tranquilidade.
— É... é... – Levantou o rosto para olhar para o dela. – Então você acredita em mim?
— É claro que eu acredito em você...
— Mas eles não vão. – Olhou para a entrada do beco. – Ninguém vai acreditar em mim.
— Então... então irei convencê-los.
— Não... não...
— Está tudo bem... – Ele se sentou, encostando-se na caixa de madeira e arregalou os olhos, olhando para os lados como se estivesse esperando um ataque. – Tudo bem, querido. Você vai conseguir superar isso. Meu bem, olha para mim. – Segurou o seu rosto, o obrigando a olhar para ela. – Você consegue. – Afirmou com a cabeça. – Você consegue.
— Jas... Jas... – Os seus olhos pareciam estar enevoados. – Me ajuda, por favor.
Eles se abraçaram com força.
— É claro...
O tempo foi passando com uma lentidão que chegava a ser angustiante, mesmo assim ela ainda não era capaz de convencê-lo a sair daquele beco. O clima estava muito mais calmo quando Danny começou a esfregar as pernas como se alguma coisa estivesse subindo nelas.
— Essas coisas não param.
— O quê?
— Essas coisas... subindo em mim. – Ofegou, esfregando as pernas com mais violência. – Eles colocaram alguma coisa em mim.
— Não. – Segurou as mãos dele. – Não tem nada.
— Eles colocaram alguma coisa em mim!
— Não tem nada. – Segurou as mãos dele com mais força. – Para, para, para! – As mãos dele continuavam trabalhando nas suas pernas. – Pelo amor de Deus.
— Não...
— Eu juro que não tem nada. – Colocou as duas mãos no rosto dele. – Eu juro por tudo que é mais sagrado.
— Me ajuda, Jas. – Arregaçou a barra da calça para cima. – Me ajuda a tirar isso de mim!
Ela começou a esfregar as pernas dele na esperança de que isso o acalmasse.
— Tá bom! Tá bom!
— Tira isso de mim!
— Já tirei. – Continuava esfregando. – Já tirei.
— Tira! Tira!
— Tudo bem. – Segurou ele. – Tudo bem.
— Tira de mim!
— Para. – Segurou as mãos dele. – Eles se foram. – Esfregou uma última vez as pernas dele. – Você está bem? – Ele a abraçou. – Eles se foram. Eles se foram. – Apoiou o queixo na cabeça dele. – Eles se foram.
— Obrigado. – Agradeceu com um sussurro. – Muito obrigado. – Saiu do abraço, negando com a cabeça. – Não, não.
— Não o quê?
— Não era para eu ter seguido os passos do meu pai...
— Nunca mais faça isso comigo. – Soltou o ar lentamente. – Olha para mim. Olha para mim. – Segurou o rosto dele entre as mãos. – Ainda confia em mim? Confia?
— Só em você.
— Então me deixa pedir ajuda.
Ele negou com a cabeça.
— Não.
— Por favor...
— Não.
— Mas você precisará de uma ajuda que eu não consigo te dar.
— Não, não, não...
O homem ficou ainda mais agitado quando Axton apareceu repentinamente onde eles estavam.
— Ei.
Ela o segurou mais próximo do corpo, tinha medo da reação dele.
— O que você está fazendo aqui? – Censurou o outro, levantando-se e se afastando para conversar com ele sozinha. – Eu disse que era para me esperar no carro.
— Mas você estava demorando muito, então resolvi vir aqui ver o que estava acontecendo... – Olhou para o amigo. – O que ele tem?
— Eu ainda não tenho certeza. – Mordiscou o lábio inferior. – Mas seja lá o que for... ainda está fazendo efeito. Então precisamos encontrar alguma coisa que neutralize logo isso.
— Então temos que levá-lo para o hospital.
— Ele não vai. – Olhou rapidamente de um para o outro. – Ele não quer que ninguém o veja...
Axton passou os olhos nele, notando que ele fechava os olhos uma vez ou outra.
— Ele não pode dormir.
— Ele sabe. – Umedeceu os lábios, sentindo a boca seca. – Ele ficou arrasado com o erro no caso da Hannah...
