Stella

9 Lockdown - Parte I


Notas iniciais
Bom diaa! Espero que estejam gostando do rumo que as coisas estão tomando. Essa é a minha primeira vez escrevendo o capítulo inteiro pelo celular. OBSERVAÇÃO: Tive que dividir em dois capítulos porque estava ficando muito grande. Boa leitura! CAPÍTULO REVISADO

O sentimento de impotência era a única coisa que os três tinham em comum naquele momento: isso e aquela sensação horrorosa do frio invadindo os pulmões. As bocas e narizes foram devidamente escondidos sob os cachecóis; não era o mais adequado, mas mesmo assim torceram para que aquilo desse certo. O restante da neve foi retirado do corpo dela pelo amigo, que também ofereceu um caloroso e reconfortante abraço, e ela não demorou muito para relaxar e fechar os olhos.

— O que aconteceu, Stella?

Lindsay parou na frente dela, colocando as mãos em seus ombros.

— Onde está a Lily? – Sacudiu os ombros dela, que não reagiu e nem abriu os olhos. – Onde você deixou a Lily? Me fala! – Agarrou o rosto da outra, mas não apertou. – Ela é a sua filha, pelo amor de Deus! – Stella abriu os olhos, encarando a amiga como se estivesse acabando de acordar de um longo sonho, chegando a abrir a boca, mas fechando no mesmo instante. – Eu preciso que você tente pelo menos se lembrar de alguma coisa. Onde você a colocou, hein? Temos que refazer os seus passos e encontrar a Lily antes que ela morra congelada. Anda. Ela precisa da mãe dela agora.

— Eu não... sei. – Balançou a cabeça, escondendo o rosto no peito do amigo. – Eu... estávamos perdidas... estava muito frio... tentamos voltar para o carro...

A madrinha estava quase surtando quando ouviu um chorinho tímido; foi logo colocando o dedo na frente dos lábios e apurando os ouvidos para tentar localizar a menina.

— Estão ouvindo isso? – Os olhos dela começaram a esquadrinhar as árvores mais próximas, até que ela parou na frente da mais baixa, encontrando um espacinho entre os galhos. – Oh meu Deus! Lily! – O bebê começou a gritar, e ela o tirou de lá, apertando a manta ao redor do seu corpinho com mais força e trazendo-a para mais perto do seu próprio corpo. – Está tudo bem, Lily. A madrinha está bem aqui com você. – Ninou a afilhada, tomando o cuidado de sorrir para ela no processo. – Está tudo bem com ela, Stella. – Levou a criança para mais perto da mãe, que se encolheu, como se estivesse com medo da proximidade com a filha. – Eu sei que você não se lembra, mas provavelmente você a colocou lá quando a nevasca aumentou.

O retorno até o carro foi encabeçado por Danny, que estava indo na frente para ter certeza de que o caminho era realmente seguro para as duas mulheres com a pequena.

— Aonde estamos indo?

— O Danny e eu vamos levar vocês para casa!

— Mas a Lily está... com febre!

A primeira coisa que ele fez ao chegar no carro de Stella foi abrir a porta traseira para que elas entrassem e se protegessem de toda aquela neve que estava o impedindo até de ouvir os próprios pensamentos. O segundo passo foi ir dar uma olhadinha no motor do carro.

— Me deem só um segundinho para ver o que eu consigo fazer aqui.

Lindsay apertou o bebê contra o peito.

— Eu tenho certeza de que estaremos na sua casa em um segundo. O Danny é ótimo com carros.

— A Lily está com febre.

— Eu sei, meu bem. Você me disse. – A menina soltou um grito, esperneando como se a sua vida estivesse em perigo. – Não quer segurar? – Ofereceu a filha para a mãe, que se encolheu no cantinho do carro, recusando com um aceno de mão.

— Não, ela está bem.

— Eu só queria entender no que você estava pensando quando decidiu sair do carro.

— Eu quebrei o meu celular e o telefone não estava funcionando.

— Mas no que você estava pensando? Achou que conseguiria chegar ao hospital andando com uma menininha no colo?

— Eu queria achar uma casa... mas me perdi. – O seu corpo inteiro tremeu. – É muito fácil se perder...

