Stella

10 Lockdown - Parte II


Notas iniciais
Bom dia! A parte II do incêndio. Espero que gostem. Boa leitura! CAPÍTULO REVISADO

A menina estava inteiramente desperta, olhando para o rosto da mãe quando ela a acomodou numa posição mais aconchegante para ambas. O pescoço de Stella começara a doer durante a última hora, mas ela não queria se mexer para não perturbar o sono tranquilo da filha. No início, pensou que a pequena choraria ao abrir os olhos e encontrá-la usurpando o lugar da madrinha, mas ela só agarrou um dos da mãe e manteve os olhinhos fixos nos dela.

— Eu não sei se você consegue me entender, minha menina. – Lily resmungou, apertando mais forte o dedo e ensaiando um sorrisinho preguiçoso. – A mamãe tem uma história para te contar. É sobre o dia em que a mamãe e o papai se conheceram; é uma história muito, muito boa mesmo. Mas acho que terei que te contar outra vez quando você for um pouquinho mais velha. Só estou te contando agora porque você ainda está com muito sono, e eu preciso fazer alguma coisa. – Os lábios dela se repuxaram numa tentativa de abrir um sorriso carinhoso quando viu que a menininha estava fazendo alguns barulhinhos como resposta. – Eu sei que você ainda é muito novinha para entender tudo isso, mas também sei que algum dia entenderá tudinho. – Sacudiu o dedo, rindo da reação dela. – O papai estava muito ocupado com um caso quando eu o conheci... e não fomos muito com a cara um do outro, mas mesmo assim, me senti muito atraída por ele. Eu sei que isso parece loucura, mas você entenderá o que estou tentando dizer quando for mais velha. O papai era o que chamamos de mulherengo, e todo mundo no laboratório o chamava de detetive do amor por causa disso. – Soltou uma risadinha. – Mas, quando realmente o conheci, descobri que ele era o homem mais maravilhoso, cuidadoso e paciente desse mundo. E o melhor de tudo... é que ele se apaixonou por você no momento em que soube que você existia. – Lily estava com os olhos fechados quando ela esfregou o seu narizinho com a ponta do dedo. – Você é a garotinha do papai. O seu pai te ama mais do que tudo nesse mundo, e eu... – Os seus lábios tremeram; era complicado proclamar algo que não sentia em parte alguma do peito. As palavras que estava usando com a filha eram todas roubadas do marido, não havia nenhum sentimento legitimamente seu em tudo aquilo. – E eu também. Então melhoraremos e sairemos daqui.

A mãe estava terminando de dar um beijo na testa dela quando o médico entrou, abrindo um sorrisinho melancólico ao ver a cena.

— E como vai a nossa pacientezinha?

Ela estudou o rostinho da filha com ternura, e o seu rosto se iluminou com um sorriso animado.

— Eu acho que ela está melhorando muito.

— Essa é uma notícia maravilhosa. – Ergueu os bracinhos dela, posicionando o estetoscópio em seu peito. – Espero que continue exatamente assim.

Enquanto isso, no laboratório, a madrinha dela estava numa encruzilhada. No momento em que chegou lá, descobriu que ainda estava tudo interditado; mesmo assim, não queria ir embora sem entregar o recado da amiga ao destinatário. Então, decidiu esperar alguém conhecido passar para repassar o recado para ele.

A primeira pessoa a passar quase correndo por ela foi Dante, e ela imediatamente agarrou o braço dele, que virou para trás e abriu um sorriso ao ver que a sua interceptora era ela.

— Ei, como estão a Stella e a Lily?

— Os médicos ainda estão cuidando da pequenininha... – Encarou o chão e mordiscou os lábios, pensando numa forma de chegar ao ponto. – A Stella não pôde vir até aqui, mas me pediu para contar isso para o Will.

— Ele ainda está trabalhando na evacuação, mas estamos meio preocupados com eles...

O restante da frase não veio, mas ela entendeu a mensagem pelo semblante angustiado dele.

— Oh! – Usou as mãos para cobrir a boca. – Então, nesse caso, espero que esteja tudo bem com eles. Estou aqui porque ela queria que ele a encontrasse no Mount Sinai, e me pediu para vir até aqui buscá-lo.