— É... – Coçou a nuca. – Eu sei. Você acha que existe alguma chance dele ter voltado a usar por isso?
Uma expressão de incredulidade surgiu no rosto dela.
— Você não acredita nele?
— É meio complicado... considerando o jeito com que ele costuma lidar com as coisas...
— Mas é verdade.
— Então vamos ajudar. – Olhou para ele. – O que você quer que eu faça?
Ela deu um longo suspiro, olhando para o amigo jogado no chão.
— Eu preciso ir ao laboratório ver se encontro alguma coisa que neutralize o que ele usou.
— Usamos isso nos suspeitos.
Ela deu as costas para ele, indo até onde Danny estava.
— Então você pode ficar aqui com ele?
— Claro.
— Me escuta, Danny. – Agachou para falar com ele, segurando o seu rosto com as duas mãos. – Eu vou para o laboratório...
Ele agarrou as mãos dela com força.
— Não... não...
— Eu preciso...
— Você fica.
— Não, querido. – Negou com a cabeça, ignorando aquele nó que estava se formando na sua garganta. – Eu preciso mesmo ir.
— Não vá, por favor.
— Escuta, eu sei que...
— Por favor. Por favor.
— Eu vou voltar. – Acariciou o rosto dele com a mão direita. – Eu prometo que vou voltar para você.
A mulher levantou, indo embora sem olhar para trás. Ela ainda não sabia como salvar uma vida, mas daria um jeito de descobrir. O clima entre os dois homens ficou ainda mais acirrado quando ela virou as costas. Danny começou a ficar agitado em um ritmo alarmante, não conseguia se levantar, mas não parava de encarar o outro com um olhar de pura desconfiança. Subitamente, puxou um dos sapatos do pé e jogou para longe, fazendo exatamente o mesmo com o outro.
— Não me olha assim.
Axton ergueu as mãos.
— Eu não estou fazendo nada.
— Então vai embora.
— Eu só estou tentando ajudar.
Danny ofegou, puxando oxigênio com muita dificuldade.
— Está me encarando.
— Estou te vigiando.
— Está me... julgando.
— É isso que você acha? – Usou um tom mais neutro. – Acha que estou achando que você se drogou por livre e espontânea vontade?
— É... – Olhou para os lados. – É isso que você acha.
O rapaz se agachou na frente dele.
— Danny. – Estalou os dedos. – Danny. Eu não acho nada disso. – Eles se encararam. – Eu acho que nós dois sabemos que se você fizesse uma coisa dessas... acabaria perdendo o seu distintivo, ou no mínimo seria suspenso.
— O que você quer?
— Me escuta. A Jas foi buscar...
— Eu não quero... perder o meu distintivo...
— A Jas foi buscar o seu remédio e volta daqui a pouco.
O celular dele tocou, deixando o outro ainda mais agitado.
— Não. – Olhou para o celular nas mãos dele. – Não atende.
— Eu preciso atender. – Danny negou com a cabeça. – Eu preciso.
— Não.
— Mas vão suspeitar se eu não atender... – Levantou. – Espera só um pouquinho. – Levou o celular ao ouvido, virando as costas para ele.
— Sim. – Respondeu em voz baixa. – Não. Eu ainda não encontrei nada. – Limpou a garganta. – Eu irei mantê-lo informado, certo?
— Viu? – Respirando aliviado, guardou o celular no bolso. – Está tudo bem.
A surpresa que teve quando se virou e encontrou o amigo em pé foi enorme. O outro respirava com uma dificuldade imensa e ainda estava de costas para ele, mas ele conseguia ver que ele estava com as mãos em alguma coisa.
— Eu avisei que você não devia ter atendido essa ligação. – Segurou alguma coisa. – Eu avisei.
Axton nem conseguiu reagir, o outro simplesmente partiu para cima dele com uma barra de ferro nas mãos, acertando a sua cabeça com um só golpe. Os dois acabaram no chão, um desmaiado e o outro gemendo de dor. Danny ficou deitado até se recuperar o bastante para ficar de pé e foi embora, abandonando o amigo ferido no beco.