A outra segurou a mão esquerda da amiga e apertou.

— Eu sei que você deve ter ficado com muito medo.

O marido dela deu duas batidinhas no capô e disse:

— Dá a partida!

— Ok! – Estendeu a afilhada para a mãe. – Aqui, segura.

— Não, não. – Negou com a cabeça, empurrando a filha para a madrinha. – Ela está bem melhor com você.

— Mas eu tenho que ir ajudar o Danny...

— Não...

Lindsay abaixou o vidro, colocou a cabeça para fora e gritou:

— Meu bem, será que tem como você vir aqui? Abre essa porta para mim! – O homem não demorou para atender ao pedido da esposa, abrindo também a porta do motorista para ela entrar. – Agora? – Girou a chave, mas não aconteceu nada, então ela olhou para a amiga no banco traseiro e respirou fundo. – Está tudo bem, minha querida. Eu prometo que vai dar tudo certo, tá?

Os resultados das outras duas tentativas foram os mesmos, então eles simplesmente desistiram da ideia, levando a mãe e a filha para o carro deles. Lindsay segurava Lily no colo no banco do passageiro, e a mãe dela estava com a cabeça encostada na lateral do carro, os olhos fechados e encolhida no canto do lado direito.

— Eu acho que é melhor darmos um pulinho no hospital. – Lindsay embalou a criança, que ainda estava chorando, e cutucou o marido com o cotovelo quando ele deu a partida no carro. – O Mercy é o mais próximo daqui.

O homem olhou para toda aquela neve acumulada ao redor deles e respirou fundo, olhando para a esposa.

— Mas vai demorar.

— Eu acho que a febre está baixando. – Encostou as costas da mão na testa dela, voltando com aquele movimento de embalar, que não estava adiantando nada. – Está tudo bem, meu amorzinho.

— Me lembro de que, quando eu era criança, a minha mãe me colocava numa banheira com água fria para controlar a febre. Eu acho que foi isso que a Stella tentou...

A menina começou a chorar mais alto, desesperando a mulher, que não sabia mais como amenizar todo aquele desconforto dela.

— Então você acha que ela a levou para fora para fazer a febre baixar?

A resposta veio direto da boca da própria Stella, que murmurou:

— Ela está tão doente.

— Está tudo bem. Estamos indo para o hospital. – Aproximou a boca do ouvido do marido. – Eu acho que a Stella pode estar com hipotermia.

— Não temos como ter certeza ainda. Então vamos esperar para ver isso quando estivermos no hospital.

— Eu acho que ela quer você, Stella.

— Não, está tudo bem. – O murmúrio escapou dos lábios dela. – Não tem mais febre.

— Tem alguma coisa errada com ela. – Lindsay cochichou para ele. – Shhh, Lily. – Outro grito igualmente rouco ecoou. – Shhh.

A madrinha perdeu um bom tempo insistindo para que a mãe pegasse a filha, mas ela continuava se recusando. A criança demorou para parar de gritar e espernear, mas, com muita paciência, ela fechou os olhos e caiu no sono.

— Eu ainda nem estou acreditando que a encontramos enterrada no meio de toda aquela neve. – Olhou para o rostinho tranquilo da afilhada, que dormia pacificamente no seu colo. – Mas o mais inacreditável mesmo é termos encontrado a Lily naquela árvore. Eu não gosto nem de pensar no que poderia ter acontecido com ela se não tivéssemos pegado aquele atalho.

— Não vamos pensar nisso agora. – Olhou para a amiga pelo retrovisor. – Estamos todos bem.

— Mas onde ela estava com a cabeça? Como alguém tão inteligente como ela pode ter se metido nessa furada?

— Ela errou, mas isso acontece com todo mundo, Lindsay. Ela deve ter feito alguma curva errada ou então achou que estava descendo alguma rua que conhecia e acabou vindo parar no meio da floresta. Então, o carro quebrou e ela achou que o bebê poderia morrer congelado. Eu também não saberia o que fazer se estivesse no lugar dela... ela só fez o que achou certo...