Ele colocou a mão no ombro dela.

— Estou entrando agora, então acho que posso dar o recado para ele.

Enquanto isso, as novidades médicas para a amiga dela eram as melhores do mundo.

— A respiração dela melhorou muito, e o restante parece estar melhorando também. – O médico colocou o estetoscópio no pescoço, dando uma palmadinha carinhosa na perna da paciente. – Essa é uma coisa maravilhosa.

O orgulho transbordou pelo olhar de Stella, que também sentiu o coração ficando quentinho. Uma risada aliviada simplesmente escapou dela.

— Meu Deus!

— É impressionante mesmo. – Também sorriu. – Não nos ensinam isso na faculdade de medicina.

Ela olhou brevemente para o rosto cansado dele.

— Isso o quê?

— O poder do amor materno.

A mãe deitou a criança sobre o travesseiro assim que o médico deixou o quarto, encarando aquele rostinho, que parecia estar um pouco mais corado. Então tirou o próprio casaco e o usou como uma espécie de cobertor sobre ela.

— É tão bom, não é? Estar quentinha e segura com a mamãe. – Lily respondeu com um mero gemidinho, chutando o ar. – Eu nem consigo acreditar que, algumas horas atrás, estávamos perdidas no meio de uma nevasca. Mas isso é só mais uma das coisas que você aprenderá sobre a vida, minha menininha. As coisas estão sempre mudando de uma hora para a outra. Eu acho que a lição que podemos tirar de tudo isso é que, mesmo quando tudo parece estar perdido, devemos continuar lutando. Ainda bem que você ainda é muito pequenininha para se lembrar disso. Primeiro você ficou doente, depois o nosso carro quebrou, então ficamos perdidas no meio da neve, e agora o papai está preso no meio de um incêndio. – Os pensamentos dela vagaram para a figura do marido por um instante, mas logo voltou a encarar aquele rostinho inocente e sorriu. – Mas agora está tudo bem... estamos quentinhas e seguras aqui. – Tomou a menina nos braços, deitando na cama junto com ela. – Eu juro que você não tem que se preocupar com nada, minha princesinha.

Ela também estava quase fechando os olhos quando o padrinho da pequena entrou no quarto, tirando o sobretudo coberto de neve.

— Eu tenho boas notícias. O Will saiu do prédio.

Stella imediatamente virou para trás, estudando o rosto dele com cuidado. Mesmo aquilo sendo claramente motivo de felicidade, ela sabia muito bem quando alguém estava omitindo alguma coisa e, pela expressão dele, era exatamente esse o caso.

— E onde ele está?

Danny coçou a cabeça.

— O FBI o levou para um interrogatório.

— O quê? – O corpo dela automaticamente se projetou para frente. – E por que querem interrogá-lo?

— Era ele que estava no comando no momento do incidente, Stella. Alguns esclarecimentos serão necessários. – A expressão dela se suavizou, mas ainda havia um resquício de preocupação em seus olhos. – Eu prometo que mandarei alguém buscá-lo assim que eles terminarem.

Ela apertou a mãozinha da filha.

— Muito obrigada.

Ele sorriu ao notar que o bebê dormia segurando o dedo da mãe.

— E como está essa coisinha mais linda?

— Ela melhorou bastante. A febre baixou e os pulmões estão mais limpos agora. – Acariciou o seu rostinho. – Ela é uma menininha muito forte e ficará bem. – Encostou o nariz no dela, esfregando-os numa carícia empolgada. – Eu sei que vai, sei que vai!

Os lábios dele se contraíram numa risada divertida, então ele colocou a mão no ombro dela e limpou a garganta.

— Mas e você? Eu sei que o seu dia foi muito, muito agitado...

Ela umedeceu os lábios, respirando fundo ao olhar para a criança no seu colo.

— Eu não sei... – Passou os dedos entre os próprios cabelos. – Eu não sei no que estava pensando quando peguei a Lily e saí daquele carro no meio de uma nevasca.

— Eu acho que estava pensando que caminhar era melhor do que morrer congelada dentro de um carro velho e quebrado.