No laboratório, a esposa dele ainda se encontrava envolvida com o depoimento de Nicholas.
— E então? Esse seu papo furado acabou? – Lindsay jogou os papéis na mesa, deixando uma risada debochada escapar. – Os outros presos vão te adorar. – Segurou o homem por um dos braços, conduzindo-o para fora da sala, empurrando o preso direto para as mãos de Dante. – Tenha uma ótima vida ao lado dos seus novos amiguinhos.
O homem não estava usando algemas, Dante achou que daria conta de dominá-lo sem o auxílio delas, um erro que cobraria um preço muito alto numa fracção de segundos. Os três estavam passando pela porta de Will, quando o homem aproveitou a oportunidade para esbarrar em um dos policiais que passava por eles e pegar a arma que ele carregava na cintura. A sua vítima foi a pessoa que estava mais próxima dele, que era justamente Lindsay. Ele ainda estava tremendo quando apontou a arma para a cabeça dela e começou a fazer ameaças. Dante também não perdeu tempo e foi logo sacando sua arma.
— Você não vai sair daqui vivo.
— E nem ela!
Will também apontou a arma para ele.
— Abaixa a arma.
— Arma! – Um dos policiais gritou, fazendo o restante também sacar as suas próprias armas.
— Então pede para eles abaixarem primeiro! – Apontou para o batalhão com um aceno de cabeça. – Ou então ela morre!
— Abaixem!
O restante dos policiais abaixou as armas, obedecendo às ordens do chefe. Mais tranquilo com a situação, ele indicou a sala do supervisor com um aceno.
— Entra aí dentro! – Dante e Will ainda estavam empunhando as armas quando entraram na sala. – Agora você vai me arrumar um acordo. – Encostou a boca do cano da arma na lateral da cabeça da mulher, adicionando mais uma camada de tensão àquela situação.
Stella estava realmente radiante com a vida que estava levando ultimamente. Os seus dias eram sempre repletos de amor e carinho, e ela definitivamente nunca havia se sentido tão amada quanto estava se sentindo naquelas últimas semanas. Lily era uma garotinha muito doce e muito esperta, aprendia muito rápido, enchendo o coração da mãe de alegria sempre que aprendia a balbuciar alguma coisa nova. O seu casamento também estava perfeito, nada no mundo poderia ser melhor do que o que ela tinha agora. Era quase como se estivesse vivendo dentro de um daqueles contos de fadas que lia quando era uma garotinha.
Naquela manhã, ela havia decidido deixar a filha um pouco na creche e sair para passear na cidade. Era maravilhoso poder caminhar pelas ruas sem ficar pensando que a sua vida era uma droga. Era maravilhoso poder apreciar as coisas boas da vida.
A mulher tinha planejado dar uma passadinha no laboratório para fazer uma surpresa para os amigos, seria uma visita rápida, em seguida iria buscar Lily na creche. Mas assim que entrou no laboratório, estranhou todo aquele silêncio, o lugar costumava ser muito agitado naquela hora. Então chegou um pouco mais perto, notando que todos se encontravam paralisados olhando para dentro da sala do seu marido. Ela se aproximou sorrateiramente e também olhou através da porta, vendo com clareza o motivo de toda aquela tensão. A mulher deve ter levado só uma fracção de segundos para pensar no que faria, pois puxou a arma do coldre na sua cintura, destravando-a com o máximo de sangue-frio.
Stella não era do tipo que sentia uma onda de poder se apoderar do seu corpo sempre que empunhava uma arma, muito pelo contrário, ela odiava ter que fazer isso. Mas em situações como aquela, ela só conseguia pensar em salvar uma vida.
Ela sabia que nem o seu marido e nem o seu amigo tinham uma mira limpa do homem, por isso não ousavam fazer nada, mas ao contrário deles, ela ainda podia fazer alguma coisa para salvar a vida da amiga. Então apontou a arma para ele, tomando o cuidado de mirar direitinho. E como se pressentisse o que estava por vir, ele virou a cabeça, os olhares se cruzaram e então... um tiro.
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