— Mas todas as escolhas que ela fez foram erradas, exceto colocar a Lily naquela árvore. Ainda bem que ela teve, pelo menos, presença de espírito para encontrar um local seguro para deixar a Lily antes que as coisas piorassem.

— O importante é que ela tomou a decisão certa.

— Eu sei que ela acertou colocando a Lily naquela árvore, mas que tipo de mãe não se lembra de onde deixou a própria filha?

— A Stella estava desorientada, Lindsay. Além disso, ela estava perdida no meio de uma nevasca, com uma criança pequena e provavelmente com hipotermia. Então, vamos só tentar não ficar apontando nossas armas para a cabeça dela, tá? Isso poderia ter acontecido com qualquer um.

Ela negou com a cabeça.

— Não com a Stella. Ela tem sempre um plano para tudo... é quase como se fosse uma obsessão. Ela tem sempre um plano A e, um plano B e até um plano C, caso os outros dois não funcionem.

— O importante agora é que vai ficar tudo bem. Estamos indo para o hospital.

— Ouviu, Lily? – Acariciou o rostinho dela. – O seu padrinho disse que vai ficar tudo bem. – Beijou a sua testa. – Nós vamos cuidar de você.

O sentimento de fracasso se enraizou ainda mais profundamente no peito de Stella, que esperou um pouco para abrir os olhos. Mas sua amiga estava certa; era como se uma parte dela tivesse morrido no momento em que sua filha nasceu.

O celular emprestado por Lindsay veio no momento perfeito, pois ela precisava muito informar ao pai da menina que estava indo para o hospital com ela e que queria que ele as encontrasse lá.

— Está me ouvindo, Stella? – Will estava quase gritando do outro lado da linha. – Stella? Vocês estão bem?

— Will? – A ligação estava falhando tanto, que eles quase nem ouviam o que o outro estava dizendo. – A Lily está com muita febre, mas estamos indo para o Mercy.

— Me escuta, Stella. – Mais uma falha. – Não vem para cá.

— Merda! – Socou a tela do aparelho. – A bateria acabou.

Lindsay soltou uma risadinha, virando para segurar a mão dela.

— Não tem problema, estamos quase chegando.

— Eu só queria que ele soubesse que estamos chegando.

O marido dela também socou o telefone quando a ligação caiu, olhando para a amiga com uma expressão de derrota estampada no rosto suado.

— Ela disse alguma coisa sobre a Lily?

— Eu só ouvi a voz dela por uns segundos, não deu para entender muito bem o que ela estava falando.

Jas comprimiu os lábios, colocando a mão no ombro dele.

— Mas elas estão bem, não estão?

— Eu acho que tem alguma coisa errada com a Lily. Eu tenho que tentar falar com ela outra vez. – Segurou o telefone com força, discando o número e colocando-o no ouvido. – Isso é loucura! Eu não consigo mais nem ligar de volta.

— Calma.

— Mas eu preciso saber o que está acontecendo com a minha família. – Passou as mãos pelos cabelos e em seguida no rosto. – Eu acho que é melhor tentar falar com o Danny.

O cenário que encontraram ao virar a rua do hospital era muito parecido com o de um desfecho de uma guerra. As ruas estavam vazias, como se não houvesse mais vida no bairro, e aquele sentimento causou muito mais frio na barriga de Stella do que o horror de estar perdida no meio de uma nevasca com a filha pequena.

Eles estacionaram o carro no início da rua e seguiram andando. O hospital ficava na esquina, então seria uma caminhada curta. O único problema era a neve, que grudava nos cílios e embaçava a vista. Stella estava na frente, Lindsay vinha logo atrás com Lily no colo, e Danny estava na retaguarda. A primeira coisa que Stella conseguiu enxergar foi a figura de Redmond parado na porta do laboratório, então correu até ele.

— Eu lamento, pessoal. Mas não vai dar para vocês entrarem. A rua está interditada até segunda ordem, houve uma explosão numa das salas do laboratório mais cedo, estão retirando os mais feridos primeiro para depois controlar o incêndio. Ainda não sabemos se a substância era venenosa ou não, mas mesmo assim decidimos isolar a rua inteira. O FBI lidará com isso.

— E o meu marido? Onde está o meu marido?

Lindsay balançou a criança no seu colo, que resmungou.