— Mas ainda bem que você e a Lindsay apareceram. – Voltou a olhar para a menina, sentindo uma pontada no peito ao imaginar que ela poderia ter morrido congelada se não fosse pela chegada dos seus padrinhos. – Vocês salvaram a minha vida hoje. Muito obrigada.

— Não precisa agradecer, sei que faria exatamente o mesmo por nós ou pela nossa filha. – Os olhos deles finalmente se encontraram, mas, por alguns segundos, nenhum deles abriu a boca para dar seguimento à conversa. – Eu e você sabemos que você fez a escolha certa. Então, não seja dura demais consigo mesma, tá? – Abriu um sorriso carinhoso, vendo outro surgindo nos lábios dela. – Você e a sua filhinha estão bem, e é só isso que importa.

O sorriso no rosto dela cresceu ainda mais, e ela usou a mão livre para acariciar a dele, que ainda estava no seu ombro.

— Era exatamente isso que eu estava dizendo para a Lily. – Segurou as bochechas dela entre o dedo médio e o indicador e apertou com delicadeza. – Há muitos heróis aqui hoje, querida. Médicos, bombeiros, policiais... são pessoas ajudando outras pessoas. Eu só ainda não sei se foi o certo te deixar com os seus padrinhos para ir ajudar na evacuação. Eu acho que provavelmente deveria ter trazido o meu bebê para o hospital, mas... na hora, me pareceu muito egoísmo da minha parte. O laboratório estava lotado de gente precisando da minha ajuda. O papai estava preso lá dentro...

O amigo dela soltou uma risadinha, comprimindo os lábios e abrindo os braços.

— Então... seja muito bem-vinda às maravilhas da paternidade. É exatamente isso que estamos sempre fazendo... malabarismos entre a nossa vida profissional e o nosso bebê. Sabemos que é o nosso dever como agentes da lei, mas também sabemos que temos responsabilidades muito maiores com essas coisinhas.

— É... – Ensaiou um sorriso para ele, abaixando a cabeça logo em seguida. – E não é segredo para ninguém que eu tenho demorado um pouco para me acostumar com o fato de ser a mãe de outra pessoa... – Caminhou até o berço, curvando-se sobre ele para colocar a criança adormecida. – Mas hoje finalmente entendi como isso é complicado... no momento em que a minha filhinha mais precisou de mim... fiz o que achei correto, tentei ajudá-la e... agora ela está bem.

O sentimento de culpa também estava pesando no peito do marido dela enquanto encarava o investigador do outro lado da mesa com uma certa dificuldade. A iluminação era tão precária que era como se tivesse sido colocado em uma caixa escura. O outro homem colocou um palito entre os dentes e perguntou mais uma vez, vendo o interrogado revirar os olhos e socar a mesa.

— Eu te contei tudo o que sei!

— Só estamos tentando esclarecer os fatos, detetive.

— Eu vou explicar mais devagar para ver se você me entende. – Espalmou a mão sobre a mesa, respirando fundo e relaxando os músculos. – Eu não sei se você sabe, mas o ácido sulfúrico é um líquido altamente corrosivo e altamente reativo. O ponto é que quando esse líquido é misturado de forma errada com a água, pode causar um calor intenso, e isso acaba resultando em muitos outros transtornos quando existem muitos materiais orgânicos por perto. Eu só sei que, pelo menos, quatro pessoas morreram, e nem consegui contar quantas ficaram feridas. Algumas foram enviadas ao hospital com queimaduras muito graves, e foi pavoroso ouvi-los gritando, sem poder fazer nada realmente útil, mas mesmo assim, eu tentei. Alguma vez já sentiu o cheiro de carne humana queimada? É a pior experiência do mundo! As coisas ficaram muito piores quando o sistema contra incêndio foi acionado e a água entrou em contato com o restante do ácido. Eu sei que não consegui salvar todo mundo, mas dei o meu melhor e fui o último a sair de lá. Aquela ala inteira pegou fogo, eu sei disso, mas o mais importante é que salvamos inúmeras vidas lá. – Levantou, espalmando as mãos na mesa e encarando o outro homem a sua frente. – Agora, será que eu posso ir embora? Eu quero ficar com a minha esposa e com a minha filha, que está doente.