— Mas a Lily está doente.

— Eu sinto muito, parceira. – Levou a mão até a testa de Lily. – Mas ordens são ordens.

O desespero dela cresceu com o pensamento do homem que amava preso lá dentro, então ela começou a andar de um lado para o outro na frente deles enquanto tentava pensar em alguma coisa, mas o que saiu da sua boca pegou todo mundo de surpresa.

— Eu quero que vocês levem a Lily para o Mount Sinai. – Levou a mão até o rosto da filha, dando um beijo de despedida em suas mãozinhas. – Eu vou tentar descobrir o que aconteceu com o pai dela.

— Mas e a Lily? – A testa dela se franziu numa careta. – Ela é a sua filha, Stella.

— Estarei lá assim que eu puder, prometo. – Abriu um sorriso, abraçando a amiga com força. – Então cuidem dela como se ela fosse a filha de vocês.

No laboratório, o pai da pequena seguia trabalhando na remoção dos feridos para a cobertura, onde o resgate os aguardava. A ideia de sair de lá antes dos outros era quase tão repulsiva quanto o cheiro de gordura derretida, cabelo queimado e outros muitos odores que estavam impregnados em suas narinas e nas suas roupas. Como chefe, sentia-se na obrigação de ajudar até o último dos homens antes de pensar em salvar a própria pele. Sage o auxiliava nessa árdua tarefa, liderando os que ainda conseguiam andar para cima e carregando os mais debilitados.

Will estava pronto para retornar para a ala norte do laboratório quando o telefone em sua sala tocou, e ele correu para atender, torcendo para que fosse alguma notícia da esposa e da filha.

— Taylor.

— Oi, meu bem. – O alívio veio instantaneamente. – Sou eu, graças a Deus está tudo bem com você.

— Onde você está, Stella?

— Eu estou bem.

— Mas você veio para o laboratório?

— Eu quero ajudar com a evacuação. – Fechou os olhos, apertando o telefone com força. – Sabe me dizer se todo mundo está bem?

— Alguns estão com dificuldade para respirar, mas estamos fazendo de tudo para tirá-los daqui logo. – Ofegou, mantendo o telefone junto do ouvido. – E como estão as coisas por aí?

— Está tudo bem. Os que conseguiram sair estão sendo enviados para o Mount Sinai.

— Ah! Me escuta. Eu acho que da última vez que nos falamos, você me disse alguma coisa sobre a Lily. – Olhou para fora; o amigo estava passando com mais uma leva de resgatados na direção da escada. – Como ela está?

— Ah! – Bateu a mão na testa. – A Lindsay a levou para o Mount Sinai.

— A Lindsay?

— É. Eu te amo, então me prometa que ficará bem.

— Eu vou ficar bem. – O resto ficou para ele, pois quando foi falar, a ligação caiu. – Mas Stella...

Os padrinhos seguiram com Lily na estrada rumo ao outro hospital, mas pela cara da madrinha, estava nítido que não estavam satisfeitos com a escolha da mãe de colocar a filha em segundo plano, deixando toda a responsabilidade nas costas deles.

— Eu não sei onde a Stella está com a cabeça. – Sacudiu levemente a perna para não perturbar a menina. – Mas estou imensamente grata ao universo pela tranquilidade da Lily. Eu acho que essa é a primeira vez que consigo respirar sem estar completamente desesperada.

— Eu também achei que ela fosse querer acompanhar a filha...

— Eu sei que a maternidade é um assunto muito delicado para ela, mas tudo tem limite...

Ele sorriu.

— Eu sei que você é ótima com crianças, então estamos em ótimas mãos.

— Não, mas você não entendeu. Eu sou ótima com crianças saudáveis, não com menininhas doentes. – O rosto dela se fechou numa expressão mais taciturna enquanto olhava para aquele embrulhinho nos seus braços. – Eu sei que ela é a minha afilhada e que eu sou como uma segunda mãe para ela. Mas ainda não sei o que a mãe dela tinha na cabeça quando a deixou comigo com essa febre.

— Eu ainda acho que você está se saindo muito bem.

— E eu sei que você só está dizendo isso para que eu não arranque os meus próprios cabelos. – Riu. – Eu queria que o Dante estivesse aqui... sem ofensas, meu bem. Mas as coisas costumam dar muito certo com ele por perto.

— Entendo. Ligue para ele e diga que estamos indo para o Mount Sinai, se isso te deixa mais tranquila. Ele pode nos encontrar lá.

— Oh! Eu acho melhor não. Seria muito egoísmo da minha parte arrastá-lo para o meio dessa nevasca, sabendo que ele nem pode fazer nada...

O carro estava parado na entrada do hospital quando encerraram aquela conversa. O fato dele estar particularmente lotado de pacientes com queimaduras de primeiro, segundo e terceiro grau nem ocupou muito espaço na mente da mulher, que estava mais preocupada com a criança que carregava nos braços. No entanto, aquele cheiro penetrante de carne queimada misturado com plástico derretido era enjoativo demais para simplesmente passar batido. Engolindo o enjoo, ela apertou forte aquele corpinho contra o peito e se obrigou a se concentrar no que realmente importava.

— Com licença, precisamos de um médico imediatamente. Esse bebê está muito doente.

A atendente apontou para as cadeiras atrás dela e disse:

— Então, sente-se. – Virou as costas para eles. – O hospital está lotado, iremos atendê-los em algumas horas.

— Mas isso... isso é um absurdo! – Fechou a cara. – A minha afilhada está com febre!

A moça virou novamente para eles.

— Todo mundo aqui está doente, senhora. – Encarou uma ficha médica. – Estamos nos virando com os pacientes remanejados do Mercy e com os feridos no incidente no laboratório de criminalística.

— Eu acho que você não está entendendo. – O marido dela tomou a frente, lançando um olhar matreiro para ela e cruzando as mãos sobre o balcão. – Eu não quero piorar ainda mais o seu dia. O meu nome é Daniel Messer, e eu acredito que você conheça a minha família.

Os olhos dela se arregalaram e ela assumiu uma postura mais respeitosa.

— Sim, senhor.

— Então acredito que saiba que não costumamos aceitar um não como resposta. Estou solicitando um médico para essa garotinha agora mesmo, ou considerarei isso uma afronta à minha família. Entendeu?

— Eu tenho um quarto para vocês. – Abriu um sorriso, indicando o corredor para eles com um simples aceno de mão. – É só me seguirem.

O médico veio atender a menina tão rápido que a madrinha dela não pôde evitar o olhar orgulhoso que lançou para o marido. O homem evitava falar sobre a família e sobre a sua evidente influência na cidade, mas jamais hesitaria em fazer isso para salvar a vida da afilhada.

— Ela está com essa febre desde quando? – O médico colocou o estetoscópio no peito da criança, encarando aqueles que acreditava serem os pais dela.

Lindsay colocou a menina deitada na cama para que fosse examinada com mais cuidado.

— Eu acho que faz algumas horas, mas não tenho certeza.

— E ela ficou no meio da nevasca?

— O carro quebrou e ela ficou na neve por um tempo, não tenho certeza... – Ela sorriu para o bebê, colocando-a sentada na cama e usando uma das mãos como apoio para as costas dela. – Mas tentamos mantê-la aquecida...

— Então vamos fazer uma bateria de exames e prescreverei um paracetamol para inibir a febre. E se o diagnóstico for confirmado, também prescreverei uma amoxicilina. – O homem segurou a pequena no colo, e ela agarrou o estetoscópio com as mãozinhas curiosas. – Vamos nessa, querida. – Seguiu em direção à porta. – Esperem aqui.

A primeira coisa que ela fez quando o médico saiu do quarto foi correr para os braços do marido e abraçá-lo com força. Aquele sentimento ruim ainda apertando o seu peito, mas aquele contato com ele amenizou um pouco tudo aquilo.

— Viu? Viu como ele estava me julgando?

Ele beijou a testa dela.

— E quem liga para o que um médico que acabamos de conhecer pensa? Nunca mais o veremos mesmo.

Ela levantou a cabeça para olhar para o rosto dele.