Os pensamentos de Stella ainda estavam no marido enquanto observava aquele embrulhinho no berço.

— O médico está muito feliz com a sua melhora, meu amor. – Abriu um sorriso carinhoso, colocando uma mão sobre a barriguinha dela. – Mas ninguém está mais feliz do que a mamãe. – O coração dela apertou quando pronunciou a próxima frase; sempre que dizia isso sentia que estava dizendo mais para si mesma do que para a filha. As palavras pareciam falsas quando saíam de sua boca. – Eu te amo tanto, minha menininha linda.

Lily esticou os bracinhos, abrindo um sorrisinho meigo para a mãe, como se realmente estivesse entendendo o que ela estava dizendo.

— Oi. – O barulho da porta se abrindo foi a única coisa que ela registrou antes de olhar para trás e ver que o visitante era Dante. – Estou atrapalhando alguma coisa?

Ela negou com a cabeça, alargando o seu sorriso mais camarada.

— Não, entre.

O homem se aproximou da menina, sorrindo ao perceber que ela também tinha um sorriso enorme naquele rostinho.

— Eu ouvi dizer que essa coisinha linda estava doente, mas pelo sorrisão que ela está me dando, eu diria que está tudo perfeitamente bem com ela.

— Eu acho que ela está melhorando muito. – Exibiu um sorriso orgulhoso, acariciando as perninhas da filha. – Ela é uma menininha muito forte, então sei que se recuperará em um piscar de olhos, não é?

Ele colocou uma das mãos no ombro dela, piscando para ela.

— É como diz o ditado: tal mãe, tal filha. – Beijou a testa da amiga. – O que posso fazer para te ajudar?

— Oh! Muito obrigada, mas estamos esperando o Will. O FBI está interrogando ele... – Umedeceu os lábios, desfazendo o semblante preocupado e abrindo um sorriso mais complacente. – E você, como está?

— Estou ótimo... – Ajustou o sobretudo ao corpo, respirando fundo para manter o sorriso no rosto. – Só... processando tudo o que aconteceu...

— É... eu sei. – Engoliu em seco. – Eu também ainda não estou acreditando que metade do laboratório simplesmente pegou fogo.

— Pois é... – Forçou um sorriso, mas os seus olhos o traíram. – Mas não é só isso...

Ela segurou uma das mãos dele, passando a outra em seu rosto.

— O que aconteceu?

— Não foi nada. – Limpou os olhos, acariciando a mão que se encontrava em seu rosto. – É melhor falarmos sobre isso mais tarde. Estou muito feliz por vocês duas. – Tirou a mão dela do seu rosto, dando um beijo em sua palma e virando as costas para ir embora, mas, antes que pudesse fazer isso, ela segurou seu braço.

— Ei. – Engoliram em seco simultaneamente. – O que foi? Tem alguma coisa acontecendo?

— Não... – Aquilo quase não saiu. – Não é nada demais. – O rosto dela se contraiu numa careta, enquanto dava a volta para olhar direto para ele. – Eu... eu perdi uma amiga nesse incêndio. O nome dela era Rebecca. Rebecca Walsh.

A primeira coisa que passou pela cabeça de Stella foi exatamente o que ela fez. As palavras eram desnecessárias naquele momento, então os dois simplesmente ficaram ali envolvidos naquele abraço.

O interrogatório sempre fora a parte favorita de Will numa investigação, mas agora, estando do outro lado da mesa, ele estava começando a entender toda a urgência do interrogado em surtar e sair jogando cadeiras nos outros.

— Eu estou te dizendo, meu Deus! O incêndio foi um acidente! – Fechou os olhos e cerrou os punhos, respirando fundo para recuperar um pouco da calma perdida. – Eu entendo que estejam chateados e tudo mais, mas eu já disse tudo que sei! Eu não faço ideia do que mais vocês querem que eu diga! – Espalmou as mãos na mesa e se levantou. – Agora, eu preciso mesmo voltar para a minha esposa e para a minha filha.

O barulho da porta se abrindo chamou a atenção dos dois homens, que encararam o outro parado na entrada.