— Eu ligo. Olha... eu não me importo de ser criticada pelos erros que cometi com a minha filha, mas não sou a mãe da Lily. Eu não deveria nem estar aqui agora. A Stella queria ter um filho mais do que tudo nesse mundo, e agora ela não se dá o trabalho nem de acompanhar a própria filha ao médico? – Passou as mãos no rosto e no cabelo, respirando fundo e enxugando as mãos suadas na calça. – Eu nunca vou me perdoar se alguma coisa acontecer com aquela garotinha... e acho que a Stella também não...

— Eu acho que te devo um pedido de desculpas pelo que fiz lá fora...

— Não. – Espalmou a mão na direção dele. – Eu sei que não foi correto, mas entendo que ninguém pensa em ser correto quando uma menininha que você ama está doente. Ninguém pensa em ser educado com uma enfermeira que está negando atendimento para ela... então, sempre que quiser aterrorizar alguém em meu nome, ou no da Lily... – Riu, fazendo uma reverência desajeitada. – Fique à vontade.

Ele também riu.

— É muita bondade da sua parte.

Ela levou a mão ao peito.

— Eu sei que sou a bondade em pessoa, tá?

O médico entrou no quarto cerca de uma hora mais tarde, sem Lily e com um semblante muito sério no rosto, e entregou uma receita para ela.

— E como ela está?

— Eu sinto muito, mas a Lily realmente está com pneumonia. O estado dela requer alguns cuidados, mas a boa notícia é que a febre está controlada e ela está respirando razoavelmente bem.

Aquela sensação de aperto no peito voltou com tudo, mas ela fez o melhor que pôde para sorrir e balançar a cabeça em acordo.

O rosto de Lily estava completamente vermelho quando uma das enfermeiras a entregou para a madrinha. A pequena passou tanto tempo esperneando e chorando que, com certeza, a mulher teria uma bela dor de cabeça mais tarde.

A luz do dia estava indo embora sem nenhum sinal da chegada de Stella, então ela pediu para o marido ir atrás dela no laboratório, e ele foi.

— Eu sei que não está parecendo, mas vai ficar tudo bem, Lily. – Acariciou o seu rostinho, deslizando o dedo por toda a extensão dele. – A sua mãe está vindo para cá. Eu juro que, se eu pudesse, ficaria com essa pneumonia no seu lugar, meu amorzinho. Mas, infelizmente, esse dia horroroso é todo seu. – Lily resmungou, parando de chorar para encarar sua interlocutora. – Eu sei que o mundo parece ser um lugar horroroso, com toda essa neve, e esse frio... e tudo isso acontecendo com você enquanto sua mãe está lá fora. Mas o importante é que a mamãe te ama mais do que tudo nesse mundo. Tem alguma coisa errada com ela agora, mas eu sei que ela vai dar um jeito de consertar tudo, porque ela é assim. A Stella sempre encontra uma solução brilhante para tudo. E você, o seu pai e a sua mãe serão a melhor família do mundo. – A mãozinha dela agarrou o seu dedo. – Então você tem que melhorar... porque estou começando a ficar muito assustada, e eu não gosto nadinha dessa sensação de estar perdendo outra pessoa que eu amo. – Respirou fundo, mentalizando a imagem da falecida amiga. – Alyssa... eu não sei se você está me ouvindo agora, mas se estiver... então tome conta da Lily.

O tempo passava, e a noite foi ficando cada vez mais aparente através do céu estrelado que ela observava da janela do quarto enquanto segurava a afilhada adormecida no colo. Havia tentado colocá-la no berço para descansar os braços, mas assim que sentia falta do calor do seu corpo, o choro e a gritaria recomeçavam. No fim das contas, simplesmente se rendeu à vontade dela.

— Eu prometo que a mamãe estará aqui logo, logo. – Voltou a andar de um lado para o outro, ninando a pequena para que ela não acordasse. – Está certo, isso é mentira. Eu não sei quando a sua mãe chegará, mas você não entende nada disso... você só quer a sua mãe. – Ela resmungou, passando uma das mãos no rosto, mas não acordou. – Sabia que dizem que os bebês conseguem sentir as coisas? A madrinha sabe que não está te enganando. Eu estou com muito medo, e sei que você também está. Mas para você deve ser muito pior, porque você é muito pequenininha e depende cem por cento de outra pessoa para cuidar de você. Eu sei que deve ser muito assustador ser uma coisinha tão pequena assim. – A menina parou de se mexer quando foi colocada no bercinho, mas ela manteve uma das mãos sobre a sua barriguinha para que não se sentisse desamparada. – É de partir o coração te ver lutando tanto para respirar... porque você é só uma menininha. Mas eu sei que você vai melhorar, meu benzinho.

A porta se abriu de uma vez, e ela ficou muito aliviada ao olhar para trás e constatar que o marido estava acompanhado pela mãe de Lily.

— Meu Deus. – Respirou fundo, pegando a criança do berço e entregando para a mãe, que dessa vez, não se recusou a segurá-la. – Ainda bem que vocês chegaram, eu estava quase me atirando pela janela.

Lily abriu a boca ao sentir a presença da mãe, mas saiu só um lamento abafado. O seu peito subia e descia por conta do esforço e, quando o choro veio, saiu misturado com o muco acumulado, tornando-a incapaz de expressar o seu desconforto da maneira estridente de sempre.

— Está tudo bem, minha querida. – Começou, dando palmadinhas no seu bumbum e acomodando a sua cabecinha próximo ao seu peito. – A mamãe está aqui com você.

Os padrinhos saíram do quarto, deixando o médico entrar para falar com a verdadeira mãe da pequena.

— Eu lamento pela demora, senhora Taylor. Estamos com muitos pacientes essa noite.

— Eu entendo. – Abriu um sorriso compreensivo para ele, voltando a olhar para a filha. – Mas como está a minha filha?

— Ela foi diagnosticada com pneumonia bacteriana, então ainda está com dificuldades para respirar. Estamos fazendo alguns exercícios respiratórios e a coloquei no oxigênio, mas não tem feito muito efeito. O próximo passo seria aumentar a dose do remédio para 10mg, mas...

Ela passou a mão nos cabelos da menina.

— Eu sei... poderia causar danos permanentes ao coração...

— É...

No corredor, os padrinhos da pequena estavam igualmente inquietos com seu estado, mas também se sentiam muito mais tranquilos com a chegada da mãe dela.

— Muito obrigada por ter trazido a Stella.

O homem a envolveu em um abraço apertado, apoiando o queixo na sua cabeça.

— Não precisa me agradecer, meu bem.

— Alguma notícia do Will?

— Eu fiquei sabendo que ele ainda está no laboratório com os outros. Os telefones perderam a linha no fim da tarde, mas o Axton está usando os computadores para se comunicar conosco.

— Ele está lá?

— Está, ele é o único que consegue se comunicar com o mundo aqui fora.

O rosto dela se contraiu numa careta e ela largou o marido, indo na direção do médico quando ele saiu do quarto.

— Como ela está?

— A mãe dela precisa de um tempo para avaliar as opções que tem. Então voltarei mais tarde.

Os lábios dela se comprimiram e ela entrou no quarto.

— Oi.

— Oi...

Lindsay parou ao seu lado.

— Ela está bem?

— Ela está muito doente. – Começou a se balançar para frente e para trás, segurando uma das mãozinhas da filha. – Mas ela é uma menina forte... então ficará bem.

— Tem alguma coisa que eu possa fazer por você?

— Será que tem como você ir buscar o pai dela para mim? Eu quero que se certifique de que ele está bem e diga para ele vir para cá imediatamente.

— Entendido. Eu vou fazer o meu melhor. – Acariciou o ombro da amiga. – A madrinha volta daqui a pouco, Lily. – Arrumou o casaco no corpo. – Eu vou buscar o papai.

— Muito obrigada, Lindsay. Por tudo.

Lindsay sorriu, saindo do quarto.

— Vem. – Agarrou a mão do marido. – Vamos voltar para o laboratório.

No quarto, a mãe começou a cantarolar para a menininha a mesma musiquinha de ninar que a sogra cantava para o pai dela quando ele era um menino. Lily adormeceu com um sorrisinho no rosto, como se estivesse grata por ter retornado ao calor do colo da mãe.

Notas finais
Momento de mãe e filha *-*. Até o próximo!