— Eu liguei para o Mount Sinai para uma checagem. – Limpou a garganta. – E as informações que recebi foram de que Lily Taylor permanece em observação por conta de um quadro controlado de pneumonia bacteriana, e que está sendo acompanhada pela mãe.

Um sorriso iluminou instantaneamente o rosto de Will.

— Então acho que você está livre, detetive.

— É sério isso?

— Com toda a certeza.

Ele saiu da sala correndo, deixando para trás todas aquelas formalidades que envolviam uma despedida. Os seus pensamentos todos voltados somente para a felicidade do reencontro que teria com as duas pessoas que ele mais amava no mundo.

A mulher dele também estava pensando no reencontro que teria com ele, mas ouvir da boca do médico que a filha estava liberada para ir para casa causou um aperto no peito e deixou a sua boca muito seca.

— Tem certeza? – Encarou o rostinho da criança e mordeu os lábios. – Ela está muito doente.

— Entendo o seu receio. Em circunstâncias normais, eu a deixaria em observação esta noite, mas, no momento, estamos lotados com os pacientes remanejados do Mercy.

— Então acha que seria melhor ela passar essa noite aqui?

— Eu não a deixaria ir embora se não tivesse certeza de que é seguro, senhora Taylor. Mas essa decisão cabe à senhora, então lhe darei alguns minutos para pensar no assunto, tudo bem?

— Entendido. – O médico deu um último sorriso para ela e saiu. – Oi. Eu ainda não tenho certeza se estamos mesmo prontas para voltar para casa. – A menina resmungou, esticando a mãozinha para tocar o rosto da mãe. – Mas parece mesmo que você está bem melhor. Eu sei que tomei muitas decisões erradas nas últimas semanas... e é exatamente por isso que tenho que pensar muito bem agora. O que você acha, hein? Hein?

A porta se abriu, e Danny colocou a cabeça para dentro.

— Ei, como vocês estão?

Stella ergueu Lily para que ela olhasse para o padrinho.

— Olha, meu amorzinho. O seu padrinho está aqui.

O homem entrou com um enorme sorriso nos lábios e cumprimentou a amiga com um beijo no rosto; em seguida, virou para a pequena no seu colo e a saudou com um beijo demorado na testa.

— O padrinho está bem aqui.

— Eu acho que você vai gostar muito do que nós temos para te falar.

— É? – Esfregou o rosto na barriga da menininha, arrancando dela uma risadinha afobada e estridente. – Estou morrendo de curiosidade agora.

— Essa coisinha aqui está liberada para voltar para casa.

— Eba! – Ergueu seus bracinhos, sacudindo a criança inteira. – Então essa menininha linda está mesmo melhorando!

O sorriso que ela tinha no rosto foi sumindo e o medo começou a tomar conta de seus pensamentos novamente.

— Eu ainda não tenho certeza se ela está mesmo pronta para... – O restante da frase se perdeu no meio de toda aquela incerteza plantada em seu coração, e ela tratou de acomodar o bebezinho no berço e começar a organizar as suas coisinhas na bolsa. – O que você acha?

Ele deu de ombros e ergueu as mãos.

— Eu acho que é muito melhor estar em casa do que em um hospital lotado. – Os pezinhos agitados da criaturinha no berço foram apertados com a ternura de um pai. – Não tem nem comparação.

— Eu sei. – Um sorriso mais contido apareceu no canto dos seus lábios. – Mas o que você acha, Lily? Também quer voltar para casa?

— O que acha, minha querida? Está pronta para ir para casa? – A menina deu um chutinho e soltou uma risada. – Ela está chutando, então isso significa que está concordando comigo.

Stella deixou uma risada escapar enquanto ajustava o sobretudo no corpo e enrolava o cachecol no pescoço.

— Não tem como você saber disso.

— É claro que tem. – Estufou o peito. – Nós temos uma ligação especial, ela mesma te dirá isso... mas só quando souber falar...

Ela riu e balançou a cabeça.

— Então tá bom.

Na hora mais fria da noite, eles chegaram à casa da família. A mãe trazendo a filha convenientemente adormecida em seu colo e o padrinho atrás, carregando o bebê conforto na mão direita. Stella fechou os olhos e respirou fundo assim que entrou em casa; a sensação ainda era meio estranha. O pensamento de que estivera na segurança daquele teto e daquelas paredes apenas algumas horas atrás era ainda mais estranho. Mesmo assim, um sorriso enfeitou os seus lábios enquanto ela apertava a menininha em seu colo.

— Eu ainda não sei se fico muito orgulhoso de você ou se te dou logo um cascudo por ter se colocado na linha de frente da evacuação daquele laboratório, sem nem saber se estava mesmo com hipotermia ou não.

— Eu estou vivinha aqui na sua frente, não estou?

Ele cruzou os braços na altura do peito, fazendo a mesma cara de um pai que está dando uma bronca na filha pequena.

— Mas poderia muito bem ter passado dessa para melhor, senhora. Algum médico te examinou?

— Eu não preciso, estou ótima. – Sentou no sofá. – Além do mais, nem tive tempo de ficar me preocupando com isso.

— Mas temos que saber se o seu sistema imunológico não ficou comprometido por conta de todo aquele frio...

— Estou com cara de doente para você?

— Não, mas você tem um bebezinho agora. – Apontou para a criancinha no seu colo. – Então tem que se cuidar mais.

— Eu sei, e eu te amo por se preocupar tanto comigo, mas estou bem mesmo. Na verdade, estou mais do que bem. – O rosto dela se iluminou como se ela fosse realmente uma nova mulher. – Me sinto eu mesma outra vez.

A madrugada estava praticamente no seu auge quando Will chegou ao hospital, abrindo a porta daquele quarto com a urgência de um pai que esperava tomar a filhinha nos braços para nunca mais se separar dela. Mas acabou dando de cara com um lugar completamente vazio; restava apenas um bercinho e um cobertorzinho ao lado da cama, mais nada. O cobertorzinho foi agarrado pelas mãos trêmulas dele, que o levou até o nariz e inalou o cheirinho único e maravilhoso da sua menina. O seu coração disparou, atormentado pelo pior pensamento do mundo, mas se acalmou no instante em que Dante entrou dizendo que as duas estavam em casa, esperando por ele.

— Oi, aqui é Stella Taylor. – Balançou a perna para silenciar os resmungos da criança em suas pernas. – O meu marido foi levado para ser interrogado pelo FBI, mas estão demorando muito com isso. Eu só queria saber o que...

O restante foi interrompido pelo próprio, que entrou na casa fazendo a esposa largar o telefone de lado e se levantar para recebê-lo com um abraço muito apertado.

— Oi.

Ele segurou o seu rosto com as duas mãos e a beijou com força.

— Oi. – Acariciou os seus cabelos e parte do seu rosto, abrindo um sorriso aliviado. – Vocês estão bem?

— Estamos. Eu te esperei no Mount Sinai...

— Eu sei, meu amor.

Lily chorou, esperneando como forma de exigir a atenção dos pais.

— Aqui. – Passou a pequena para os braços do pai. – Toma.

— Ei, querida. – Aninhou a criança em seus braços, beijando o seu rosto com muita delicadeza, adotando um tom mais sussurrado quando ela o encarou com aqueles seus olhinhos curiosos. – Como você está, minha princesinha?

Stella sorriu.

— Muito feliz por ver o papai.

Ele olhou para a mulher a sua frente.

— Eu pensei em você o tempo todo. – Olhou novamente para a filha, encostando o nariz no dela. – Em vocês duas. – A família se aconchegou no sofá. – Estou tão feliz em saber que você está melhorando, meu benzinho. Você é tão forte, igual a sua mamãe. – A risada que a sua amada deixou escapar encheu o coração dele de tranquilidade. – Estou muito feliz por estarmos todos seguros e saudáveis, minha filha. – Beijou a cabecinha dela outra vez, em seguida pregou os olhos na mãe dela. – E que bom que estamos todos juntos agora. – Beijou a esposa, voltando a olhar para a filha deles. – Eu senti tanto a sua falta. – A sessão de beijos no rosto da menina continuou. – O dia foi tão ruim que nem estou acreditando que estamos mesmo aqui.

Stella deitou a cabeça no ombro do marido, unindo o seu corpo ao dele.

— Eu sei. – O seu corpo inteiro relaxou com aquele contato. – Mas eu juro que se você se mexer, não acordará no meio de um incêndio naquele laboratório.

— Mas ainda posso estar alucinando... – Beijou a testa dela. – É uma possibilidade.

— O cansaço pode mesmo causar alucinações, mas tenho quase certeza de que estamos mesmo em casa.

— Eu acho que só tem um jeito de descobrir...

A sobrancelha dela se arqueou enquanto erguia a cabeça para olhar para o rosto dele.

— É?

Um sorriso contente tomou o rosto dele e ele encostou os lábios nos dela.

— Eu te amo.

A madrugada estava ficando cada vez mais fria, mas nenhum deles estava disposto a se desvencilhar do conforto do corpo um do outro. Lily estava dormindo há um bom tempo quando seu pai decidiu colocá-la no cercadinho.

— Eu acho que ela está respirando muito bem.

— Está mesmo. – Os dois observaram o sono da pequena por alguns segundos antes de retornarem para o sofá. – A Lindsay fez um belo trabalho com ela hoje, e eu sei que você acha que foi muito cruel mandá-la para o hospital com ela, mas... eu queria muito ficar e ajudar com toda aquela história do incêndio, entende?

O esperado era receber um olhar de reprovação da parte dele, mas este apenas beijou a sua testa e sorriu.

— Ela está segura e você também, é isso que importa.

— Você foi brilhante hoje.

Ele negou com a cabeça.

— Eu só estava fazendo o meu trabalho.

— Mas brilhantemente. – Apoiou o queixo na mão esquerda, o admirando. – É preciso ter muita coragem para ficar em um prédio em chamas até que o último homem fosse resgatado.

— Nem todos... – Abaixou a cabeça. – Ainda estão contabilizando os mortos.

— O importante é que sabemos que você deu o seu melhor lá.

— Mas deixei vocês sozinhas. – As mãos dele simplesmente deslizaram por seu rosto enquanto ele retomava a coragem para olhar na cara dela. – Será que você pode me contar o que aconteceu?

As lembranças daqueles momentos a fizeram se encolher no seu lado do sofá, e percebendo isso, ele colocou a mão na coxa dela como forma de apoio.

— Enquanto você estava sendo um herói, eu tinha que cuidar de uma pessoinha... – Os olhos dela foram direto para o cercadinho, e ele acariciou a sua coxa. – Tudo bem. – Entrelaçou sua mão com a dele. – Lembra de como ficava irritado quando eu sempre queria estar certa sobre tudo?

Ele piscou para ela.

— Mas isso é justamente o que mais me cativa em você.

— A novidade é que isso não vai acontecer mais. – Umedeceu os lábios. – Eu estourei o meu limite de escolhas erradas pelo resto da minha vida... e é um verdadeiro milagre a nossa filha ainda estar respirando para contar a história...

Ele cobriu o rosto com as mãos, respirando fundo.

— Eu devia ter voltado para casa mais cedo...

O rosto dela se contraiu numa careta.

— Como assim? Você voltou para casa mais cedo a semana passada inteira.

— Eu devia estar com a minha família no momento em que ela mais precisou de mim. Eu prometi para mim mesmo que nunca colocaria o meu trabalho à frente da minha família, porque era exatamente isso que o meu pai costumava fazer...

— Mas nada disso foi culpa sua, você estava preso naquele laboratório...

— Era exatamente isso que o meu pai dizia...

— O maldito prédio estava pegando fogo...

— Eu devia estar bem aqui nessa casa com vocês. – Eles se encararam, respirando fundo. – Mas quer me contar o que aconteceu aqui?

— Eu... eu não sei nem por onde começar. – A sua mão foi parar direto na nuca. – Eu percebi que ela estava com febre, então decidi que seria melhor levá-la até o Mercy. – Cobriu o rosto com as mãos. – Mas essa provavelmente foi a decisão mais estúpida que eu poderia ter tomado.

Ele segurou a outra mão dela, apertando forte o bastante para reforçar a sua presença.

— O que tem de errado em querer uma opinião médica?

— Estava caindo uma nevasca daquelas lá fora, e todo mundo estava dizendo para ninguém sair de casa...

— Mas você só estava preocupada com a nossa filha.

— Não. – Negou com a cabeça, engolindo em seco. – Eu devia era ter esperado o remédio fazer efeito.

— Eu sei que você só fez o que achava ser o certo.

Ela o encarou.

— Então diga isso para a Lily. Foi ela quem acabou presa numa árvore.

A boca do homem se abriu ligeiramente, mas ele foi logo se recompondo.

— E como foi que isso aconteceu? Como ela foi parar lá?

— Eu me perdi, e isso por si só já é muito embaraçoso. E o carro quebrou.

— Eu não acredito. – O sorriso que ele deu foi de nervoso. – Ele não era novinho, mas também não estava tão velho assim.

— Eu acho que ele não esperava que eu fosse me enfiar no meio de uma nevasca...

— Eu sinto muito...

— Eu pensei que estava indo direto para o centro da cidade, mas estava indo mesmo era para o outro lado...

— Eu nem imagino o tamanho do medo que você sentiu...

— É... – A mão dele foi apertada com um pouco mais de força. – Não foi nem um pouco engraçado quando aquele carro me deixou na mão. – O coração dela bateu mais rápido ao se lembrar daquela sensação horrorosa. – A Lily começou a chorar... o meu celular estava quebrado, e a nevasca não parava. Então comecei a achar que morreríamos congeladas, e decidi sair do carro para caminhar um pouco. Eu pensei que estivéssemos em algum outro bairro, não imaginei que estivéssemos no meio da floresta. Eu acreditei que encontraríamos alguma casinha, ou algum lugar para se esconder até a nevasca passar, mas...

— Essa foi uma ótima ideia.

— Não foi, não. – Um riso de escárnio escapou dos seus lábios. – Isso não faz o menor sentido. – A sua mão livre apertou o colar em seu peito. – Eu saí do meu abrigo com uma criança doente.

— Eu sinto muito mesmo. – Beijou a testa dela, puxando-a para um abraço apertado. – Eu não estava lá... me desculpe por ter te deixado passar por todo esse pesadelo sozinha.

Os lábios dele passeavam pelo topo da cabeça dela, quando os dois finalmente se acalmaram o bastante para deixar tudo aquilo de lado. A mulher em seus braços respirava fundo, como se realmente tivesse se livrado de um peso enorme, e então comentou:

— Temos que levantar.

— Não. Eu quero ficar aqui nesse sofá.

— Mas não podemos ficar aqui para sempre.

— Mas para sempre é muito bom. – Os olhos dela se estreitaram divertidamente, então o choro da menina ecoou pela sala, forçando seu pai a se levantar e ir até ela. – Ei, meu amorzinho. – O seu corpo se curvou sobre o cercadinho. – O papai está aqui. – Virou, sorrindo para a esposa. – E a mamãe também. Oi. – Aninhou a criaturinha no seu peito, dando alguns beijinhos naquela cabecinha minúscula. – Eu acho que ela está com fome. – Encarou a companheira. – Não quer dar a mamadeira para ela?

A mulher se empertigou toda, arrumando a posição no sofá e, com um único movimento da mão, recusou a oferta.

— Eu não. O papai pode fazer isso, ele é muito melhor do que eu. – Exibiu um sorriso desgostoso quando pegou a mamadeira em cima da mesa e a passou para as mãos dele.

O pai notou o ressentimento no rosto e na voz da mãe, mas preferiu evitar, momentaneamente, algum embate com ela. O coração estava apertado como no dia em que seu pai morreu: agora, se perguntava se não estava perdendo a esposa. Ela também parecia ser só mais um fantasma em sua vida. E com aquele gosto amargo da derrota misturado com o odioso sentimento de inadequação constante, ele pegou a mamadeira das mãos dela e foi alimentar a única parte dela que ainda não havia se entregado ao completo ócio.

Notas finais
Um minuto de paz pelo menos... Até o próximo!